QUANDO O HUMANO SE CONFUNDE COM DEUS

Por Débora F. Lerrer (Ver artigo original, completo)

O sufismo é o caminho místico do Islã que, como muitas outras religiões, possui um aspecto exterior e outro interior. O aspecto exterior é aquele da Lei revelada, a Sharia, que se ocupa da observância dos ritos e dos atos de devoção. O aspecto interior existe através do sufismo, designado na doutrina islâmica pelo termo árabe Tasawwuf, cujo objetivo é purificar o coração a fim de permitir que aquele que o pratica venha a se confundir com Deus.

O sufismo se apresenta como uma sequência de experiências pessoais que compõem uma busca espiritual interior, visando permitir que o homem realize a unidade com Deus e reencontre sua natureza de “homem perfeito”, recordando sua origem divina e espiritual.

Conta-se que quando Deus criou o homem, ele deixou uma parte dele em seu coração – e é justamente através do coração que o homem pode acessar Deus e sua essência divina.

“Alá soprou na alma humana o seu próprio espírito, seu coração, que é o espírito divino, dando vida a esse corpo e conferindo um lugar privilegiado na criação. Só que a alma humana esqueceu da sua origem”, diz o sheik brasileiro Muhammad Ragip, que representa no Brasil a ordem sufi Halveti AI-Jerrahi. “Nós entendemos a religião como um método de despertar em nossos corações o amor a Deus. Compreendemos que a grande carência humana, esse vazio que permeia todo ser humano que sai em busca de um sentido para sua vida, é fruto da desconexão com essa origem divina”, diz Ragip.

Para recordar essa origem divina, os sufis praticam o Zikr, que se baseia na repetição de atributos e nomes divinos de Alá, e é também o nome dado às cerimônias sufi, repletas de orações, músicas e, dependendo da ordem sufi, a famosa dança cósmica dos dervixes rodopiadores. A prática do Zikr pode ser individual e deve prosseguir até que o nome divino se aposse do coração daquele que o invoca.

Um sufi é aquele em que cada palavra e cada ato que pratica corresponde a um estado interior. Ele é aquele que conseguiu unificar os dois mundos.

Segundo Sergio Rizek – dono da Attar Editorial, que publica alguns livros sufis – esse objetivo é a realização do grande jihad islâmico: “A palavra jihad passou por um alto grau de corrupção. Ela não quer dizer guerra santa, e sim a unificação entre os dois mundos: a interioridade e a intenção declarada com atos e palavras. O processo de unificação entre oração, palavra e atos é que é o grande jihad”.

Recordar Deus até submergir nele

Assim como em outras religiões orientais, o objetivo da experiência espiritual sufi é a identidade do visível com o invisível, do ser com o não-ser. No sufismo, o longo aprendizado da via conduz o homem ao despojamento interior a fim de possibilitar um estado de total e livre interpenetração entre ele e o divino, entre a aparência (que é seu mundo visível) e a Realidade última (Deus). Para isso, ele tem que se libertar de sua natureza terrestre e reencontrar a natureza divina, que tem sede no fundo de seu coração. Para o sufismo, é dentro de cada um que se deve buscar a essência divina da Realidade. O próprio Profeta Maomé já havia dito que aquele que conhecia a si mesmo, conhecia a seu senhor, conhecia Alá.

A estrutura do caminho sufi se baseia na Sharia, as Leis escritas presentes no Alcorão, na Tarika, o caminho espiritual (escola ou ordem sufi) e na Hakkikat, que literalmente significa Realidade ou Verdade, e que quer dizer o sentido espiritual que se coloca além da enunciação exterior da Lei. Essa estrutura é representada por um círculo de cuja circunferência saem raios que se encontram no centro. A linha que forma o círculo é a sharia, as leis externas ou religiões normativas. Os raios são as Tarika, os diversos métodos de busca espiritual – pois, como diz o mestre sufi, “há tantos caminhos quanto corações”. No centro, onde se encontram todos esses diferentes raios, está a Hakkikat, ou verdade incondicional e eterna.

O islamismo se baseia na submissão voluntária à vontade de Deus e no reconhecimento e afirmação da unidade divina. De acordo com o sheik Ragip, o que distingue um sufista, o dervixe, de um crente comum, é que ele tem uma “abordagem mais amorosa da religião”. O dervixe pratica tudo que um muçulmano pratica, mas, segundo Risek, enquanto o último tem que se lembrar de Deus nas cinco orações diárias obrigatórias, o sufi procura “transformar a própria respiração em prece”, para recordar-se constantemente de Deus. “O ideal é fazer o zikr o tempo todo”, diz ele.

Através das escolas, o sufista aprende a encarar as coisas deste mundo como superficiais e se “cura” de um certo número de comportamentos. O ideal sufi é transcender ao domínio do ego e das paixões que ele provoca. Entre as virtudes buscadas pelos dervixes ocupam a primeira fila a humildade, a paciência, a caridade, a fidelidade, a confiança e a mais elevada de todas: a veracidade. Para os sufistas, as virtudes não são somente atos ou qualidades exteriores da vontade, mas também, e antes de tudo, modos de ser. Elas são atributos do homem perfeito e, assim, têm sua origem na própria realidade divina.

Diante de Deus, na primeira fila: a história do Sufismo

O nome Sufi é de origem incerta. Provavelmente é derivado da palavra saf (puro) contido no termo tasawwuf, e foi designado aos dervixes por causa da pureza de seu íntimo. Entretanto, costumava-se vincular a origem da palavra sufismo à vestimenta de branca (suf), usada pelos primeiros místicos em sinal de humildade, e pelos primeiros discípulos do profeta Maomé, conhecidos como “os companheiros com manto de lã”. Outros tratados definem que os sufistas foram chamados por esse nome por estarem diante de Deus, na primeira fila (saffa).

Talvez no Brasil o sufismo possa ter deitado raízes muito mais profundas do que se pode supor, já que a religião muçulmana chegou até aqui primeiramente através dos escravos Malês. De qualquer modo, hoje em dia, sabe-se da presença de algumas ordens: a Chisti, muito difundida na Índia, a Naqshabandiya, que existe aqui há 25 anos, a Surawaardi, Shadhiliya, a Ordem Sufi Internacional e a Halveti AI-Jerrahi.

Principais mestres

Ibin Arabi – Considerado o maior gênio místico da história do Islã, Ibin Arabi nasceu em Múrcia, na Andaluzia, em 1165. É chamado de o “vivificador da religião” ou de “o maior dos mestres”, pois deixou obra considerável que dá testemunho de um espírito ao mesmo tempo sintético e profundo. A ele são atribuídas nada menos que 800 obras. O número pode ser meio exagerado, mas não resta dúvida de que Ibin Arabi era prolífico. Pouco antes de sua morte ele mesmo organizara uma lista de suas obras, que totalizavam 270. No entanto, muito poucas chegaram até nós. As duas mais importantes são as Revelações de Meca e a Sabedoria dos Profetas.

Al Ghazzali – Nasceu e morreu em Tus (1058-1111), no leste do Irã. Recebeu formação de teólogo e de jurista ortodoxo, o que lhe permitiu ser nomeado diretor da universidade Nizamiyya de Bagdá. Chegou a ser conselheiro do califa de Bagdá, desempenhando um papel não-desprezível no contexto das tensões religiosas da época. No ápice de sua carreira, ele renuncia à sua cátedra e deixa Bagdá para se dirigir a diversos lugares santos do Islã, da Síria, em Meca e em Jerusalém. Aspirando a uma experiência mais pessoal, não hesita em praticar a dúvida e, em particular, questionar o uso da razão como única abertura para o conhecimento místico. Dá longas explicações a esse respeito em seu livro Erro e Libertação, onde conclui pela primazia da experiência intuitiva na abordagem mística. É considerado o maior teórico do sufismo. Suas obras tendem a reconciliar – nos planos moral, místico e metafísico – a via sufista e a ortodoxia islâmica.

Rumi – Nascido em Balkh, no Korasã, em 1207, o grande poeta Rumi é filho do eminente teólogo Baha al-Din Walad, discípulo de Kubra, outro grande mestre sufi. Shams de Tabriz foi seu mestre espiritual, a quem amou profundamente. Esse estranho dervixe errante teria então uns 60 anos de idade e tinha oferecido a Deus, segundo dizem, sua própria vida em troca do encontro com um de seus santos. Shams e Rumi permaneceram juntos até 1247, quando Shams desapareceu (talvez assassinado por discípulos de Rumi, ciumentos da ascendência que ele exercia sobre seu mestre). Inconsolável, Rumi escreveu Poemas Místicos, em homenagem a Shams, que é uma compilação de poemas de “amor e de luto”. Para Rumi, o amor que ele sentia por Shams personificava o amor divino. Depois do desaparecimento de Shams, Rumi criou o a dança cósmica, o Sama, praticada pela ordem sufi Mevlevi, conhecida como a ordem dos dervixes rodopiadores. Sergio Rizek explica que essa dança se inspira no movimento dos astros. “Assim como todos os corpos giram por amor ao sol, os dervixes também giram por amor ao divino, que muitas vezes precisa de uma contrapartida humana, pois no Islã o amor humano é símbolo e reflexo do amor divino”.

A obra de Rumi marcou profundamente o pensamento religioso do Islã. Muitos o consideram o maior poeta místico de todos os tempos. Entre suas principais obras estão o Rubaiyat, os Poemas Místicos, editado em 1996 pela Attar Editorial, e o Mathanawi, um vasto poema de 45 mil versos.

Attar – A vida do grande poeta persa que foi Attar permanece um profundo mistério. Sabe-se que nasceu em Neshapur, na província de Korassã, entre 1120 e 1140, e que morreu entre 1200 e 1230. Conta-se que trabalhou toda a vida com o florescente comércio de perfumes, unguentos e especiarias herdado de seu pai, e por isso tornou-se Attar, que significa “aquele que faz o comércio de perfumes”. Diversas lendas circulam a respeito das circunstâncias de sua conversão. Em uma delas, um mendigo apareceu em sua loja e tendo a esmola recusada o perguntou: “Como irás morrer?”, ao que Attar respondeu: “Da mesma maneira que tu”. Então o mendigo se estendeu sobre o solo e exalou seu último suspiro. Verdade ou não, o fato é que Attar certamente deve ter passado por uma experiência decisiva para ter se iniciado no sufismo. A ele são atribuídas diversas obras – poucas, entretanto, tem sua autoria comprovada. Entre as mais célebres estão Memorial dos Santos, O Livro Divino, O Livro dos Conselhos, Os Livro dos Segredos e a que é talvez a sua obra-prima: A Linguagem dos Pássaros, um célebre poema iniciático que mostra o caminho da alma até o aniquilamento do Ser Revelado.

As-salaamu alaikum:
Paz do meu coração para o seu coração

Links relacionados:
Os Paraísos do Islão;
Poesias Sufi;
Site da ordem sufi Halveti Al-Jerrahi, que tem sede na Turquia e representação em São Paulo;

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