ADULTERAÇÃO DA BÍBLIA

Uma coisa que tem sido muito popular entre as novas denominações cristãs é o uso de versões da Bíblia adaptada a uma linguagem mais, digamos… atual. O que deveria ser louvável (afinal, leva a palavra da Bíblia a uma gama muito maior de pessoas) acaba sendo sofrível e perigoso. Sofrível porque as traduções antigas já não são das melhores, e com base nelas o teor da mensagem fica ainda mais superficial. E perigoso porque os tradutores acrescentam, alteram e omitem coisas ao seu bel prazer, provocando conflitos com outras religiões.

Temos um bom exemplo em Levítico 19:31:

Não vos voltareis para os necromantes, nem para os adivinhos; não os procureis para serdes contaminados por eles: Eu sou o Senhor vosso Deus.

Bíblia da Sociedade Bíblica do Brasil (1969)

Segue-se agora um trecho de uma tradução católica, onde vemos a alteração:

Não vos dirijais aos espíritas nem aos adivinhos: não os consulteis, para que não sejais contaminados por eles.

35ª edição do Centro Bíblico Católico, publicado pela editora Ave Maria

Um verdadeiro crime de intolerância para com todos os espíritas. E ainda existe gente que recita isso e diz: “tá na Bíblia”, com um ar imponente. Se esquecem de a Torah (Nome original em hebraico para o Velho Testamento) é um conjunto de Leis para o povo hebreu que tem uns 3 a 5 mil anos, assim como a Constituição é a Lei para nós hoje. Esquecem que o contexto e tradições daquele época eram outras, e simplesmente “esquecem” de estudar história, se limitando a repetir trechos fora de contexto como se fosse um papagaio. Viram presa fácil para enganadores, como os que traduzem e adaptam erroneamente a Bíblia.

Vejamos o Deuteronômio 18:9-11, em uma tradução fiel ao hebraico:

Quando entrares na terra que Iahvéh, teu Deus, te dá, não aprendas a fazer as abominações daquelas nações. Não se achará em ti quem faça passar seu filho ou sua filha pelo fogo; nem encantador, nem feiticeiros, nem agoureiro, nem cartomante, nem bruxo, nem mago e semelhante, nem quem consulte o necromante e o adivinho, nem quem exija a presença dos mortos.

Deut 18:9-11. Tradução de Severino Celestino da Silva

Já na tradução de 1969 (mais “mastigada”) dessa mesma passagem, vemos as deturpações:

Não se achará entre ti quem faça passar pelo fogo o seu filho ou a sua filha, nem adivinhador, nem prognosticador, nem agoureiro, nem feiticeiro; nem encantador, nem necromante, nem mágico, nem quem consulte os mortos.

Deut 18:9-11. Bíblia da Sociedade Bíblica do Brasil (1969)

A classe dos mágicos foi “condenada” por Deus, quem diria… eles devem ter reclamado, pois tiraram da “versão” atual (substituíram por magia, que dá a idéia de poder sobrenatural). Mas ainda assim não resistiram ao poder de deturpar a passagem para que se enquadrasse aos propósitos vis da Igreja nas últimas duas décadas, que é combater mais descaradamente toda e qualquer forma alternativa de pensamento religioso:

Quando tiveres entrado na terra do Senhor, teu Deus, não te porás a imitar as práticas abomináveis da gente daquela terra. Não se ache no meio de ti quem faça passar pelo fogo o seu filho ou a sua filha, nem que se dê a adivinhação, à astrologia, aos agouros, ao feiticismo, à magia, ao espiritismo, à adivinhação ou à evocação dos mortos…

Deut 18:9-11. Atual, versão Católica

Agora a condenação recai sobre os astrólogos e espíritas… incrível, não? Afinal, será que Moisés está vivo em algum lugar do Vaticano, adaptando o “código de leis” ou foi um tradutor revestido diretamente pelo poder de Deus? Quem sabe o Papa? O fato é que a Igreja está gerando um mal, que é a intolerância, e manipulando descaradamente os seus seguidores. Na mesma Bíblia podemos achar a passagem “Amai uns aos outros como eu vos amei“. Será que ela não significa nada? Quem sabe quanto tempo ela durará até ser adulterada?

Infelizmente tem mais. No original hebraico de Levítico 20:6, vemos:

Contra esse ser (alma) que vai diante dos necromantes e dos adivinhos para se prostituir seguindo-os, eu os darei as minhas faces e eu o cortarei de dentro do meu povo.

Lev 20:6. Tradução de Severino Celestino da Silva

Já na “bíblia” da ed. Ave Maria está:

Se alguém se dirigir aos espíritas e adivinhos para fornicar com (!) eles, voltarei o meu rosto contra esse homem e o cortarei do meio de seu povo.

LEV 20:6. Editora Ave Maria

Mas o pior está na “bíblia” traduzida para as Testemunhas de Jeová, 1ª edição de 1967:

Quanto à alma que se vira para os médiuns espíritas (!) e para os prognosticadores profissionais de eventos (?), a fim de ter relações imorais com eles, certamente porei minha face contra essa alma e deceparei dentre seu povo.

LEV 20:6. Testemunhas de Jeová

Essa certamente ganhou o prêmio Saindo da Matrix de melhor tradução! Ainda mais porque as palavras “médium” e “espírita” foram criadas por Allan Kardec em 1857 DEPOIS de Cristo, com a publicação de O livro dos espíritos.

Em Mateus 9:13 há um exemplo de tradução em que a omissão de UMA palavra altera todo o sentido da missão de Cristo:

Ide, pois, e aprendei o que significa: Misericórdia quero, e não sacrifícios. Porque eu não vim chamar justos, mas os pecadores à repetência.

Mat 9:13. Tradução de Severino Celestino da Silva

Uma passagem importantíssima que define a missão de Jesus e explica que a Terra é um verdadeira escola-reformatório, onde os pecadores (e quem não tiver pecado que atire a primeira pedra) repetem de ano. REPETEM, dando uma idéia de continuidade, e casa perfeitamente com o que se aprende na doutrina espírita, que viemos de outros orbes para botar em prática aquilo que já deveríamos estar fazendo há muito tempo: amar uns aos outros.

Apenas a retirada dessa palavrinha (encontrada em outras versões, como a Analítica-Literal) muda todo o sentido da missão de Cristo, porque ele não veio pra perdoar nossos pecados, e sim nos ensinar como fazer o certo. Não veio nos dar peixe, mas nos ensinar a pescar. Até hoje as pessoas ficam tentando converter as outras com “Aceite Cristo para se livrar dos pecados”, “Alcance a salvação!” Isso é ridículo! Exemplo de uma mentalidade infantil e da crença na lei do menor esforço. Resquício da Igreja feudal, que lhe garantia a absolvição por meio de pagamentos, rezas ou troca de favores, em que você mantinha-se submisso ao poder da Igreja em troca da garantia de ter seus pecados perdoados.

Outro absurdo é a “salvação”. Salvação de que? Do inferno? Do pecado original? Se for salvação da ignorância que nos coloca como indivíduos, separados um do outro, eu concordo inteiramente, mas o que se vê são as pessoas vendendo a idéia de “filie-se ao meu clube / seita / culto / igreja / ordem para obter a verdade e ser salvo, porque se você não está comigo, está com o capeta / trevas / ignorância”. Pague e seja salvo…

bandeira da espanha Ler em espanhol (por Iván Lavilla)

Referência:
Espiritismo e judaísmo;
Analisando as traduções Bíblicas (Severino Celestino da Silva);
Outros exemplos de adulteração do evangelho (inglês);
Traduções mentirosas da Bíblia

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