MIRDAD: O HOMEM E OS VÉUS

Também o Homem é, pois, uma triunidade sagrada: uma consciência, uma palavra e uma compreensão. Também o Homem é um criador, como o seu Deus. O seu eu é a sua criatura. Mas, por que o Homem não é equilibrado como seu Deus?

O Homem é um deus enfaixado. O Tempo é uma faixa. O Espaço é uma faixa. A carne é uma faixa e do mesmo modo são faixas todos os sentidos e as coisas por ele percebidas. A mãe sabe que as faixas não são a criança. A criança, porém, não sabe. O Homem ainda é muito consciente de suas faixas, que mudam de dia para dia e de idade para idade. Em vista disso, a sua consciência está constantemente fluindo; e a palavra pela qual a consciência se expressa nunca é clara e com significado definido; e sua compreensão é nebulosa; e a sua vida está em desequilíbrio. É a confusão três vezes confusa.

E eis que o Homem brada por socorro. Seus gritos de angústia reverberam pelos séculos. O ar está pejado de seus gemidos. O mar está salgado com suas lágrimas. A terra está sulcada pelas suas sepulturas. Os céus estão ensurdecidos pelas suas preces. E tudo porque ele ainda não sabe o significado de seu EU que é, para ele, a faixa e a criança que nela está enfaixada.

Ao dizer eu, o Homem racha a Palavra em duas partes: suas faixas e a Divina Centelha Imortal. Dividirá o Homem aquilo que é indivisível? Deus o proíbe. Nenhum poder, nem mesmo o de Deus, poderá dividir o indivisível. É a imaturidade do Homem que o faz imaginar a divisão, e assim o Homem se põe em guerra contra o Ser-total, julgando-o inimigo do seu ser. Nessa guerra o Homem rasga suas carnes em tiras e derrama o seu sangue em torrentes, enquanto Deus, o Pai-Mãe, amorosamente observa, pois Ele sabe que o Homem está somente rasgando os seus pesados véus e derramando o amargo fel que o faz cego e não o deixa ver a sua unidade com o Uno.

É esse o destino do Homem – lutar, sangrar, desfalecer e afinal, despertar e estabelecer a divisão no eu, com sua própria carne, selando-a com o seu próprio sangue.

Fostes avisados para serdes prudente no uso do eu, pois enquanto com isso vos referirdes às faixas e não exclusivamente à criança; enquanto for para vós mais peneira do que cadinho, só estareis peneirando a vossa vaidade, para colherdes a Morte com toda a sua ninhada de dores e agonias.

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