NA PRÓXIMA DIMENSÃO

Neste livro de Carlos A. Baccelli (ditado pelo espírito Inácio Ferreira) acompanhamos o “outro lado” do funeral de Chico Xavier. Temos informações do espírito Joana de Angelis (a mentora do famoso médium Divaldo Pereira Franco) de que ele foi recebido pelo chefão em pessoa (Jesus) após o seu desencarne, em de junho de 2001. O livro Na próxima dimensão relata como foram as 48 horas após o desencarne pelo ponto de vista do espírito Inácio Ferreira, e a recepção de Chico pelo “Big Boss” (Clique aqui para ler este trecho). Não duvido em nenhum momento que Chico tenha sido recebido por Jesus, afinal, se alguém merece isso, é ele. Um religioso chegou a afirmar que “eu não acredito em espiritismo, mas acredito em Chico Xavier“. Sim, pois as ações dele falavam mais alto e mais contundente que qualquer bandeira de qualquer religião.

Mas o que mais me interessou mesmo no livro foi a parte que dá nome ao livro, onde é relatada a visita a uma dimensão ainda mais elevada que a do “mundo dos mortos” como o conhecemos. Ela corrobora o que eu havia explicado sobre o tempo, que depende da vibração do local. Aliás, isso é algo que Einstein já havia falado, mas que não ousou aplicar para outros “mundos”. Mesmo assim, a concepção de morte para Einstein revela um conhecimento que, mesmo baseado na física, está em essência além dela:

Agora ele foi embora deste estranho mundo um pouco antes de mim. Isso não significa nada. Pessoas como nós, que acreditamos na física, sabemos que a distinção entre passado, presente e futuro é somente uma teimosa e persistente ilusão

Albert Einstein

A próxima Dimensão – Cap 35

(…) não podemos nos atrasar: dentro de duas horas, o vôo de que ambos participarão à Próxima Dimensão terá o seu início. Conversaremos a caminho.

– Vejam, a Plataforma de Lançamento; a nave espacial já está a postos.
– Eu imaginei que ela fosse maior – objetei.
– Doutor, em comparação com as nossas, as naves espaciais da NASA são foguetes arcaicos e obsoletos. Veja bem, não se trata de crítica, mas de simples constatação. A Astronáutica na Terra é uma ciência que tem avançado rapidamente, no entanto muito ainda lhe compete progredir; dentro de, aproximadamente, 20, 30 anos, se a Humanidade não mergulhar numa guerra de extermínio, as conquistas serão fantásticas. veículo que nos conduzia estacionou a certa distância e dirigimo-nos para um módulo que me parecia constituído de material semelhante ao vidro, tal a sua leveza e transparência. André, que tinha acesso a todos os setores da cidade, sem que se fizesse anunciar, menos no Palácio da Governadoria, foi nos guiando por um extenso corredor, que, automaticamente, ia lhe descerrando as portas, até nos levar à presença do Chefe da Estação.
– Olá – saudou-nos, assim que nos viu. – Espero que se sintam a vontade. André nos forneceu as suas credenciais e estamos muito felizes por recebê-los. Periodicamente, temos empreendido excursões de estudo e de reconhecimento à Dimensão Vizinha, que chamamos de DV1. Não se assustem com números e siglas; isto é apenas para facilitar. Vocês serão acompanhados por um estagiário que está se preparando para ser piloto e pelo comandante Nielsen. A nave em que embarcarão será aquela: “Capitão Nebo”.

Apertando um botão no colorido painel, uma ampla janela de duas folhas se abriu e pudemos ver a “Capitão Nebo” mais de perto, cujo comprimento não excede ao de um carro confortável; por ser semitransparente, podíamos vê-la por dentro, reparando no seu mecanismo simples.
– Os nossos cientistas – explicou-nos o Dr. Dawson – já conseguiram eliminar grande número de peças; as nossas naves são imantadas por um campo de força que não lhes permite fugir à rota traçada. É como se um ímã a mantivesse interligada à Plataforma de Lançamento e à Estação de destino. Isto facilita sobremodo, pois o risco de pane é menor.
– Pane? – indaguei, perplexo.
– Sim, por que não? – respondeu o Dr. Dawson.
– No “Sistema”, só Deus está isento de pane, o senhor concorda?
– Deus e Jesus Cristo – respondi.
– Os que comungam com a Mente Divina são divinos e, portanto, dá na mesma.
– Percebi que o Dr. Dawson era extremamente prático no raciocinar e não tinha escrúpulo de caráter teológico ou doutrinário.
– Nielsen e seu pupilo, o Aspirante Yuri! – apresentou-nos o Dr. Dawson aos nossos dois companheiros de vôo, que, trajados a caráter, terminavam de entrar.
– Dentro de 30 minutos zarparemos, a nau já está devidamente preparada e convém que os nossos dois tripulantes se vistam adequadamente – esclareceu o simpático Nielsen, ao nos dar as boas-vindas.

Entrando numa pequena cabine, eu e Odilon nos despimos e envergamos uma espécie de macacão todo dourado, equipado com câmeras, microfones e fanes de ouvidos.
– Para que todo este aparato? – perguntei a Yuri, que nos acompanhara.
– Para melhor nos comunicarmos entre nós – respondeu. – Na DVI, em algumas áreas, poderemos ficar completamente sem retorno.
– Sem retorno do quê? – insisti.
– Do pensamento. Na DV1, à semelhança do som que não se propaga em determinado meio ou, então, se propaga com maior lentidão, carecemos de recorrer a…
– Microfones e fones de ouvidos?
– Positivo! O pensamento, que é constituído de ondas eletromagnéticas, se perde sem eco e a comunicação se faz impossível.
– Isto é demais para a minha cabeça de psiquiatra comentei, enquanto ajustava os fechos da roupa que nos colocara no corpo espiritual.
– Sem dúvida, que é – respondeu o Aspirante, laconicamente.
– A nave espacial que nos conduziria à DV1 era de forma esférica, à semelhança de um OVNI, e constituída de material extremamente leve; dentro dela, havia espaço apenas para quatro pessoas. Já o painel, com tantas teclas e botões coloridos, seria impossível de descrever, principalmente para mim que apenas presenciei o advento do computador – nunca entrei na cabine de um avião e, portanto, não tenho elementos de comparação para melhor descrevê-lo. Dr. Dawson, que nos acompanhara, despediu-se de mim e de Odilon, caçoando, antes que tornássemos lugar na “Capitão Nebo”:
– Em caso de acidente, saibam que a morte não existe. Nielsen e Yuri tornaram lugar à frente, enquanto eu e Odilon nos acomodávamos em poltronas anatômicas, que se nos ajustaram completamente. (Faço uma idéia de como haverão de estar espantados e incrédulos os leitores que tiverem ousado chegar até o presente trecho destas minhas despretensiosas anotações. Eu também ficaria! Advirto-lhes, porém, que estou tentando não causar-lhes tanta estranheza, sintetizando e omitindo detalhes que, talvez, os induzissem a maior espanto e incredulidade.)

Sinceramente, eu não saberia lhes dizer qual a natureza do material em que a “Capitao Nebo” se estrutura; Nielsen disse-me o nome, mas a palavra me soou aos ouvidos como um amontoado de consoantes sem significado.
Os vidros laterais se fecharam e, acionando pequena tecla amarela, a nave entrou em funcionamento silencioso e, rápido, começou a se elevar da plataforma, imitando o movimento de um helicóptero sem hélices.
– Viajaremos à velocidade da luz e, portanto, não nos será possível apreciar a paisagem; em alguns pontos, diminuiremos sensivelmente a aceleração e, então, vocês poderão perceber alguma coisa do Cosmos.
– À velocidade da luz, para alcançar algo que está tão próximo? – perguntei ao microfone acoplada à roupa especial.
– Tão próximo e, ao mesmo tempo, tão distante, Doutor – respondeu-me Nielsen.
– Nada mais próximo, porém, nada tão distante quanto o Criador da criatura; nenhum continente é imaginariamente tão longínquo do homem quanto o seu próprio mundo interior. A questão, Doutor, não é exatamente de distância.
– Que direção estamos tomando? – indaguei, tentando desviar a mente de preocupação. – Estamos subindo ou descendo, para a direita ou para a esquerda?
– Esta segunda pergunta é mais difícil do que a primeira; temos, evidentemente, uma rota, mas o seu sentido depende do ponto de referência que estabelece-mos. Digamos que estamos subindo e avançando. Não sei precisar quanto tempo se passou – alguns poucos segundos, talvez – e Nielsen nos explicou:
– Estamos atravessando um espaço sem gravidade, ou, pelo menos, sem gravidade convencional: é uma espécie de fronteira magnética entre uma Dimensão e outra; não se preocupem: a nave se converte em um planador e segue sem alterar a rota; aproveitem para apreciar a paisagem.
– Que estamos vendo? – perguntei. – Algum planeta nosso conhecido na Terra ou alguma estrela que os astrônomos encarnados já tenham identificado?
– Nem uma coisa nem outra; são esferas espirituais, inacessáveis ao olho humano: é a parte positiva do Universo.
– A parte positiva do Universo?!
– Sim, Doutor, a negativa é a que se constitui de matéria densificada; a morte, figuradamente, é a Vida em seu aspecto positivo. Tudo se apóia e existe em função de um contraponto – Criador e criatura, Vida e morte, Bem e mal.
– Entramos em algum “buraco negro”?
– Sim, o que os homens têm chamado de Antiunivevso, ou Universo Paralelo.
– Que beleza extraordinária! – exclamei. – Tenho a impressão de que estamos navegando no mar; a nossa nave espacial parece singrar determinadas ondas cósmicas!
Nielsen sorriu e concordou. Bolhas flutuando, de cores inimagináveis e formatos variados, pairavam no Espaço – de todos os tamanhos e consistências.
– Algumas dessas “bolhas”, Doutor, são habitadas.
– Habitadas? Por quem?
– Por seres inteligentes.
– Humanos?

Ante a ingenuidade da minha pergunta, nem Odilon conseguiu deixar de sorrir, complacente.
– Doutor – falou-me o Comandante -, a forma humana é uma das mais primitivas expressões de vida inteligente.
– Eu sempre me achei feio, mas nem tanto – procurei descontrair. Estrelas minúsculas pareciam brincar no firmamento sem gravidade e alguns “corpúsculos” pareciam se aproximar da nave, auscultando-nos a intenção.
– Que são? – argüi, observando aqueles “pontos” que se destacavam dos demais, movimentando-se com racionalidade.
– São os seres que habitam as bolhas flutuantes.
– Espíritos?
– Sim.
– Sublimados?
– Não. A sua evolução se vincula ao sistema de Vida da Próxima Dimensão; nunca estiveram na Terra e, provavelmente, nunca estarão.
– Fica difícil compreender – afirmei, com idéias que se me confundiam na cabeça.
– Não tente, Doutor, não tente – aconselhou-me Nielsen.
– Esses seres reencarnam? – insisti.
– Digamos que tornarão corpo na Dimensão Vizinha – corpo e forma.
– São bons ou são maus?
– Melhores, Doutor, bem melhores do que os espíritos sem forma que nos rodeiam, ou seja, que rodeiam os homens encarnados.
– Está se referindo aos chamados corpos ovóides?
– Não somente a eles, mas também aos elementais, aos espíritos disformes, amorfos, aos que se encontram em estado de transição.
– Eu nunca soube deles, os em estado de transição.
– Mas eles existem. Se somente o que somos capazes de conceber existisse, a Vida seria infinitamente pobre!

De repente, a “Capitão Nebo” sofreu mais acentu-ada aceleração e Yuri explicou:
– Estamos deixando o “cinturão sem gravidade”.
– Pousaremos na DV1 em poucos instantes – avisou-nos Nielsen. – Deixaremos a nave e não nos demoraremos mais do que o suficiente para alguns registros de estudo; os nossos irmãos estão avisados da nossa visita, mas aqui nos sentiremos como o peixe que, fora do habitat natural, não consegue respirar por muito tempo; o nosso corpo espiritual não se adapta: o ar que aqui se respira, não serve para os nossos pulmões. Não adianta ao homem querer ser anjo, antes de sê-la.

A “Capitão Nebo” iniciou a sua aterrissagem em DV1 e, quando tudo se aquietou, as duas portas laterais abriram-se sem qualquer ruído. Nielsen e Yuri desceram primeiro e, ambos, com a destra erguida saudaram:
– O povo espiritual da Terra vem em missão de paz!
A luz se intensificou lá fora e o Comandante consentiu que eu e Odilon descêssemos sobre a improvisada plataforma de pouso. Infelizmente, eu não tenho como descrever o que vi e o que senti. Cinco “seres de luz” se aproximaram de nós e um deles, se destacando, começou a tomar forma humana, semelhante à nossa.
– Eles podem se transfigurar com facilidade – disse-nos Nielsen – ; está copiando a nossa forma com o propósito de deixar-nos mais à vontade.
– Sejam bem-vindas, em nome do Divino Senhor da Luz – cumprimentou-nos.
– A Quem ele está se referindo? – perguntei a Yuri, que permanecera ao meu lado.
– A Jesus Cristo!
– Quem são os dois novos amigos? – indagou se referindo a mim e a Odilon. – É a primeira vez que estão vindo com vocês? Não me recordo deles.

Nielsen respondeu:
– Trata-se de dois companheiros vinculados à Terra; um deles é recém-chegado entre nós e ambos foram convidados pelo Dr. Dawson.
– Residem em “Nosso Lar”? – perguntou, dando-me, no entanto, a impressão de que conhecia praticamente tudo sobre mim e Odilon.
– Não; residem noutra Colônia, localizada nas imediações em que vem sendo desenvolvido importante trabalho de espiritualização no Brasil. Foram contemporâneos do médium Xavier, aquele que se fez instrumento das revelações de André Luiz, que também já esteve aqui conosco.
– Soubemos de Xavier – afirmou a entidade sem nome, prosseguindo: – O trabalho dele possibilitará, no futuro, passos mais importantes e decisivos para que a Humanidade empreenda. Ao deixar o corpo que, um dia, ocupamos de forma semelhante em outros orbes, ele se elevou acima da Dimensão que habitamos. Presenciamos o cortejo iluminado que o conduziu. Eu estava estupefato e, sinceramente, não sabia em que atentar, se no diálogo que a entidade transfigurada mantinha com o Comandante da expedição ou nas edificações que podia divisar nas proximidades; a cidade deles, se é que posso chamar o que via de cidade, era toda de vidro ou de material semelhante; as edificações eram lindas e praticamente flutuavam, de tão leves e translúcidas; davam-me a idéia de casas em formato de redoma, algumas maiores, outras menores, impossíveis de descrever em seus traços arquitetônicos, pois não havia uma sequer absolutamente igual a outra.
– Os senhores desejam formular alguma pergunta? – falou Nielsen, dirigindo-se a nós. – Não se esqueçam de que o nosso tempo de permanência é curto. Digo-lhes que, por mais me esforçasse naquele instante, não consegui coordenar o raciocínio; eram tantos os questionamentos, porém como me expressar, se eu não conseguia sequer me movimentar? Pela primeira vez, tive medo – medo de que o meu cérebro estouras-se. Eu queria saber, sim, mas por onde começar? Tive vergonha e me senti um verme, diante daquela entidade que irradiava amor, o mais puro sentimento de amor que eu jamais sentira. Comecei a me considerar indigno de pisar aquele chão.

Percebendo-me a angústia, o ser de luz se me dirigiu com extrema bondade:
– Somos irmãos: não se recrimine. Onde quer que estejamos, estamos na Casa de Deus! Não se aflija intelectualmente; procure tão-somente guardar estes instantes no coração. A Verdade transcende o domínio das palavras; é impossível conhecê-la em sua essência, se não aprendemos a senti-la. Você não conseguirá traduzir esta experiência com a terminologia ao seu alcance; doravante, apenas quem conseguir fitar os seus olhos saberá o que pretende dizer a respeito. Os Discípulos do Cristo, denominados Evangelistas, por causa de semelhante fenômeno, só depois de muitos anos é que conseguiram transportar algo do que ouviram e presenciaram para o papel. Acalme-se, Inácio Ferreira! – disse-me a entidade, envolvendo-me em vibrações de paz que percorreram todo o meu corpo e se me centralizaram no coração. O ar, que começara a me faltar, insuflou-me os pulmões, uma sensação de extrema leveza me possuiu e lágrimas discretas me deslizaram no rosto.
– Lágrimas! – exclamou a entidade, aproximando-se e tocando-me as faces com o que suponho ser .” ponta dos dedos. – Há quanto tempo eu não as via?! .. Por aqui, exprimimos de forma diferente as nossas emoções. Naquele instante, diminuta pétala resplandecente se destacou dos lábios da entidade e procurou a palma da minha mão, como se me ofertasse um ósculo de amizade eterna e, em seguida, dirigiu-se a Odilon, que a recebeu de cabeça inclinada, como quem não se julgas-se merecedor de tamanha deferência. Enquanto nos entendíamos, diversas outras entidades se aproximaram. Quem seriam? Como se chamavam? Eram todas adultas? De que se ocupavam?
– Inácio Ferreira! – repetiu o interlocutor, captando o teor dos meus pensamentos, que, agora, haviam se asserenado, embora eu continuasse me sentindo incapacitado de pronunciar qualquer palavra. – O caminho para o Mais Alto começa sobre a Terra. Por enquanto, lhe será inútil tentar compreender como vivemos; em nós, nada mais resta senão resquícios do corpo espiritual, passível de transcender a si mesmo. Não, ainda não nos despojamos totalmente das imperfeições e ansiamos por viver na Dimensão onde a única forma que prevalece é a do chamado corpo mental. Mais acima, figuradamente alguns anos-luz de onde nos situamos, fica o Mundo das Essências.
– Que contraste com a nossa humilhante condição humana! – pensei.
– Abençoada condição humana, meu irmão, você deveria dizer. Quem vê a semente de trigo atirada ao monturo não imagina que ela se transformará em pão; quem anota singelo filete d’água correndo entre as pedras, ignora que ele seja o berço do rio caudaloso que corre na direção do mar. Não se permitam desalentar. A ascensão é penosa mas repleta de surpresas maravilhosas. Mesmo tendo que retomar o corpo de carne repetidas vezes, não se esqueça de que, onde estiveres, estarás a serviço do Senhor. Nada mais magnífico do que a possibilidade de o Espírito plasmar a si mesmo!

Ante o Comandante, que consultara o cronômetro, a entidade prosseguiu, solícita:
– Conflitos por aqui? Sim, ainda os temos mas não oriundos de interesses pessoais; as opiniões desencontradas em nossa Dimensão surgem da necessidade de melhor compreendermos a Verdade: aqui, a Religião é a nossa Ciência, e vice-versa. Ainda não somos detentores de todas as respostas; divergimos na interpretação, mas não dissentimos na aplicação. Não temos guerras e os nossos sistemas religiosos se unificaram; temos um único templo de Fé, onde todos se dirigem ao Autor da Vida de acordo com os seus sentimentos.
– Vocês podem viajar à Terra? – quis saber, aproveitando a oportunidade que
talvez me fosse única.
– Sim, raramente, no entanto a visitamos com freqüência.
E, virando-se para Odilon, acrescentou:
– Nas Dimensões que nos antecedem, temos os nossos médiuns; a mediunidade é a faculdade espiritual que funciona como traço de união entre todos os seres e todas as coisas, integrando-nos em Deus e na Vida!

Ela é o nosso elemento de transição, em nível psíquico; é, por assim dizer, o nosso primitivo instrumento de comunicação. Graças à mediunidade, do Criador à for-ma mais rudimentar de vida, tudo se encontra interligado!
– Precisamos partir – comunicou Nielsen a Yuri.
– Não poderíamos – indaguei – caminhar um pouco?
– Não nos convém, Doutor – respondeu-me o Comandante.
– Por que motivo?
– Correríamos o risco de não conseguirmos voltar.
– Talvez, de fato, fosse melhor ficarmos por aqui.
– Não nos adaptaríamos; se não ensandecêssemos, haveríamos de pedir que se nos aplicasse algo para nos induzir ao esquecimento – esclareceu Nielsen, com propriedade.
– Eu sei – redargüi – ; embora tudo que vejo e tudo que sinto, isto não deixa de ser estranho para mim. Prefiro a minha cama, o meu pijama e, se ainda pudesse, o meu cigarro. Ah, como eu tenho necessidade de me sentir humano!

A entidade, “ouvindo-me”, sorriu e comentou:
– Inácio Ferreira, você compreendeu!
– Por quê você insiste em me tratar pelo nome? -indaguei, intrigado.
– Uma ponta de saudade de ser humano – disse-me, continuando a sorrir -; mesmo para nós, ainda não é fácil perder as especificações. Yuri, que nos antecipara no reembarque, já acionara a “Capitão Nebo”.

Antes de partir, procurei comigo algo que pudesse deixar com a entidade à qual eu me afeiçoara; tateei o macacão, que não tinha bolsos e, em vão, olhei à minha volta.
Percebendo-me a intenção, a entidade, vindo em meu socorro, falou-me com ternura:
– Não se preocupe, mas se é este o seu desejo, pense e bastar-lhe-á pensar para que o objeto de seu desejo tome forma; eu o auxiliarei a materializá-la. O que, porém, deixar-lhe como lembrança minha? Naquele instante, não sei por que, veio-me à mente uma caixa de lenços, com as minhas iniciais com que a minha mãe me presenteara um dia. E, bastou-me pensar naquele lenço azul, o meu preferido, que a minha mãe brigava comigo para poder lavar, e, no mesmo instante, como se tivesse saído do bolso do meu jaleco, o lenço com as minhas iniciais bordadas em prata estava em minhas mãos. Espantado, estendi-o a ele, que, de volta, me ofereceu uma pétala fosforescente, à semelhança daquelas com que os espíritos amigos nos presenteiam nas sessões de materialização.
Adentramos a nave e tornamos assento. A porta se fechou lentamente e aquele ser de luz, que havia se transfigurado para receber-nos, retomou a sua antiga forma: uma esfera pulsante, iluminada, capaz de pensar, de sentir e de extraordinária força mental.
– O que você me diz, Odilon? – provoquei, na esperança de que o amigo me falasse que aquilo tudo não passava de um sonho.
– Inácio Ferreira! – respondeu-me, descontraído. Você me desculpe, mas não sinto a menor vontade de conversar.
– Não?!
– Não! Melhor que eu pense na turma do Liceu.
– E eu, nos meus doidos. Desculpem-me! – solicitei a Nielsen e a Yuri, que me olharam sem entender.

Varando uma daquelas bolhas gigantes, pela qual havíamos entrado, atravessamos a fronteira e pude ver o Sol.
– Graças a Deus! – exclamei. – De volta para casa! Estou ansioso para voltar e ver os meus doentes. Não me levem à mal – disse, dirigindo-me ao Co-mandante e ao seu imediato -, no entanto eu também daria tudo por uma xícara de café quente.
– Café quente, Inácio?!
– Sim, Odilon – expliquei -, café quente. Estou me lembrando de uma reportagem que li, certa vez, com o nosso Chico Xavier: ele descreveu que Emmanuel o levara, em estado de desdobramento, para tentar compreender a posição de Jesus Cristo dentro do Sistema Solar; acompanhado do Benfeitor, o médium começou a subir, deixando astros e estrelas para trás. De repente, sentindo-se perdido no Infinito, solicitou que Emmanuel o reintegrasse, às pressas, no corpo de carne, pois ele preferia acordar e tomar um café quente.
Um tanto exaltado, conclui:
– A minha sanidade são os meus pacientes Odilon. Deus meu!, estivemos participando de uma película cinematográfica em terceira dimensão; aquilo não existe. Estou doido para caminhar com os meus pés!
– Não existe, Inácio?! E esta pétala fosforescente em sua mão?!

De fato, eu havia me esquecido; o presente da entidade que, hoje, girando como relíquia dentro de pequena redoma, ainda brilhava na minha destra cerrada.
– Não se preocupe, Doutor – falou-me Nielsen – : são comuns a passageiros esses estados de alteração em “marinheiro de primeira viagem”.
– Quando a nave, finalmente, pousou, o Dr. Dawson e André Luiz vieram ao nosso encontro. Eu estava me sentindo extremamente cansado e necessitei ser amparado por Odilon.
– Quantos minutos? – perguntou Nielsen ao Dr.Dawson.
– Pela cronologia terrestre, duas horas exatas.
– Pela nossa, em “Nosso Lar”, foram vinte minutos – informou Yuri.
– Então, pela cronologia de DV1, dois minutos – comentou o Dr. Dawson com André Luiz. Excelente marca; a continuar assim, dentro de mais alguns anos de pesquisas, quem sabe conseguiremos dobrar ou triplicar o nosso tempo de permanência.
– Dr. Inácio, como é que o senhor está se sentindo?

Mal terminei de ouvir a pergunta que André me dirigia e desabei, para acordar, tempo depois (não me perguntem quando), recebendo oxigênio puro em confortável cama hospitalar. Não fora a viagem em si que me afetara o equilíbrio do corpo espiritual, igualmente sujeito a um sem-número de variações; o que me abatera fora o inusitado da experiência, o imaginável tomado real, a minha falta de cabeça para organizar aquilo tudo dentro de mim.

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