DEUS EXISTE?

Por Solius

O texto a seguir tem como proposta motivar o leitor a se iniciar em um estudo que, se desenvolvido de modo satisfatório, deverá trazer revelações que poderão mudar profundamente, e de modo positivo (assim esperamos), sua visão da realidade.

O que você faria se, por alguma razão, de repente passasse a ter certeza absoluta de que Deus é mesmo responsável por sua existência, estando Ele consciente de cada respiração? Certamente esta questão não se adequa a alguns, mas cada vez mais pessoas tendem a pensar que tal idéia não passa de mera impossibilidade.

Porém, a resposta à pergunta que intitula o presente texto é: sim. Os estudos dos metafísicos orientais e ocidentais não deveriam nos deixar dúvidas. Porém, nos deparamos com as tantas dificuldades características do período de decadência civilizacional pelo qual atualmente passamos. Sendo assim, muitos até se espantam quando é dito que o Ser Divino pode ser percebido, embora não possa ser conhecido (e muita confusão, inclusive, se faz entre estes dois pontos).

Como nos situamos no ocidente, que é alicerçado no cristianismo, vamos nos voltar para o trabalho de um de seus maiores expoentes, no intuito de demonstrarmos uma das tantas soluções para o problema: São Tomás de Aquino. Antes, porém, nos entreguemos um pouco às palavras de Chesterton, uma das mentes mais brilhantes do século passado:

“Assim como se pode considerar São Francisco o protótipo dos aspectos romanescos e emotivos da vida, assim Santo Tomás é o protótipo do seu aspecto racional, razão por que, em muitos aspectos, estes dois santos se completam. Um dos paradoxos da história é que cada geração é convertida pelo santo que se encontra mais em contradição com ela. E, assim como São Francisco se dirigia ao século XIX prosaico, assim Santo Tomás tem mensagem especial que dirigir à nossa geração, um tanto inclinada a descrer no valor da razão.”

Gilbert Keith Chesterton

Pois bem, por apresentar certas ressalvas (as quais não nos cabe desenvolver aqui) em se analisar a questão sobre a existência de Deus aprioristicamente (como o fez Santo Anselmo em seu Argumento Ontológico), o aquinate partiu para uma análise a posteriori, ou seja, a partir de Seus efeitos, os quais podem ser observados no mundo sensível (que compreende o que nossos sentidos captam), tendo por base a filosofia aristotélica e platônica. Surgiram então as Cinco Vias para se chegar racionalmente à existência de Deus. O assunto já foi tratado aqui no site, mas sua repercussão (e em 7 comentários apenas) parece nos indicar algumas dificuldades. Sendo assim, por sugestão de meu amigo Acid, resolvi investir na tentativa de torná-lo um pouco mais acessível, com uma linguagem simplificada que inclui a inserção de alguns exemplos, além de conclusões apresentadas num trabalho do Mário Ferreira dos Santos (talvez o maior filósofo já nascido em nosso país) devidamente referenciado após o texto, objetivo que espero ter atingido.

Sem mais delongas, passemos ao estudo das vias para o conhecimento do Supremo.

1ª Via: o movimento

Podemos dividir esta via em duas partes:

A primeira nos faz perceber que todas as coisas se movimentam, e isto se dá porque são movidas por um motor. Imaginemos uma rede estufada após uma falta bem batida pelo melhor cobrador do seu time de futebol. A rede recebe o movimento da bola, que por sua vez recebe o movimento e a capacidade de balançar a rede, dos pés do jogador.

Os pés são então os responsáveis pela execução de todos os movimentos da pequena série apresentada: pelo movimento da bola e em seguida da rede. Vemos ainda que a bola, por sua vez, atua no movimento da rede. Mas notemos que esta, como todos os anteriores, não possui a capacidade de se mover por si. Para isto, teria que ter a capacidade de ser, ao mesmo tempo, motor e móvel sob um mesmo aspecto, o que é absurdo (tomemos a bola como exemplo: ela teria que ser capaz de promover por si o seu movimento em direção à rede, e ao mesmo tempo não ser capaz, para poder receber este mesmo movimento a partir do repouso).

Passemos então para a segunda parte. A rede foi movida pela bola, que recebeu seu movimento pelo pé, que se moveu pela vontade do jogador, e assim sucessivamente. Porém é necessário que esta série encontre um fim. Mas por qual razão? Sem este não haveria movimento, já que o de cada um dos membros da série depende de um anterior. Temos então que conceber, necessariamente, um motor imóvel. E o que possui tal natureza? Algo que tenha uma atividade que se estenda a todas as coisas que movem e são movidas, ao qual elas estejam subordinadas, e que seja ato puro (já que está imóvel, mas tem a capacidade de ser motor), o que inclui suas implicações, como a imutabilidade e a eternidade, que nos remete à perfeição plena: Deus.

2ª Via: as causas eficientes

O raciocínio a ser desenvolvido aqui é bastante parecido com o anterior, e o mesmo exemplo pode ser empregado. Partimos da série de causas “pés do jogador – bola – rede”: o gol foi causado pelo movimento da bola, e este, por sua vez, é efeito do chute do jogador. Não é difícil percebermos que a rede não poderia balançar sozinha, assim como a bola não poderia ser a causa do seu movimento, e o mesmo com os pés e assim sucessivamente. Vemos-nos, então, diante da necessidade de uma causa eficiente primeira, sem a qual não poderia haver qualquer efeito, pois estaríamos nos deparando com infinitas causas sem um operador. Esta causa primeira teria que ser a sua própria atividade, e, portanto, não causada, estando todas as demais causas a ela subordinadas. Chegamos novamente a Deus.

3ª Via: a contingência

De todas as coisas que podemos constatar no universo, nenhuma delas se abstém de um potencial prévio para a sua inexistência. Pense o leitor que ele jamais poderia ter existido. Do mesmo modo o computador diante dele, assim como o próprio planeta em que vive, o sol para o qual olha no ocaso, etc. Todas estas coisas, inclusive, um dia não existiram, e mais adiante deixarão de existir (nos limitemos aqui ao campo da matéria). São elas contingentes. Ora, sabendo que havia uma potência para a inexistência das mesmas, concluímos facilmente que não podem ter existido sempre. E o que havia antes que viessem a existir? Onde residiria este potencial para sua existência? Em um ser necessário, que tenha existido sempre, causa da existência de todos os demais seres, e causa do ser em todas as coisas porque ali se faz presente (onipresença). Quem será?

4ª Via: os graus de perfeição

Nesta via, São Tomás se refere especificamente às perfeições puras, ou seja, aquelas que não possuem limite ou imperfeição em seu conceito formal; e em meio a estas, as denominadas ‘transcendentais’, ou seja, que estão em todas as coisas. Como exemplo, temos a nobreza, a verdade e a bondade. Estas perfeições só podem partir de algo que as encerra em sua máxima perfeição (nas palavras de São Tomás: “o máximo em qualquer gênero é a causa de tudo o que naquele gênero existe, e assim, o fogo, que tem o máximo calor, é a causa do calor de todo o quente, segundo diz Aristóteles.”), e que é causa destas, em diferentes níveis, nos seres contingentes: nosso Criador.

5ª Via: a finalidade ou governo do mundo

Nesta última, São Tomás nos chama a atenção para as coisas que, mesmo desprovidas de conhecimento, atuam com finalidades específicas (observemos, por exemplo, a interação entre os astros, que promovem o equilíbrio no nosso sistema solar; os seres que servem de base para a cadeia alimentar, etc.). Mas ora, se não conhecem, não podem pensar em um fim e assim agir no sentido de alcançá-lo, senão pela presença de alguém que conheça e direcione o movimento. Este deve conhecer infinitamente, ser distinto do mundo, providente e imaterial, ou seja, é Deus.

Conforme observamos, não só nos é possível comprovar racionalmente a existência do Ser Supremo – o que nos conduz a um esquema de realidade (a Verdade) hierárquico, que independe de nossos pensamentos e ações – como conhecer alguns de seus atributos. A partir deles podemos perceber, dentre outras coisas, que o Onipresente está muito além do que compreende nossas limitações, o que, ao contrário do que alguns possam vir a pensar, não anula o fato de termos alguém a quem prestar contas no final de nossa jornada.

O desenvolvimento deste estudo tende ainda a nos chamar a atenção para a escolha mais importante de nossas vidas: se queremos servir apenas ao mundo (e nos entregarmos aos desejos, ambições, etc.), ou ao nosso Criador. A primeira opção tende a nos inserir em um círculo vicioso (conforme nos demonstra Boécio em sua magnífica obra “A Consolação da Filosofia”), enquanto a segunda, por mais que implique em uma boa dose de disciplina e resignação, nos brinda com um estado de êxtase na eternidade e, em alguns casos, ainda no decorrer da vida terrena, sendo incontestavelmente a mais recompensadora.

bandeira da espanha Ler em espanhol (por Teresa)

Referência:
MONTFORT: Existência de Deus;
Veritatis: Provas da existência de Deus;
Filosofia (Revista) nº 18. Ed. Escala Educacional, São Paulo, 2009;
G. K. Chesterton – Santo Tomás de Aquino. Biografia.LTr, São Paulo, 2003;
Mário Ferreira dos Santos – O Homem perante o Infinito. Logos, São Paulo, 1963

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