PELA LUZ DOS OLHOS MEUS

Por Isabela Bisconcini

Temos falado nos últimos artigos, sobre o olhar com que nos vemos e as coisas que chegam até nós magnetizadas a partir desta visão, desta imagem, que trazemos de nós mesmos. Isso não é consciente na maioria das vezes, mas é uma sensação velha e familiar que envolve um olhar para si mesmo. Falamos ainda que ao buscar um oráculo, no fundo, buscamos ser vistos através de um olhar que seja mais amplo do que eu me vejo, e que me abra possibilidades, que me tire dos meus costumeiros limites. Águias enxergam de cima, não é mesmo? Os olhos de um oráculo são olhos de quem vê do alto, de quem voa longe.

Olho

Houve um tempo (e ainda hoje dentro da medicina tibetana isso existe) em que os médicos se reportavam ao oráculo para uma visão mais acurada do que estava acontecendo num caso; havia uma continuidade entre o olhar curativo e o olhar que busca ganhar dados sobre uma situação através de um ponto de vista mais amplo (que um oráculo possibilita), numa cultura em que o curador (o médico) e o xamã (o que enxerga além), muitas vezes, são a mesma pessoa.

Lembro-me das conversas que já tive com Lama Gangchen e de como ele nos olha profundamente dentro dos olhos, escaneando-nos, tim tim por tim tim, enquanto conversamos. De fato, é preciso estar no coração para sustentar confortavelmente a penetração do olhar dele. Não há nada que ele não veja nesse momento. Como lente 360 º graus ele vê tudo e bem do alto. Mas, alto, neste caso, não significa distância, tão pouco frieza. Significa Verdade. Com um olhar que tem a profundidade da Verdade e abertura do Amor. Pois apesar de enxergar tudo, é um olhar que não julga, não recrimina e não condena. É um olhar de amor. Um olhar de paz.

Diz-se muitas vezes que a pessoa “não teve coragem de nos olhar nos olhos”… e que “os olhos são o espelho da alma”; do coração. Muitas vezes a força é medida pelo olhar, por quem sustenta o olhar firme.

Mas para além da força, aqui interessa falar do olhar que abre possibilidades, olhar que faz crescer, o olhar que cura. Há muitos olhares que abrem caminhos em nossas vidas. Como diz Elisabete Lepera: “É pelo olhar da mãe que um filho anda. É o olhar dela que o sustenta nos primeiros passos, acompanhando-o e fazendo um chão onde ele pisa”.

O olhar do terapeuta é o detentor das possibilidades positivas do cliente. O terapeuta é o guardião das possibilidades de cura do cliente, na medida em que está vendo o lado mais maduro dele, o lado que se engaja num projeto de ser feliz. O terapeuta sustenta esta visão enquanto o cliente ainda não vê o que está sendo dito.

Lembro-me também da cena do filme Quem Somos Nós, em que o pajé via no mar caravelas que ninguém da tribo via, mas porque ele viu os outros começaram a ver. É verdade que não vemos algo até que alguém nos mostre… e quando alguém me mostra, eu passo a ver algo que antes não existia para mim. Com um Mestre é assim. Isso é fato. Todo processo de aprendizagem se dá desta maneira. O processo de crescimento passa pela confiança quando “suspendemos a descrença” em relação ao que não vemos. E só fazemos isso com alguém a quem concedemos crédito.

Mas a maneira como nós nos enxergamos é muito polarizada: alternamos entre a complacência da vítima e a tirania do perfeccionismo, o “homem da capa preta”, o nosso carrasco interno. E nesse juízo desarrazoado vamos oscilando. O que conta aqui é o olho com que nos vemos e o que ele vê… Pois é o que o olho vê, que decreta o andamento da questão. Mas poucas, bem poucas vezes, nos enxergamos com amorosidade.

Tome uma pessoa que para você é muito querida. Veja-a numa situação complicada e você logo enxergará qualidades ou enxergará as suas falhas, mas buscará também por possibilidades, recursos internos, soluções, pois busca ver o positivo na pessoa. Isso é bem diferente da paixão que é cega! Lama Gangchen diz: “a amizade espiritual é aquela em que você, apesar de reconhecer as negatividades do outro, se sente atraído pelas suas positividades. Assim, você responde sempre ao potencial de crescimento de seu amigo, e não às suas negatividades”.

Mas em geral, quando é conosco, a exigência impera. Nestas horas vale sempre pensar: se ao invés de estar acontecendo comigo, isso estivesse acontecendo com X (sua amiga querida, seu filho, ou alguém que você ama), eu estaria pensando assim a seu respeito? Reveja-se pela luz dos olhos do amor.

Numa relação a dois, a maneira como vemos e somos vistos é fundamental para determinar o futuro e a resiliência da relação. Somos vistos como fortes ou como fracos? O olhar do outro fecha minhas possibilidades no mundo, ou as abre? E eu? Como olho para o parceiro? Aqui não interessa tanto o que estou vendo, mas como estou olhando. Como é esse meu olhar. Eu fecho minhas possibilidades no mundo pelo meu olhar, ou as abro? Este meu olhar me ajuda a lidar com a situação, ou piora tudo?

Aprendi que o olhar amoroso não vem pronto, ele cresce e se desenvolve como tudo que é bom. Ele cresce quando começamos a notar e a nos perguntar: “como o Amor veria isso?” Precisamos ter esta experiência libertadora de um olhar de amor para nós. Precisamos nos fazer esta pergunta com frequência: “como o Amor veria isso?”

De fato, diz-se que a mente purificada, como a de um Buda, não enxerga a negatividade, não se prende nela. O que o olho vê é a beatitude da mente. Esse olhar é puro como o de uma criança, mas com sabedoria. Ele não é ingênuo, mas sim puro. Se estamos com a mente muito fechada e vendo-nos pelo pior ângulo é bom sabermos que precisamos purificar a mente… A negatividade não está no fato em si, mas sou eu que o vejo com raiva, com ódio, mágoa, etc…

Lembre-se: é o que o olho vê que decreta o andamento da questão.

Ter-se em boa conta, não é uma questão de auto-estima, mas de desenvolvimento; de ir conseguindo ver-se com olhos mais puros, através do olhar do amor.

Enfim, cabe sempre a pergunta: como o Amor olharia para esta questão? O que o Amor faria a respeito disso? Como o Amor agiria aqui?

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