KAMIKAZES

Após o final da 2ª guerra o Japão mergulhou no trabalho e no estudo para crescer novamente. Mas uma mancha ficou, assim como nos Alemães: a vergonha pelo que fizeram. Uma vergonha tão grande que enterrou o assunto no subconsciente da população por gerações. Mas finalmente o Japão está revelando ao mundo (e a sua nova geração) um pouco do seu triste papel na 2ª grande guerra mundial. Assim como a Alemanha, o Japão nunca teve motivos nobres para entrar na guerra, e ambos se tornaram odiados pelo modo cruel de conquistar e subjugar a população de outros países. Mas, assim como nem todo soldado alemão era nazista, nem todo japonês era uma máquina de guerra insensível, pronta pra se matar por qualquer motivo levando o máximo possível de pessoas junto.

Os Kamikazes (Ventos divinos) compuseram um dos momentos mais dramáticos e surreais do front no Pacífico, pois em 1944 a guerra estava perdida para o Japão. O núcleo da Força Naval japonesa havia sido destruído em Midway, em 42, e agora agonizava. Os aviões foram então usados como armas, carregados de bombas, para afundar os cruzadores e porta-aviões norte-americanos. Eles se inspiraram em uma história antiga em que um tufão, por DUAS vezes (em 1274 e de novo em 1281) dispersou os navios e impediu a invasão mongol do Japão. Natural que em 1944 os japoneses invocassem a imagem da sua força aérea como um Tufão (um “Vento Divino” / Kamikaze) para impedir a invasão do Japão pelos Estados Unidos.

Foi muito bem documentada a ousadia e determinação com que os aviões Zero mergulhavam para a morte em cima dos porta-aviões norte-americanos em meio a uma nuvem de balas. Os 2.198 pilotos que jogaram seus aviões contra o inimigo eram todos voluntários; a lista de candidatos a Kamikaze foi sempre maior do que o número de aviões disponíveis. Entraram para a história do ocidente como verdadeiros demônios com asas. Recupera-se, agora, o homem por trás da máquina, com o filme Ore wa kimi no tameni koso, shini ni iku (Eu decidi morrer somente por você). Deve ser um dramalhão, mas as cenas de guerra são das mais realistas (Nada de efeitos tipo Pearl harbor aqui!)! Dá pra ver uma cena do filme aqui, com direito a despedida dos pilotos das suas famílias e um ataque suicida.

Eu tenho uma relação estranha com o caça AM6 Zero, que era usado nas missões Kamikaze. Aos 6 anos eu ganhei um modelo Revell, de montar, do caça Zero e eu carreguei comigo uma lembrança vívida de ter entrado, por volta da mesma idade, num caça Zero que ficava nos jardins do colégio Santos Dummont (Em Boa Viagem, Recife). Eu me lembro escalando a asa, entrando no cockpit todo depredado (faltavam instrumentos, alguns ainda estavam lá) e fingido pilotar o caça. Lembro que ainda tinha inscrições em japonês nos botões do cockpit, e eu ficava “ligando e desligando” o avião num pequeno interruptor. Essa lembrança nunca me abandonou, ao contrário de diversas outras, e foi inspirado nela que adotei o nome Acid Zero pra entrar na Internet (depois fiquei só com o Acid mesmo).

acid aviao zero

Durante muito tempo eu perguntava a quem trabalhasse na aeronáutica ou gostasse de 2ª guerra que fim levou o Zero. Mas ninguém que conheço nunca viu esse avião em Recife.

Cheguei a pensar se seria alguma memória a posteriori criada por mim (baseada no modelo Revell e no fato de que eu tinha revistas de aviação que detalhavam o cockpit), mas meu pai lembra que existia sim um avião doado pela Aeronáutica no colégio, que eu subia na asa e era colocado lá dentro por ele pra brincar (ninguém tinha medo de tétano nessa época!), que parece com o Zero mas ele não tem certeza se era mesmo o Zero. Se era foi uma pena a Aeronáutica ter deixado estragar e se perder esse belo (e hoje raro) avião.

sdm 2003 jun
Site do Saindo da Matrix em 2003

Ainda sobre filmes japoneses, saiu também outro filme da 2ª guerra sobre a história de outro ataque suicida, desta vez pelo mar, a heróica história do navio Yamato (que inspirou a série clássica de Anime “Patrulha Estrelar“):

Yamato (Otoko-tachi no Yamato) – a.k.a. “Yamato: The Last Battle

Se quiserem conhecer mais sobre a história do Yamato e seu sacrifício, vejam esse vídeo em português:

Hoje na Segunda Guerra Mundial – Couraçado Yamato

Atualização (24/02/2021)

Em 2013 saiu o filme de animação do Estúdio Ghibli, Kaze Tachinu (no Brasil: Vidas ao Vento), que conta a história de Jiro Horikoshi, engenheiro e inventor do avião de caça Zero. O diretor Hayao Miyazaki foi duramente criticado na Coréia por supostamente fazer um filme glorificando uma máquina de guerra, mas ele falou que o filme é sobre o engenheiro, um homem que sonhava criar “belos aviões”.

Vidas ao Vento – Trailer legendado (2014)

Em 2015 eu visitei o Imperial War Museum, em Londres, e nessa visita eu toquei num Zero (dessa vez com absoluta certeza!). Foi emocionante confirmar o que tinha lido, de que o poder e manobrabilidade do Zero residiam na carenagem extremamente leve. As folhas de alumínio são tão finas que acredito que com uma caneta eu poderia amassá-la. Os pilotos ficavam extremamente vulneráveis, mas com uma imensa vantagem de movimento, e combinando isso a um piloto talentoso o caça se tornava virtualmente imbatível no confronto um a um. Dentro da carenagem deste avião foi encontrada uma flor seca de Lótus, que os pilotos carregavam pra dar sorte. Esse caça Zero que foi encontrado depois de 50 anos no meio da floresta. Ele não caiu, foi abandonado pelos japoneses porque não podia ser reparado. Ele tem vários buracos de bala na fuselagem.
Interessante também o número do avião: 76, o ano em que nasci.

Referência:
Superinteressante – Kamikaze: Quando morrer era uma arma de guerra
Kamikaze survivors debunk stereotype in stories of sacrifice

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