AQUELE DIMENSTEIN MORREU

Nunca fui fã do jornalista Gilberto Dimenstein, por motivos que não interessam mais, afinal, segundo ele mesmo, “aquele Gilberto Dimenstein de antes do câncer morreu”. Sim, ele descobriu em 2019 que estava com câncer de pâncreas, com metástase no fígado. Nesta entrevista à Folha ele conta sobre a doença, o tratamento e as mudanças em sua forma de enxergar a vida e as relações humanas.

Hoje ele morreu. Foi o mesmo câncer que vitimou minha mãe no ano passado, com a mesma metástase, só que no caso dela ela não teve chance de fazer, ou pelo menos externar uma reflexão sobre a própria vida. Foram 15 dias entre ir pro hospital, ser diagnosticada e morrer sem conseguir falar ou mesmo respirar direito. Minha única preocupação é que ela soubesse que iria morrer, porque o ambiente de hospital é sempre pra tentar levantar o espírito do paciente e da família, mas já estava num ponto em que não tinha o que fazer, então pedi a psicóloga do hospital pra conversar com ela pra saber se ela tinha consciência disso. Ela tinha. Mas decidiu não falar nada. E havia muito a ser falado.

Há dois ditos em latim pra lembrar da arrogância (Cave ne cadas) e da impermanência (Memento Mori). Perdemos tanto, mas tanto tempo com idiotices, como se fôssemos viver pra sempre, como se não houvesse nada melhor pra fazer aqui na Terra. Nós temos uma programação interna, especialmente na juventude, que nos faz inconsequentes, corajosos, impetuosos. Muitas vezes isso descamba pra violência, ou atitudes impensadas que muitas vezes acabam indo parar no Prêmio Darwin.

Não precisa nem ser jovem, na verdade

A certeza absoluta de que vamos morrer nos dá um click. Nos faz ver que muito do que fazemos no dia-a-dia, pensando no longo prazo, é inútil.

Portanto, vos afirmo: não andeis preocupados com a vossa própria vida, quanto ao que haveis de comer ou beber; nem pelo vosso corpo, quanto ao que haveis de vestir. Não é a vida mais do que o alimento, e o corpo mais do que as roupas? Qual de vós, por mais que se preocupe, pode acrescentar algum tempo à jornada da sua vida?

Mateus 6:25, 6:27

Então não devemos planejar pro futuro? Nada disso. Muitas pessoas vão viver para colher os frutos do seu trabalho. Mas outras, não. E qual é o sentido último de nossa passagem aqui na Terra? Devemos viver em paz com nossa própria consciência e com os que nos cercam para que, se morrermos amanhã, não teremos pontas soltas ou arrependimentos. Difícil na prática, mas essa é a meta.

Quanto de ódio, vaidade e soberba nós destilamos no dia-a-dia, na internet ou presencialmente? O quanto nos agarramos ao poder, ao efêmero, especialmente quando na semana seguinte poderemos estar entubados lado a lado com gente “ordinária” numa UTI? Enfim… o que me levou a escrever foi esta matéria da Folha, pois traz reflexões muito importantes que eu gostaria de partilhar com vocês, por isso vou reproduzir aqui alguns trechos, suprimindo outros pra que a verdadeira mensagem não se perca no buraco-negro da política:

“Aquele Gilberto Dimenstein de antes do câncer morreu”

Sonhei com uma mulher dizendo que eu estava com câncer. Sou super-racional, acredito na ciência, na lógica. Mas foi um sonho tão claro que fiquei encasquetado.

Fui aos médicos, fiz colonoscopia, endoscopia, ultrassonografia, não achavam nada, mas eu continuava impressionado. Um gastroenterologista pediu uma tomografia, “só para tirar a dúvida”.

Fui às 22h, o resultado começou a demorar. Veio um enfermeiro e perguntou se não sentia muita dor, porque tinha pancreatite, mas eu não sentia nada. Não sentia nada. Procurei na internet: pancreatite dá em quem bebe — sou abstêmio há seis anos — e em quem tem vesícula — que eu já tinha tirado. Era câncer.

No dia seguinte, já estava no hospital. Tirei o tumor bem no comecinho, o que aparentemente era boa notícia. Mas, passadas três semanas, ele estava no fígado. Fizemos quimioterapia para operar, mas, em vez de parar, o tumor cresceu. Passei quatro meses de tantas más notícias… muita febre todo dia, comecei a já me preparar para a despedida. Foi o meu período pessimista.

Hoje — é até difícil falar isso — estou vivendo o momento mais feliz da minha vida. Aquele Gilberto Dimenstein antes do câncer morreu. Nasceu outro.

Câncer é algo que não desejo para ninguém, mas desejo para todos a profundidade que você ganha ao se deparar com o limite da vida. Não queria ter ido embora sem essa experiência.

Grande parte da minha vida foi marcada pelo culto a bobagens: ganhar prêmio, assinar matéria na capa, o tempo todo pensando no próximo furo. É como se estivesse passando por um lugar lindo num trem em alta velocidade, vendo tudo borrado. Quando você tem um câncer (ainda mais como o meu, de metástase e de pâncreas, um tipo muito agressivo), não há alternativa. Ou vive o presente ou sua vida vira um inferno.

E aí começam a aparecer coisas incríveis. Gosto de andar de bicicleta, e comecei a sentir o vento no rosto, como se estivesse sendo beijado. Você vê seu neto deitado com você (Dimenstein tem um neto de dois anos e espera o segundo para daqui a seis meses). Acorda com os bem-te-vis e escuta os bem-te-vis.

Falar em sentidos é importante, porque meu tratamento tira o gosto, até a água fica ruim. Com o tratamento, também acaba a vida sexual; você fica impotente. É uma fase de muitos pesadelos, que melhoram com o canabidiol (composto químico derivado da maconha, liberado para uso medicinal). Tudo isso poderia fazer um cara superinfeliz. Mas as relações emocionais se sofisticam. Descobri só agora a profundidade da relação homem-mulher. Você está com enjoos, dores não apenas físicas, e a pessoa do seu lado o tempo todo. Não conhecia essa cumplicidade nesse nível.

Nós vivemos nos meios digitais a era da indelicadeza, 500 mil pessoas criticando. Eu acabei entrando no mundo das gentilezas. Cada pessoa tem uma palavra, um chá, uma dica de oração, um olhar gentil. O outro mundo vai ficando ridículo.

Com ou sem câncer vamos todos morrer, e se pudermos antecipar essa sensação, vamos evitar várias bobagens. A clareza maior da morte é uma dádiva. Não é o fim, mas um começo.

Pode ser o começo de um belo fim de vida, viver esses momentos com a família, ou um pit stop para voltar melhor. O cara tem que ser muito, muito, muito idiota para não voltar melhor. Não é que eu ache que morrer é bom, mas você começa a questionar por que existe, e a conclusão é que, se não podemos escolher como entramos na vida, podemos decidir como sair dela.

Quando o médico me disse que eu estava com câncer, passou um dia, dois, três, e não tive medo. Só temia o impacto da minha morte nos outros. Não me senti desesperado. Nada, nada, nada. Até me espantei comigo mesmo. Em inglês se chama surrender (render-se). Você não está mais no comando, e isso é motivo de alívio. De felicidade, até.

Descobri que meu pavor era passar a vida sem propósito. Olhei para trás, e, apesar de todas as minhas delinquências — que não foram poucas —, acho que fiz mais bem que mal. Mudei minha carreira para fazer um jornalismo que não é de filantropia nem altruísmo, mas de empoderamento, de usar a comunicação para promover causas. Já antes do câncer tinha começado minha “quimioterapia social”, na Orquestra Sinfônica de Heliópolis (de cujo conselho Dimenstein é presidente), que esteve perto de fechar. Em nenhum momento neste ano parei de trabalhar, arrecadar fundos, promover esse e outros projetos que acompanho. Não é bondade, é conexão com a vida.

O evangelho segundo são João diz “No princípio era o verbo”. É a palavra que gera o poder, e nós, comunicadores, trabalhamos com isso, podemos fazer as pessoas poderosas trabalharem juntas.

Hoje há um enorme desperdício. Há um ditado árabe maravilhoso, “gavião não voa em bando“, ainda mais perfeito em inglês, “eagles don’t fly together” — eagles tem o mesmo som de egos. Cada um quer ter seu legado, sua placa, seu projeto. Um secretário não trabalha com outro, a prefeitura não trabalha com o estado, um dinheiro enorme sai pelo ralo, sem meta, sem avaliação, sem trabalho articulado, uma catástrofe.

O mundo é como um corpo humano. Há pessoas que espalham infecções, se xingam, se odeiam. E há os glóbulos brancos, as pessoas que não deixam o mundo acabar, que inventaram a anestesia, o antibiótico, descobriram a hélice dupla do DNA.

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