MIRDAD: O SILÊNCIO E A ORAÇÃO

Por Mikhaïl Naimy

É melhor calar do que falar?
O falar é, na melhor das hipóteses, uma mentira honesta. Ao passo que o silêncio é, no pior dos casos, uma verdade nua.

Devemos disto concluir que até mesmo as vossas palavras, Mirdad, conquanto honestas, são simplesmente mentiras?
Infelizmente nada mais são do que mentiras para aqueles cujo eu não é o mesmo que o Eu de Mirdad. Enquanto todos os vossos pensamentos não forem como pedras extraídas da mesma pedreira e todos os vossos desejos como água extraída do mesmo poço, vossas palavras serão, conquanto honestas, simplesmente mentiras.

Quando o vosso eu, o meu eu e o de Deus forem um só, dispensaremos as palavras e comungaremos perfeitamente no Silêncio da verdade. Como, porém, o vosso eu e o meu não são o mesmo, sou constrangido a desferir contra vós uma guerra de palavras, para que vos possa vencer com vossas próprias armas e vos levar à minha pedreira e ao meu poço. E somente assim podereis ir para o mundo, vencê-lo e subjugá-lo como eu vos haja vencido e subjugado. E somente assim sereis preparados para guiar o mundo ao silêncio da Consciência Suprema, para a pedreira da Palavra, para o poço da Sagrada Compreensão.

O silêncio no qual eu vos farei entrar é aquela expansão infinita na qual o não-ser passa a Ser e o Ser passa a não-ser. É aquele vácuo pavoroso onde todo o som nasce e é abafado; onde toda forma é moldada e esmagada; onde toda personalidade é criada e esmagada; onde todo Ser é elevado e abatido; em que nada é mais do que ISTO. A não ser que atravesseis esse vácuo e essa expansão em contemplação silenciosa, não sabereis quão real é o vosso Ser, nem quão irreal o não-ser. Nem sabereis quão ligada está a vossa realidade com toda a Realidade. É nesse Silêncio que espero que vagueis, para que possais abandonar a vossa pele velha e apertada e possais a andar sem grilhões, irrestritos. Para ele almejo que leveis os vossos cuidados, receios, paixões e desejos, vossas invejas e vossas luxúrias, para que as possais ver desaparecer uma a uma, libertando, assim, os vossos ouvidos dos seus gritos incessantes e livrando os vossos flancos da dor de suas afiadas esporas. É ali que desejo jogueis os vossos arcos e flechas deste mundo, com os quais esperais caçar alegria e satisfação e na realidade só caçais o desassossego e a tristeza. É ali que espero vós rastejeis para fora da tenebrosa e sufocante concha do eu, para a luz e o ar livre do EU. É esse Silêncio que vos recomendo, e não um mero descanso de vossas línguas cansadas de tagarelar. É o silêncio fecundo da Terra que vos recomendo, e não o apavorante silêncio do criminoso e do velhaco.

O silêncio paciente da galinha que choca é que vos recomendo, é não o impaciente cacarejar de sua irmã que bota. Aquela se mantém quieta durante vinte e um dias e espera numa silenciosa confiança que a Mão Mística realize o milagre debaixo de seu fofo peito e de suas macias asas. A outra salta do ninho e cacareja loucamente, anunciando que pôs um ovo. Cuidado com a glória cacarejante, companheiros. Assim como silenciais as vossas vergonhas, silenciai também as vossas glórias, pois a glória cacarejante é pior que a vergonha em silêncio e a virtude apregoada é pior do que a iniquidade muda.

Evitai o demasiado falar. Em cada mil palavras pronunciadas, às vezes só há uma única que verdadeiramente é necessário pronunciar. As restantes só servem para nublar a mente, entupir o ouvido, cansar a língua e cegar o coração. Como é difícil dizer a palavra que realmente deve ser dita!

Que dizeis da oração, Mestre Mirdad? Na oração nos fazem dizer palavras demais e pedir coisas em excesso. No entanto raramente obtemos aquilo que pedimos.
Orais em vão quando vos dirigis a quaisquer outros deuses que não a vós mesmos, pois em vós está o poder de atrair, e em vós o poder de repelir. E em vós está aquilo que atraireis e em vós está aquilo que repelireis, pois poder receber algo é poder dar isso mesmo.

Não tenhais pressa em importunar o serralheiro cada vez que não souberdes onde pusestes a chave. O serralheiro fez a sua tarefa e a fez bem; não se deve pedir-lhe que torne a fazê-la constantemente. Fazei o vosso trabalho e deixai em paz o serralheiro; pois ele, depois de vos ter servido, tem mais o que fazer. Retirai o mau cheiro e o lixo de vossa memória e certamente encontrareis a chave. Quando Deus – o impronunciável – vos pronunciou, Ele se pronunciou em vós. Vós, portanto, também sois impronunciáveis. Deus não vos dotou de nenhuma fração de Si – pois ele é indivisível; – mas de toda sua divindade, indivisível, impronunciável, Ele vos dotou a vós todos. Que maior herança podeis vós aspirar? E quem ou o que vos impede de vos apossardes dela senão a vossa própria timidez e cegueira?

E em vez de serem gratos por essa herança e em vez de procurarem os meios de tomarem posse dela, alguns homens – cegos e ingratos! – fazem de Deus uma espécie de quarto de despejo ao qual levam suas dores de dentes e de barriga, seus prejuízos nos negócios, suas brigas, suas vinganças e suas noites de insônia. Enquanto outros fazem de Deus sua casa do tesouro onde esperam encontrar o que desejam, toda vez que cobiçam a posse de todos os pechisbeques deste mundo. Há ainda outros que fazem de Deus uma espécie de seu guarda-livros particular. Pretendem que Deus deva não só manter em dia as contas de suas dívidas, mas também cobre o que lhes é devido, conseguindo sempre um grande saldo em favor deles.

Sim, são muitas e diversas as tarefas que os homens exigem de Deus. No entanto, poucos se lembram de que se isso estivesse a cargo de Deus, ele as executaria sozinho e não precisaria de homem algum para incitá-Lo a fazê-las ou Lhas recordar.

Por acaso relembrais a Deus das horas em que deve nascer o sol ou pôr-se a lua? Tendes que lembrá-Lo para que aquela aranha acolá teça a sua teia? Precisais lembrá-Lo dos filhotes do pardal naquele ninho ali?

Por que fazeis pressão, com vossos insignificantes seres, em Sua memória? Sois menos favorecidos em Sua vista do que os pardais e as aranhas? Por que, como eles, não recebeis os vossos presentes e não vos ocupais com vossas tarefas sem muito alarido, sem dobramentos de joelhos, e extensão de braços e sem ficardes ansiosos a espiar o amanhã? E onde está Deus para que preciseis gritar nos seus ouvidos os vossos caprichos e as vossas vaidades, vossos louvores, vossas queixas? Não está ele em vós e em tudo ao redor de vós? Não está o Seu ouvido muito mais próximo de vossa boca do que o está vossa língua do vosso céu da boca?

Basta a Deus sua divindade, da qual tendes a semente. Se Deus, tendo-vos dado a semente de Sua divindade, tivesse que cuidar dela em vez de vós, qual seria a vossa virtude? E qual será o trabalho de vossa vida? E se vós não tiverdes trabalho algum a executar, mas Deus precisar executá-lo para vós, que sentido terá, então, a vossa vida? E de que valerão todas as vossas preces? Não leveis a Deus as vossas inúmeras preocupações e esperanças. Não Lhe peçais para abrir as portas das quais Ele vos deu as chaves. Mas buscai-as na vastidão de vossos corações, pois na vastidão do coração se encontra a chave de todas as portas. E na vastidão do coração estão todas as coisas pelas quais tendes sede e fome, sejam do bem ou do mal!

Um poderoso exército aguarda o vosso chamado e atenderá imediatamente ao vosso mais leve apelo. Quando devidamente equipado, sabiamente disciplinado e corajosamente comandado, poderá saltar eternidades e destruir todas as barreiras que se opuserem ao seu ideal. Quando mal equipado, indisciplinado e timidamente comandado, ele ficará vagando inutilmente ou se retirará com rapidez diante do menor obstáculo, arrastando atrás de si a mais negra derrota. E não é outro, esse exército, ó monges que aqueles diminutos corpúsculos vermelhos que estão agora, silenciosamente, a circular em vossas veias; cada um deles um milagre de força, cada um deles um registro completo e exato de toda vossa vida e de toda Vida, nos seus mais ínfimos pormenores. É no coração que este exército se reúne, pois o coração é que faz o seu treinamento. Eis porque é o coração tão famoso e tão reverenciado. Dele brotam as vossas lágrimas de alegria e de tristeza. A ele acorrem os vossos temores da Vida e da Morte. Vossos anseios e vossos desejos são o equipamento deste exército. Vossa Mente é que o disciplina. Vossa Vontade, seu instrutor e comandante.

Como o santo atinge a Santidade, senão eliminando de sua corrente sanguínea todo desejo e todo pensamento incompatível com a santidade e depois dirigindo-o com uma vontade determinadora a nada mais buscar senão a santidade? Em verdade vos digo que todos os desejos santos e todos os pensamentos santos, de Adão até hoje, correrão a ajudar o homem assim inclinado a atingir a Santidade, pois sempre foi assim que em toda parte as águas procuram o mar e os raios de luz procuram o sol.

Como é que o assassino executa os seus planos senão chicoteando o seu sangue até que este adquira uma sede insana de assassínio e reunindo as células deste sangue em fileiras cerradas sob o látego de um Pensamento-Mestre assassino e comandado com uma vontade incansável de desferir o golpe mortal?

Em verdade vos digo que todo assassino, desde Caim até hoje, correrá sem que seja chamado, para dar força e firmeza ao braço do homem que está embriagado com o assassínio, pois sempre foi assim, que os corvos se associam aos corvos e as hienas se juntam às hienas.

Orar, pois é infundir no sangue um Desejo-Mestre, uma Vontade-Mestra. É pois afinar o eu para que fique em perfeita harmonia com o objetivo da prece. Para orardes não precisais de língua nem de lábios. Mas antes necessitais de um coração silencioso e desperto; de um Desejo-Mestre e, acima de tudo de uma Vontade-Mestra que não duvide nem hesite, pois as palavras de nada valeriam se o coração não estiver presente e desperto em cada sílaba. E quando o coração está presente e desperto, melhor é que a língua durma ou que se esconda atrás dos lábios fechados. Nem precisais de templos para neles orardes. Quem não pode encontrar um templo em seu coração, jamais encontrará seu coração num templo.

No entanto estas coisas vos digo, a vós e aos que são como vós, não, porém, a todos os homens, pois a maioria dos homens ainda são como náufragos. Sentem a necessidade de orar porém não sabem como fazê-lo. Não podem orar senão com palavras e não encontrarão as palavras se vós não as puserdes nos seus lábios. E sentem-se perdidos e apavorados quando se os faz percorrer a vastidão de seus corações, mas se acham sossegados e confortados entre as paredes dos templos e nas multidões de criaturas com eles. Deixai-os erigir os seus templos. Deixai-os recitar as suas preces. Mas a vós e a todos os homens eu rogo que oreis pela Compreensão. Qualquer desejo que não seja este, jamais será cumprido.

Lembrai-vos de que a chave da Vida é a Palavra Criadora. A chave da Palavra Criadora é o Amor. A chave do Amor é a Compreensão. Enchei os vossos corações com estas e poupai às vossas mentes o peso de muitas orações; livrai vossos corações da ligação a todos os deuses que vos escravizarão com uma dádiva; que vos acariciarão com uma das mãos para vos destruir com a outra; que estão satisfeitos e bondosos quando os louvais, cheios de ódio e vingativos quando censurados; que vos não ouvem senão quando os chamais e que nada vos dão se não lhes implorardes, que vos tendo dado freqüentemente se arrependem de o terem feito; cujo incenso são as vossas lágrimas; cuja glória é a vossa vergonha.

Sim, livrai os vossos corações de todos estes deuses para que possais neles encontrar o Único Deus que tendo-vos enchido com Ele mesmo, vos terá cheios para sempre.

Fonte: O Livro de Mirdad

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