O TAO

Deus não é o bem. Também não é o mal. Supor que Deus seria um ou outro, ou mesmo um e outro, seria limitar o ilimitado. Dar personalidade a Deus também é algo ridículo. A minha idéia de Deus é o TAO, ou seja, a não-idéia, dada a sua grandiosidade (o que também não significa uma negação). Se formos estudar profundamente, veremos que essa também é a idéia de Jesus (ainda visível na Bíblia), dos Hindus (com Brahma e suas diferentes manifestações) e dos Judeus. No site Academia de Cabalá vemos:

“O nome designado para D-us em Bereshit (Genesis) é Elohim, uma forma plural colocada num contexto singular, o que descarta a possibilidade de uma figura antropomórfica de Deus, ou seja, uma divindade com forma e características humanas. A Torah descreve forças naturais que se expressam a partir de uma lógica pré-existente”.

Lázaro Luiz Trindade falou do TAO com muita propriedade, na lista Voadores:

O TAO não é Deus, nem tem a pretensão de ser herege, nem outro nome para Deus, nem outro Deus, pois enquanto conceito, não invalida nenhuma forma de divindade que se creia. Aliás, este nome só existe porque não há outro. Não é sinônimo de Deus. É apenas uma palavra, senão não haveria outra. O TAO não ofende os que não crêem em energia, pois ele não é energia, apenas está nela, e ela nele. Ele não é satânico, pq não é um Deus opositor, nem invalida Deus nenhum, nem tem inteligência, nem deixa de ter. Se Deus é o bem, a soma dele com o mal forma um sistema total, o TAO. E mesmo este sistema, com todo o bem e o mal do universo, se definido, delimitado para ser o TAO, passa a ter um limite – e a soma dele com o que estiver fora dele é que seria o TAO.

Se você tirar uma única gota d’água do TAO, o que você terá não será mais o TAO, será apenas o “tao menos gota d’água”. Assim, o TAO precisa de cada um, e cada um precisa do TAO, assim como não pode haver oceanos sem as gotas d’água.

Tire as gotas, e você não terá mar. Tire o mar, e você não terá as gotas. O mar não é uma gota concorrente.

Pra compreender melhor, é bom entender que o TAO é o todo, mas a sua manifestação se dá através do CHI (ou KI para os japoneses), o princípio energético oriundo da expressão do TAO. Assim, um taoísta, quando quer encontrar o TAO, toma um chá, ou caminha descalço rindo. Afinal, ele faz isso sabendo que a xícara está repleta de CHI, que a grama é feita de CHI manifestando o TAO. Então, seu caminhar o abastece de CHI, que o põe em comunhão com o TAO.

Assim, não há divindades, não há imagens. Como dizia Jesus, se você erguer uma pedra, ali o TAO estará. Se você rachar uma lenha ao meio, adivinhe QUEM e O QUÊ você encontrará ali?

Se for assim, você não precisa de igreja, nem de sacerdote, nem de mestre, nem de pastor. Não por acaso, o Evangelho de Tomé, o gêmeo (Thomas), onde Jesus afirmava isso, “desapareceu” misteriosamente e foi arrancado da Bíblia, até ser descoberto em antigos manuscritos.

Lao Tsé precisava escrever o que era o TAO. Então, ele deu a única definição possível, o koan, a falácia, a pergunta sem resposta, logo na PRIMEIRA linha de seu clássico Tao Te Ching, seu livro que, sem expressar, expressa o Tao:

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O Tao que pode ser expresso não é o Tao Absoluto.
O nome que pode ser revelado não é o nome absoluto.
Sem nome é o princípio do universo.
Com nome, é a Mãe de todas as coisas.
O Ser provém da Fonte Incognoscível.
O Existir nos leva pelos canais cognoscíveis.
Ser e Existir são a Realidade total.
A diferença entre Ser e Existir
É apenas de nomes.
Misterioso é o fundo da sua unidade.
Eis em que consiste a sabedoria suprema.

Na tradução de Albe Pavese (Ed. Madras), vemos o mesmo texto:

O Tao que pode ser expressado não é o Tao Absoluto.
O nome que pode ser revelado não é o nome absoluto.
Sem nome, é o princípio do Céu e da Terra.
Com nome, é a Mãe de todas as coisas
Assim, quem permanece sem desejos contempla o misterioso Princípio.
Quem guarda desejos contempla o limite das aparências.
Ambos são idênticos na sua Origem.
Diferentes são seus nomes ao Fazer-se manifestos.
Este mistério chama-se Infinita Profundidade.
Profundidade não desvelada pelo homem.
A porta de todas as maravilhas do Universo.

Explicação de Huberto Rohden:
Tao é a Realidade Insondável, o Brahman Absoluto, a Divindade Transcendente que, como tal, não é acessível ao nosso conhecimento finito. O nosso conhecer finito finitiza o Ser Infinito. O Tao é em si mesmo anônimo, inominável. Quando o nominamos, reduzimos a um plano finito o Infinito, relativizamos o Absoluto, parcializamos o todo, colorimos o incolor, personalizamos o impessoal.

A Plenitude do Todo nos afeta como sendo a Vacuidade do Nada. Quem olha diretamente para a pleni-luz solar não enxerga nada – por excesso de luz. A Essência do Ser é para o nosso conhecer como se fosse o Nada.
Toda a sabedoria consiste em evacuarmos essa Vacuidade, em nulificarmos essa Nulidade, não para enxergarmos o Todo da Essência, mas para sermos invadidos pelo Todo.

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