QUANDO O DISCÍPULO ESTÁ PREPARADO O MESTRE APARECE

Quando o discípulo está preparado o Mestre aparece

Este aforismo esotérico nos mostra que estamos SEMPRE preparados para o que nos acontece, mesmo que não nos apercebamos disso. Às vezes reclamamos que o Destino nos pôs uma cruz muito pesada pra carregar, declinamos de certos compromissos com a desculpa de “não estou preparado” e adiamos nossa reforma espiritual para alguma encarnação em que você possa parar no Tibet ou Índia, com o pensamento de que “No inferno que é a vida na cidade grande é impossível viver em comunhão espiritual com Deus”.

Da mesma forma, não existe sofrimento desnecessário. Um artigo interessante explica o mesmo ditado do ponto de vista do Aikidô, e nos lembra que o prazer desvirtua e que sofrimento é necessário, se quisermos aprender a dar valor ao que conquistamos. Uma vitória em que você consegue se superar dá muito mais satisfação do que uma em que você apenas supera os outros com facilidade. E não há superação sem sacrifício, disciplina, amor e confiança no que se faz.

O SOFRIMENTO INDISPENSÁVEL

Por Wagner Bull

Todos procuram o prazer, e tentam se livrar do sofrimento. Assim quando um titulo como o deste artigo sugere que o sofrimento seja indispensável, muitos podem ficar perplexos e mesmo rejeitarem a afirmação. Principalmente para estes que não aceitam este adjetivo, este artigo é fundamental, pois pode modificar a forma do individuo encarar a vida, seus problemas, suas dificuldades.

O aforisma esotérico “Quando o aluno está pronto o mestre aparece” é perfeitamente compreendido por todos que buscam os mistérios e métodos da evolução espiritual. Muitas vezes, porém o mestre não é uma pessoa, mas um episódio do dia a dia. Para entender o título de nosso artigo vá o leitor à porta de uma escola e observe certas mães e veja quem carrega as mochilas dos alunos. Na maioria das vezes é a mãe, que por um excesso de amor carrega a mochila do filho para poupá-lo do esforço, e quando chega à porta da escola a mãe tem que correr atrás dele para entregar-lhe a mochila, pois este, ávido em encontrar-se com seus colegas, acaba se esquecendo de que tem que levar seu material junto.

Observe depois que é a mãe que segura o filho para dar-lhe um beijo de despedida, pois raramente o filho é que tem a iniciativa de beijar a mãe. Por que o filho não beija a mãe? Qualquer ser humano normal, ao separar-se de alguém, pelo menos por boas maneiras se despede. Os enamorados beijam-se tão demoradamente nas despedidas que às vezes é impossível saber se estão se encontrando ou se afastando.

Portanto a conclusão óbvia é que o filho não procura beijar a mãe na despedida porque não usufruiu tão prazeirosamente de sua companhia como a que o espera com os companheiros da escola. Em outras palavras, é aí que está o problema sério da questão, ou seja, o filho não reconheceu a ajuda que a mãe lhe deu, e portanto não sentiu “Kancha” (gratidão), aspecto este tão importante no treinamento do Aikido e na vida. Ajudar o filho é um nobre ato de amor que nenhuma mãe se furta, mas se não ficar claro na relação que a mãe está ajudando o filho por que gosta dele, ele pode entender que é obrigação dela e daí não sentir a necessidade da gratidão. E assim a situação acaba se perpetuando, com a ideia de que é o filho que vai a escola para se divertir e estudar, mas quem deve carregar a mochila é a mãe.

Esta é uma das melhores maneiras de ensinar a um filho a não assumir responsabilidades na vida por seus atos e obrigações. E o pior, aprendido este modelo, o filho começa a pensar que sua finalidade na vida é desfrutar dos prazeres, e que aos pais compete realizar as coisas desagradáveis e penosas que este prazer exige, causando uma profunda distorção em sua maneira de encarar a vida, pois certamente vai extrapolar esta exigência para as demais pessoas com as quais se relaciona. Assim o filho se transforma em “filhinho de papai”, o os pais se sufocam, muitas vezes deixando de desfrutar de horas para si de prazer ou descanso, se sacrificando pelos filhos, achando que estão lhe fazendo bem, quando na verdade estão lhe trazendo grande infelicidade no futuro.

Certamente o filho esperará da esposa, no futuro, servilidade similar, trazendo invariavelmente divórcios e filhos abandonados, educados sem a presença imprescindível da paternidade ou da maternidade. Nesta forma vai se organizando na mente da criança uma falta de ética, em que o respeito a quem o ajuda passa a não existir e a responsabilidade pelos proprios compromissos a se diluir. Quem não respeita a mãe não vai respeitar o pai, o professor, autoridades sociais, ou qualquer ser vivente. Carregar a mochila do filho é poupar-lhe o sofrimento, e não permitir que o filho sofra para que possa ter prazer é um dos maiores erros que os pais cometem na educação dos filhos. Sem o sofrimento não pode existir o prazer, e isto precisa ficar bem claro pois é uma lei na natureza, a de que um extremo sempre traz o outro. Buda enxergou este ponto e ensinou as pessoas de que, se buscarem apenas o prazer, terão certamente infelicidade e frustração. A vida exige qualidade, ética, liberdade e responsabilidade.

Ainda bem que nossa psique é plástica e os comportamentos podem ser mudados a qualquer momento desde que estejamos realmente mobilizados para isto. As pessoas que amamos podem ser ajudadas em suas dificuldades através de conselhos orientativos, ou ações diretas, mas é fundamental que fique claro para eles que a carga, a responsabilidade, é delas, e inclusive as duras consequências que podem advir de um eventual mau desempenho. Os professores, patrões e os líderes de grupos devem ser como aquela mãe que entrega toda a mochila para o filho carregar, e depois de este se esforçar muito em carregar o peso e não estar conseguindo, ele se volta para a mãe e pede: “Mãe, me ajuda?”. Esta é a hora sagrada que Deus arrumou para a mãe realmente ensinar a seu filho, que o ama, e que se ele quiser ser alguém na vida tem que se esforçar muito e saber respeitar e manter grandes amigos, pois sem a solidariedade e a cooperação mútua pouco pode um homem realizar.

Por esta razão, no Dojo de Aikido os verdadeiros Sensei são duros, exigentes, e procuram levar seus “deshi” (alunos) no limite de seus esforços em um “Shugyo” (treinamento austero), purificador. Muitas pessoas chegam ao dojo porque buscam uma maneira de conseguir se adaptar melhor no meio em que atua, visto ser o Aikido um caminho de integração e harmonia, e estes em grande parte têm dificuldade em se harmonizar, porque não têm o sentimento de gratidão, de responsabilidade e de compromisso ainda desenvolvidos em si. O mestre tem que ser duro com estes. Nem todos aguentam e desistem, culpando o sensei de ditador, sádico, ou agressivo. Mal sabem estes que lhes foi oferecido um remédio poderoso, para curar suas maiores feridas, e estes, em sua ignorância, o recusaram. Por isto é fundamental no Budô a escolha do mestre adequado, mas uma vez escolhido, deve-se ir com ele até o fim. Somente desta forma haverá progresso.

Quando o mestre tem que ser político para manter seus alunos, o verdadeiro treinamento acaba aí. “Feliz os que sofrem, pois estes serão consolados“, disse Jesus no Sermão da Montanha, um de seus mais belos ensinamentos impregnado da filosofia oriental que o Aikido também ensina.

O segredo do Aikidô é harmonizar-nos com o movimento do universo e nos colocar em relação direta com o universo em si, quando um inimigo tenta lutar comigo, o universo em mim mesmo, ele terá que quebrar a harmonia do universo, no momento em que ele se decidir lutar comigo, já estará derrotado.

(Filosofia Aikidô)
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