ABORTO E REENCARNAÇÃO

O tema “aborto” tem estado em voga na mídia e nos comentários do blog. Como falei na ocasião, não tenho uma opinião formada sobre o assunto, que é muito espinhoso e complexo (porque não envolve apenas a vida da criança, mas a da mãe, a QUALIDADE da vida da criança, da mãe, da família, por extensão da sociedade e do país como um todo). Mas uma dúvida que eu tenho (e que a ciência também tem) é ONDE começa a vida humana??? Eu precisaria saber disso pra ter uma posição mais embasada, pois pra mim, enquanto não houver uma manifestação do espírito humano, eu acho o aborto (até essa etapa) tão criminoso quanto tirar uma rosa ou uma fruta do pé. Afinal, tudo é VIDA que devemos respeitar, mas que também devemos dispor da maneira mais responsável possível. Mas mesmo isso não está muito claro na minha cabeça, e eu realmente não quero influenciar ninguém sobre isso até porque é uma questão puramente pessoal (e Deus me livre passar por uma experiência dessas). Mas, como vivemos em sociedade, com regras, precisa-se chegar a um consenso para efeito de LEIS. Não se pode querer nivelar todo um país tomando por base a NOSSA visão espiritual de mundo ou cairemos no mesmo erro da Igreja Católica na Idade Média ou do Talibã no Afeganistão hoje! Tem milhares de mães morrendo em função de abortos clandestinos enquanto uma parcela da sociedade fica naquela Lei do Talião: “Queria matar o bebê? Morreu! Bem-feito!“, e isso pra um país que se diz civilizado? Parece até o jogo do bicho: é “ilegal”, mas é tolerado porque a realidade do brasileiro é totalmente diferente das suas leis!!

Eu vejo duas saídas possíveis:
1 – Legalizar até certo estágio da gravidez, com a condição do aborto ser feito em Hospital, com acompanhamento psicológico e, em caso de reincidência, fica com a ficha suja na polícia (ou no SERASA, o que atemoriza mais as pessoas).
2 – Proibir “de verdade”, e perseguir realmente as clínicas de aborto, com penas mais duras, inclusive pra mãe que o comete (pena de 1 ano de psicólogo, por exemplo).

Tudo isso com campanhas na TV, MUITA conscientização quanto ao uso de contraceptivos, etc. O governo parece que resolveu acordar e baixou o preço da pílula. Falta uma maior divulgação da camisinha como método pra evitar a gravidez, do uso correto da pílula, enfim, falta conscientização. O resultado disso tudo se vê nas camadas mais pobres. É justo então dizer a essa parcela da população “Morreu! bem-feito“? É equivalente a ficar do alto de um castelo de ilusões, julgando os outros sem viver a realidade deles.

Mas vamos ao que interessa. Pra nós, que estudamos esoterismo, é importante saber quando acontece a ligação espiritual com o embrião ou feto, pra podermos avaliar tudo isso do ponto de vista metafísico e tirar nossas próprias conclusões. Me deparei, por “acaso”, com o capítulo 13 do livro Missionários da Luz, escrito por André Luiz e psicografado por Chico Xavier. Ele mostra justamente o processo de ligação do corpo perispiritual ao óvulo! Isso mesmo, segundo o livro, a ligação se dá no momento da fecundação! Duas coisas que eu gostaria de deixar bem claro pra quem ler é que:

1– Esta é a visão do Espiritismo. Pode não corresponder à verdade mas, considerando que veio por Chico Xavier, essa é uma das melhores fontes de informação de toda a doutrina espírita.
2 – Não imaginem que sempre vai ter espíritos “trabalhando” no útero de cada mulher que vai engravidar. O caso descrito é de alguém que fez por merecer um acompanhamento maior por parte de seus amigos com conhecimento para tal. Nascer e morrer é uma coisa natural, mas da mesma forma que uma mulher pode fazer um parto no meio da floresta ou numa UTI cheia de profissionais, existem casos e casos.

Vocês podem enriquecer o conteúdo indicando sites ou colocando textos que tratem sobre o mesmo assunto do ponto de vista de outras doutrinas, como budismo, islamismo, judaísmo, etc etc.

MISSIONÁRIOS DA LUZ

Capítulo XIII – REENCARNAÇÃO

(trechos selecionados)

Alexandre me convidou para ir com ele visitar a casa de Adelino e Raquel, onde aconteceria a reencarnação de Segismundo.
Ele me explicou que, em outros tempos, havia recebido muitos favores daquelas pessoas e se sentia feliz pela oportunidade de ser útil. Comentou as dificuldades do serviço de libertação espiritual e destacou a lei do bem, que convida a todos os filhos de Deus a colaborar e interceder pelos seus semelhantes.
Com surpresa, verifiquei que Herculano nos esperava na entrada. Alexandre, no entanto, disse-se me que havia avisado o amigo sobre nossa visita, recomendando-lhe que trouxesse Segismundo para o trabalho de aproximação.
Herculano nos cumprimentou, com carinho, e disse ao instrutor, esclarecendo:
– Segismundo veio comigo e está nos esperando, lá dentro.
Entramos.
O casal Adelino e Raquel estava jantando com um garoto, que deduzi ser o filho mais velho. Não muito longe, numa cadeira de descanso, estava uma entidade que se levantou assim que nos viu, dirigindo-se a Alexandre.
Herculano, perto de mim, explicou, discretamente:
– É Segismundo.

RECONCILIAÇÃO

Vou pular um trecho enoooorme e meloso do livro, onde os espíritos conseguem – através do sono – fazer as pazes entre o futuro pai e o filho, inimigos de vidas passadas. Como veremos adiante, esse passo é importantíssimo até pra o processo de fertilidade que vai levar à gravidez!

De minha parte, era enorme a surpresa que sentia. Por que tantos cuidados? Alexandre e os outros instrutores, tão elevados quanto ele, não poderiam cuidar sozinhos do reencarne de Segismundo? Não tinham grande poder sobre todos os obstáculos?
E, dando a entender que queria responder aos meus questionamentos, Alexandre disse a Herculano:
– Não devemos e nem podemos forçar ninguém a nada, e precisamos da boa vontade de Adelino para o trabalho a ser feito.
E eu, cheio de curiosidade, em vista daqueles cuidados extremos para que Adelino e Segismundo se reconciliassem, antes da reaproximação final na carne, não escondi minhas dúvidas. Não seria justo providenciar a reencarnação do necessitado, sem muita demora? Por que tanto carinho para com Adelino, se ele deveria sentir-se satisfeito em poder cooperar no trabalho de redenção? Não dispúnhamos de poder suficiente para quebrar todas as resistências?
Alexandre ouviu-me, pacientemente, sorriu e respondeu:
– Cada homem, assim como cada espírito, é um indivíduo por si mesmo e cada mente é como um céu… Dele descem raios de sol e chuvas benéficas para o planeta, assim como, quando há atrito na atmosfera, deste mesmo céu descem faíscas destruidoras. Com a mente humana, acontece o mesmo. Dela originam-se as forças que equilibram e restauram as células do corpo físico; mas, quando perturbada, emite raios magnéticos de alto poder destrutivo para as células que a compõem. O pensamento envenenado de Adelino estava destruindo a células reprodutoras, intoxicando a cromatina dentro da própria bolsa seminal. Ele poderia satisfazer as necessidades físicas, entregando-se à relação sexual, mas não atingiria os objetivos de reprodução, porque, pelas lamentáveis condições em que trazia a mente, estava aniquilando os espermatozoides, logo ao nascerem, e, quando acabasse com eles, passaria a intoxicar os genes do caráter, dificultando nosso trabalho. No caso de Segismundo, uma vez que estão unidos, não podemos dispensar sua colaboração direta. Daí a necessidade deste intenso trabalho para despertá-lo para os valores afetivos. Só o amor cria vida, alegria e equilíbrio. Com a mente transformada, Adelino passará a emitir forças magnéticas protetoras para os espermatozoides.

A palavra de Alexandre não podia ser mais lógica. Agora começava a entender o sublime sentido do trabalho que havia se realizado para que Adelino se tornasse mais humano e mais doce.
– Como você pode ver, aqui não existem milagres para o menor esforço. E quando ensinamos, em toda parte, a necessidade de praticar o amor, não o fazemos apenas para obedecer a meros princípios religiosos, mas atendendo a importantes fatores da própria vida.

SEXO

– O sexo tem sido tão vulgarizado pela maioria dos homens encarnados que é muito difícil, para nós, por enquanto, esclarecê-los sobre o assunto. Basta dizer que a relação sexual entre a maioria dos homens e mulheres encarnados se aproxima muito da cópula dos animais. Há muita inconsciência criminosa e indiferença sistemática às leis divinas. Assim, não seria razoável qualquer comentário de nossa parte. Trata-se de nível de semi-selvagens, onde muitas inteligências admiráveis preferem permanecer em baixas correntes vibratórias. Não se pode negar que ali também trabalham os construtores espirituais, que colaboram na formação básica de corpos destinados às entidades que reencarnam nesses meios mais grosseiros. No entanto, precisamos considerar que o serviço, nesses locais, é feito em massa, por meios de mecanismos primitivos. O amor, nesses planos, é como o ouro bruto, exigindo grande trabalho para revelar-se. Mas entre aqueles que se encaminham, de fato, para a própria elevação, a relação sexual é muito diferente. Representa troca sublime de energias perispirituais, como alimento divino para a inteligência e o coração, e força criadora não só de filhos, mas também de grandes obras e realizações do espírito para a vida eterna.
Alexandre fez ligeira pausa, sorriu e continuou:
– Lembre-se, André, de que estou falando dos sagrados objetivos da criação e não apenas do fenômeno procriador. A procriação é uma das tarefas que podem ser realizadas por aquele que ama, sem ser o único objetivo das relações. O espírito que tem ódio ou que manifesta atitude negativa, perante a lei divina, não pode criar vida superior em lugar nenhum. É necessário deslocarmos o conceito de sexo, evitando colocá-lo apenas em determinados órgãos físicos. Vejamos o sexo como qualidade ativa ou passiva, emissora ou receptora. Desta perspectiva, veremos que toda manifestação sexual evolui com o ser. Enquanto continuamos mergulhados nas vibrações mais pesadas e venenosas, temos apenas sensações. À medida que nos dirigimos para o equilíbrio, vivemos experiências proveitosas, oportunidades de retificação, força, conhecimento, alegria e poder. Quando nos harmonizamos com as leis divinas, encontramos luz e conhecimento, enquanto os espíritos mais elevados alcançam qualidades da divindade. Se substituirmos as palavras “relação sexual” por “união de qualidades“, veremos que toda a vida universal se baseia neste fenômeno divino, cuja causa está em Deus mesmo, Pai Criador de todas as coisas e seres. Essa “união de qualidades”, entre os astros, chama-se magnetismo planetário de atração. Entre as almas, chama-se Amor. Entre os elementos químicos, é conhecida por afinidade. Não seria possível, portanto, reduzirmos tal fundamento da vida universal, limitando-nos à atividade de alguns órgãos do corpo físico. A paternidade ou a maternidade são tarefas sublimes; não são, portanto, os únicos serviços divinos, no setor da criação infinita. A criatura que produz algo, seja em termos de virtude, ciência ou arte, vale-se dos mesmos princípios de troca. A única diferença é a de planos, porque, para ela, o intercâmbio de qualidades acontece em níveis mais elevados. Há fecundações físicas e fecundações psíquicas. As primeiras precisam dos elementos físicos, para atender, temporariamente, as necessidades da vida nas experiências necessárias. As segundas, porém, dispensam as limitações do físico e ocorrem nos domínios da alma, em maravilhoso processo espiritual. Quando falamos do amor de Deus, quando sentimos sede dEle, nossos espíritos não querem outra coisa, a não ser a troca de qualidades com os planos mais elevados do universo, ansiosos pelo princípio fecundante do Pai.
– É lamentável – continuou ele, sério – que a maioria dos encarnados tenha menosprezado as potencialidades criativas do sexo, desviando-as para os prazeres inferiores. Todos pagarão o que devem à economia divina, pela mesma porta por que receberam a oportunidade de reencarnar. Todo ato criador está cheio de energias sagradas de Deus e são estas energias sublimes da participação do espírito nos poderes criadores da natureza, que os homem levam, inconscientemente, para o abuso e a viciação. Tentam arrastar a luz para as trevas e convertem os atos sexuais, profundamente sagrados em todas as suas características, em paixão viciosa, tão deplorável quando o álcool ou as drogas. Entretanto, André, sem que os encarnados possam perceber, todos os infelizes nesta situação são severamente punidos pela natureza divina.

A essa altura das explicações, percebendo que o instrutor faria nova pausa, perguntei:
– Mas o uso do sexo não é uma lei natural na Terra?
Alexandre sorriu, com bondade, e respondeu:
– Ninguém contesta este caráter das manifestações sexuais na Terra, mas todas as leis naturais no mundo, como em todo o universo, devem ser exercidas com base na lei universal do bem e da ordem. Quem foge ao bem, encontra o crime; quem foge à ordem, cai no desequilíbrio. Portanto, se as relações sexuais acontecem longe destes preceitos, transformam-se em causas de sofrimento e perturbação. Além disso, não devemos esquecer que o sexo, na existência humana, pode ser um dos instrumentos do amor, sem que o amor seja o sexo. Por isso mesmo, homens e mulheres que, aos poucos, se libertam do apego à forma física, libertam-se também, gradativamente, do domínio absoluto das sensações carnais. Para eles, a relação sexual física vai deixando de ser uma necessidade, porque aprendem a trocar, entre si, os valores da alma, alimentando-se, reciprocamente, por meio de trocas magnéticas, também valiosas para a criação infinita, gerando realizações espirituais para a eternidade, sem qualquer contato físico. Para esse tipo de criaturas, a união que traz mais conforto não é a que se limita às emoções de alguns minutos, mas a que integra alma com alma, por uma vida inteira, nos planos da espiritualidade superior. Frente aos fenômenos físicos, basta-lhes, às vezes, um olhar, uma palavra, um simples gesto de carinho e compreensão, para que recebam o magnetismo criador da pessoa querida, impregnando-se de força e estímulo para as mais difíceis tarefas.

Alexandre fez pequena pausa e, em seguida, balançando a cabeça, disse:
– Não há criação sem fecundação. As formas físicas nascem das uniões físicas. As construções espirituais originam-se das uniões espirituais. O universo é filho de Deus. O sexo, portanto, como qualidade ativa ou passiva dos princípios e dos seres universais, é manifestação cósmica em todos os níveis evolutivos, até que possamos atingir a harmonia perfeita, onde essas qualidades se equilibram na própria divindade.

O instrutor disse então que era preciso visitar o casal e o amigo em processo de reencarne, na véspera da primeira ligação com a matéria orgânica. Quando chegamos à casa deles, encontramos Herculano e Segismundo em companhia de outras entidades. Alexandre foi informado de que eram espíritos construtores, que iam colaborar na formação do feto do nosso amigo. O instrutor, muito satisfeito com a nova situação, passou a examinar os mapas cromossômicos, com a ajuda dos construtores presentes. Era em vão que eu tentava entender aqueles rabiscos, totalmente indecifráveis para mim. Mas Alexandre, sempre gentil, comentou:
– Este não é um estudo que você possa entender, por enquanto. Estou examinando a geografia dos genes nas estrias cromossômicas, para saber, com certeza, até que ponto poderemos colaborar em favor de Segismundo, com recursos magnéticos para a organização das características hereditárias.

MÉTODO DE REENCARNE

O instrutor conversa com o futuro reencarnante, que está meio triste…

– Segismundo, é incrível que esteja desanimando no momento mais importante de suas atuais realizações. Recupere a fé, resgate a esperança, porque você não pode reencarnar como nossos irmãos ignorantes e infelizes, que necessitam estar quase completamente inconscientes para entrarem, novamente, no útero materno. Para o seu próprio bem, não deixe de cooperar com a sua confiança em nosso trabalho. Use a imaginação. Mentalize os primeiros momentos do feto, formando, em sua mente, os moldes adequados. Você terá em Raquel o mais elevado e eficiente auxílio, e receberá de nós colaboração direta. No entanto, lembre-se de que o seu trabalho individual será muito importante para a adaptação e a recepção, a fim de que tenha sucesso nesta oportunidade.
Impressionado com a explicação do instrutor, não hesitei em tirar mais dúvidas.
– Então, – perguntei, muito interessado – existem espíritos que reencarnam inconscientes do que estão fazendo?
– Claro, – respondeu ele – assim como os milhares que desencarnam na Terra, diariamente, sem a menor noção do que lhes acontece. Só os espíritos mais esclarecidos compreendem completamente a situação que se apresenta no momento da morte física. Aqui é a mesma coisa. A maioria dos que reencarnam no mundo é magnetizada pelos companheiros espirituais, que organizam suas novas tarefas evolutivas, e todos os que recebem esse tipo de ajuda são conduzidos ao novo corpo físico como crianças adormecidas. O trabalho inicial de organização do feto, que deveria ser feito por eles, é executado pela mente da mãe e pelos amigos espirituais que os ajudam. Muitos reencarnam nestas condições, conduzidos por espíritos superiores de nosso plano, em vista das necessidades de cada caso.

Voltando às minhas reflexões, não aguentava as novas idéias que o caso de Segismundo me inspiravam. Como seria o auxílio, naquelas circunstâncias? Raquel estava consciente de nossa colaboração? Como o casal interpretaria o nosso trabalho, caso viesse a saber de nossas atividades? Como se estivesse ouvindo meus pensamentos, Alexandre se encarregou de me responder, dizendo:
– Em casos como este, André, a nossa intervenção se dá com a mesma seriedade que caracteriza o trabalho de um médico honesto e responsável ao fazer um parto comum. A modelagem do feto e o desenvolvimento do embrião obedecem a leis físicas naturais, da mesma forma que acontece em outros reinos da natureza, mas, em todos esses fenômenos, a colaboração espiritual ocorre paralelamente a essas leis, de acordo com os planos de evolução ou resgate. Nosso trabalho, portanto, em processos como este, é uma das tarefas mais comuns.
Compreendi a profundidade do esclarecimento e me tranquilizei, esperando o dia seguinte.

INVIOLABILIDADE DAS RELAÇÕES SEXUAIS

Mas, passado o dia, a curiosidade voltou a me incomodar. Quando iríamos à casa de Adelino? Sem qualquer má intenção, estava interessado na primeira ligação de Segismundo à matéria. Alexandre agiria no momento da relação sexual ou o processo obedecia a outros fatores? O instrutor sorria em silêncio, percebendo minha tortura mental. As horas passavam e, notando minha impaciência, Alexandre me esclareceu:
– Não precisamos estar presentes durante a relação sexual. Situações conjugais como esta são sagradas e invioláveis para os casais que convivem em harmonia e elevação de propósitos. Você sabe que a fecundação do óvulo só acontece algumas horas depois da relação. O espermatozóide tem uma longa viagem a fazer, antes de chegar ao seu destino.
Percebi a delicadeza do assunto e, ansioso por mais informações, perguntei:
– E você diria que todas as relações sexuais são invioláveis?
– Claro que não! – respondeu o instrutor – Não se esqueça de que estou falando dos “casais que convivem em harmonia e elevação de propósitos”. Todos os encarnados que levam uma vida familiar equilibrada, conquistam a proteção de entidades elevadas, que lhes garantem a privacidade nos atos mais íntimos, intensificando as barreiras vibratórias e defendendo-as contra os assédios mais intensos, usando os pensamentos dos próprios encarnados como base para o seu trabalho. No entanto, o mesmo não ocorre nas casas onde as companhias espirituais não são das melhores. A mulher infiel aos princípios mais nobres da vida em comum e o homem que expõe sua casa de maneira irresponsável não devem esperar que seus atos tenham consequências positivas. Suas relações sexuais são espetáculos de que participam as entidades que eles mesmos escolheram, por sintonia. Tornam-se vítimas inconscientes de grupos trevosos, que compartilham de suas emoções físicas, induzindo-as às viciações. Ainda que estes cônjuges sejam considerados respeitáveis pelas convenções sociais do mundo, não podem disfarçar a condição espiritual desequilibrada, uma vez que vivem dominados pelo prazer físico.

A resposta de Alexandre me surpreendeu. Entendi melhor que cada um de nós escolhe a situação em que quer viver, em todos os lugares. No entanto, uma nova dúvida surgiu e procurei esclarecê-la, para tornar tudo ainda mais claro.
– Entendo a gravidade de suas palavras, – disse – mas, considerando o perigo que certas atitudes desequilibradas representam para aqueles que assumem a responsabilidade de um lar, como fica a situação, por exemplo, de uma esposa fiel e dedicada frente a um marido que tem suas aventurais sexuais? Essa mulher ficaria exposta às entidades perturbadas que o marido atraiu?
– Não. – disse ele, categórico – O mau não pode atingir o que é legitimamente bom. Em casos assim, a esposa garantirá a segurança do ambiente familiar, embora isto possa lhe custar muitos sacrifícios. Suas relações sexuais com o marido são sagradas, ainda que ele tenha um comportamento desequilibrado fora de casa. No entanto, neste caso, o marido irresponsável torna-se cego para as virtudes e se transforma em escravo das entidades perturbadas que atraiu, presentes, o tempo todo, em suas atividades fora de casa. Quando chega a esse ponto, é muito difícil impedir que chegue ao crime e ao completo desequilíbrio.
– Nossa! – exclamei – Como há trabalho esperando a boa vontade dos corajosos! Quanta ignorância a ser vencida!…
– Você acertou, – acrescentou o instrutor, em tom sério – porque, de fato, a maioria das tragédias conjugais continuam depois da morte física, criando terríveis infernos para aqueles que as vivenciaram na Terra. É muito doloroso ver a extensão dos crimes cometidos entre os encarnados e ai daqueles que não se esforçam para vencer as tendências inferiores em tempo! Sua chegada aqui é cheia de angústias!…

INÍCIO DO PROCESSO MAGNÉTICO

Eram, mais ou menos, 10h da noite, quando saímos em direção à casa de Raquel. O casal acabava de se deitar.
O chefe dos construtores dirigiu-se a Alexandre, dizendo:
– Estávamos esperando por você para começarmos com o processo magnético do reencarnante.
Em seguida, fomos para um dos quartos, onde Segismundo descansava. Ele continuava triste e aflito.
Não pude conter uma pergunta:
– Por que Segismundo está tão mal? – perguntei, discretamente.
– Já faz tempo que está em processo de ligação fluídica com os futuros pais, especialmente nesta última semana. Herculano está encarregado de ajudá-lo neste trabalho. À medida que se aproxima mais, ele vai perdendo o contato com os corpos sutis que estruturou aqui, pela assimilação de elementos deste plano. Isso é necessário para que o perispírito possa recuperar a plasticidade que lhe é característica e, no estágio em que está, o processo lhe causa alguns sofrimentos.
– Mas o perispírito de Segismundo não é o mesmo que ele trouxe para cá, quando desencarnou pela última vez?
– Sim, – concordou Alexandre – tem a mesma essência, mas, com o tempo, em virtude da nova alimentação e dos novos hábitos, em ambiente muito diferente, incorporou certos elementos sutis, dos quais precisa se desfazer para poder entrar, com êxito, na matéria física. Para isto, o conflito causado pelas primeiras ligações fluídicas com as respectivas emoções desgastam-lhe essas energias, sempre lembrando que, esta noite, faremos a parte final do trabalho, utilizando nossos recursos magnéticos em seu favor.
– Mas… – disse eu – Então não teremos aqui algo como a morte física no mundo?
Alexandre sorriu e respondeu:
– É claro que sim, se considerarmos a morte física como simples abandono de corpos terrestres.

Os construtores começaram o trabalho de magnetização do seu perispírito, ajudados de perto por Alexandre, que se mantinha firme em todos os detalhes do serviço.
Sem saber bem como explicar ao leitor, devo dizer que “alguma coisa na figura de Segismundo estava sendo eliminada”. À medida que o processo magnético se intensificava, ele se tornava mais pálido, de modo quase imperceptível. Ia ficando cada vez mais vago, cada vez menos lúcido.
Num determinado momento, Alexandre lhe disse, com firmeza:
– Segismundo, ajude-nos! Mantenha o pensamento e a vontade firmes!
Tive a impressão de que o reencarnante se esforçava para obedecer.
– Agora, – continuou o instrutor – sintonize-se conosco e mentalize a forma pré-natal. Imagine sua volta ao útero materno. Lembre-se do feto e torne-se pequeno. Pense na necessidade de voltar a ser criança para aprender a ser homem!

Entendi que o reencarnante precisava ajudar o mais possível para que a operação fosse bem sucedida. Surpreso, percebi que, sob a influência magnética de Alexandre e dos construtores, o perispírito de Segismundo ia diminuindo.
Embora não fosse simples, a operação não demorou muito. Ele já não nos percebia com a mesma lucidez e suas respostas às nossas perguntas não eram mais tão completas.
Por fim, para meu espanto, notei que Segismundo parecia uma criança.
– Como é que isso acontece? Não imaginava que o reencarne exigisse operações tão complexas no plano espiritual.
– O trabalho elevado está em toda parte – disse ele, de propósito. – O paraíso do descanso é, provavelmente, a maior ilusão dos princípios doutrinários que confundem o sentido divino da verdadeira religião na Terra.

Fez uma pausa e continuou:
– Não vejo razão para tanto espanto. O desencarne normal na Terra obriga o corpo físico ao mesmo tipo de modificações. A doença letal, para o homem encarnado, não deixa de ser, até certo ponto, uma prolongada operação de redução, que, ao final, liberta o espírito, desfazendo os laços orgânicos. Há pessoas que, depois de algumas semanas de cama, ficam irreconhecíveis. Isso sem considerar que o corpo físico está muito longe de ter a plasticidade do perispírito, o qual é profundamente sensível à influência magnética.
A explicação não podia ser mais lógica.
– Mas o que vimos aqui – perguntei – é regra geral para todos os casos?
– De jeito nenhum – respondeu Alexandre – Os processos de reencarne, tanto quanto os de morte física, são muito diferentes entre si e, até onde sei, não existem dois casos completamente iguais. As facilidades e dificuldades dependem de vários fatores, muitas vezes relacionados ao estado de consciência dos próprios reencarnantes ou à libertação dos elementos físicos. Há companheiros muito elevados que, ao voltarem à Terra em tarefa de serviço e crescimento, quase não precisam da nossa ajuda. Já outros, que vivem nas regiões mais densas, necessitam muito mais auxílio do que o oferecido a Segismundo.
– Mas não deveriam renascer – perguntei, curioso – só aqueles que já estão preparados?
– Não podemos esquecer – respondeu ele – que reencarnação é repetição de lições necessárias. A Terra é uma escola divina. E o amor, diariamente, leva de volta milhares de aprendizes, por meio das atividades de intercessão.

Alexandre calou-se, por alguns minutos e, depois, prosseguiu:
– A reencarnação de Segismundo segue os procedimentos mais comuns. É como a maioria dos casos dessa natureza, já que o nosso irmão está na média dos espíritos que povoam o planeta, nem puros, nem deliberadamente maus. Vale destacar, no entanto, que o reencarne de certas entidades das regiões mais densas, exige grandes esforços dos trabalhadores de nosso plano. Estas criaturas nos obrigam a serviços que você ainda vai demorar muito para entender.
– Por acaso, este tipo de ajuda é dado a todos? Aqui, estamos num lar harmonioso, segundo você mesmo disse. Mas… e se estivéssemos numa casa em desequilíbrio? E se tivéssemos que enfrentar paixões e distúrbios profundos?
O instrutor pensou um pouco e respondeu:
– André, o diamante que fica perdido no lodo por algum tempo não deixa de ser diamante. Do mesmo modo, a paternidade e a maternidade são sempre divinas, em si mesmas. O auxílio dos planos superiores está presente em todos os lugares, desde que esteja de acordo com a vontade de Deus. Entretanto, precisamos considerar que, em tais circunstâncias, as atividades de auxílio são muito difíceis. As vibrações contrárias e prejudiciais do espírito em desequilíbrio comprometem os nossos esforços e, muitas vezes, para ajudar nesses ambientes de irresponsabilidade e viciação, precisamos, antes de tudo, cuidar das entidades trevosas que dominam a atmosfera de homens e mulheres que, inadvertidamente, preferem a perturbação emocional, ambiente preferido dessas criaturas ignorantes e desequilibradas. Nesses casos, a nossa colaboração nem sempre é perfeita, já que os próprios pais menosprezam a grandeza da tarefa que lhes foi confiada, abrindo as portas de suas energias a entidades sombrias que perseguem seus filhos que ainda não nasceram. Muitos espíritos, bastante corajosos, escolhem reencarnar nestas condições, a fim de fortalecerem a própria resistência contra o mal, desde os primeiros dias de gestação. Entretanto, é preciso ser muito forte na fé e na coragem para não desistir. Nesse tipo de reencarne, a maioria dos casos é de espíritos em programas de provas e resgate. Muitos não aguentam, mas há sempre alguns que aproveitam a experiência para a vida espiritual eterna.

Alexandre comentava o assunto com beleza. Estava começando a entender a origem de certas anomalias e de determinadas doenças de nascença que, no mundo, causam tanto sofrimento. Aquelas explicações me conduziam a novo estudo: as questões dos resgates e das provas.

MAPAS CROMOSSÔMICOS

Em seguida, Alexandre pediu aos construtores que examinassem, com ele e Herculano, os mapas cromossômicos. Por falta elementos, não tenho como transmitir determinadas definições daqueles especialistas, mas posso dizer que, quando terminaram a parte técnica da reunião, Alexandre disse, satisfeito:
– Com exceção da artéria principal, no ponto onde deve se dilatar para facilitar o funcionamento do coração, tudo está indo muito bem. Todos os genes serão absolutamente normais.
Depois de pequena pausa, acrescentou:
– Os membros e órgãos serão excelentes. E se o nosso amigo souber aproveitar as oportunidades do futuro, poderá conseguir a recuperação do aparelho circulatório, mantendo-se em experiência evolutiva por um bom tempo na Terra. Só depende dele.

Virando-se para os construtores, disse-lhes:
– Meus amigos, Herculano ficará, em definitivo, com Segismundo, até que ele complete sete anos de vida, quando o processo de reencarne estará completo. Depois disso, sua tarefa de amigo e orientador será mais suave, já que poderá acompanhar nosso irmão a distância. Sei que ele tomará todas as providências necessárias para o equilíbrio do feto, seja ajudando o reencarnante, seja protegendo a mãe contra o assédio de forças perturbadoras. Entretanto, peço que prestem muita atenção aos primeiros sinais de formação do timo, glândula muito importante desde a gestação até o fim da primeira infância, como todos sabem. Precisamos que ela funcione muito bem até que a medula óssea esteja pronta para a produção dos glóbulos vermelhos. Os vários gráficos dos cromossomos vão facilitar o trabalho.
Alguns dos presentes passaram a olhar os mapas com mais atenção.
Enquanto examinavam aqueles sinais microscópicos, aproximei-me de Alexandre e, percebendo que estava mais acessível às minhas dúvidas, perguntei:
– Nestes mapas, temos a geografia dos genes, distribuídos nos cromossomos. Mas e a lei de hereditariedade, será limitada? A criança recebe, ao nascer, a total influência das características dos pais? Doenças físicas e distúrbios de caráter são transmitidos em sua totalidade?
– Não, André. – disse ele, sério – Estamos diante de um fenômeno físico natural. O organismo dos futuros bebês, em sua forma mais densa, provém do corpo dos pais, que lhes dá a vida e determina as características com o próprio sangue. No entanto, não existe na lei natural nenhuma transgressão aos princípios de liberdade espiritual, intrínsecos a toda a criação. Por isso mesmo, os encarnados herdam tendências e não, qualidades. As tendências cercam o homem que reencarna desde os seus primeiros dias de luta no ambiente em que deve renascer, para aprimorar-se. Já as qualidades são o resultado do esforço individual do espírito encarnado, defendendo, educando e aperfeiçoando a si mesmo. Se o reencarnante prefere as tendências inferiores, ele as desenvolverá assim que as encontrar novamente na nova situação de vida, perdendo tempo precioso e desperdiçando valiosa oportunidade de crescimento. Mas se ele se mantiver firme no propósito de se elevar, ficará acima de qualquer tendência negativa do corpo ou do ambiente, vencendo as condições adversas e conquistando títulos muito importantes para a vida espiritual. Portanto, em sã consciência, ninguém pode se queixar da influência de forças negativas ou circunstâncias difíceis, no que se refere ao ambiente em que renasceu. Sempre teremos liberdade íntima para escolher o caminho da luz. Elevando-nos espiritualmente, estaremos sempre melhorando. Esta é a lei.

7 ANOS

Em virtude de suas explicações anteriores, a respeito da ajuda de Herculano a Segismundo até os sete anos, procurei saber algo mais de Alexandre. Pedi desculpas a ele, mas não pude conter aquela dúvida. Por que tanto cuidado com o sangue do futuro recém-nascido? O processo de reencarnação só termina aos sete anos de vida física?
Como sempre, o instrutor me ouviu, pacientemente, sorriu e respondeu, atencioso:
– Você sabe que o corpo humano tem suas atividades meramente vegetativas, mas talvez ainda não saiba que o perispírito, que serve de molde às células, está profundamente enraizado na circulação sanguínea. No feto, o sangue provém da mãe. Logo depois do nascimento, tem início um período de assimilação diferente, em que o “eu” reencarnado começa a consolidar suas novas experiências, e só aos sete anos é que passa a comandar, por si mesmo, o processo de formação do sangue, elemento básico de equilíbrio para o perispírito, na nova experiência iniciada. O sangue, portanto, é como o fluido divino que nos garante as atividades no corpo físico e, em seu fluxo e refluxo constantes no organismo, temos o símbolo do eterno movimento das forças sublimes da criação. Quando ele não circula livremente, surgem os distúrbios e as doenças e, quando algo interrompe completamente a sua circulação, o tônus vital se extingue e logo ocorre a morte física, com a saída imediata do espírito.
Muito impressionado com a revelação, observei:
– Ah, quanta responsabilidade tem o homem, frente ao corpo físico!
– É muito natural e justa sua admiração frente a esse dever do espírito encarnado – disse Alexandre. – Sem corresponder às graves responsabilidades que lhe competem nos cuidados com o corpo físico, nenhum homem poderá alcançar a elevação espiritual. O espírito renasce na carne para conquistar valores divinos para sua natureza. Mas como conseguir isso, destruindo o organismo, principal fundamento do trabalho? Agora a pouco você falava da lei de hereditariedade. O corpo físico também é um patrimônio herdado há milênios, que a humanidade vem aperfeiçoando através dos séculos. O plasma, sublime criação divina, feito à base de água do mar nas épocas mais primitivas, é a base fundamental dos organismos. Quando voltamos à Terra, temos que aproveitar sua herança, mais ou menos evoluída no corpo humano.
Depois de ligeira pausa, continuou:
– Por isso mesmo, você sabe que, enquanto estamos encarnados, somos criaturas marinhas, respirando em terra firme. Na alimentação comum, não podemos deixar faltar o sal. Nosso corpo é constituído de 60% de água salgada, com composição quase idêntica ao mar, com sais de sódio, cálcio e potássio. O sabor do sal está no sangue, no suor, nas lágrimas e nas secreções. Os organismos adaptados para a vida nos mares mais quentes viveriam confortavelmente no líquido do corpo humano. Como vê, ao renascermos no mundo, recebemos, com o corpo, uma herança sagrada, cujos valores precisamos preservar e aperfeiçoar. As forças físicas devem evoluir com os nossos espíritos. Se o corpo nos é proporcionado como ferramenta para as novas experiências de elevação, devemos retribuir, com o nosso esforço, oferecendo-lhe nosso respeito e equilíbrio espiritual no campo das atividades orgânicas. O homem do futuro entenderá que suas células não são apenas partículas de carne, mas companheiras de evolução, que merecem a sua gratidão e colaboração efetivas. Sem esta compreensão da harmonia orgânica, é impossível encontrar a paz.

ANATOMIA E PROGRAMA KÁRMICO

A conversa brilhante de Alexandre inspirava elevadas questões. Entretanto, ele mesmo me lembrou do trabalho em andamento e encerrou as explicações.
Eram 2h da manhã.
– Faremos agora a ligação inicial mais direta de Segismundo com a matéria física.
– Depois de adulto na carne, ele terá a mesma aparência que tinha aqui entre nós? Uma vez que o molde é o perispírito, que já existia, ele vai ter a mesma altura e os mesmos traços que tinha aqui?
Alexandre respondeu, sem vacilar:
– Calma, André. Estamos falando de uma forma que já existia e que serve de modelo para a estrutura principal, ou seja, o aspecto humano. Os traços e detalhes anatômicos vão se desenvolver naturalmente, de acordo com a lei de hereditariedade. O futuro corpo físico de Segismundo dependerá dos genes dos pais, mas, acrescente a isso a influência mental de Raquel, a atuação do próprio reencarnante, a ajuda dos espíritos construtores, que agirão como funcionários da natureza, invisíveis aos encarnados, o auxílio dos amigos que o visitarão durante a gestação, e você terá uma idéia de como será o corpo que ele vai ter, por algum tempo, para novas experiências de crescimento e recuperação. Alguns fisiologistas da Terra afirmam que a vida humana é apenas o resultado de processos biológicos, mas esquecem-se de que estes processos nada mais são que a lei de cooperação espiritual em ação.
– Então, – insisti – por enquanto, Segismundo terá uma forma física indefinida para nós?
– Se estivéssemos diretamente envolvidos com o seu caso, conheceríamos todos os detalhes do seu futuro, mas a nossa colaboração aqui é transitória e sem maior importância no tempo. Mas os orientadores de Segismundo, nos planos mais elevados, têm todo o programa traçado para o seu bem. Note que falo do seu bem e, não, do seu destino. Muita gente confunde programa com fatalismo. O próprio reencarnante e Herculano conhecem os detalhes deste programa, porque ninguém se matricula numa escola, para um curso mais ou menos longo, sem um objetivo definido e sem saber as regras que deve obedecer.
Depois de rápida pausa, continuou:
– Os contornos anatômicos da forma física, perfeitos ou deformados, longos ou curtos, bonitos ou feios, fazem parte das regras a serem obedecidas. Em geral, a reencarnação sistemática é sempre um recurso de trabalho contra os defeitos morais já existentes nas lições e conflitos presentes. Defeitos de anatomia, circunstâncias adversas, ambientes hostis, na maioria das vezes, são os melhores meios de aprendizado e recuperação para aqueles que reencarnam. Por isso, o mapa do programa de provas úteis é elaborado com antecedência, como o caderno de anotações de um aluno qualquer numa escola comum. Em vista disso, o mapa de Segismundo está devidamente traçado, levando-se em conta a contribuição genética dos pais, o ambiente familiar e a ajuda que receberá de inúmeros amigos daqui. Imagine, portanto, que o nosso amigo está voltando a uma escola, a Terra, com o propósito de obter novas conquistas espirituais. Ora, para conseguir isso, terá de se submeter às regras da escola, renunciando, até certo ponto, à liberdade de que dispõe em nosso plano.
– Mas nós não poderíamos – perguntei – chamar este programa de “destino fixo”?
O instrutor respondeu, com paciência:
– Não cometa o mesmo erro de muitas pessoas. Isto significaria conduta espiritual obrigatória. É claro que o espírito renasce com independência limitada e, muitas vezes, fica sujeito a certas condições mais difíceis, em virtude da necessidade educativa, mas isso, em hipótese nenhuma, anula o livre-arbítrio da criatura, no sentido de escolher entre progredir, estacionar ou piorar ainda mais sua situação. Existe um programa de tarefas positivas a serem cumpridas pelo reencarnante, onde os orientadores estabelecem a cota aproximada de conquistas suscetíveis de serem alcançadas pelo espírito durante a reencarnação. E o espírito que reencarna pode melhorar esta cota, ultrapassando a previsão anterior, pelo esforço próprio, ou ficar muito longe dela, enterrando-se ainda mais nos compromissos com o próximo, menosprezando as grandes oportunidades que lhe foram oferecidas. Todo programa traçado nos planos superiores tem, por objetivos principais, o bem e a elevação, e todo espírito que reencarna na Terra, mesmo aqueles que se encontram em condições aparentemente muito difíceis, sempre tem recursos para melhorar.

LIGAÇÃO ESPIRITUAL

Alexandre se calou e notei que todo o cômodo se enchia de luz. Percebi que, de todos nós, desencarnados reunidos ali, partiam raios luminosos que se derramavam sobre Raquel, que chorava emocionada. Mas o fenômeno não parou aí. Foi então que a vi apertar a forma infantil de Segismundo contra o coração, com tanta força e com tanto amor, que mais parecia uma sacerdotisa da Divindade Suprema. Segismundo ligou-se a ela como a flor se une à haste. Então entendi que, a partir daquele momento, já era alma de sua alma aquele que seria carne de sua carne.

FECUNDAÇÃO

Notando que a forma de Segismundo havia se ligado a ela, por maravilhoso processo de união magnética, fui orientado por Alexandre para que acompanhasse, de perto, o trabalho de auxílio na ligação definitiva de Segismundo à matéria física.
Apontando o aparelho reprodutor de Raquel e projetando sobre ele a sua luz, Alexandre me preveniu sobre a grandeza do momento, acentuando, com respeito:
– Aqui temos o templo sagrado da maternidade humana. Diante de seu altar, ao qual todos devemos as oportunidades de encarnação, devemos colaborar, na tarefa de amor, guardando a consciência voltada para Deus.
Inclinei-me sobre o corpo de Raquel, com um sentimento de veneração que nunca havia sentido, até então.
Ajudado pelos recursos magnéticos de Alexandre, passei a observar os detalhes do fenômeno da fecundação.
Pelas vias naturais, iam os espermatozóides, em busca do óvulo, como se estivessem previamente preparados para uma prova eliminatória, numa velocidade de, mais ou menos, 3 mm por minuto. Surpreso, notei que eram milhões deles que seguiam, em massa, para a frente, em impulso instintivo, na sagrada competição.

No silêncio daqueles minutos, percebi que Alexandre, sendo o trabalhador mais elevado ali presente, comandava os importantes serviços da primeira ligação. Segundo o que pude entender, ele podia ver as características cromossômicas de todos os espermatozóides em movimento, depois de ter examinado, atentamente, o óvulo materno, e fazia o trabalho prévio de determinação do sexo do corpo a se formar.
Depois de acompanhar, completamente entretido, a marcha dos espermatozóides, identificou o mais apto, fixando nele a sua energia magnética, dando a idéia de que ajudava para que ele se livrasse dos outros competidores e fosse o primeiro a penetrar o óvulo. O espermatozóide focalizado por ele ganhou mais energia que os outros e avançou, rapidamente, em direção ao seu destino. O óvulo que, comparado ao minúsculo espermatozóide, parecia um pequeno mundo redondo cheio de açúcar, amido e proteínas, aguardando o raio de vida, sofreu uma ruptura da membrana, como pequeno barco sendo bombardeado, e endureceu, de maneira especial, fechando os minúsculos poros, como se quisesse isolar-se em si mesmo, para receber, face a face, o esperado visitante, e impedindo a invasão de qualquer outro dos concorrentes, que haviam perdido o primeiro lugar na grande prova. Sempre sob a ação energética de Alexandre, o espermatozóide vencedor seguiu adiante, depois de atravessar a periferia do óvulo, levando pouco mais de quatro minutos para alcançar o seu núcleo. As duas sementes, masculina e feminina, tornaram-se uma só, convertendo-se em suave foco de luz. Alexandre, absolutamente concentrado no trabalho, tocou a pequena forma com a mão, comandando o processo de divisão da cromatina, cujas particularidades eu ainda não podia entender, como se fosse um cirurgião seguro de si em sua técnica. Em seguida, o instrutor encaixou a forma infantil de Segismundo, interpenetrado no perispírito de Raquel, naquela minúscula bola de luz, cheia de vida, e notei que a vida começou a existir.
Havia passado 15 minutos desde que o espermatozóide penetrou o óvulo.

Depois de intensa operação magnética, que era sustentada pelos construtores, Alexandre aproximou-se de mim e falou:
– A operação inicial de ligação está terminada. Que Deus nos proteja.
– O corpo da mãe fornecerá todo o alimento para a estruturação física do feto, enquanto a forma perispiritual de Segismundo funcionará como modelo, dando forma ao seu futuro corpo.
Estava muito impressionado com o que via. E, percebendo que a redução do perispírito de Segismundo era algo espantoso para mim, acrescentou:
– Não se esqueça, André, de que reencarnação significa recomeço ou retificação nos processos evolutivos. Lembre-se de que os organismos mais perfeitos da Terra se originam, inicialmente, de uma ameba. Ora, recomeço quer dizer “recapitulação” ou “volta ao começo”. Por isso mesmo, em seu desenvolvimento embrionário, o futuro corpo de um ser humano não pode ser diferente do processo de formação do réptil ou do pássaro. O que faz a diferença na forma é apenas o grau evolutivo, contido no molde do perispírito do ser que reencarna. Assim, ao regressar à matéria física, como acontece com Segismundo, é preciso recapitular todas as experiências vividas no longo processo de aperfeiçoamento, ainda que por alguns dias ou horas apenas, repetindo, rapidamente, todas as etapas vencidas e as lições adquiridas, parando no ponto de onde deve prosseguir no aprendizado. Logo depois da ameba microscópica, surgirão, no feto de Segismundo, as características aquáticas de nossa evolução e, sucessivamente, todos os períodos de transição ou progresso que a criatura já ultrapassou na jornada contínua até o estágio em que nos encontramos agora, como seres humanos.
Já era muito tarde.
Sentindo que Alexandre não demoraria muito, aproximei-me do feto, mais uma vez. O óvulo fecundado estava cheio de vida, caminhando para a vesícula germinal.

DIVISÃO CELULAR E ABORTOS ESPONTÂNEOS

No dia seguinte, continuaram os trabalhos… já estamos entrando no Cap. XIV

Notei, com interesse, a intensa movimentação celular no desenvolvimento da estrututa do novo corpo em formação e percebi o cuidado com que os espíritos presentes trabalhavam para que o disco embrionário fosse formado com a precisão necessária. Entendi que o processo de divisão celular e a adaptação das células divididas ao molde do perispírito reduzido era totalmente mecânico, obedecendo a disposições naturais do mundo físico, mas todo o conjunto microscópico recebia a ajuda magnética das entidades em serviço, dando-me a impressão de que toda a estrutura básica era preparada para sustentar a tarefa inicial do futuro aparelho.
Querendo explicar a razão de tanto cuidado, Apuleio observou:
– Temos grandes responsabilidades no trabalho de construção do mecanismo fetal. Devemos eliminar os obstáculos e ajudar as estruturas unicelulares do embrião, no útero da mãe, para que a reencarnação, muitas vezes projetada com grandes dificuldades, não se perca, logo no início, por falta de colaboração do nosso plano, onde os compromissos são assumidos.
Escutava o que ele dizia, com muita atenção, a fim de aproveitar todo o conhecimento de que dispunha.
– Por isso, – continuou ele – raramente o aborto acontece em consequência de fatores espirituais. Geralmente, ocorre em virtude do recuo inesperado dos pais encarnados, frente aos sagrados compromissos assumidos, ou dos excessos de leviandade e inconsciência criminosa das mães, menos preparadas para a responsabilidade e a compreensão da maternidade. No entanto, mesmo nos casos de mães menos preparadas, fazemos tudo o que está ao nosso alcance para evitar a fuga ao projeto, quando essa fuga se dá por mero capricho. Mas é claro que nossa interferência junto aos encarnados, temporariamente esquecidos do dever a cumprir, tem também seus limites. Se os interessados, fugindo aos compromissos espirituais, teimam em agir contra nós, somos obrigados a deixá-los entregues à própria sorte. Por isso, existem muitos casais encarnados completamente sem filhos, visto que anularam as próprias capacidades de reprodução. Quando não agem assim no presente, procurando a satisfação egoísta, agiram no passado, determinando anomalias na própria organização psíquica. Neste último caso, passam por tristes períodos de solidão e carência afetiva, até que recuperem, com dignidade, o respeito que todos devemos às leis divinas.

Estava impressionado com certos detalhes do trabalho feito na noite anterior. Como conseguiram localizar a ligação inicial de Segismundo com o futuro corpo, dentro dos órgãos reprodutores de Raquel? E a questão do espermatozóide mais apto? Espíritos como Alexandre atuavam da mesma forma em todos os processos de escolha para a fecundação?
Apuleio me ouviu, com bondade, e informou:
– Passividade não significa falta de colaboração. Raquel aceitou a maternidade com decisão e resignação. Ela recebeu Segismundo em seu perispírito e, usando os poderes naturais de sua mente, alojou o molde vivo perispiritual do futuro filho dentro do útero, com a mesma espontaneidade de outros processos fisiológicos, comandados pela atividade mecânica subconsciente, cujo automatismo representa conquista de experiências milenares do espírito reencarnado. Para os seres femininos é tão fácil ambientar as forças reprodutoras, como é natural para os masculinos a manutenção da atitude paternal e protetora, enquanto dura a condição de paternidade.

Percebendo minha intenção de aproveitar, o mais possível, os seus esclarecimentos para os leitores encarnados, comentou:
– Seria muito complicado explicar aos encarnados o fenômeno da adaptação das forças reprodutoras no útero materno, nos processos de reencarnação. Por enquanto, a tendência da maioria deles é de materializar tudo o que explicamos. Será preciso esperar mais tempo para poder dar-lhes certas informações que, por ora, seriam completamente incompreensíveis.
Quanto às suas observações sobre o trabalho de Alexandre na escolha do espermatozóide, é preciso enfatizar que, nem sempre, contamos com esse tipo de recurso, que depende diretamente do merecimento dos interessados. No entanto, mesmo quando não há trabalho magnético direto do nosso plano, ele também acontece, uma vez que a lei de atração continua funcionando. Se o espermatozóide está carregado de força positiva, o óvulo está impregnado de força negativa. E se esse óvulo estiver imantado de energias desequilibradas, naturalmente, atrairá para si o espermatozóide que mais se aproxime de sua própria essência. Com isso, André, o espermatozóide que atinge o óvulo em primeiro lugar não é o mais adequado em sentido de superioridade, mas em sentido de sintonia, em todos os casos de fecundação para o mundo físico. Esta é a lei pela qual os geneticistas da Terra são, muitas vezes, surpreendidos em suas observações, em face das mudanças inesperadas que surgem nas mais diferentes estruturas, dentro da mesma espécie. As células possuem também o seu individualismo energético, relativamente independente, no campo das manifestações vitais.
Nesse ponto, Apuleio sorriu e continuou:
– Se a mulher pode exercer influência decisiva na escolha do parceiro, também o óvulo, na maioria das vezes, pode exercer sua atração na escolha do espermatozóide que o fecundará. Claro que estamos falando apenas em termos físicos, sem tocar nos problemas espirituais das tarefas, missões ou provas necessárias.
Notando minhas dúvidas silenciosas, observou:
– Sim, já que em algumas tarefas terrenas de determinados espíritos, as autoridades dos planos mais elevados dispõem de poder suficiente para, até certo ponto, intervir na lei biogenética, ajustando disposições, visando objetivos especiais.

E, noite após noite, visitei os trabalhos de reencarnação, aprendendo e cooperando, para conhecer melhor a bondade do espíritos de luz e a sabedoria de Deus, expressa em todas as coisas.
Depois da vesícula germinal, formaram-se os três folhetos blastodérmicos, com a ajuda dos construtores, aproveitando-se o molde que Raquel havia criado, mentalmente, para o futuro filho. Este molde foi aplicado sobre o modelo perispiritual de Segismundo, em processo de reencarnação.

Notei que os trabalhos dos técnicos espirituais eram, em tudo, muito parecidos aos serviços que vi na sessão de materialização de desencarnados. Usavam-se recursos do interessado, de amigos, do futuro pai, assim como, na sessão de materialização, foram utilizados recursos do orientador espiritual e da médium. A semelhança era muito grande, com a única diferença de que, na materialização, levava-se algumas horas para obter uma aparição incompleta e transitória, enquanto que ali seriam necessários nove meses para uma reencarnação completa, em caráter mais ou menos longo e definitivo. Com o passar dos dias, o novo corpo de Segismundo se formava, célula por célula, dentro de uma programação simples e inteligente. Quando o embrião completou 20 dias, Apuleio parecia muito satisfeito. Disse-me que o trabalho básico estava terminado. Alguns colaboradores já poderiam até se retirar. Para continuar o trabalho, bastariam dois deles, ao lado de Herculano.

bandeira da espanha Ler em espanhol (por Teresa)

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