ELON MUSK

Eu sempre gostei de notícias sobre o espaço, programa espacial, homem na Lua, mas nunca fui um obcecado. Pra mim sempre foi uma coisa do passado, muito engessada pelos governos, basicamente funcionando nos anos 80 e 90 pra botar satélites espiões e de comunicações. Mas aí surgiu do nada um cara que revolucionou os foguetes, fez o espaço ser “Cool” de novo e iniciou uma nova corrida espacial em direção a Marte que vai nos levar de volta à Lua: o nome dele é Elon Musk.

Se você não faz idéia de quem é Elon Musk não se perturbe, você não está só. Ele é um nerd sul-africano que ficou milionário aos 24 e bilionário antes dos 40. É um dos criadores da Paypal, da Tesla Motors e da SpaceX. Oh, e foi a inspiração declarada pra o Tony Stark dos filmes da Marvel. Por enquanto ele é conhecido por um nicho de pessoas que gostam de tecnologia, mas durante as próximas décadas você vai ouvir falar dele como um dos maiores nomes da HUMANIDADE, ao lado de Ford, Tesla, Einstein, Jobs. Podem anotar.

Elon Musk é o gênio que se fez sozinho. Aos nove anos de idade aprendeu de forma autodidata códigos de programação de computadores. Três anos depois ele criou um game temático de espaço, chamado “Blastar”. O código-fonte do jogo foi publicado pela revista sul-africana PC and Office Technology e vendido por US$ 500. Aos 24 Musk começou um Ph.D. duplo em Física Aplicada e Negócios na Universidade de Stanford, na Califórnia, EUA. Ele deixou o curso 2 dias depois para ir atrás de sua carreira em software, fundando a empresa Zip2, uma companhia que desenvolvia conteúdo para portais de notícias. Em 1999, a empresa foi comprada pela Compaq por 307 milhões de dólares, e assim Musk ganhou 22 milhões. Em 1999 Musk usou US$ 12 milhões dessa venda para co-fundar a empresa X.com, um banco online. No ano seguinte, houve uma fusão com a firma rival Confinity e, dois anos depois, o site foi renomeado para PayPal. Em 2002 a Paypal foi vendida pra EBay por 1,5 bilhão de dólares e assim ele ganhou 165 milhões de dólares.

Musk pegou 100 milhões desse dinheiro e decidiu investir num negócio que ele mesmo sabia que não daria retorno fácil: foguetes espaciais. O objetivo dele era singelo: mandar uma plantinha pra Marte e fazer ela crescer por lá. Isso seria uma imagem poderosa para inspirar pessoas para as viagens espaciais. Musk até hoje acredita que devemos nos tornar espécies interplanetárias se quisermos aumentar as chances de sobreviver a uma catástrofe (como o meteoro que extinguiu os dinossauros). E assim ele fundou em 2002 a SpaceX. É o tipo de coisa que você só faz por amor, porque seu trabalho EXPLODE facilmente e você perde tudo o que investiu em tentativas e erro. Os amigos ficaram preocupadíssimos com ele e o colocaram pra ver compilações de cenas onde os foguetes explodem. Sério. É aí que a gente vê que Elon Musk não é o tipico capitalista que só está interessado em lucros. Primeiro ele tentou comprar foguetes usados dos russos. Foi até lá, apenas pra ser esnobado. Os russos tentaram empurrar uns foguetes velhos por milhões de dólares, e Musk mostrou que ele sabia que estava sendo feito de trouxa. Um dos projetistas russos cuspiu nele e o chamou de garoto. Nunca, nunca provoque um gênio. No vôo de volta pros EUA ele já estava montando uma planilha que calculava QUANTO custaria MONTAR SEU PRÓPRIO FOGUETE. Como ele é apaixonado por Física e Economia, e como ele não conseguia contratar ninguém muito top na área de foguetes, ELE MESMO foi o projetista do Falcon 1 (sim, o nome é uma homenagem à Millenium Falcon de Star Wars). Levou 4 anos pra sair do papel, mas saiu.

Um exemplo da abordagem de Musk em relação aos foguetes está na história contada por Steve Davis, diretor de projetos avançados: A SpaceX precisava de um acionador que desencadeasse a ação da junta universal usada para direcionar o estágio superior do Falcon 1. Davis nunca tinha construído uma peça mecânica, e, naturalmente, saiu em busca de alguns fornecedores que pudessem fazer um acionador eletromecânico para ele. Recebeu um orçamento de 120 mil dólares. Segundo Davis, “Elon riu e retrucou: ‘Essa peça não é mais complexa do que um abridor de porta de garagem. Seu orçamento é de 5 mil dólares. Faça funcionar‘” O acionador criado por Davis acabou custando 3.900 dólares e voou para o espaço com o Falcon 1.

Como ele não tinha o dinheiro da NASA nem o do governo Russo pra criar e manter seus foguetes, Musk precisava que eles fossem REUTILIZÁVEIS. Pra economizar dinheiro! A partir dessa necessidade veio a coisa toda de fazer os foguetes pousarem de pé, que virou a marca registrada da SpaceX. A idéia no Falcon 1 era que o primeiro estágio do foguete retornasse de para-quedas, mas isso nunca foi implementado.

Os três primeiros vôos do Falcon 1, em 2006, 2007 e 2008 falharam. O dinheiro de Elon Musk agora só dava pra MAIS UM vôo, pra provar pros clientes (especialmente a NASA) que um foguete particular poderia pôr um satélite em órbita (algo inédito até então). Era tudo ou nada. Em 28 de setembro de 2008, no ÚLTIMO vôo possível, ele funcionou, e a Space X ganhou seu primeiro contrato comercial. Se falhasse, seria o fim da SpaceX e provavelmente eu não estaria aqui falando de Elon Musk. Isso é uma coisa que precisamos colocar em perspectiva, pois ele não nasceu milionário nem tinha uma família pra bancá-lo caso seus negócios dessem errado. Era todo o dinheiro investido e trabalho duro pra coisa toda não quebrar!

“Dos 180 milhões que ganhei na venda do Paypal eu peguei 100 milhões e botei na SpaceX, 70 na Tesla e 10 na Solar City. Eu tive de pedir dinheiro emprestado para pagar o aluguel”.

Elon Musk

Apesar do sucesso do Falcon 1, 2008 foi o pior ano para Elon Musk. A Tesla chegou a HORAS de decretar falência, e a SpaceX não tinha mais dinheiro pra nada. Até que a NASA, vendo o sucesso do Falcon 1, resolveu fazer um contrato onde a SpaceX seria a fornecedora de suprimentos pra Estação Espacial. E pagou adiantado 1,6 bilhões de dólares no dia 23 de dezembro de 2018. Isso salvou não só a SpaceX como a Tesla. E o Elon Musk de se tornar um mendigo.

Elon tem um gênio um pouco estourado, assim como Steve Jobs, e não tem paciência com falhas ou incompetência. Todo mundo fala que ele é REALMENTE um gênio e faz cálculos altamente complexos de cabeça e sabe TUDO de alto a baixo de tudo o que ele faz, pode conversar sobre engenharia, astronomia, filosofia, economia, e mudar de um assunto pro outro na hora. É por isso que ele simplesmente não pára, está sempre inovando, criando e puxando seus empregados pra fazer algo que canibaliza seus próprios produtos (mais um indicativo de que ele não é o típico capitalista e nesse ponto está bem acima de Steve Jobs, que saiu tirando leite do Iphone todo ano com pequenas mudanças e a Apple faz isso até hoje com todos os seus produtos).

Tesla

Em 2004, enquanto ele ainda desenvolvia o Falcon 1, Musk se tornou presidente da Tesla motors, uma companhia iniciante de carros elétricos. Até então os carros elétricos eram vistos como brinquedos, um tipo de carrinho de golfe disfarçado de carro de passeio, algo feito para um nicho de ecologistas. Ele resolveu que faria um carro esportivo totalmente elétrico, o que era uma maluquice na época. Lançou então o Roadster em 2008, que caiu nas graças das pessoas ricas da Califórnia graças ao design e aceleração de 0 a 100 (uma característica dos motores elétricos que não era explorada pela indústria). Após o Roadster a Tesla lançou o primeiro carro todo feito por eles: O Model S. Depois o Model X. Elon quis lançar o Model E, mas a Ford patenteou o nome e não deixou usar. Então chamaram o próximo carro de Model 3. Tudo por causa de uma brincadeira de Elon Musk com as letras, que formam: S 3 X Y.

Falcon 9: A revolução dos foguetes

Após o Falcon 1 ter se tornado o primeiro foguete particular a pôr um satélite em órbita e o contrato com a NASA, Musk poderia ficar utilizando esse modelo pra ir pagando o investimento e ganhar algum dinheiro enquanto desenvolvia outro foguete, mas não! Ele já partiu logo pro Falcon 9, que tem esse nome por conta dos 9 motores Merlin, de desenvolvimento próprio. Foi o Falcon 9 que mudou TODO o conceito de foguetes. De cabo a rabo. Por décadas foguetes eram aquilo que você jogava pro alto e dane-se. Tudo era descartável, dos motores às cápsulas. Tudo isso mudou com Elon Musk. O desafio desde o começo era baixar o custo não só do foguete como o preço pra colocar um satélite em órbita. E se pudéssemos fazer o foguete POUSAR e reaproveitá-lo depois? Parece simples, não? Certamente TODOS os engenheiros aerospaciais durante 50 anos pensaram nisso. Mas por que não conseguiram? Bem, aqui tem um artigo delicioso (em inglês) sobre como os foguetes da SpaceX pousam na vertical. Parece simples, mas Elon Musk uma vez comparou o feito a tentar equilibrar um lápis na palma da sua mão… durante um furacão.

Obviamente essa tecnologia não foi desenvolvida da noite pro dia, mas através de inúmeras tentativas (e erros). O engraçado é que a SpaceX não tem vergonha de mostrar seus erros, e fez até um video mostrando como NÃO pousar um foguete:

Falcon Heavy

Em fevereiro de 2018 a SpaceX fez história de novo e criou algumas das imagens mais marcantes da história espacial, com o lançamento de teste do seu novo foguete Falcon Heavy, que consiste de dois foguetes Falcon 9 carregando um foguete central, o que faz dele o MAIOR foguete em operação no mundo (e o segundo mais poderoso de todos os tempos, só perdendo pro Saturn V), capaz de carregar a maior carga pro espaço.

Tradicionalmente o primeiro lançamento de um foguete carrega um peso-morto (pedras, etc) porque espera-se que algo dê errado (afinal, é um teste). Elon Musk queria criar uma imagem que inspirasse gerações, assim como ele foi inspirado pelo homem na Lua. Então ele botou seu primeiro carro Tesla, o Roadster, no topo do foguete com o objetivo de lançá-lo em direção a Marte! Como bom nerd, ele pensou em todos os detalhes: dentro do Roadster ele colocou um boneco vestido com o traje de astronauta que a SpaceX está desenvolvendo pra ir à Marte, e o batizou de “Starman” (título de uma música de David Bowie). No porta-luvas botou um disco de quartzo (5D quartz laser storage device) que sobrevive às condições hostis do espaço, e dentro dele a série de livros “Fundação”, de Isaac Asimov, que é um clássico da ficção científica. Na tela LCD do carro estava a inscrição “Don’t Panic” (não entre em pânico), imortalizada na série de livros “O Guia do mochileiro das galáxias”. E no momento da revelação do carro flutuando no espaço tocou a música “Life on Mars”, também de Bowie:

O irônico é que em depoimentos antes do lançamento Musk apenas dizia que esperava que tudo fosse explodir. Pra quem conhece o programa espacial da NASA e Rússia sabe bem dos riscos de lançar algo novo, mas impressionantemente deu quase tudo certo: o carro saiu da Terra e proporcionou imagens lindíssimas de um esportivo no espaço.

Mas o que arrepiou todos os cabelos do meu corpo (e de milhares de pessoas) foi ESTA cena com os dois boosters Falcon 9 pousando em sincronia:

Uma cena lindíssima que ninguém jamais viu na história e que entrou para os anais dos grandes feitos da engenharia. Todo esse show certamente fez o público se interessar de novo pelo espaço, e inspirou toda uma nova geração. Um dia, daqui a 70 anos, quando a humanidade (espero) já tiver conquistado o direito de ser uma espécie interplanetária, os jornalistas entrevistarão os cientistas de sua época, que dirão, com uma certa emoção: “o pouso em Marte me inspirou a estar aqui, certamente, mas eu faço o que faço hoje por conta de um momento que se deu em 2018, quando eu era pequeno e vi um astronauta dentro de um carro flutuando no espaço com a Terra ao fundo. Foi ali que tudo começou pra mim e, acredito, pra todos aqui!!”

Como eu disse, QUASE tudo foi perfeito. Na hora de pousar o foguete central ele ficou sem combustível e por isso se espatifou no mar em altíssima velocidade (um errinho de cálculo de alguém que custou milhões de dólares mas felizmente não prejudicou o brilho da festa). E o carro, que deveria cruzar Marte, foi parar em algum ponto do espaço (também um errinho de cálculo, e é por isso que testes são feitos).

Jonathan Nolan, criador de Westworld e amigo de Elon Musk, fez um vídeo em homenagem ao lançamento do Falcon Heavy:

É completamente maluco pensar que uma empresa cuja experiência com foguetes só tem 11 anos conseguiu superar a NASA (com seu orçamento bilionário e todas as empresas contratadas por ela) e os russos (bote aí todo o peso da União Soviética em plena corrida espacial e guerra fria) em termos de eficiência, design e tecnologia. O motivo pra isso é justamente NÃO ser uma empresa governamental, presa a contratos, interesses políticos, tecnologias obsoletas, etc.

Apenas mudando o mundo

Elon Musk podia estar literalmente se limpando com dinheiro até o fim da vida. Mas está fazendo a humanidade avançar tecnologicamente a passos largos em pouquíssimo tempo. Não satisfeito em emplacar os carros elétricos, ele resolveu revolucionar OS CARROS como um todo: desenvolveu uma tecnologia de piloto automático que usa câmeras pra se guiar e que hoje pode levar você de uma ponta a outra dos EUA sem você tocar no volante. Hoje o Model 3 da Tesla é reconhecido pelas grandes publicações (como a Top Gear) como o MELHOR CARRO do mercado, elétrico OU NÃO. Com a Tesla, Musk tem tentado reformular o modo como os carros são fabricados e vendidos, ao mesmo tempo em que constrói uma rede mundial de recarga. Em vez de híbridos, que na opinião dele são um meio-termo aquém do ideal, a Tesla se esforça para desenvolver carros totalmente elétricos que as pessoas cobicem e também ampliem os limites da tecnologia. Os carros não são vendidos em concessionárias, e sim pela internet. A Tesla também não prevê grandes lucros com a manutenção de seus veículos, já que os carros elétricos não exigem troca de óleo, correia e outros procedimentos demandados por carros tradicionais. O modelo de venda direta adotado pela empresa representa uma grande afronta às concessionárias de veículos, acostumadas a regatear com os clientes e obter seus lucros por meio de taxas de manutenção exorbitantes. Hoje há estações de recarga da Tesla ao longo de muitas das principais rodovias dos Estados Unidos, da Europa e da Asia, e elas podem alimentar um carro com energia suficiente para rodar centenas de quilômetros em apenas vinte minutos. As chamadas estações de super-recarga funcionam com energia solar, e o proprietário de um Tesla até pouco tempo atrás não pagava NADA pela eletricidade.

Com o know-how do desenvolvimento das baterias pra o carro Tesla, Musk começou a vender baterias (Powerpack) para alimentar residências (e até mesmo países), que são recarregadas através de energia solar. Pra isso abriu a empresa “Solar City”, que agora criou telhas pra casas que são painéis solares indistinguíveis de uma telha de cerâmica/madeira, e pelo mesmo preço.

Um belo dia Elon Musk twitou emputecido que ia fazer um túnel pra fugir do trânsito de matar. Então, assim como fez com a indústria de foguetes, ele criou uma companhia pra fazer túneis por uma fração do preço que normalmente cobram hoje. Em dezembro de 2018 o primeiro túnel da “Boring company” (um trocadilho que pode ser “Companhia de escavação” ou “Companhia chata”) foi construído. Custou 10 milhões por 2km, quando normalmente custaria 1 bilhão. Um gênio como ele logo aproveitou pra utilizar a terra que é escavada e criou uma empresa de tijolos, que vão ser vendidos por 10 centavos cada, ou doados pra quem for fazer casas populares. A escavadora utiliza energia elétrica, claro. Alimentada pelas baterias e painéis solares da Solar Company. E através desses túneis existirão vias expressas para carros e transportes coletivos, logo abaixo das estradas. Futuramente virá o Hiperloop (outro projeto de Musk, que ele deixou nas mãos de estudantes porque não tem tempo de se dedicar a ele), que são túneis a vácuo para cápsulas de altíssima velocidade, que farão viagens interestaduais em menos tempo que os trem-bala. Em breve a Tesla lançará caminhões totalmente elétricos que percorrerão 850 km com uma carga, e tais caminhões serão autônomos também (o Model 3 só não é considerado autônomo – ou seja, não precisa de um motorista por detrás do volante – porque isso não está regulamentado, mas tecnicamente ele já é).

Esse ano ele lançou os primeiros 60 satélites de uma constelação de 12.000, chamada Starlink, que vai poder fornecer internet em QUALQUER ponto do planeta, com baixa latência e a preços acessíveis.

No futuro você vai estar cercado de criações de Musk, que vai ter revolucionado TODA a sociedade em todos os níveis. Hoje a indústria de petróleo já pensa em diversificar seus investimentos, prevendo seu declínio. TODA a indústria de carros nesse momento já investe em carros híbridos ou elétricos, embora atrasadíssimos em relação a Tesla. A indústria de foguetes corre atrás de fazer seus foguetes recicláveis, e empresas que tradicionalmente construíam os foguetes da NASA, como Boeing, Lockheed Martin e outras estão rebolando pra justificar o investimento de dinheiro público nelas, e por isso (por conta do que Elon Musk botou em movimento) temos uma nova corrida espacial em curso, de levar o Ser Humano de volta à Lua até 2024, e pra Marte até 2030. Várias empresas estão no páreo, incluindo as tradicionais Boeing e Lockheed (que se uniram pra formar a empresa ULA – United Launch Alliance), a Northrop Grumman (com seu Omega) mas também a SpaceX e a novata Blue Origin, do criador da Amazon, Jeff Bezos. Essa competitividade vai ajudar a criar o dinamismo necessário para a inovação, investimento e a ousadia necessária para levar um projeto desse porte adiante (como foi na Guerra Fria). Nenhum outro país na história teve tantos foguetes de grande porte sendo construídos no mesmo momento como temos agora, neste momento, nos EUA.

Comparação dos foguetes de carga pesada já construídos com os que estão sendo construídos

Rumo a Marte

Embora o Falcon Heavy possa levar carga e humanos pra Marte, Musk está desenvolvendo a todo vapor um NOVO e revolucionário foguete pra levar o Ser Humano à Marte (e trazer, claro). Só que esse trazer é que é mais revolucionário ainda, pois ao contrário da conquista da Lua, onde temos módulos que vão sendo deixados ao longo do caminho por conta do peso, Musk quer uma nave saia da Terra em dois estágios, reabasteça em órbita, daí o estágio 2 chegue em Marte, pouse e volte. Sem mais nenhuma separação! O nome original era BFR (oficialmente “Big Falcon Rocket”, mas até Elon já chamou ele de “Big Fuckin Rocket”) e por conta da popularidade do trocadilho mudaram depois pra “Starship“. Mas pra que a nave vá e volte de Marte em um só estágio os astronautas terão de aprender a fazer o combustível de volta lá em Marte. E pra isso precisa de um novo motor que funcione com um novo combustível (metano, abundante em Marte). Motor este que Musk está testando nesse momento.

É o Raptor, que (sei que estou usando essa palavra demais, mas não tem outra) é mais uma revolução vinda de Elon Musk:

O vídeo é ótimo se você for nerd, mas pra quem não é digo apenas que eles conseguiram fazer um tipo de motor econômico que apenas a União Soviética conseguiu fazer mas nunca realmente voou com ele (o full flow staged combustion cycle). E pra aguentar a entrada em Marte (e a reentrada na Terra) a SpaceX está experimentando uma carapaça de metal revestindo a nave que “transpira”, ou seja, é refrigerada por microporos de onde saem um líquido. Sim, revolucionário é a palavra novamente.

E sabe como ele está testando esse foguete super ultra ambicioso? Fazendo dois modelos em tamanho real, com duas equipes diferentes, cada uma competindo com a outra. E quem são essas equipes altamente qualificadas para fazer uma estrutura desse porte? Construtores de caixa d’água. Isso mesmo. Elon olhou pra uma caixa d’água metálica do tipo que tem no topo de Shopping Centers e pensou: Esses caras vão fazer minha espaçonave. Ou pelo menos testá-la.

A diferença entre uma caixa d’água e uma nave espacial é sutil

Estes protótipos vão decolar, pousar, tudo com os novos motores Raptor! E não é só: depois de pronto, o Starship vai ter uma versão “terrestre”, que vai fazer viagens internacionais entrando em órbita da terra e pousando verticalmente, capaz de fazer o trajeto USA – China em 39 min.

Por detrás do mito

Nós vimos todas as suas conquistas, mas quem é de fato Elon Musk? O que ele come? Onde dorme?
Elon Musk é incansável. Ele trabalha dia e noite, e muitas e muitas vezes dorme num sofá no trabalho. Ou liga pra algum amigo, como o criador do Google, e pergunta se ele pode dormir lá. Ele é um patrão inflexível, por vezes estúpido, exige 110% dos seus funcionários mas é alguém que dá 120% todos os dias. Ele lidera pelo exemplo.

Ele me conquistou no começo de 2017, quando eu tinha por hábito tomar café com bolo dentro da livraria Saraiva, enquanto lia por horas os livros de graça. Certo dia vi o livro “Elon Musk: Como o CEO bilionário da SpaceX e da Tesla está moldando nosso futuro” de Ashlee Vance e pensei “já ouvi falar tanto desse cara mas nunca parei pra pesquisar, vou dar uma olhada”. Aí abri no meio e comecei a ler. Foi quando eu cheguei na parte:

A SpaceX contratava um profissional brilhante atrás do outro, Musk percebeu que podia explorar as reservas alheias de conhecimento: prendia um engenheiro na fábrica da SpaceX e o questionava sobre um tipo de válvula ou material especializado. “No começo achei que ele estava me testando para ver se eu sabia tudo sobre o meu trabalho”, contou Kevin Brogan, um dos primeiros engenheiros contratados pela companhia. “Depois percebi que ele estava tentando aprender. O interrogatório prosseguia até ele aprender 90% do que um engenheiro sabia.”
A pior coisa que alguém pode fazer é informar a ele que o que ele está pedindo é impossível. Um funcionário pode dizer a ele que não há como fazer o custo para algo como um acionador baixar até o valor desejado por ele, ou que simplesmente não há tempo suficiente para construir uma peça no prazo estipulado. “Elon dirá: ‘Tudo bem. Você está fora do projeto e agora eu sou o CEO dele. Vou fazer o seu trabalho e ainda ser o CEO de duas empresas, tudo ao mesmo tempo. E vou entregar no prazo'”, explicou Brogan. “O mais louco de tudo é que Elon realmente faz isso. Toda vez que ele demitiu alguém e assumiu o trabalho da pessoa, entregou o resultado final do projeto.”

Elon Musk – Como o CEO bilionário da SpaceX e da Tesla está moldando nosso futuro – de Ashlee Vance

Aí eu pensei “Putz, tenho que acompanhar de perto esse cara”. Acompanhei, e vi o lançamento do Falcon Heavy ao vivo. Depois dele fiquei alucinado com os vídeos feitos pelos entusiastas no Youtube. E fui ficando obcecado com foguetes depois que vi isso:

Essa é a reentrada do booster da Falcon 9 na atmosfera. Eles desaceleram com propulsão, ao contrário de todas as outras cápsulas ou naves que voltam pra Terra. E o efeito visual foi perturbadoramente similar ao que eu vi com meus próprios olhos em casa, no raiar do dia 06 de maio de 2006. Um objeto não-identificado que mudou minha vida e minha forma de olhar o mundo. Certamente uma tecnologia que não existia e AINDA não existe em nossa “realidade”, mas que está esboçada nos foguetes da SpaceX.

Eu acredito firmemente que há essa “troca” de almas entre planetas pra que uma civilização ajude outra a evoluir, e isso explica a encarnação de algumas pessoas muito à frente do seu tempo, que não são exatamente anjos nem perfeitas (e a maioria nem faz idéia de que não são daqui), são simplesmente pessoas com outro mindset, que funcionam de um jeito que não é o nosso “padrão”, e tenho certeza de que Elon Musk é uma delas. Comprei o livro e tive a certeza disso:

Elon exibia todas as características de um menino curioso e cheio de energia. Aprendia com facilidade, e Maye, como fazem muitas mães, classificou o filho como brilhante e precoce. “Ele parecia entender as coisas mais rapidamente que as outras crianças”, disse ela. O desconcertante era que Elon parecia divagar num transe de vez em quando. As pessoas falavam com ele, mas de nada adiantava quando estava com um olhar distante. Isso acontecia com tanta frequência que os pais e os médicos acharam que ele podia ser surdo. “As vezes, ele simplesmente não ouvia você”, contou Maye. Fizeram uma série de exames, e os médicos resolveram extirpar suas glândulas adenoides, procedimento que pode melhorar a audição em crianças. “Bem, nada mudou”, contou Maye. O estado de Elon tinha muito mais a ver com a estrutura de sua mente do que com o modo como seu sistema auditivo funcionava. “Ele se enfia no próprio cérebro e você percebe que ele está em outro mundo”, explicou sua mãe. “Ele ainda faz isso. Agora apenas deixo para lá, porque sei que está criando um novo foguete ou algo assim.”

As outras crianças não reagiam bem a esses estados oníricos. Gritar ou fazer polichinelos ao lado do pequeno Elon davam o mesmo resultado: ele nem notava.

Para Musk, esses momentos pensativos eram maravilhosos. Entre os cinco e os seis anos, ele descobrira uma maneira de bloquear o mundo à sua volta e se concentrar por completo em uma única tarefa. Parte dessa habilidade era fruto da maneira muito visual como sua cabeça funcionava. Ele podia produzir imagens em sua mente com tal clareza e detalhes que hoje poderíamos associar a um desenho de engenharia feito por um software. “Parece que a parte do cérebro em geral reservada para o processamento visual – o que vem de meus olhos – é tomada por processos mentais”, disse Musk. “Não consigo fazer tanto isso agora porque há coisas demais exigindo minha atenção, porém, quando criança, acontecia muito. Essa parte grande do cérebro usada para lidar com imagens passa a ser usada para pensar”. Os computadores dividem os trabalhos mais difíceis entre dois tipos de chip. Há os chips gráficos, que lidam com o processamento das imagens produzidas por um programa de TV ou um videogame, e os chips computacionais, que assumem tarefas generalizadas e operações matemáticas. Com o tempo, Musk chegou à conclusão de que seu cérebro tem o equivalente a um chip gráfico, o que lhe permite ver coisas no mundo, reproduzi-las em sua mente e imaginar como poderiam mudar ou se comportar ao interagir com outros objetos. “Ao lidar com imagens e números, posso processar suas inter-relações e relações algorítmicas”‘, explicou Musk. “Aceleração, impulso, energia cinética – o modo como esse tipo de objetos aparece muito vividamente”.

Elon Musk – Como o CEO bilionário da SpaceX e da Tesla está moldando nosso futuro – de Ashlee Vance

Leitores antigos do blog talvez lembrem que eu escrevi algo muito muito parecido sobre um certo “Ricardo”… portanto rolou uma identificação muito forte aqui. Esse “estado” em que Musk entrava certamente não o ajudou a ser popular entre os garotos na escola, e certa vez ele foi cercado por valentões que o espancaram muito… mas MUITO mesmo. Por pouco não perdemos um gênio como Musk pra um bando de perdedores anônimos que devem estar hoje jogando Fortnite no porão da casa da mãe.

Talvez essa capacidade de criar simulações na mente seja o porque de Musk ser tão fascinado com a idéia de que vivemos todos numa simulação. Sim, ele acredita que vivemos dentro da Matrix. Ou que, no mínimo, estamos caminhando para ela (assunto pra outro post). Por isso ele também é paranóico quanto a regulação da inteligência artificial, pois toda a lógica nos diz que nós humanos seremos superados em breve pelas máquinas e qualquer inteligência artificial, seguindo APENAS a lógica, vai nos “tirar do jogo” (eu tiraria, e nem sou uma máquina). Outra de suas idéias é transferir o cérebro pra um computador. Não satisfeito com a educação que seus filhos recebia, ele criou sua PRÓPRIA ESCOLA. Hoje ela atende uns 40 alunos.

O Tony Stark da vida real

Gênio, bilionário, filantropo, esquisito e memelord. Ele foi de fato a inspiração para o personagem Tony Stark, em 2007. O filme “Homem de Ferro” estava em desenvolvimento na Marvel desde 1990, mas só em 2006 a Marvel conseguiu os direitos de filmagem do personagem e em 2007 começou a rodar. A Marvel apostou tudo nesse filme. 140 milhões de dólares de orçamento (uma grana altíssima na época), com um ator que tinha sido meio que “escanteado” de Hollywood por haver sido preso por conta de envolvimento com drogas. Só que esse ator era o Tony Stark da vida real, pelo menos o dos quadrinhos, uma pessoa brilhante travando uma batalha com problemas familiares, com drogas e com o próprio ego. E a aposta se pagou: ninguém consegue imaginar o sucesso de “Homem de Ferro” sem a presença mágica de Robert Downey Jr. Mas poucos sabem que uma das inspirações pra compor o estilo do personagem NO FILME (que é menos amargurado e diferente dos quadrinhos) foi Howard Hughes (um milionário excêntrico dos EUA, que foi interpretado por Leonardo Di Caprio em “O Aviador”). O diretor Jon Fraveau pediu a Downey que conhecesse um cara que ele acreditava ser o cara mais parecido com Hughes hoje no mundo: Elon Musk. Em 2007 o cara estava surgindo com o carro elétrico Tesla e era mais uma promessa exótica do que um sucesso que é hoje, mas o Downey foi lá e conheceu ele, saíram juntos e pegou alguns trejeitos do empresário. “Elon era alguém com quem Tony provavelmente sairia e se divertiria, ou mais provavelmente eles fariam alguma estranha expedição à selva juntos pra beber poções com os xamãs”, disse o ator, que depois disso pediu ao diretor pra colocar um Tesla Roadster na garagem de Tony Stark. No filme Homem de Ferro 2 ele fez uma participação especial:

Sim, Elon Musk além de tudo isso ainda é aclamado nos chans, Twitter, 9gag e outros fóruns de zoeira como um MemeLord. Sim, ele arranja tempo pra se distrair curtindo e postando memes, como esse. E a turma jovem admira, se vê representada e vai à loucura.

Carros, caminhões, estradas, viagens internacionais, energia, dependência do petróleo, conquista do espaço. Tudo coisas grandiosas que, se ele se concentrasse em transformar apenas UMA delas já seria um grande nome, mas está revolucionando em TODOS ESSES ASPECTOS. Não é um homem, é um MITO. E temos o prazer de estarmos vivos pra testemunhar isso. Enquanto grande parte da infraestrutura dos Unidos decai, Musk está construindo um sistema de transporte futurista de ponta a ponta, que permitiria aos EUA superar o resto do mundo, enquanto o resto do mundo se beneficiaria com seus projetos. Essa visão e, ultimamente, essa execução parecem combinar o melhor de Henry Ford com John D. Rockefeller. Mas estes avanços renderam-lhe muitos inimigos ferozes. A indústria automobilística é uma delas. Os russos – que além de ver diminuída a dependência mundial de seu principal ativo (Petróleo) vão perder também o contrato de mandar astronautas norte-americanos pro espaço por 40 milhões por cabeça – são outros. “A lista daqueles que não importariam se eu morresse está aumentando”, disse Elon Musk, “Minha família teme que os russos me matem.”

Deus te proteja, Elon. Pro nosso próprio bem.


Referência:
Todas as participações de Elon em filmes;
NATIONAL GEOGRAPHIC – Marte: por dentro da SpaceX;
Reportagem do Fantástico sobre o lançamento do Falcon Heavy;
Vídeoclip celebrando o lançamento do Falcon Heavy;
Vlog com informações técnicas sobre o Starlink (inglês);
Vlog explicando a transferência de cérebro pra um computador;
Izzy Nobre fala sobre Elon Musk e a Tesla;
Inside Elon Musk’s humanitarian efforts

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