50 ANOS DO POUSO NA LUA

Astronauta na Lua

Hoje vamos falar sobre heróis. E foguetes. E sobre heróis em cima de foguetes. Mais especificamente sobre o programa Apollo, e o quão sortudos os norte-americanos foram por ir pra Lua e voltar sem um arranhão.

Em 20 de julho de 1969 o homem pisou na Lua. Quase que exatos 50 anos atrás. É um momento histórico que nunca foi igualado por nenhum outro país, e depois dos anos 70 nem mesmo pelos Estados Unidos. Até hoje as pessoas se perguntam: por que nunca mais voltamos à Lua?

É de conhecimento comum que as idas do Ser humano à Lua terminaram por desinteresse do público, porque virou uma coisa tão constante que não interessava mais, e cortaram os fundos da NASA por isso. Não é toda a verdade, mas SIM, o público perdeu o interesse, e a NASA precisava de muitos recursos (400 mil pessoas trabalharam pra conseguir esse feito), mas tem uma questão aqui que não é mencionada: ir pra Lua é um troço MUITO arriscado.

Quando o presidente Kennedy deu seu famoso discurso no Texas dizendo “Nós decidimos ir à Lua. Nós decidimos ir à Lua nesta década e fazer as outras coisas, não porque são fáceis, mas porque são difíceis.” ele estava dando a real pro país. E ele deu um prazo de 8 anos apenas para realizar este feito, o que é muito pouco. No mesmo discurso ele mostra os desafios à frente:

“Vamos mandar para a lua, a 386 mil quilômetros de distância da estação de controle em Houston, num foguete gigante de mais de 91 metros de altura, o comprimento deste campo de futebol, feito de novas ligas metálicas, algumas das quais ainda não foram inventadas, capazes de suportar o calor e estresse várias vezes maiores do que jamais enfrentamos, unidos com uma precisão melhor do que o melhor relógio, carregando todos os equipamentos necessários para propulsão, orientação, controle, comunicações, alimentação e sobrevivência, em uma missão não testada a um desconhecido corpo celeste, e depois retornar com segurança para a Terra, reentrando na atmosfera a velocidades de mais de 64 mil quilômetros por hora, causando um calor de cerca de metade da temperatura do sol – quase tão quente como é aqui hoje – e fazer tudo isso, e fazer bem, e fazer isso antes que esta década termine – então devemos ser ousados.”

John F. Kennedy

Ele estava certo. Mas, por que fazer isso? Qual o ganho? E ele continua:
“O crescimento da nossa ciência e educação será enriquecido por novos conhecimentos do nosso universo e meio ambiente, por novas técnicas de aprendizagem, mapeamento e observação, por novas ferramentas e computadores para a indústria, medicina, lar e escola.”

Um discurso visionário. Até o mais cético precisa reconhecer que o que a NASA botou em movimento naquela década culminou em avanços que refletiram não só na ciência, como na indústria, medicina, na casa e na escola. A roupa de astronauta com resfriamento líquido foi adaptada para o uso de vítimas de queimaduras. O LASIK. O respirador usado pelos bombeiros foi tornado mais leve graças à NASA. O sensor CMOS que está em TODAS as câmeras de celulares foi a NASA que inventou. O Teflon é um mito, já que ele foi criado em 1938, e o velcro foi criado nos anos 40. Mas a NASA tem mais de 2000 patentes que são usadas até em creme de beleza, e tem um site só pra mostrar os benefícios disso tudo.

Mas esse avanço vem com um preço. Um preço não só em dinheiro, como em VIDAS. E isso ficou claro logo no início do programa, com a missão Apollo 1, que matou todos os seus tripulantes AINDA EM TERRA, em um dos inúmeros testes que faziam. Praticamente todas as missões que foram em direção à Lua tiveram problemas que poderiam ter abortado a missão, quando não matado toda a tripulação. Isso é um fato que precisa estar na mente de toda essa geração de floquinhos de neve de hoje de que exploração espacial é sempre um RISCO.

Comecemos com Apollo 8, o primeiro foguete a ir pra Lua (no caso circundar e voltar pra Terra sem pousar): O comandante Jim Lovell, cansado, cometeu um erro que fez o nariz da capsula subir e perder toda a orientação. Ele teve de se guiar pelas estrelas (como os antigos navegantes faziam) e recalibrar os computadores pra voltar pro curso:

Apollo 9 não foi à Lua, ficou circundando a Terra apenas pra testar o desempenho do módulo Lunar no espaço.

Já com a Apollo 10 quase que o módulo lunar se choca com a superfície da Lua, e por conta de 2 segundos hoje não temos dois cadáveres repousando por lá.
O plano envolvia planar sobre a Lua e testar o módulo. Eles desceram até uma altitude de 14km da Lua. Daí eles tinham de separar em pleno ar as pernas da cápsula (que numa missão normal ficaria pousada na Lua) pra voltar pro módulo de comando. Veja o quão perto eles estavam da superfície:

apollo 10 Lua

No momento da separação eles perderam o controle da nave e começaram a rodar. Por sorte o comandante conseguiu recuperar o controle. Mais tarde a NASA fez os cálculos e descobriu que eles estiveram a 2 SEGUNDOS de se chocar com a superfície da Lua.

Apollo 11 foi a Missão que efetivamente pousou na Lua. Pareceu perfeita, e tal, mas tem uma historinha que não é muito contada, que foi na hora de deixar a Lua e voltar pro módulo de comando (ou seja, se separar das perninhas), os astronautas sem querer quebraram a chave de partida!! Que fazer?
Uma opção era esperar o oxigênio acabar e morrer na Lua como heróis. Inclusive a NASA tinha pensado nisso e dado aos astronautas uma cápsula de cianureto cada pra abreviar a morte, e uma carta já estava PREPARADA na mesa do presidente dos EUA pra ser lida nesse caso.
A outra opção era dar um jeito. E foi exatamente o que fez Buzz Aldrin (a inspiração pra Buzz Lightyear!). Ele pegou um lápis e meteu no buraco onde antes havia o interruptor quebrado. E funcionou, eles voltaram pra casa e não se fala mais disso, pois os EUA não podem falhar.

A missão Apollo 12 era pousar no “Oceano das Tormentas” (que nome!). E a decolagem foi no meio de uma tempestade, literalmente. Tanto que 2 RAIOS atingiram o foguete Saturn V enquanto ele estava lá no alto. Isso enlouqueceu todos os instrumentos. Ninguém na nave nem no controle de terra lia mais nada. Ninguém sabia o q fazer. Já iam abortar a missão, quando UM cara da NASA, que havia passado por isso em uma das inúmeras simulações 1 ANO ANTES, disse “Tente a chave SCE para Aux”. E dá p/ ouvir o Astronauta dizer “Que diabo é isso?”. Eles acharam a chave, e ao fazer isso o sistema de energia voltou a emitir as leituras corretas e deu tudo certo depois disso.

A Apollo 13 todo mundo já sabe a urucubaca que deu, tem filme com Tom Hanks e tudo. Se não sabem vejam esse vídeo aqui:

A Apollo 14 não conseguiu acoplar o módulo de comando ao módulo lunar por DUAS HORAS. O engate simplesmente não segurava. Só depois de 6 tentativas é que conseguiram, usando força bruta (ou seja, usaram os propulsores pra dar um empurrãozinho extra). Mas não foi só. De repente o computador no módulo lunar DO NADA recebeu um sinal para abortar a missão. Com isso o módulo não poderia descer pra lua, pois estava programado pra subir automaticamente nesse caso. Após muitas investigações descobriram que uma partícula de POEIRA tinha se alojado em um interruptor, causando a ativação. Então um programador aqui na Terra teve de reprogramar o computador lá no espaço pra ele ignorar a falha. Mas não foi só. A apenas 5.500 metros acima da área de pouso na Lua o radar de aterrizagem falhou. Por sorte os astronautas conseguiram fazer o equipamento funcionar novamente.

A Apollo 15 correu sem problemas, e eternizou uma linda imagem que é uma homenagem à ciência: O experimento do martelo e da pena, baseado na teoria de Galileu Galilei onde ele diz q todos os corpos são atraídos pela gravidade na mesma velocidade, independente da massa:

apollo 15 cápsula

Pra não dizer que não houve problema com a Apollo 15, na volta pra Terra um dos para-quedas não abriu. Graças a precaução dos engenheiros, o terceiro para-quedas só existe para dar segurança caso um não abra.

Apollo 16 teve dois problemas sérios na viagem: Num, o computador novamente teve de ser reprogramado pra ignorar um alerta. No outro, um problema com um propulsor que causava vibrações incontroláveis quando acionado. Isso pra entrar em órbita na lua! Várias simulações foram realizadas em terra, e conseguiram determinar um jeito de entrar em órbita com os propulsores reserva.

Apollo 17: A última missão à Lua. Obviamente não ficou sem problemas.
A tampa traseira do veículo lunar quebrou, e os astronautas consertaram com fita adesiva, grampos e um mapa lunar. Obviamente não ficou perfeito, e os astronautas tomavam um banho de poeira lunar, o que trouxe toda sorte de problemas:
A poeira penetrava nas juntas da roupa e não deixava flexionar braços e pernas, então outro astronauta tinha de tirar com um pincel. A poeira é abrasiva, e RASGOU 3 camadas de KEVLAR da bota do astronauta Jack Schmitt. Toda a poeira trazida pra dentro da nave pela roupa deu nos astronautas o chamado “Lunar Hay fever”: uma alergia com sintomas de gripe.
No mais foi uma missão recordista, com 12 dias na Lua, 23h de caminhadas, a exploração mais distante já feita na Lua, e a maior quantidade de pedras lunares trazidas pra Terra.

Esse texto todo é pra deixar claro que não é brinquedo ir pra Lua e voltar. Uma vez que você sai da órbita da Terra não tem como dar “meia volta” numa nave: você vai ter de circundar algum corpo celeste para poder usar a gravidade dele pra voltar. E o mais próximo é a Lua. Distante 3 dias. Muita coisa pode dar errado, como vocês viram que DEU. E a opinião pública é muito sensível a mortes. Após 2 acidentes com o ônibus espacial norte-americano o mesmo foi aposentado em 2011 e desde então não tivemos decolagem de astronautas a partir dos EUA até hoje!

Agora a NASA está construindo um novo foguete para ir pra Lua de novo em 2024. Aliás, está construindo desde 2005 e entra governo e sai governo o foguete nunca termina e sempre exige mais dinheiro. Mas dessa vez o Trump disse que TEM de colocar o homem na Lua de novo, dessa vez pra ficar (a idéia é fazer uma base avançada por lá pra futuras missões pra Marte). E dessa vez o grande chamariz é fazer pisar pela primeira vez uma mulher na Lua. Por isso mesmo o programa espacial vai se chamar Artemis – o nome grego de Diana, a deusa da Lua, irmã de Apollo, a Mulher Maravilha, ela mesma. Graças a isso veremos uma nova corrida espacial, entre os possíveis fabricantes de foguetes que querem ser ELES a levarem uma mulher à Lua. Tem o “SLS” da NASA, fabricado em conjunto pela Boeing, ULA e outros, tem o “Spaceship” da SpaceX (do Elon Musk), tem o “New Glenn” da Blue Origin (do criador da Amazon) e vai ser emocionante ver esses foguetes gigantes sendo lançados.

Mas se preparem. Se algo der errado (como deu no passado, com a Apollo 1) vai ser grande a gritaria pra dizer “Cancela tudo” (hoje é tudo assim com esse povo), mas precisamos continuar se quisermos evoluir não só tecnologicamente mas como humanidade! Explorar e habitar outros planetas é essencial se quisermos evitar a extinção da raça humana. Basta um asteróide como o que aniquilou os dinossauros para acabar conosco (a chance disso ocorrer é relativamente pequena, mas é uma aposta com toda a humanidade!).

Veículos espaciais são uma tecnologia de ponta que está sempre no limite do risco. Quem constrói e quem está dentro desses veículos são verdadeiros heróis, que estão arriscando a vida a cada dia que permanecem no espaço, sujeitos a radiação, problemas orgânicos causados pela falta de gravidade, riscos de incêndio, de ficar sem oxigênio, de ser queimado, congelado, ou ambos ao mesmo tempo, e fazem tudo isso em nome da aventura, do desconhecido, e principalmente pela CIÊNCIA, pra levar a humanidade pra mais longe, como no seriado Star Trek. Vamos pra MARTE! Não podemos desistir com os fracassos, que certamente virão.

Bônus: Vídeo sobre a Guerra Fria e a corrida espacial com a União Soviética
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