O ANJO E O MALFEITOR

Este é um pequeno conto, do escritor desencarnado Humberto de campos (Irmão X), psicografado por Chico Xavier em 1969, no livro Estante da vida. Nele, um Mensageiro do Alto desce ao mundo em apoio às centenas de criaturas mergulhadas na enfermidade e no crime, na miséria e na ignorância, mas, necessitando de ajuda dos próprios encarnados, começou a fazer publicações de apelos do Próprio Evangelho, induzindo corações, em nome do Cristo, à compaixão e a caridade.

Entretanto, todos os habitantes do local se comoviam com os textos, mas não se encorajavam à menor manifestação de amparo ao próximo. Então o Enviado Celestial, convicto de que fora recomendado pelo Senhor a servir (e não a questionar), julgou mais acertado assumir a forma de um homem e solicitar, sem delongas, o apoio de alguém que lhe pudesse prestar auxílio.

Materializado, procurou pela colaboração dos homens considerados mais responsáveis. Humilde e resoluto, repetia sempre o mesmo convite à prática evangélica, registrando respostas que o surpreendiam pela diferença:

O Virtuoso:
– Não posso manchar meu nome em contato com os viciosos e transviados.

O Sábio:
– Cada qual está na colheita daquilo que semeou. Falta-me tempo para ajudar vagabundos, voluntariamente distanciados da própria restauração.

O Prudente:
– Não posso arriscar minha posição dificilmente conquistada, na intimidade de pessoas que me prejudicariam a estima publica.

O Filantropo:
– Dou o dinheiro que seja necessário, mas de modo algum me animaria a lavar feridas de quem quer que seja.

O Pregador:
– Que diriam de mim se me vissem na companhia de criminosos?

O Filósofo:
– Nunca desceria a semelhante infantilidade… Aspiro a alcançar as mais altas revelações do Universo. Devo estudar infinitamente… Além disso, estou cansado de saber que, se não houvesse sofrimento, ninguém se livraria do mal…

O Pesquisador da Verdade:
– Não sou a pessoa indicada. Caridade é capa de muitas dobras, que tanto acolhe o altruísmo quanto a fraude. Não me incomode… Procuro tão somente as realidades essenciais.

Desencantado, o Mensageiro bateu à porta de conhecido malfeitor (aliás, a pessoa menos categorizada para a tarefa) e reformulou a solicitação. O convidado, embora os desajustes íntimos, considerou, de imediato, a honra que o Senhor lhe fazia, propiciando-lhe o ensejo de operar no levantamento do bem geral, e meditou, agradecido, na Infinita Bondade que o arrancava da condenação para o favor do serviço. Não vacilou. Seguiu aquele desconhecido de maneiras fraternais que lhe pedia cooperação e entregou-se decididamente ao trabalho. Em pouco tempo conheceu a fundo o martírio das mães desamparadas, entre a doença e a penúria, carregando órfãos de pais vivos; o pranto das viúvas relegadas à solidão; as aflições dos enfermos que esperavam a morte nas arcas de ninguém; a tragédia das crianças abandonadas; o suplício dos caluniados sem defesa; os problemas terríveis dos obsediados sem assistência; a mágoa das vítimas dos preconceitos levados ao exagero pelo orgulho social; a angústia dos sofredores caídos em desespero pela ausência de fé…

Modificado nos mais profundos sentimentos, o ex-malfeitor consagrou-se ao alívio e à felicidade dos outros, e, percebendo necessidades e provações que não conhecia, procurou instruir-se e aperfeiçoar-se. Com quarenta anos de abnegação, adquiriu as qualidades básicas do Virtuoso, os recursos primordiais do Sábio, o equilíbrio do Prudente, as facilidades econômicas do Filantropo, a competência do Pregador, a acuidade mental do Filósofo e os altos pensamentos do Pesquisador da Verdade…

Quando largou o corpo físico, pela desencarnação – Espírito lucificado no cadinho da própria regeneração, ao calor do devotamento ao próximo -, entrou vitoriosamente no Céu, para a ascensão a outros Céus…

Um dia, chegaram ao limiar da Esfera Superior o Virtuoso, o Sábio, o Prudente, o Filantropo, o Pregador, o Filósofo e o Pesquisador da Verdade…

Examinados na Justiça Divina, foram considerados dignos perante as Leis do Senhor; entretanto, para o mérito de seguirem adiante, luzes acima, faltava-lhes trabalhar na seara do amor aos semelhantes… Enquanto na Terra não haviam desentranhado os tesouros que Deus lhes havia conferido em benefício dos outros, cabia-lhes, assim, o dever de regressar às lides da reencarnação; Mas, porque haviam abraçado conduta respeitável no mundo, o Virtuoso receberia, na existência vindoura, mais veneração, o Sábio mais apreço, o Prudente mais serenidade, o Filantropo mais dinheiro, o Pregador mais inspiração, o Filósofo mais discernimento e o Pesquisador da Verdade mais luz…

Observando, porém, que o malfeitor, muito conhecido deles todos, vestia alva túnica resplandecente, estava funcionando entre os agentes da Divina Justiça, começaram a discutir entre si, incapazes de reconhecer que, na obra do amor, qualquer filho de Deus encontra os instrumentos e caminhos da própria renovação. Desalentados, passaram a reclamar… Em nome dos companheiros, o Virtuoso aproximou-se do orientador maior – que lhes revisava os interesses no Plano Espiritual – e indagou:
– Venerável Juiz, por que motivo um malfeitor atravessou antes de nós, as fronteiras do Céu?!…

O magistrado, porém, abençoou-lhe a inquietação com um sorriso e informou, simplesmente.
– Serviu.

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