CONHECER E TRILHAR O CAMINHO

Sempre fui muito impaciente pra obter conhecimento. Seja na escola, quando o professor começa ensinando um assunto e chega numa parte que diz: “isso aqui vocês verão mais à frente” e segue adiante, ou nas religiões, quando na escola dominical resolvem ensinar um Jesus for dummies para as crianças e, quando chega na parte espinhosa (como “quem e porque mataram Jesus”), disfarçam de qualquer jeito. Detesto que me mandem fazer alguma coisa, qualquer coisa, sem que eu saiba exatamente o que estou fazendo e qual o objetivo, os riscos, etc. Certa vez fui colocado pra mexer uma panela de cocada, e não tinha a menor idéia do PRA QUE devia mexer, ou seja, a dinâmica da coisa. Acontece que não mexi na velocidade correta, a cocada esquentou mais do que devia e, saltando pra fora da panela, caiu um pouco em minha perna, o suficiente pra ficar marcado até hoje. Na Ordem Rosacruz se sucedeu a mesma coisa: Tinha vários rituais, eu não sabia pra que servia e ficava curioso, mas me disseram que só saberia do significado correto nos níveis mais avançados. Meu pai dizia que é para que a pessoa amadureça juntamente com os ensinamentos, pra que não haja uma disparidade entre o que você já sabe e o que terá pra aprender. Funcionava também como uma proteção contra aventureiros, pessoas interessadas apenas no conhecimento sem ter a disciplina adequada. A parte do aventureiro eu concordei de imediato. De fato, quando você abre tudo o que você sabe pra quem não está REALMENTE buscando, corre o risco de ser ridicularizado, chamado de doido ou, por outro lado, de arrogante, de sabe-tudo, de sr. fodão. Já a parte do amadurecimento eu não concordei, talvez baseado na minha própria experiência, onde eu me achava mais maduro com 12 anos do que a maioria dos adultos que conhecia. Mas só agora, que já cruzei o cabo da boa esperança, em que o peso da idade faz-me curvar os ombros cansados, reconheço a importância da dosagem do alimento espiritual.

Ando cada vez mais horrorizado com o predomínio da idéia de “cada cabeça, uma sentença” que tanto inspira nossos deputados a abandonarem a ética em favor da pilantragem. Assim como eles, muitos jovens (e não tão jovens) buscam “inspiração” no Esoterismo pra criar seus próprios códigos de conduta, desvinculados da realidade e do bem-comum. Primeiro a pessoa cria sua idéia de mundo, e ela geralmente reflete apenas seus desejos imediatos, carências, frustrações, coisas assim. Para que ela seja funcional (ou seja, não parecer uma maluquice inventada) basta agregar conteúdos que alimentem essa idéia. Os conteúdos não precisam ser profundos, pode ser um filme, um artigo, um pedaço extraído de uma religião em um contexto específico. A finalidade é apenas dar um verniz de cultura à sua elucubração, pra poder convencer outras pessoas.

Acho que já cheguei bem perto disso. Há alguns anos, fui chamado a um grupo para pontuar com comentários (enquanto era exibido) o filme The Matrix. Com a evolução da idéia, fui chamado pra uma palestra, já usando a idéia mais abrangente de “Matrix”, como é utilizada no site. Acho que foi aí, ao coletar os assuntos dentro de um “codex“, que vislumbrei o potencial pra um livro e pra um pensamento estruturado onde eu podia inserir o que eu quisesse… Devido a 90% do conteúdo ser de domínio público (ou seja, fazer parte da cultura esotérica conhecida) eu poderia introduzir nos outros 10%, se quisesse, minhas especulações, desejos, viagens, enfim, minha concepção de mundo que, aliada aos outros assuntos “conceituados”, viraria “fato”. Seria incorporado ao rol de conhecimentos daquele grupo de pessoas, que passaria para outros e outros, e ainda mais gente se eu fizesse um livro! Felizmente nunca tive a tentação de fazer isso, mas fico muito doído quando vejo gente fazendo, em vários campos de conhecimento. E cada vez mais gente cai no conto do pacote-fechado. Allan Kardec já dizia: “Mais vale rejeitar 99 verdades do que aceitar uma mentira“. Mas, mesmo entre espíritas, o que vejo é credulidade ou intransigência desmedida.

Notem que em dois parágrafos trabalho com dois extremos: gente que picota tudo pra justificar uma idéia, e gente que fecha pacote com algo recebido / concebido por outrem. E a virtude do discernimento não está em nenhum dos dois. O primeiro grupo ACHA que sabe o que está fazendo. Conhecem muito de muitas coisas, mas não viveram essas coisas da forma como elas se originaram. Uma coisa é você pegar ensinamentos cabalísticos pela internet, outra completamente diferente é receber esses ensinamentos dentro de um contexto e modo de vida judaico. Ou, pra usar a alegoria pop de Matrix, “Conhecer o caminho não é mesma coisa que trilhar o caminho“.

Há aqueles que aprendem sobre a Lei de causa e efeito e acham que isto lhes basta. Acreditam que podem fazer qualquer coisa, desde que não sintam culpa, afinal, segundo eles, quando há culpa a própria pessoa se pune (afinal, ela é Deus). Mas a culpa (ou não-culpa) não exime a pessoa da responsabilidade pelos seus atos. Um serial killer não sente culpa alguma pelo que faz, mas isso não o exime da responsabilidade e das consequências de seus atos, como Dexter pode muito bem nos ensinar. Esses novos Magos acreditam-se executores da Lei Divina. Apego / medo / dúvida precisam ser eliminados pra o Mago ser forte. Não deve haver hesitação. Parecem esquecer da velha máxima “quem vive pela espada, morre pela espada“. Ou “o escândalo é necessário, mas ai de quem der o escândalo“. Para eles, hesitação ou dúvida é sinal de fraqueza. Ou você é um conhecedor e operador da Lei ou é gado, como todo o resto, sendo levado com o rebanho que, de certa forma, é descartável.

Esse pensamento não é novo. Na verdade é bem antigo, e já causou problemas a nível mundial. O conhecemos por nazi-fascismo, mas essa é só uma vertente desse tipo de pensamento, que se esconde atrás de nomes como Ciência, Filosofia, e – por que não? – Esoterismo. Vejamos um resumo do que estava circulando na zeitgeist do começo do séc XX:

1. Na Ciência, tivemos a (então) recente descoberta da penicilina, em 1928, e que representava o poder do homem contra as bactérias, que por tabela estavam associadas à imundície, pestes, parasitas e doenças infecciosas, que eram grandes causadoras de mortandade. Ainda dentro do conceito “científico” vigente na época, tivemos como expoente jurídico-criminal o italiano Cesare Lombroso e seu estudo sobre delinquência, onde ele associa ao “criminoso nato” características biológicas, físicas e psicosociais que o distingue dos demais indivíduos. Lombroso (que era judeu) vinculou cada etnia a uma tipologia criminosa específica. Em O delito, suas causas e seus remédios Lombroso descreveu os comportamentos delituosos de árabes, beduínos, de certos índios e ciganos em termos que, atualmente, implicariam julgamento de caráter racial. E ainda acrescentou que a criminalidade específica aos judeus era a usura, a calúnia e a falsidade, aliadas à pequena ocorrência de assassinatos e delitos passionais.

Na Alemanha, os médicos adeptos do Iluminismo inventaram a biocracia, ou seja, a arte de governar os povos pelas ciências da vida. Hostis à religião, que segundo eles afastava os homens com falsos preceitos morais, queriam combater todas as formas de “degenerescência” ligadas ao capitalismo. Haviam imaginado a utopia do “homem novo” e foram imitados por comunistas e fundadores do sionismo. Favoráveis ao controle da procriação e à liberdade das mulheres, esses médicos elaboraram um programa eugenista pelo qual incitavam a população a se purificar através de casamentos controlados medicamente. Hoje sabe-se que a classe médica alemã era a profissão que tinha o maior número de pessoas filiadas ao partido nazista.

Todo esse pensamento teve como ponto de partida os estudos de Charles Darwin, que em seu livro A Origem das Espécies colocou em foco a importância da hereditariedade e da seleção natural no desenvolvimento de todos os seres vivos. Obviamente não se pode culpar Darwin pelo uso que fizeram de seu trabalho, mas o resultado é que a Ciência (ou pseudo-ciência) assumiu o papel de Deus e os operadores da ciência assumiram o papel de seus assessores. Pessoas passaram a ser julgadas não pelo conteúdo moral ou espiritual, mas sim pela sua carga genética e aspecto exterior. Tal idéia envenenou até mesmo o mundo das artes, e na Alemanha a Arte Moderna foi considerada “arte degenerada”, com a propaganda nazista traçando um paralelo da aparente “feiúra” das obras com fotos de pessoas deformadas e doentes mentais. Para eles a única arte deveria ser o ideal grego, com formas perfeitas e linhas clássicas. Tal como os quadros, as pessoas “feias” por terem problemas físicos foram as primeiras a serem esterilizadas e, posteriormente, mortas na surdina. Mendigos, loucos e inválidos seguiram o mesmo destino, e posteriormente pessoas com câncer ou tuberculose.

2. No Esoterismo tivemos larga influência do livro A doutrina secreta, de Helena Blavatsky. Escrito em 1888, foi apenas no século XX que se tornou popular e influente, tendo como leitores personalidades como Albert Einstein, Mahatma Gandhi, Thomas Edison, Bernard Shaw, Aldous Huxley, entre outros. Nele, Blavatsky alega que a raça humana é dividida em sete sub-espécies, todas derivadas da raça Ariana (que é a mais poderosa e inteligente sobre todas as sub-espécies). Tal raça seria a dos Atlantes, mas sem os poderes de semi-deuses (no contexto do livro, por Ariano pode-se entender a formação do homem atual a partir do berço indiano Aryavarta). E nessa linhagem de sub-espécies aparece como inferior a raça semítica, ou seja, os egípcios e os judeus (com relação aos semitas, particularmente os árabes, o livro diz que são “espiritualmente degenerados”).

“Assim irá a raça humana, raça após raça, cumprir seu ciclo de peregrinação. Climas irão – e já começam – a mudar, e a cada ano solar irá caindo uma sub-raça, mas apenas para gerar uma raça superior no ciclo ascendente; enquanto uma série de outros grupos menos favorecidos – as falhas da natureza – irão, como alguns homens individuais, desaparecer da família humana sem deixar traços”.

Helena Blavatsky; A doutrina secreta vol II, pág 446

A doutrina secreta influenciou fortemente Guido von List e a Sociedade Thule, que por sua vez forjaram a parte “espiritual” da doutrina nazista, conhecida como Ariosofia.

“Qualquer pessoa que interpretar o Nacional Socialismo simplesmente como um movimento político prova que nada sabe a respeito do mesmo. Ele é mais do que uma religião; é a determinação de criar um novo homem… Toda a força da criação será concentrada numa nova espécie… (a qual) vai sobrepujar infinitamente o homem moderno… Vocês entendem agora a profunda significação do nosso Movimento Nacional Socialista?”

Adolf Hitler; Hitler Speaks, p. 147

Até mesmo Allan Kardec, distorcendo o que lhes disseram os espíritos, no texto intitulado “Frenologia Espiritualista e Espírita: Perfectibilidade da Raça Negra” ele procura demonstrar que a raça negra é inferior pelo fato dela abrigar espíritos imperfeitos, considerando-se a supremacia do espírito sobre o corpo. Kardec conclui que a raça negra, enquanto etnia, jamais atingiria os níveis de perfeição moral das raças caucásicas (européias, portanto a raça mais evoluída, na teoria Eurocêntrica, em voga na época). Somente pela reencarnação e pelas leis do progresso poderiam os Espíritos encarnados na raça negra chegar, segundo ele, ao mesmo nível da caucásica.

Todas estas idéias foram apropriadas pelos nazistas de forma brilhante, manipulando as massas para seus ideais. Documentários alemães da época mostravam judeus na Europa Oriental mal-vestidos, pobres, sujos e afirmava-se que, “ao contrário da aparência dos ocidentalizados judeus alemães, esta era a verdadeira face dos judeus, prontos para eliminar a Alemanha”. Segundo os nazistas, os judeus, como os ratos, também transmitiam doenças (no caso, deixando doente a “alma alemã”), se multiplicavam rapidamente e não traziam nada de bom. Tão longe foi a associação dos judeus com os parasitas que o mesmo produto usado em dedetização, o Zyclon-b, acabou sendo utilizado nas câmaras de gás.

Quando o expurgo em massa de judeus começou, a maioria dos desinformados da população alemã achou que a população judia estava sendo realocada para o leste, ou seja, pra bem longe das vistas deles. O que fariam com eles não era um problema do cidadão de bem, achavam. Apenas se preocuparam quando tufos de cabelos humanos, vindos das chaminés dos crematórios, iam parar nas ruas e nas casas das tradicionais famílias germânicas. Mas isso era contornável. Afinal, pensavam, por que se importar com esse tipo de gente? Quando tudo isso foi feito, eles JÁ conservavam o pensamento corrente da época, de que havia uma superioridade natural, de que o mais forte sobrevive, e isso apenas foi institucionalizado: “O governo cuida do problema por mim, não preciso sujar minhas mãos de sangue. Sou inocente”. Então achar que o partido nazista era só um punhado de malucos no poder é no mínimo um desrespeito com milhões e milhões de vítimas da guerra. Era um movimento organizado (e muito bem organizado) de diversos povos no sentido de dividir o mundo para o benefício de “escolhidos”, segundo a lei “natural” do mais forte.

As pessoas não se horrorizavam com isso porque tudo foi implantado lentamente na cabeça delas, ou seja, foi criada uma cultura de massa, e agora vejo que está sendo criada uma cultura “esotérica” de péssima qualidade, de livre acesso (o que é bom) mas sem os mecanismos de outrora (como o uso de simbologia para mascarar certas coisas) que impediam às mentes sem discernimento o acesso a certos ensinamentos para os quais elas não estão preparadas. Assim, as informações entram numa mente sem maturidade e são replicadas (muitas vezes de forma distorcida e fora de contexto) como o (novo) conhecimento corrente.

Se antes tínhamos estudos “científicos” e “espirituais” que “atestavam” a superioridade de algumas raças, hoje temos uma condição onde uma casta de pessoas escolhidas apenas por fazerem parte de um grupo, crença, pertencentes a uma geração especial ou ligadas a grupos ufológicos, etc estão (na mente delas) assumindo as rédeas da humanidade, ou pelo menos fundando as bases de uma nova humanidade. Antes fosse um projeto de educação social pra eliminar as grandes desigualdades existentes em nosso país, mas infelizmente é tudo pra o Ser Humano continuar a sentir-se importante e continuar a dizer “eu detenho algo que você não tem, por isso sou melhor do que você”. Essas pessoas se dizem “buscadoras”, mas tudo o que elas buscam em termos de espiritualidade é pra continuar alimentando seu ego, e não seu espírito. A pessoa que se alimenta de forma saudável, buscando o crescimento espiritual, pode muito bem dizer “isso aqui não como” ao se deparar com certos alimentos, e calmamente colocá-lo do lado do prato pra comer o resto. Já a pessoa que se “ego-alimenta” vai se sentir particularmente ofendida e provavelmente se defrontará com quem serviu o alimento, porque pra ela aquilo é um ultraje: “Como ousa me servir isso? Você sabe quem EU SOU?”

Então, não duvido que possa surgir nas fileiras esotéricas um novo partido nazista. Não configurado como partido, nem alinhado com o nazi-fascismo, mas com as idéias que alimentaram essa geração, de intolerância com o fraco / diferente e superioridade de uns “escolhidos” que devem liderar a humanidade a um novo patamar, tudo inserido dentro de uma ou várias doutrinas fechadas, mas baseadas num amálgama de várias correntes de pensamento que conseguirão, mediante afinidade, vender muitas mentiras às mentes despreparadas. Então vocês que me lêem, estejam atentos a estes sinais e espalhem discernimento, para que o fundamentalismo não ressurja escondido no meio de powerpoints de anjinhos.

bandeira da espanha Ler em espanhol (por Teresa)

Referência:
O passado tão presente;
Documentário “Arquitetura da destruição”;
Espiritismo e respeito à diversidade humana;
The Occult History of the Third Reich (documentário em 4 partes, sem legendas)

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