CONSIDERAÇÕES SOBRE O MANIFESTO DE 2013

Creio que ainda é muito cedo pra tirar quaisquer conclusões a respeito do que está acontecendo nas ruas neste momento. Precisamos do distanciamento que só o tempo (e o desenrolar dos fatos) nos permite. Mas podemos especular, e analisar os fatos até agora.

Uma coisa pra mim está clara: os conflitos começaram como uma coisa direcionada (ainda não sabemos ao certo por quem) e se tornaram muito maior do que quem direcionou previa. Agora estamos à mercê da maturidade do povo brasileiro nas ruas.

Não dá pra ignorar que o site do Movimento Passe Livre foi registrado por uma ONG alimentada por dinheiro público da Petrobrás. Não sabemos se eles estão sendo manipulados sem saber por alguém, mas também não dá pra ignorar que o MPL quis o tempo todo tomar pra si a liderança do movimento. Também não dá pra ignorar que esse movimento teve caráter de depredação na terça-feira 11, em SP. Diante das inúmeras críticas dos jovens que eles pretendiam conquistar, a posição mudou na quinta, mas não o script que a “mão-que-balança-o-berço” pretendia seguir: repressão policial violentíssima, com apoio da imprensa, para depois colher os louros com a população (tanto Alckmin quanto Haddad e, de quebra, o governo federal). Pra quem não lembra, Alckmin justificou as ações baseado ainda no que ocorreu na terça (direito de ir e vir, coibir vândalos, etc), no que foi apoiado por Haddad e pelo governo federal, que ofereceu toda a ajuda que o governador quisesse. A Rede Globo entrou na mesma noite apoiando a ação da polícia e mostrando todos como vândalos. Reinaldo Azevedo, da Veja, também. Arnaldo Jabor, também. Só que a cobertura ao vivo da TV a cabo, os inúmeros vídeos que pipocaram pela internet (sendo o mais importante deles o do policial quebrando o vidro da própria viatura) e as agressões aos jornalistas frustraram toda essa empreitada que, fosse 15 anos atrás, teria tudo pra dar certo e colocar a população amedrontada contra os protestos.

Quinta-feira, 13 de junho será um marco na história desse país, assim espero. Foi o dia onde as mídias tradicionais, aliadas aos governos e à indústria, mostraram sua verdadeira face. De forma tão nítida, mas tão nítida, que tiveram de voltar atrás. Quem viu a manifestação ao vivo, tanto presencialmente quanto pela Record e Globonews, viu uma história muito diferente do que a edição do Jornal Nacional mostrou. Datena foi o primeiro a mudar de lado, logo na quinta-feira, graças a uma enquete ao vivo onde se obteve imensa maioria de apoio aos protestos, mesmo que com vandalismo. A Folha de SP não pôde ignorar a imagem da SUA repórter com um tiro no olho, que circulou por todas as redes sociais, e um dia depois de ter pedido “força policial” nas ruas teve de dar capa à violência indiscriminada da PM. Dias depois, Arnaldo Jabor pediu desculpas e disse que estava errado: “não era só por 20 centavos”. O Jornal Nacional passou a cobrir as manifestações subsequentes dizendo o tempo todo que elas eram “pacíficas” e que “uma minoria” partiu para o vandalismo. Só Reinaldo Azevedo continua com sua posição burra que, ENFIM, me mostrou que a Veja, embora seja o adversário que o PT merece e esteja correta em todas as suas denúncias, não faz isso pelo povo, pelo futuro do país.

O governo, tanto de direita (Alckmin) quanto de esquerda (Haddad) – que não por acaso estavam em lua-de-mel em Paris um dia antes – ficaram perdidos. A tentativa de controle social falhou, o protesto ganhou força e se descentralizou, espalhando-se pelo país. O que a Dilma fez? Correu de Brasília pra SP pra ELA (veja bem, a “presidenta” da república) ir se consultar com Lula (que é o presidentE de fato), além do marqueteiro de campanha. Isso demonstra não só um desespero (preciso retocar a máscara!) como nos mostra que a coisa saiu do planejamento deles. Até o momento em que escrevo, Dilma continua calada, sem um pronunciamento sério, em cadeia nacional.

Tudo o que os governantes temem é um movimento sem líderes, sem uma reivindicação única, clara. Por que? Porque a insatisfação geral não pode ser facilmente manipulada, distorcida, apropriada por um partido político, e não há líderes pra subornar, intimidar, manipular, trazer pra dentro do jogo. Alan Moore estava certíssimo quando escreveu V de Vingança: “Não há um ser de carne e sangue por baixo desta capa para ser morto. Há apenas uma ideia. E ideias são à prova de balas”. E a ideia, pra quem não entendeu ainda, é que nos cansamos.

Nos cansamos do mensalão e das manobras do governo pra adiar ao máximo a prisão de José Dirceu e companheiros do partido.
Nos cansamos do Congresso e sua PEC 37 que limita o poder dos procuradores, exatamente os que estão combatendo a corrupção do governo.
Nos cansamos de ter estádios com “Padrão FIFA” de 1º mundo onde são injetados BILHÕES e não termos hospitais, médicos, esgoto, segurança, dignidade, transporte público de 1º mundo (e 20 centavos não vão mudar isso).
Nos cansamos de perder 40 bilhões do nosso dinheiro por ano em corrupção, enquanto trabalhamos 5 meses só pra pagar nossos impostos.
Nos cansamos de um Congresso que não representa o clamor popular e sim o interesse de uma elite, aprovando coisas como o Ato Médico, derrubada de área verde, leis homofóbicas e misóginas e outros absurdos de quem der mais dinheiro (ou cargos) aos parlamentares.
Nos cansamos de legisladores que só fazem aumentar seus salários ano após ano e que ainda querem diminuir o poder do judiciário, enfraquecendo (ainda mais) a democracia, já que o legislativo está (provadamente, com o mensalão) subordinado ao Executivo.

Este é um momento único, brasileiros. Pra todos aqueles que reclamavam de que o povo não tirava a bunda da cadeira, que o brasileiro não se revolta que nem na Europa, não há mais desculpas. Há forças tentando manipular os protestos? Claro! A juventude do PT e a do PSDB tentaram se misturar ao movimento várias vezes, e todas as vezes foram vaiadas e foram mandados abaixar suas bandeiras. Há baderneiros no meio pra desqualificar a manifestação e atrair os holofotes da mídia pra violência? CLARO! E vimos isso ontem, na frente da prefeitura de SP, quando um grupinho de gente com máscara, camiseta na cara e máscara de gás quebrou a frente da prefeitura. Me deu MUITO orgulho de ver que a reação dos que tentavam manter o protesto pacífico foi colocar a grade de proteção de volta e fazer um cordão humano na frente de NOSSO PATRIMÔNIO. A prefeitura não é do Haddad, nem foi do Serra, nem de uns FDP de uns baderneiros. É NOSSA. Quem paga a conta pelos vidros quebrados somos NÓS. Quem paga o funcionário que limpa a pichação somos NÓS. E antes fossem grafites no estilo Banksy, ou mesmo se eles se inspirassem nos cartazes dos manifestantes (como “Queremos hospitais padrão FIFA“), mas só sabem botar seus nomes e “3,20 não dá“, que evoca – talvez não coincidentemente – o movimento que pretende ser o “líder” de tudo isso.
Então você, que reclama e reclama da apatia do brasileiro, aprenda com os europeus e SE ENGAGE. Faça sua parte. Não temos líderes: você é seu líder. Leve seu cartaz, sua reivindicação. Pessoas se juntarão a você. Não seja apenas uma ovelha: seja o pastor de si mesmo e de outros que ainda precisam de um “empurrão” pra serem emancipados intelectualmente, como a Evey. É essa a ponte com o post A prisão da mente. Talvez não consigamos nada agora além de uma redução da passagem. Mas o “1º mundo” do povo europeu não se fez numa semana de protestos: foi toda uma consciência FORJADA em sucessivas revoluções, gerações críticas, educação, politização e guerras. O gigante acordou, mas ainda está meio grogue por ter dormido por tanto tempo.

A grande vitória até agora foi através do sangue dos que apanharam da PM por estarem se manifestando de forma pacífica e não reagiram. Dos que foram atropelados covardemente, dos que levaram bala de borracha por estarem apenas olhando, ou trabalhando. O vinagre, que foi considerado arma de destruição em massa, foi liberado tão-somente pelo vídeo e pelo sangue do jornalista da Carta Capital. NÃO FOI PELO VANDALISMO. O PODER PÚBLICO NÃO SE INTIMIDA COM VANDALISMO, AO CONTRÁRIO, SÓ SE ENGRANDECE. Nos anos 60 a população em peso (insuflada pela mídia) apoiou a intervenção militar porque tinha vândalos SIM querendo implantar uma ditadura de esquerda pelo roubo, pela violência e pela luta armada (entre eles José Dirceu e Dilma Roussef). E eles não esqueceram disso.

Em declaração ao jornalista Elio Gaspari, Daniel Aarão Reis Filho, ex-militante do MR-8, professor de história contemporânea da Universidade Federal Fluminense e autor de Ditadura Militar, Esquerda e Sociedade, disse:

“Ao longo do processo de radicalização iniciado em 1961, o projeto das organizações de esquerda que defendiam a luta armada era revolucionário, ofensivo e ditatorial. Pretendia-se implantar uma ditadura revolucionária. Não existe um só documento dessas organizações em que elas se apresentassem como instrumento da resistência democrática.”

Daniel Aarão Reis Filho

O depoimento acima estava na Wikipédia no verbete VAR-Palmares, o grupo do qual Dilma participava. É importantíssimo pra contradizer a versão de Dilma de que ela “lutava pela democracia”. Esse ano ele foi suprimido da Wikipedia pelos editores. Por que? A quem interessa o controle das mídias, inclusive da internet, senão aos poderosos de direita E esquerda?

Então vamos parar com essa historinha de “você é tucano”, “você é petista”, porque ficou CLARO COMO O DIA que os partidos políticos NÃO estão ao lado do povo, as “oposições” são na verdade conchavos pra manterem-se no poder e quem está de fora (como o PSTU) tenta entrar de forma oportunista, “colando” em anseios sociais legítimos e tentando politizar a coisa. Como o PT fez no passado.

Então, povo brasileiro, se vocês pretendem ter um norte, considerem o seguinte:
Não parta pra violência (o Estado saberá neutralizar você se o fizer, com o respaldo da população);
Não levante bandeira de partido (já ficou mais que provado que eles não se importam conosco nos últimos 10 anos sem oposição);
Reivindique um Brasil melhor, não só nas ruas, mas dentro de casa, no seu trabalho, na relação com as pessoas. Não adianta nada pedir educação e um país de 1º mundo nas ruas se você acha bonito dirigir bêbado, parar no meio da rua pra esperar seu filho sair da escola, incomodar seu vizinho com barulho, dar um “jeitinho brasileiro” em tudo o que faz, etc.

E vamos limpar essa casa (NOSSA CASA!) infestada de ratos nas próximas eleições!

Foto: André Coelho. / Rise logo: Santiago Rodrigues.
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