BEATLES REMASTERS: SEM BRILHO

Em resumo: Tecnicamente e historicamente impecável, mas o conservadorismo com que foi feito decepcionou um pouco.

Confesso que me decepcionei com o lançamento dos remasters dos Beatles, o troço mais aguardado do mundo pelos fãs há mais de 10 anos. Mas confesso que poderia ser pior. Tenho acompanhado a tendência de remasters de diversas bandas, como The Smiths, Pearl Jam e Pink Floyd. Há uma tendência a aumentar MUITO o som, como se isso fosse deixar a música melhor, mexer nos timbres pra os agudos ficarem retinindo na cabeça, e tudo é equalizado pra ficar mais pro meio-graves, menos os tais “agudos de doer”, que surgem do nada; o fato é que a música fica legal nas caixinhas do PC e nos headphones, mas perde bastante num equipamento um pouco mais decente do que as caixinhas do PC. Isso é chamado no mundo da música de COMPRESSÃO, ou seja, pegam os sons mais baixos e aumentam, os sons mais altos ficam no “limite extremo” da distorção, e você acaba perdendo a relação harmônica entre as notas, já que todas as notas se parecem um pouco com um constante “woooooo“.

Felizmente os Remasters dos Beatles não têm nada disso!

Isso só é um motivo e tanto de comemoração, pois segue na contramão da tendência musical da última década. O approach dos remasterizadores foi o de um restaurador de arte que está limpando um quadro de Michelangelo ou Leonardo da Vinci, ou seja, um mínimo de intervenção: tirar ruídos e deixar o som o mais próximo possível do que saiu na mesa de gravação. A dinâmica do som está totalmente preservada, como vocês podem notar na imagem ao lado: no primeiro gráfico está a mixagem de 1965 de “You’ve got to hide your love away“, sem ser usada nenhuma compressão sonora. De um lado está a voz, do outro os instrumentos. No gráfico do meio está a versão do CD Stereo do Remaster, e como pode notar foi usado um aumento (gain) no som e uma compressão moderada, quase não modificando o “desenho” do gráfico (e note que o verde toca nas bordas apenas levemente). No terceiro gráfico vemos um Mp3 da mesma música (mal) transferida de um LP. Em termos sonoros esse último é o mais parecido com o que eu ouvia em LP, mas o som (em verde) está todo tocando nas bordas (o limite sonoro) o tempo todo (o que causa distorção em volumes altos e é altamente cansativo para os ouvidos), mas não se pode negar que isso dá um efeito legal em caixas de som menos potentes, pra ouvir mais baixo.

O resultado dos remasters é impressionante… mas só pra quem tem um aparelho high-end de som. Um cara na internet que faz artigos sobre música (e deve ter um aparelho fantástico) entrou em êxtase com a qualidade do som. Ele disse que dava pra ouvir o som do braço dos clarins serem puxados, e, sinceramente, eu não duvido! Uma caixa de som de nãoseiquantosmilreais está anos-luz à frente de uma caixa de mini-system que vendem nos shoppings, e até mesmo os conectores das caixas (banhados à ouro) influem decisivamente na qualidade (juro!). Ou seja, essa é realmente a versão histórica definitiva da discografia dos Beatles.

Só que eu não tenho essas caixas, e não fiquei impressionado. Ainda mais porque baixei de MP3 (questão de portabilidade), e com isso perdi 90% da informação sonora contida do CD. Então a culpa é minha, certo? Os caras fizeram a parte deles de dar a melhor qualidade sonora possível, mas eu e pelo menos duas gerações de pessoas que cresceram ouvindo música em headphones, mini-systems e caixinhas de PC não estamos qualificados a ouvi-las. Ok, acho que posso viver com isso… eles não deviam mesmo nivelar por baixo os Beatles… mas o que eu e milhares de outros fãs esperávamos (e esse é o único motivo da minha decepção) é que as músicas dos Beatles fossem restauradas não só tecnicamente como estruturalmente. Me explico: as técnicas de mixagem evoluíram HORRORES de 1960/70 pra cá (o uso do digital só começou nos anos 90!). Pra se ter uma idéia, metade da discografia dos Beatles foi ORIGINALMENTE concebida em MONO (Os Beatles não se envolviam na mixagem stereo, já que era uma coisa que pouca gente tinha e achavam que essa “moda” não ia pegar, como o som QUAD não pegou). George Martin (o produtor e “quinto Beatle”) não dava muita importância às versões stereo, e algumas vezes usava até o som de outros takes (e assim temos versões diferentes em mono e stereo da mesma música!). Algumas vezes a versão stereo era feita nos próprios países onde ia ser lançado o disco, como nos EUA (discos da Capitol), e por isso mesmo há tantos bootlegs (versões não-oficiais) circulando por aí, entre os fãs que tiram o áudio dos LPs. Em 1987, com o advento do CD, o catálogo dos Beatles foi lançado (às pressas, diga-se de passagem). A qualidade era uma droga, com som abafado, e a remixagem dos álbuns mono ficou a cargo de George Martin. Só que ele fez um trabalho tão ruim que hoje em dia ele nem mesmo lembra de ter feito!! E essas versões é que foram relançadas agora, em 2009, por uma questão “histórica”… Até o filho de Martin questionou o porque disso aos restauradores e eles disseram que acharam que George Martin ficaria magoado se não utilizassem essa versão (e foi aí que descobrimos que Martin nem lembrava mais disso).

O fato é que os Beatles soam melhor em MONO. Isso é algo que foi dito até por Geoff Emerick, o engenheiro de som dos Beatles, responsável pela captação, e ele falou que é o mais próximo de como os Beatles soavam no studio. A diferença é gritante, afetando todo o clima e intensidade da música. É por isso que foi vendida (separadamente) uma caixa com todas as versões monos originais remasterizadas. E mais: a versão stereo original de Help! e Rubber Soul (que são melhores do que as de 87) estão lá, também. Se você nunca ouviu os primeiros discos dos Beatles em mono, você só escutou metade do que os Beatles têm para oferecer. Tanto é assim que, entre os fãs, um nome se destacou entre os bootleggers para nos livrar da maldição de 1987: Dr. Ebbetts. Sob esse pseudônimo, um anônimo colecionador nos forneceu o MELHOR dos Beatles com a melhor qualidade possível, passando o som de LPs raríssimos (primeira prensagem, ou versões raras) para o computador com equipamento de qualidade. Se você ouviu os Beatles em LP, sabe que os CDs oficiais não fazem justiça ao som original, mas o Dr. Ebbetts faz! E, comparado aos remasters, eu ainda prefiro o Dr. Ebbetts. Questão de gosto pessoal, e de como as músicas soam nas minhas caixas, e não uma decisão técnica. Inclusive o próprio Dr. Ebbetts divulgou uma mensagem onde disse que pararia de lançar suas versões, agora que os Remasters saíram. O trecho mais importante é esse:

“Os remasters soam fantasticamente bem balanceados, com graves sólidos e impactantes, médios suaves e agudos não muito ásperos, mas definidos. Muito dos masters do Ebbetts falham em comparação: graves mais fracos, médios diminuídos e quase sempre agudos com muito brilho. É certo que os remasters não irão agradar a todos, mas eles serão bons o bastante pra tornar o catálogo Ebbetts solidamente inferior.”

Dr. Ebbetts

Pois é justamente no aspecto “brilho” que me decepcionei. Eu cresci ouvindo Beatles nos LPs de meus tios, e eles possuíam um som encorpado, sólido e “brilhante”. Creio que a maior lembrança que tenho dessas noites ouvindo “A hard’s days night” foi justamente sua vivacidade, sua jovialidade. E isso é algo que atribuo primeiramente à coesão sonora (os LPs usavam sim de compressão, só não muita) e ao brilho dos agudos. Coisa que se perdeu nos remasters, mas se mantém – com qualidade – no Ebbetts.

Em relação a isso, foi como dar um passo atrás em relação a evolução natural do som, pois em 2006 nós, fãs, tivemos um gostinho de COMO É BOM ouvir os Beatles remasterizado E remixado, com o álbum Love. Estava tudo lá: a altura do som digna de uma banda pop / rock, o brilho dos instrumentos, o “punch” da bateria de Ringo mais trovejante do que nunca, os vocais bem centralizados e nítidos, enfim… o Love não veio pra substituir a discografia, era só uma experiência (ousada e bem-sucedida) com remixes (até mesmo em 5.1 surround, que pra mim foi o Nirvana), mas nós salivamos, esperando a discografia com tal qualidade… que não veio.

Mas, é como sintetizou um usuário da comunidade The Beatles, lá do Orkut:

“Taí o gancho para a próxima leva de relançamentos: não percam, daqui a 20 anos, toda a discografia dos Beatles remixada, corrigindo os balanço entre instrumentos e vozes, como fizeram no Yellow Submarine Songtrack. Não seria má ideia. Primeiro fizeram o que tinham que fazer, que é relançar igual ao original, para não mexer com a história. Pois agora podem mexer com a história.”

Eu tenho o sonho de que lancem a versão 5.1 da discografia dos Beatles remixados por um time composto por Giles Martin, Greg Penny, os caras do TOUP e Dr. Ebbetts. Com esses caras no comando, certamente estaria garantido o vigor pra trazer toda a energia desta fantástica banda pra os tempos modernos com o maior respeito possível ao material e aos fãs. Isso seria lançado como uma série de discos Blu-Ray cobrindo toda a discografia, e em cada álbum teremos documentários, entrevistas e contexto histórico (como no Anthology), e dentro de cada álbum a pessoa vai poder entrar na “página” de cada música e ver a letra, curiosidades, ficha técnica, clipe (cada música vai ter um clipe, sejam eles os originais da banda, ou feito com fotos como em Anthology, desenho animado ou CG, como em Beatles Rock Band) e outras versões dessa música, como outtakes, bootlegs ou versão mono ou stereo da época em que foi lançado. Isso sim seria a versão definitiva da discografia da maior banda de todos os tempos.

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