CASSHERN

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Antes de mais nada, confesso que fui atraído ao filme Casshern primeiramente pelo trailer. Cenas fantásticas e estilosas de ação, computação gráfica misturada com filmagens reais, uma fotografia surreal e vibrante. Mas achei estranho quando soube que o diretor estreante Kazuaki Kiriya considerou que o trailer, apesar de fenomenal, não reflete a essência do filme. Difícil concordar quando se tem um personagem principal que parece um super-herói japonês de fim-de-tarde na Manchete, que combate robôs gigantes e duela com espada. As cenas de ação (sem ser lutas) são fantásticas, com uma grande carga visual herdada dos Animes e Mangás (tipo os “enquadramentos Frank Miller“, que também bebeu desta fonte). Mas, puxa, como as aparências enganam… Tudo isso está a serviço de uma estória que é um clamor pela paz e coexistência, uma obra-prima da filosofia japonesa.

casshern luta

Imagine se Akira Kurosawa tivesse uns vinte e poucos anos, crescido no meio de Jaspion e Changemans, música eletrônica e Robôs (Mechas): Com certeza, sua obra seria algo muito parecido com Casshern. Mesmo com toda a pancadaria, ele é do começo ao fim uma ode à paz (embora você só perceba isso lá pelo final). Ele me lembrou muitas vezes o filme Sonhos, de Kurosawa, só que numa linguagem visual adolescente (mas sem comprometimento algum do roteiro, que é adulto e inteligente). Numa época onde vemos na mídia a transformação de vítimas em vilões e a pregação da intolerância religiosa, é reconfortante ver um filme antenado com essas questões, onde questões étnicas desencadeiam ódio mútuo. Em um dos muitos monólogos do filme, vemos: “Houve um tempo em que nós acreditávamos em Casshern, o espírito guardião. Talvez fosse por isso que vivíamos em paz e prosperamos durante muitos anos. Mas um dia, tudo isso mudou. A desconfiança guiava nossos movimentos. Nos esquecemos de como confiar nas pessoas… Eu acho que Casshern desistiu de nós.”

casshern inimigo

Reflexões aparentemente “banais” como essa só se encontra no cinema japonês… é sempre comum o personagem filosofar antes de morrer (e só morrer de fato quando termina sua linha de raciocínio!), então é o tipo de narrativa onde a filosofia está intrinsecamente ligada à experiência visual e sonora (muuuuuito diferente do superficial cinema norte-americano e um pouco diferente do ritmo estagnado do cinema europeu). O diretor é originário dos videoclipes, e aplicou estupendamente o uso de metalinguagem para, em algumas cenas, passar 3 ou 4 mensagens (aspectos) diferentes quase que simultaneamente! Só isso já valeria a assistida por quem é apaixonado por cinema. Há também inclusões de cenas com massinha de modelar, desenho animado (em um trecho reminiscente de The Wall, do Pink Floyd) e a mescla da identidade visual norte-americana dos anos 20 com a do período soviético.

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Outra coisa que o cinema japonês nos proporciona é não existir heróis nem vilões. Os papéis não só se invertem (isso até o cinema norte-americano já usa) mas flutuam o tempo todo. São pessoas como nós, sujeitas a erros e acertos.

O filme é difícil de achar, talvez não tenha em streaming,, por isso o melhor é procurá-lo nos programas de torrent. Eu cheguei a fazer uma legenda pra ele em 2005, quando era um arquivo dividido em duas partes, porque a tradução era muito porca e neste filme o sentido das palavras é tudo. Vejo com alegria que várias das legendas atuais (que podem ser encontradas aqui) usaram a minha como base.

O filme me tocou de muitas formas… algumas até em particular, já que o personagem principal, assim como eu, tem dificuldade em amar. Mas a mensagem dele ainda está reverberando pelo meu cérebro… deve ter sido por influência disso que abri aleatoriamente o Evangelho Segundo o Espiritismo (coisa que raramente faço, mas hoje me deu uma vontade irresistível) e dei de cara com a seguinte frase:

“Amai, portanto, ao vosso próximo. Amai-o como a vós mesmos, porque sabeis agora que este infeliz que afastais hoje talvez seja um irmão, um pai, ou um amigo de outrora. E qual não será então vosso desespero ao reconhecê-lo no mundo dos Espíritos!
Espero que entendam o que deva ser a caridade moral, aquela que qualquer um pode praticar, porque não custa nada de material e, no entanto, é a mais difícil de se pôr em prática.
Ela consiste em tolerardes uns aos outros. E isto é o que menos fazeis, neste mundo inferior onde estais encarnados no momento.
Há um grande mérito, acreditai em mim, em saber calar-se para deixar falar a um mais tolo. Isto também é uma forma de caridade.
Fazer-se de surdo quando uma palavra de menosprezo escapa de uma boca habituada a zombar, não ver o sorriso desdenhoso que vos recepciona nas casas de pessoas que, frequentemente, sem razão, acreditam ser superiores a vós (quando na vida espírita, a única real, estão algumas vezes bem longe disso), eis um merecimento, não de humildade, mas de caridade, pois não observar os erros dos outros é caridade moral. Entretanto, esta caridade não deve impedir a outra, que é não desprezar vosso semelhante.” (continua aqui)

Coincidência? Não creio… mas, por falar na espiritualidade do filme, devo dizer que estou boquiaberto até agora com o uso que foi feito com o conhecimento pós-morte… vou enumerar algumas passagens do filme, portanto não continuem lendo se não viram ao filme mas pretendem ver:

casshern cartaz
Cartaz do filme

– A mãe cega ouve e sente o filho, mas a noiva não. Claro! A mãe, uma pessoa naturalmente de alta vibração (como vemos no decorrer do filme), estando cega, ficou com a sensibilidade ainda mais aflorada, captando a forma densificada do filho, ainda carregado de energia corporal (o desencarne tinha sido recente)!

– Achei fantástico quando o espírito do cara é atraído (praticamente arrastado) para perto do próprio corpo e começa a passar mal. Isso é explicado na projeção astral, pois o corpo (quando vivo) tem uma área de influência que “encasula” normalmente o espírito (senão seríamos meio avoados), e os projetores relatam que, quanto mais perto dessa área, maior o torpor, a dificuldade de movimentos, etc. No caso o corpo estava morto, mas poderia haver um resíduo ainda grande de energia vital suficiente para causar algumas perturbações.

– Eu achava que não ia chorar, pois estava próximo ao final do filme e suportei bem todas as desgraças, e já estava pensando: “esse povo que viu e chorou é muito molenga”, mas aí chegam as cenas finais e eu… BUUUUUUAAAAAAAA!!!!!!!! …que ódio… detesto chorar. Esse final é fantástico, pois mostra o fim de uma ronda planetária, e a migração em massa para outro planeta mais atrasado, retratado como um paraíso, um Éden, onde esse grupo espiritual pode ter uma nova chance – favorecidos pelo esquecimento – de “encontrar a força para coexistir”…. cara, como eu chorei… deve ter sido alguma lembrança ancestral. 😛

casshern beijo

O filme nos deixa lições preciosas, e deveria (apesar da violência em algumas cenas) ser assistido (e discutido) nas escolas, faculdades de filosofia, grupos esotéricos e por todo aquele que busca a paz, não só fora, mas dentro de si.

Casshern, um dos melhores filmes japoneses!

Referência:
Crítica do Zetafilmes;
Crítica do Omelete;
Entrevista com o diretor Kaz Kiriya;
Informações e Galeria de fotos

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