DAWKINS, UM DELÍRIO

Digamos que apareça um barbudo de turbante falando que sua missão é converter as pessoas para Deus, generalizando que um “povo sem Deus” não tem moral e é corrupto. E convocando outros religiosos como ele a se unirem em sua luta contra esse estado de coisas. Esse homem seria visto como um louco, um fanático religioso e, considerando o momento em que vivemos, talvez você desejasse que ele estivesse preso.

Mas, quando este homem tem a barba feita e tem título de cientista, falando exatamente o mesmo que o barbudo acima, mas trocando os lados, ele vende livros. Muito livros. E dá entrevistas nos melhores jornais do mundo. E é respeitado.

Não o conheço, não li seus livros. Mas, pelo teor de sua entrevista ao Estado de SP, pode-se ver claramente o tipo de pessoa que ele é. Richard Dawkins é, na mais lisonjeira expressão que posso usar, uma caricatura de Arnaldo Jabor. Se Jabor fosse um Alfa Romeo, Dawkins seria um Hummer. Ele nem parece britânico; está mais pra o estilo “assessor de George W. Bush”.

De suas obras, li apenas um resumo de O Gene Egoísta, na revista Superinteressante, e confesso que gostei da idéia. De fato, fazemos muitas coisas no automatismo, entregues ao nosso lado animal. Só não sei se ele tenta explicar TUDO com base nessa proposta que, ao meu ver, é apenas modesta. Agora o best seller da moda não é mais O Código da Vinci, e sim Deus, um Delírio, onde Dawkins defende que a fé religiosa (seja qual for a denominação) não é apenas uma ilusão inofensiva, mas um delírio nocivo do qual a sociedade precisa ser curada.

Pela entrevista que li (abaixo), dá pra perceber que esse homem não é alguém não-religioso (não há nada de errado nisso, as pessoas podem ter religião ou não): ele é ANTI-religioso. E passional. E a sociedade não parece achar isso nada demais.

Isso faz meu “sentido de aranha” pipocar. Só pra lembrar, foi a partir da indiferença da sociedade que a Alemanha nazista se tornou ANTI-Judia, porque UM GRUPO era anti-judeu e o povo alemão era, no MÍNIMO, omisso, indiferente, recalcado. Eu sempre uso esse exemplo extremo dos nazistas pra tudo, pois é o ápice do exemplo da maçã podre contaminando o cesto inteiro.

Cada resposta dele parece saída da boca de um Talibã. Dá pra encontrar erros grosseiros em cada uma delas!! Não sei se por falta de conhecimento da matéria que pretende criticar ou por pura maldade. Se o cara pretende meter o pau nas religiões, precisa ter um mínimo de estudo pra criticar. Como eu não li o livro (e, pelo que li abaixo, não fiquei com a MENOR vontade de fazê-lo), me utilizarei das palavras dele na entrevista como base pra escrever uma réplica logo abaixo de cada resposta dele:

Estadão: O sr. argumenta em seu livro que a religião é algo nocivo, que pode levar a guerras, terrorismo e preconceito. A maioria das pessoas religiosas, entretanto, não sai dirigindo carros-bomba por aí. Acreditam em Deus, vão à igreja aos domingos e seguem suas vidas sem problema. A religião é algo intrinsecamente ruim ou apenas quando levada ao extremo?

Dawkins: Nem tudo na religião é ruim, claro que não. A maioria das pessoas comuns, que vão à igreja todo domingo, não levam isso muito a sério – mas uma minoria leva, sim, extremamente a sério. O que eu quero dizer é que são essas pessoas comuns, do dia-a-dia religioso, que doutrinaram todos nós durante a infância de que a fé é uma coisa boa, e que a religião é algo que precisa ser respeitada. Isso cria um ambiente propício para o fundamentalismo, abre caminho para o extremismo.

Acid: Falácia. MUITAS pessoas que vão à igreja todo domingo levam a sério suas religiões, ou sequer iriam (como a maioria dos brasileiros que se dizem católicos mas só botam os pés na igreja quando vão a casamentos). Milhares de anos se passaram com pais ensinando a seus filhos que fé é uma coisa boa, e que a religião é algo que precisa ser respeitada, e não temos sequer um país extremista católico (ou homens-bomba da Sei-Cho-No-Ie, por exemplo). O que abre caminho pra o fundamentalismo é armar até os dentes uma facção de malucos (como os Talibãs) pra se defender de um inimigo em comum e esperar que ela seja dócil após subida ao poder. Parodiando a frase do Papa João Paulo II pra Bush quando de sua “Cruzada”, eu diria: “Deixe a religião fora disso“.

Estadão: Tivemos há pouco um evento trágico no Brasil: um acidente de avião no qual morreram 199 pessoas. Numa situação dessas, a religião, a fé, é o único consolo para muitos parentes das vítimas. Nesse caso, também, o senhor acredita que a religião é uma coisa ruim? Como o senhor lida com as tragédias da vida?

Dawkins: Se tivesse religião, me preocuparia com o Deus que deixou uma coisa dessas acontecer. Você não? Deus sempre leva o crédito pelas coisas boas, mas nunca a culpa pelas coisas ruins. Ele deixou que a tragédia acontecesse! É incrível. Não sei se alguém sobreviveu a esse acidente, mas se for o caso, seria capaz de apostar que alguém disse: “Vejam que maravilhoso, Deus salvou meu filho, minha filha, ou seja lá quem for”. Ninguém parece se dar conta de que esse mesmo Deus deixou todas as outras pessoas morrerem.

Acid: Que visão deturpada de mundo é essa, que o homem se recusa a responder uma pergunta óbvia dessas (do tipo que qualquer pessoa séria diria “sim, MAS…”) e prefere responder com uma visão estereotipada que nem tem relação com a pergunta original??! Que houve com você, Dawkins? Por acaso ocorreu alguma tragédia na sua família e você se revoltou com Deus, assim como Drácula? Esse homem se considera cientista? Espero que não.

Estadão: Não consigo pensar em nenhuma sociedade, do presente ou do passado, que não tenha venerado algum tipo de divindade – seja o Deus Sol, o Deus Vento ou qualquer outro tipo de deus. Será que a religião não faz parte do nosso DNA, que não é algo intrínseco à essência do ser humano?

Dawkins: Acho que você tem razão. Todas as sociedades humanas manifestam algum tipo de religião. Grande número de pessoas é religiosa, mas não todas. Não é algo, portanto, que esteja tão incorporado ao nosso DNA que não sejamos capazes de escapar disso. Muitos de nós escapam, especialmente as pessoas que têm uma educação melhor. Eu diria, sim, que há uma predisposição da mente humana que nos torna vulneráveis à religião, mas não acho que isso esteja embutido em nossos genes.

Acid: Vulneráveis? É uma doença? Isso é científico? “Lamento, mas você contraiu o vírus da religião“. Que palhaçada é essa?

Estadão: Por que contrariar esse instinto?

Dawkins: Bem, nós não fazemos tudo que é natural do ser humano, fazemos? Se fizéssemos, todos nós estaríamos andando pelados por aí. Nossos ancestrais selvagens eram caçadores-coletores, que provavelmente lutavam constantemente entre si, principalmente pelo controle das fêmeas. Não é exatamente o tipo de sociedade na qual gostaríamos de viver hoje. Nós evoluímos muito desde então, ao longo de vários séculos de civilização, e nossa emancipação dos deuses é mais um passo desse processo civilizatório.

Acid: Oh… então os religiosos estão defasados, como o videocassete, o LP, a TV preto-e-branco… E a associação “brilhante” entre a violência pré-histórica contra as fêmeas e a religiosidade? Nada sutil… Será que é mesmo “natural” do ser humano andar pelado por aí? Aqui no Brasil pode até ser, mas o que diria um esquimó? Ou um beduíno? Se cobrir de panos cumpre apenas uma função social ou é natural do ser humano (praticamente um macaco sem pêlos) que procuremos proteger nosso corpo? Esse cara é mesmo considerado um pensador?

Estadão: Charles Darwin não era ateu, era agnóstico (alguém que não crê em Deus, mas não descarta totalmente sua existência). O sr. acha que ele aprovaria seu livro?

Dawkins: Darwin era um homem muito gentil, que se preocupava muito em não ofender seus amigos religiosos. Chegou a dizer que as pessoas não estavam prontas para o ateísmo. Acho que Darwin não ficaria totalmente satisfeito com o meu livro. Acho até que ele concordaria comigo no fundo do seu coração, mas não concordaria em publicar o livro da maneira como eu publiquei.

Acid: Darwin era um cientista, ao contrário de Dawkins. Nota-se o cuidado que Darwin teve quando escreveu nos pés de páginas do manuscrito Origem das Espécies o seguinte: “Nunca escrever que um organismo é superior ou inferior”. Ou seja, ele sabia que cada organismo cumpre seu papel no planeta da melhor forma. Creio até que Darwin, se consultado, diria pra que os humanos se inspirassem na ilha de Galápagos (onde ele esteve para pesquisar precisamente a vida selvagem) e convivessem uns com os outros como os animais dali, que coabitam o lugar sem serem predadores uns dos outros.

Estadão: Quando o sr. prega o fim da religião e coloca a ciência como dona da verdade, essa não é uma posição tão radical quanto a dos fundamentalistas religiosos?

Dawkins: Não acho. Os fundamentalistas acreditam em algo simplesmente porque aquilo está escrito em um livro. Só acredito em alguma coisa com base em evidências, e isso é uma grande diferença. Admito ser passional, veemente, mas apenas sobre assuntos para os quais existem evidências. Não sou passional porque fui criado para acreditar em algo ou porque li aquilo em algum livro sagrado.

Acid: Não, não é uma grande diferença. A ciência já acreditou em muita besteira baseada em “evidências”. Dawkins e o fundamentalista religioso são dois idiotas que acreditam em coisas baseadas em “evidências”. O religioso sente a presença de Deus nas pequenas e grandes coisas e isso é evidência suficiente pra ele, assim como algumas teorias científicas são evidências suficiente pra você, Dawkins. Os maiores religiosos não foram “criados pra acreditar em algo” nem “leram em algum livro sagrado”. Eles são grandes justamente porque romperam com o sistema. Mais uma bola fora pra você, Dawkins, que pelo visto não sabe PN de religião. Em compensação, posso dizer que os norte-americanos são famosos por serem manipulados porque foram “criados para acreditar em algo” ou porque leram / viram na imprensa (o “Livro sagrado” deles).

Querem saber como são criados homens-bomba? Não é numa mesquita, aprendendo sobre o Alcorão, e sim sendo humilhados desde pequenos, sendo espancados ainda crianças (com sadismo) quando protestam contra a ocupação ILEGAL de seu país, sabendo de casos de estupro e morte de menores e de suas famílias, sendo abalroados pelos donos da rua (e donos do seu país), vendo pessoas que você ama sendo mortas a troco de nada, apenas por existirem… sim… Até que algum deles enlouqueça e literalmente exploda… e aí Dawkins vai poder dizer “Viu? Foi em nome de Deus!”

Estadão: Muitas vezes a doutrina religiosa é usada como referência moral, inclusive para impor limites éticos à ciência – como no caso da clonagem e das células-tronco embrionárias. Sem a religião, quem vai regular a ciência? Sem Deus para julgar nossas ações no fim do túnel, quem vai determinar o que é certo e o que é errado?

Dawkins: Jogar fora a religião não significa jogar fora a ética. Ética é algo completamente diferente. Qualquer um que disser que baseia sua ética na religião está quase certamente enganado. Ninguém tira seus conceitos morais da Bíblia, porque isso significaria ser a favor da escravidão, da opressão das mulheres, do apedrejamento de homossexuais etc. O que as pessoas fazem é selecionar versos da Bíblia que as agradam, mas a ética e a moral elas pegam de outro lugar. Muita gente também acredita que sem a religião todos se transformariam em pessoas más, que não haveria nada que lhes impedisse de praticar atos ruins. Se isso é verdade, essas pessoas não são realmente boas. Elas só são boas porque têm medo de serem punidas por Deus, e não acho que essa seja uma forma honrosa de bondade.

Acid: Eu li direito? “Ninguém tira seus conceitos morais da Bíblia (…) a ética e a moral elas pegam de outro lugar”. Pegam de onde, professor Tibúrcio? Dos episódios dos Simpsons? Da educação familiar dos pais ausentes? Onde foi mesmo que eu li que devemos perdoar nossos inimigos? Foi na Revista Caras ou foi na Veja? Essa foi a frase mais estúpida que eu li este ano!! O cara escreve um livro criticando Deus e nem sequer sabe (ou finge que não sabe) o que é a Bíblia! Ele mistura no mesmo saco a filosofia refinada de Jesus com as atrocidades cometidas pelos hebreus pra validar seu ponto de que não tem ética na bíblia. C@R@LHO! Tem alguém aqui que goste desse cara? Porque eu preciso que alguém me diga se ele fala isso a sério ou se ele usa esse argumento no livro!

Estadão: O sr. foi eleito mais de uma vez pela revista britânica Prospect como um do mais importantes intelectuais do planeta. O sr. acha que os cientistas são os novos pensadores, os novos filósofos do mundo moderno?

Dawkins: Acho que a ciência tem, sim, muito a dizer para o mundo, e acho que as pessoas se sentiriam muito mais completas em suas vidas se aprendessem com a ciência. Não só com o conhecimento da ciência, mas com a metodologia do descobrimento científico, que é algo que vale a pena ser seguido.

Acid: Li que a votação foi popular. E como a voz do povo é a voz de Deus… bem… Ok, Dawkins, você me convenceu: Deus não existe.

Estadão: A ciência tem resposta para tudo?

Dawkins: Ainda não, e talvez nunca tenha. Mas, se há algo que a ciência não pode responder, não há nenhuma razão para supor que a religião possa.

Acid: Que tal “qual o sentido da vida?” Ou “por que eu devo agir com solidariedade quando estiver num estado de sobrevivência, o famoso cada um por si?” O que será que os genes dos grandes mártires da fé diriam de seus feitos?

Sabe o que é pior? Dawkins não só é um completo ignorante em termos de religião como também não tem base científica nem pra sustentar seus próprios argumentos. Esse vídeo abaixo mostra bem a enrascada em que ele se mete ao ser questionado a dar algum exemplo de mutação genética ou processo evolucionário que mostre um aumento da informação no genoma:

Richard Dawkins stumped by creationists’ question (RAW FTGE)

Pra quem não sabe inglês: ele não responde. Enrola, enrola, mas não dá nenhum exemplo.
A argumentação dele é tão pífia que poderíamos revertê-la pra questionar a existência do próprio Dawkins! E alguém fez isso com boa dose de ironia:

The Dawkins Delusion (Dr. Terry Tommyrot)

Se quisermos falar um pouco mais sério, poderíamos questionar, com base na alegação de Dawkins de que as pessoas tiram sua ética de algum lugar que não a Bíblia, mas apenas escolhem as passagens que já refletem seu caráter ou escolha: Será que as pessoas que detestam religião não estão usando os argumentos furados de Dawkins apenas porque JÁ tinham essa posição definida de ser ateu e acaba dando um valor maior a Dawkins do que pela sua argumentação? Será que não transferem o mesmo grau de sacralidade que os religiosos dão a seus escritos ao livro de Dawkins? Pensem nisso.

Referência:
Franco-Atirador – O Evangelho segundo São Dawkins;
Réplica ao meu post, do blog “O enigma de Jade”

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