A REVOLUÇÃO PLAYSTATION

Tenho uma grande admiração por pessoas que sonham alto e fazem tudo para levar adiante esse sonho, especialmente quando os sonhos deles impulsionam a humanidade numa direção melhor. Pessoas que lutam praticamente “sozinhas” (num sentido bem amplo) contra as forças estabelecidas, como Dom Quixote contra o moinho. Buda e Jesus, esses dois “lunáticos” que se dissociaram das regras rígidas da religião de seu tempo e sonharam tão alto e tão à frente de seu tempo que ainda estamos tentando perseguir seus sonhos (que sabemos ser possível pois eles foram a personificação do que sonharam). Ford e sua linha de produção de carros, Tesla e seu esforço pra conseguir energia grátis pra humanidade, Gandhi e seu sonho “maluco” de libertar seu país da tirania sem levantar um punho contra alguém, Churchill e a resistência “solitária” contra o nazismo, Steve Jobs e a luta contra a IBM na popularização do computador pessoal.
Posso somar a esse rol um outro sonhador, num aspecto bem mais modesto da vida, o entretenimento, que é o cara do livro que estou lendo agora: Ken Kutaragi. Ele é considerado o Pai do Playstation, e quando comprei esse livro eu tinha certeza de que o título era exagerado, pois conhecendo a mentalidade japonesa, tudo por lá surge do esforço da coletividade, mas ao ler os primeiros capítulos tive certeza de que o cara era um Dom Quixote japonês mesmo.

O livro é “La revolution Playstation” e o autor é Reiji Asakura:

1984. O Nintendinho (8 bit) havia sido lançado 1 ano antes no Japão e ainda levaria 1 ano pra ser lançado nos EUA. Os videogames ainda eram visto como um brinquedo que levou a Atari à falência, ou seja, era um mercado arriscado que estava sendo explorado pela Nintendo com algum sucesso. A Sony já estava estabelecida como uma empresa respeitável e de sucesso no campo do áudio e vídeo (eles inventaram o Walkman, que era sucesso nos anos 80). Kutaragi trabalhava na área de desenvolvimento de tecnologia de dados da Sony e viu a demonstração de um processador gráfico de ponta, o System G, que não só fazia objetos 3D em tempo real como ainda adicionava textura a eles! Lembrando que em 1984 a Apple estava lançando o primeiro computador pessoal com interface gráfica (2D, em preto e branco) e o Nintendinho só podia exibir 12 cores na tela ao mesmo tempo. O System G era tão inovador (e possivelmente tão caro) que só uma emissora de televisão, a Nippon TV, tinha ele pra fazer suas vinhetas. Quando Kutaragi viu aquilo só pensou em combinar esse processador a um Nintendo. E esse pensamento o acompanhou durante uma década!

Como fabricantes de componentes, a Sony sempre enviou representantes à Nintendo pra vender seus produtos, e numa dessas visitas Kutaragi foi junto aos técnicos e tentou convencer os executivos a formar uma parceria com a Sony. A Nintendo pareceu interessada. A Sony não. Kutaragi era visto como a ovelha-negra da Sony pois apostava no avanço digital, quando quase todo o quadro da Sony estava estabelecido no domínio do analógico (anos 80, lembrem-se!). Como chefe do departamento de pesquisa, ele via à frente do seu tempo, mas a mentalidade da época era rígida e difícil de combater.

Então em 1986 Kutaragi deu um primeiro passo em direção ao seu sonho quando conseguiu convencer a direção da Nintendo a incorporar um processador de som PCM, da Sony, ao sucessor do Nintendinho, o Super Nintendo (que só iria ser lançado em 1990! – Vejam só como os caras planejam à frente). A Nintendo queria colocar um som FM, igual ao Mega Drive, e se não fosse Kutaragi seria tecnicamente impossível fazer a trilha sonora espetacular de Actraiser, Castlevania ou a de Final Fantasy 6.
O sucesso dessa discreta parceria abriu mentes e portas e em 1989 (o Mega Drive ainda estreava nos EUA) Kutaragi conseguiu convencer as duas empresas a fazerem conjuntamente um adaptador CD-ROM pra o futuro Super Nintendo (que nem tinha sido lançado ainda!) e um leitor CD-ROM com o hardware do SNES integrado, fabricado pela Sony. O desenvolvimento do projeto se iniciou em outubro de 1989 e foi apelidado por Kutaragi de “Playstation”.
Por mais de um ano a Sony trabalhou no projeto, só que em maio de 91, no dia em que Kutaragi iria visitar o presidente da Nintendo pra tratar de negócios, a Sony soube da traição covarde por meio de boatos: a Nintendo havia trocado a Sony (uma empresa japonesa) pela Phillips (uma empresa holandesa) pra fazer o CD-ROM do SNES.
Temendo que o CD-ROM integrado da Sony fizesse mais sucesso que o acessório da Nintendo e tirasse os holofotes da empresa (dando à marca “Sony” uma associação imediata com videogames) a Nintendo quebrou o contrato e manchou sua honra, uma coisa gravíssima na mentalidade japonesa. A Nintendo enrolou a Sony o quanto pôde, e deu a ela a alternativa de lançar simplesmente um Super Nintendo que lê discos em CD, mas sem ser um avanço multimídia como eles estavam planejando (tanto que, tempos depois, a Phillips lançou seu CD-ROM feito em parceria com a Nintendo e foi um fracasso, pois a Nintendo não lançou seus jogos pra ela – apenas uma versão horrível de Zelda, mostrando que a Nintendo não queria realmente nenhum outro fabricante associado a videogames).

Frustrado, abatido, Kutaragi se viu sem seu projeto dos sonhos. E o pior, a Sony acusou o golpe e a reação dentro da empresa foi de “nem devíamos ter entrado nessa porcaria de mercado de videogame mesmo, bem que eu falei”.
Kutaragi poderia ter ficado chorando em posição fetal mas, contra tudo e contra todos, encampou a idéia de levar adiante o projeto sozinho (só a Sony, que não tem NENHUMA experiência tanto em fazer consoles quanto jogos de videogames, e cuja única experiência em microcomputadores se resumia ao MSX).

Em junho de 1992 ele foi a uma reunião com o presidente da Sony Norio Ôga e a alta direção da empresa pra tratar do assunto Playstation. A maioria esmagadora dos membros estava disposta a abandonar o projeto. Quando chegou sua hora de falar, Kutaragi disse:
– Pelo que foi dito aqui, temos 3 opções: fazer um console 16-bit compatível com Nintendo, fazer nosso próprio console ou sair do mercado. Acredito na segunda opção.
– E o que faz crer nisso? – Perguntou o presidente da Sony
– Nós faríamos um console com gráficos 3D que seriam impossíveis pra Nintendo rivalizar.
(Lembrando que só em 93 saiu Starfox, o primeiro jogo de videogame caseiro com polígonos 3D, sem textura e muito limitado).
– E de quantos transistores num chip você precisa pra isso?
– 1 milhão de transistores.
O presidente começou a rir
– 1 milhão? Ha! Isso é impossível! O máximo que podemos fazer é 20, 30 mil transistores. 100 mil no máximo!
Mas Kutaragi havia feito pesquisas e sabia que a meta de 1 milhão de transistores num chip não era algo impossível. Difícil, mas não impossível. E ele sabia, pela sua experiência com o System G, que a Sony era capaz de desenvolver um processador de imagens em 3D. Ele falou com convicção ao presidente da Sony, e acrescentou: “O Sr. vai simplesmente deixar pra lá e aceitar o que a Nintendo nos fez?”

Kutaragi usou essa frase diversas vezes em sua fala, pra deixar o presidente Ôga colérico, e conseguiu. Ao final, exortou o presidente a tomar uma decisão.
Incapaz de controlar sua fúria, Ôga exprimiu:
– Se você está sendo verdadeiramente sincero, me prove que isto é possível!
E cerrando o punho, o presidente bate na mesa e exclama em inglês mesmo, no que se tornou uma frase emblemática:
– DO IT!

Por conta da oposição interna, Kutaragi teve de fazer o Playstation dentro da divisão de música da Sony (entidade com financiamento exclusivo), provavelmente pra não irritar os investidores da Sony Electronics caso o videogame fosse um fracasso. Foi criada assim a Sony Computer Entertainment. Kutaragi teve de recrutar os poucos artistas que trabalhavam com imagens em 3D no Japão (um mercado que ainda engatinhava) e montar do zero não só uma nova equipe de fazer jogos como uma equipe pra fazer NOVOS tipos de jogos, numa mudança violenta de paradigma (todo o mercado de videogames estava estabelecido em 2D, e só em agosto de 1992 é que apareceria o primeiro jogo todo feito em 3D, Virtua Racing).

Em 1994 Kutaragi e sua equipe transformaram o Playstation em realidade, e a Sony desbancou em pouco tempo a Nintendo e o Playstation se tornou o primeiro console a quebrar a marca de 100 milhões de unidades vendidas, e seu sucessor (Playstation 2) se tornou o videogame mais vendido da história, consagrando a novata Sony como uma das maiores fabricantes de videogames de todos os tempos. Tudo isso por causa do sonho e da perseverança de uma única pessoa.

Isso nos mostra que a Revolução só foi possível por causa de uma idéia, aliada à perseverança e ao apoio das pessoas certas na hora certa. Lembrando que o apoio nem sempre surge de imediato, por vezes as forças contrárias nos vencem e parece que nunca vamos conquistar nossos objetivos (chamo isso de “o inverno da vida”), mas no tempo certo as coisas podem florescer (“a primavera da vida”), se não deixarmos de fazer o que viemos fazer de melhor (nosso Dharma, ou Verdadeira Vontade). Foi assim com Gandhi. Com Winston Churchill. E com Steve Jobs. É isso que faz estas pessoas, de campos tão diferentes e personalidade tão díspares (um pacifista religioso, um comandante de guerra e um homem de negócios cruel) a se sobressaírem e colocarem seus nomes na história.

Analisamos aqui o macrocosmo, gente que mudou o mundo, mas não podemos esquecer que essa batalha ocorre todos os dias com pessoas que conhecemos ou não, e minha admiração se estende a pessoas como a mãe que move mundos e fundos pra criar os filhos sozinha com a melhor educação, a pessoa da favela que luta contra a situação social e o preconceito e supera as más influências dos “amigos” para poder estudar e se tornar uma pessoa de bem, e muitos outros casos de superação de situações que pareciam impossíveis.

Parabéns àqueles que sonham alto e realizam.

0 0 vote
Avaliação
Subscribe
Notify of
guest
0 Comentários
Inline Feedbacks
Veja todos os comentários

Posts Relacionados

Comece a digitar sua pesquisa acima e pressione Enter para pesquisar. Pressione ESC para cancelar.