B.O. DO ALÉM

Recentemente um advogado anexou uma suposta carta psicografada pela vítima ao conjunto de provas a serem examinadas pelo júri no julgamento de Iara Marques Barcelos, em Porto Alegre. O texto da carta é o mais simples possível, não trazendo nenhuma evidência de que seja mesmo da vítima, o tabelião Ercy da Silva Cardoso: “O que mais me pesa no coração é ver a Iara acusada desse jeito, por mentes ardilosas como as dos meus algozes (…). Um abraço fraterno do Erci“, leu o advogado, ouvido atentamente pelos sete jurados.

Na verdade, o que chama mais a atenção é que a carta contêm vários erros de português, inclusive no próprio nome, que foi escrito com i! Nada bom pra um tabelião. Mas isso poderia ser explicado pelo método de recepção. Se o médium tiver mediunidade auditiva, ele vai somente OUVIR o espírito, sendo o cérebro do médium o responsável por processar as palavras, com todos os erros comuns a ele. Mas o que achei chato mesmo foi que a mensagem é vazia, não traz nada que possa identificar o espírito, nem fala algum segredo de família, nada… se essa moda pega, o que vai ter de advogado “psicografando” mensagens…

Por mais estranho que possa parecer, não é a primeira vez que isso acontece na Justiça brasileira (e mundial!). O primeiro (e mais famoso) caso aconteceu justamente com o maior médium do Brasil, Chico Xavier:

O ano era 1979, e na 6ª Vara Criminal de Goiás corria o julgamento de José Divino, acusado de assassinar seu amigo Maurício Garcez Henrique, de 15 anos, em maio de 1976. Dois anos depois, Maurício enviou, através da mediunidade de Chico, uma carta-mensagem à sua mãe, pedindo-lhe que inocentasse o amigo:

“Peço-lhes não recordar a minha vinda para cá, criando pensamentos tristes. O José Divino e nem ninguém teve culpa em meu caso. Brincávamos a respeito da possibilidade de se ferir alguém, pela imagem do espelho: e quando eu passava em frente da minha própria figura, refletida no espelho, sem que o momento fosse para qualquer movimento meu, o tiro me alcançou, sem que a culpa fosse do amigo ou minha mesmo. (…) Se alguém deve pedir perdão, sou eu mesmo, porque não devia ter admitido brincar, ao invés de estudar.”

Maurício Garcez

A mensagem é reveladora. Recria o momento do crime, batendo com as informações da perícia, estava cheio de referências muito pouco conhecidas da família, e ainda continha a assinatura de Maurício no final da mensagem, idêntica a da identidade da vítima.

O juiz de Direito Orimar de Bastos inocentou o réu, levando em consideração, entre outras peças dos autos, a carta psicografada por Chico Xavier. Consta da sentença os seguintes tópicos:

“Lemos e relemos depoimentos das testemunhas, bem como analisamos as perícias efetivadas pela polícia, e ainda mais, atentamos para a mensagem espiritualista enviada do além, pela vítima, aos seus pais. (…) Temos de dar credibilidade à mensagem de fls. 170, embora na esfera jurídica ainda não mereceu nada igual, em que a própria vítima, após sua morte, vem relatar e fornecer dados ao julgador para sentenciar.”

In dubio pro reo, ou seja, “em dúvida, interpreta-se a favor do réu“. É a máxima do Direito Romano, para que não se cometam injustiças. O Ministério Público entrou com recurso, contestando o julgamento, mas o resultado foi posteriormente confirmado por um júri.

“Tenho a convicção de que fiz justiça” – declarou Orimar de Bastos, que não é espírita e na ocasião sofreu perseguição dos colegas de profissão. “Não foi propriamente a carta que nos deu subsídios para julgar. Porque nos autos constam provas, evidências de que o acusado não agiu, no meu entender, na análise das provas inseridas nos Autos, nem com dolo, nem com culpa. Depois de analisar essas provas, de poder observar as perícias efetuadas pela Polícia, nós deparamos também com aquela carta psicografada. Foi justamente ela que nos deu um pequeno subsídio”. O juiz, hoje aposentado, contou um fato curioso por ele vivido ao redigir a primeira sentença:

“Havia batido à máquina as considerações iniciais e me lembro de ouvir o relógio da cidade (Piracanjuba) bater 21 horas. Não sei se entrei em transe, mas, quando dei por mim, estava escutando as badaladas das 24 horas. E a sentença estava pronta. Não me recordo de ter redigido nada. Levei um susto. Havia escrito, além das três páginas das quais me lembrava, seis sem sentir. E quando a gente batia à máquina, era comum cometer alguns erros de datilografia, mas nas últimas folhas não havia nenhum. Fiquei intrigado e resolvi ir embora. No dia seguinte, ao me sentar no ônibus para reler a sentença antes de pronunciá-la, acabei dormindo. Eu havia absolvido o rapaz” – revelou.

A explicação para o fato, inclusive sobre o seu envolvimento nos dois casos, só veio depois, quando se encontrou com Chico Xavier. O médium mineiro psicografou uma mensagem do juiz Adalberto Pereira da Silva, desencarnado em 1951, na qual revelava a Orimar que a sua transferência para Goiânia havia sido planejada pelo Plano Espiritual, para que também pudesse atuar no caso do Divino.

O ex-juiz hoje ministra palestras em Goiânia sobre o caso e se prepara para lançar um livro no qual contará a história de sua decisão.

Chico Xavier, ao ser perguntado se achava que a Justiça poderia vir a se utilizar mais de mensagens do Além, respondeu:

“Eu creio que uma pergunta desta deveria ser endereçada às autoridades do Poder Judiciário, e não a mim que sou apenas um pequeno companheiro de nossas experiências do dia-a-dia. Agora, falando do ponto de vista não apenas de espírita, mas também de cristão, eu me recordo de que o ponto básico da Doutrina Cristã é o da ressurreição de Nosso Senhor Jesus Cristo. Isto é, Nosso Senhor Jesus Cristo venceu a morte e nos deu a mensagem da Vida Eterna. Então, como cristão eu acredito que se a mensagem de alguém, que se transferiu para a Vida Espiritual, demonstrar elementos de autenticidade capazes de interessar uma autoridade humana, essa mensagem é válida para qualquer julgamento.”

Apesar de tudo, o pai de Maurício – em seu íntimo – ainda não conseguia aceitar tal versão. Assim, no dia 12 de maio de 1979, véspera do dia das Mães, Maurício volta a se comunicar, através de Chico Xavier, e escreve uma frase endereçada a cada familiar. Para o seu pai escreve apenas: “Peça a meu pai para que, no íntimo aceite a versão que forneci do acontecimento que me suprimiu”.

Entrevista com a diretora e roteirista do documentário As Cartas Psicografadas por Chico Xavier, Cristiana Grumbach (parte 1), (parte 2), (parte 3)
The History Channel – As Cartas Psicografadas por Chico Xavier

Referência:
As cartas de Chico Xavier;
Universo Espírita – O acidente fatal;
Universo Espírita – Maurício testemunha do além;
Universo Espírita – O julgamento;
Universo Espírita – Repercussões da absolvição no país e no exterior;
Universo Espírita – Repercussões da absolvição no mundo espiritual

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