ANANDA

Assisti a um documentário sobre o Livro Tibetano dos Mortos (Uma filosofia de Vida – 1994) há algum tempo e fiquei com aquelas informações na cabeça, meio sem ter como concatená-las por falta de pontos de contato com a cultura local. Minha visão espírita do assunto estava ainda muito solidificada, o que é ruim pra qualquer buscador interessado em apreender a Verdade tal qual ela se apresenta (ou seja, de muitas maneiras). Aquela coisa consoladora da pessoa que morre ser recebida pela família, amigos, que nem no final de Titanic, é uma crença muito legal, pode até acontecer, mas na prática fico pensando: em sendo assim, com tanto acolhimento entre encarnações (para aqueles que não foram parar no umbral), a evolução do espírito não deveria ser mais rápida e efetiva? Se a maioria pode reencontrar-se com seus afetos e desafetos, certamente haverá mais perdão, aprendizado, CONSCIÊNCIA, que vai ser retida, em algum grau, na mente (e no espírito) ao reencarnar.

A menos que não seja assim…

O ser humano é uma entidade mais separada do TODO que unida. Vive sua vida individualista mais do que vive sua vida em família, ou sociedade. Não seria natural que, sem as amarras do corpo físico, continuasse a buscar seus próprios interesses/desejos?

Então li um e-mail do Enki, lá na lista Voadores, que me fez juntar as pecinhas e passar a compreender essa nova abordagem da reencarnação, mais budista/hinduísta, menos colorida e otimista:

REENCARNAÇÃO

Escrito por Enki

Quando um ser está pra reencarnar, a questão de “amigos ou inimigos” não é levada em conta, ao que parece. Já ajudei por várias vezes no astral no processo de reencarne e desencarne, e o que pude perceber é que o que norteia a consciência nessas situações são as carências emocionais que ela possui.

O processo de construção da mente é muito interessante. A essência, ou o Fundamento Original do Ser, como gosto de dizer, parece estar sempre emanando SENTIMENTO. Isso é inerente a esse Fundamento. O Sentimento emanado é sempre o mesmo, mas nós damos alguns nomes em separado para algumas percepções: amor, felicidade, contentamento… Mas há uma palavra em sânscrito que é a soma desses sentimentos, a experiência de todos ao mesmo tempo e de forma indiferenciada: Ananda.

Há ainda uma definição mais completa para esse Fundamento Original do ser, ou Atman: SAT – CHIT – ANANDA.

SAT é o sentido de Existência, de Realidade Suprema, inquebrantável, sem segundo, não dual e sempre a mesma.

CHIT é o sentido de Consciência, de lucidez plena, onisciência e sabedoria.

ANANDA é o princípio que é ao mesmo tempo o Amor, a felicidade e o contentamento, vivenciados ao mesmo tempo.

Sendo essas três coisas o que constitui o Fundamento do Ser, nada lhe falta, nada lhe é desejado. No entanto, sabe-se lá quando, um desses três parece sofrer uma mudança, alterando o equilíbrio. Quando isso ocorre, surge o processo que chamo de “densificação da Consciência”. Esse processo é uma busca incessante para que as três “partes” voltem a se perceber como uma só.

De forma bem simplista, o processo começa a ficar em desequilíbrio quando o sentido de onisciência é perturbado.

Nesse momento começa a germinar a dualidade. Não que ela já não exista, mas o processo de “distanciamento” da unidade começa a se efetivar. É como se a Consciência observasse, hora ou outra, um “vulto” de um objeto, para logo em seguida ter o foco da Unidade novamente. É complicado tentar explicar isso… (risos)

Com o passar do tempo há um aumento no tempo de retorno ao foco da Unidade, mas ele ainda ocorre. Nesse ponto o sentido de Ananda está quase perdido. Como analogia podemos usar a imagem que a pessoa está sem fôlego, desesperada, mas que no último instante consegue respirar. É assim que o Fundamento Original se comporta nessa fase. Num determinado momento, esse “tempo de distanciamento” parece ser mais real, e as diferenciações começam a se tornar mais reais também, visto que a Consciência vai se distanciando, também, do princípio de Existência. Assim, SAT – CHIT – ANANDA aparecem apenas como uma caricatura do que realmente são. É aqui que o “reino de Maya” começa. Maya é o fator limitante. Ela é composta de 5 “capas” ou véus: o tempo, a necessidade, o apego, o conhecimento relativo e a “parte”, ou forma (espaço).

É a partir daí que a Consciência se torna dependente. Obviamente, dependente de si mesma. Mas ela já não sabe disso.

Como disse no início, a Consciência emana, invariavelmente e por natureza, sentimento (Satchitananda). Quando esse sentimento passa pelo “prisma da densificação”, o que é compreendido volta a se tornar sabedoria (o ajuste do foco). Essa compreensão vai se tornando cada vez mais demorada, visto que o “prisma” vai fazendo com que mais e mais objetos apareçam. Quando esses objetos atingem um “ponto de saturação” (quando a Consciência já não se reconhece como tal), ela passa a criar um mundo próprio (Maya), com instrumentos próprios. É ai que surge o Espírito (Purusha) e a Matéria (Prakriti). Aqui começa a individualidade.

O espírito seria como a própria presença de SAT, uma lembrança recorrente de nosso Fundamento Original. É nesse sentido que Ramakrishna dizia sempre aos seus discípulos: “Lembre-se Sempre!”. Muitas vezes ela falava isso “do nada”, no meio de um assunto qualquer… ou depois de um silêncio interminável… O espírito é o o sujeito consciente que vivencia a realidade objetiva.

Já a Matéria seria um conjunto de ferramentas ou mecanismos que tem como propósito servir de base para a experiência da Iluminação, ou, como os antigos textos hindus dizem, “voltar para casa”. Prakriti é a realidade objetiva exclusiva de cada sujeito consciente. Pra simplificar, não vou falar de todas as ferramentas que constituem Prakriti, mas apenas citá-las.
São elas: Buddhi, o intelecto; Ahamkara, o ego; Manas, o que processa (por hora chamaremos de “mente”, para facilitar) e Chitta, a memória. Esses quatro compõem o que chamamos de “instrumento interior”. Infelizmente cada um deles reservaria uma explicação detalhada que no momento não posso dar. Explico no curso de meditação. Mas há um pequeno texto no meu site chamado “As quatro funções da mente“. Apesar de ser um texto simples, dá pra mostrar o básico sobre o assunto.

Junto com esses instrumentos interiores, os instrumentos exteriores (Chakras e sentidos corporais) formam aquilo que chamamos de realidade relativa, ou ilusória.

Como já foi dito, o propósito de toda essa manifestação é servir de campo de experiência ao Espírito (Purusha) para que ele volte a se perceber como Unidade (Satchitananda). No entanto, como o nosso sentido de onisciência está “nublado”, não conseguimos identificar com clareza a presença essencial do SER no mundo que vivenciamos. Dentro desse processo de experimentação (chamado vida), a Consciência busca aqui e ali por sensações que, para ela, são lembranças remotas, porém reais, de sua natureza original.

Cada sentimento emanado pela Consciência vai se densificando até o ponto de ser identificado pelo Purusha como emoções, e essas criam os instrumentos internos para que o Purusha possa experimentar a realidade objetiva, individualizada. Assim, são as emoções que geram aquilo que chamamos de mente, e não o contrário.

Esses impulsos emocionais são emanados pelo Espírito (Purusha) e codificados pelos Chakras para serem realizados como realidade aparente, ilusória. Os Chakras são, de fato, portais da Consciência. Assim, cada Chakra apresenta a propriedade de nos mostrar a Realidade Única, como realidade aparente e específica a um tipo de vertente emocional. Como os Chakras funcionam todos ao mesmo tempo, essa variações emocionais são processadas todas ao mesmo tempo.

Quem processa essas informações é o que chamamos de Chakra Frontal, no ponto entre as sobrancelhas. Em verdade, ele é a causa principal de nossa ilusão. Mas ao mesmo tempo, pode nos ajudar a nos libertar dela. Sendo o Chackra que processa as informações, ele está ligado ao princípio Manas do instrumento interior.

Mas o que ele processa? Pensamentos? Não. Ele processa apenas flutuações, percepções. No Yoga chamamos isso de Vritti. O pensar (ato de criar, manifestar) está ligado ao Chakra Bindu, responsável pelo aspecto de Buddhi do instrumento interior. Infelizmente não posso explicar nesse texto as diferenças entre pensar e sobrepor percepção, pois o texto vai ficar maior do que já está. Faço isso no curso de meditação.

Quem assistiu ao filme Donnie Darko vai entender mais facilmente este post… ou vice-versa. Na foto, um Vasana em ação

Mas o ponto principal está sediado no Chakra sexual. É lá que as impressões emocionais advindas do Espírito são gravadas. Nesse local está o que os yogues chamam de Karmashaya (o repositório de Karmas). O Chakra sexual está relacionado ao aspecto de Chitta do instrumento interior. Quando as impressões emocionais são fortes, criam um desejo mais duradouro. Essas emoções que se tornam desejos são chamadas no yoga de Vasanas (desejos sutis, tendências). Essas emoções armazenadas no Chakra sexual emanam a todo instante tendências e essas são captadas e processadas pelo Chakra frontal (os Vrittis).

Por falta de coordenação entre as 4 funções do instrumento interior, o que é processado pelo Chakra frontal acaba não sendo discernido (e muitas vezes percebido conscientemente) pelo Chakra Bindu. Ou seja, a Luz da Consciência não traz clareza ao objeto, pois o foco da visão interior (Chakra frontal) está sujo pelos desejos e suas tendências (Chakra sexual).

Assim, como a experiência não é compreendida, os impulsos contidos em Chitta vão buscar outras formas de serem vivenciadas e discernidas, levando ou não à compreensão. Se a compreensão e sabedoria forem o fruto da experiência, diminui-se a distância aparente que se criou entre SAT, CHIT e ANANDA.

Caso contrário, a experiência é repetida. Essa experiência pode ser repetida de várias formas, com roupagens diferentes, mas com a mesma essência emocional. Ela pode ser vivenciada num corpo material ou fora dele. Desde que a Consciência esteja individualizada, ou seja, imersa no jogo de Purusha e Prakriti (espírito e matéria). Acima disso não há Karma e, portanto, individualidade.

A Consciência, até onde pude perceber, não se lembra em si de pessoas ou fatos, mas sim de sentimentos emanados e não compreendidos, densificados sob a forma de emoções. Mesmo porque a Consciência é única, sem segundo. Como poderia lembrar de algo além de si mesma? O que faz isso parecer ocorrer, parecer real é o princípio do ego, presente em todos os Chakras, excetuando o coronário. O ato de encarnar, por si só, é ilusório. Mas deixa isso pra lá… (risos)

São carências emocionais que norteiam o processo reencarnatório. Foi nesse sentido, até onde pude compreender, que o Cabral usou o modelo de “arquétipos” para explicar a reencarnação.

Assim, se uma Consciência precisa passar por uma experiência específica, ELA cria as condições para isso. Isso é inerente a ela. É natural ao seu estado. O que levamos de uma encarnação para outra são as nossas compreensões em forma de sabedoria e justamente o seu oposto: as carências emocionais. O conhecimento ordinário morre com o cérebro. A sabedoria (e a falta dela) está gravada no espírito.

Sei que esse é um assunto que vai longe. Vale lembrar que essa é a minha visão, fruto do meu entendimento e experiências pessoais. Vale para mim, não necessariamente para os outros…

Muita Paz,
Enki.

O corpo (Rupa), ó monges, não é o Eu.
Se o corpo, ó monges, fosse o Eu, então o corpo não estaria sujeito a doenças, e nós poderíamos dizer: “Que meu corpo seja assim, que meu corpo não seja assim”.
Sensação (Vedana), ó monges, não é o Eu. (pelo mesmo motivo)
Percepção (Sanna) não é o Eu. (pelo mesmo motivo)
Os Sankharas não são o Eu. (pelo mesmo motivo)
A Consciência (Vinnana) não é o Eu. (pelo mesmo motivo)

Buda – Mahavagga, I, 6, 38

bandeira da espanha Ler em espanhol (por Monica Aliss)

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