ESTRUTURALISMO

Minha vida acadêmica é das mais esquisitas, desde o primário, por causa do meu jeito relaxado… Após quase perder o curso de Design por conta de esquecimento da data de matrícula – muito embora ninguém acreditasse que uma pessoa fosse capaz de esquecer por quase dois meses que frequenta uma faculdade – ficaram com pena de mim e consegui voltar. Agora já apareci com outro problema, que só veio a confirmar minha demência. Dessa vez aconteceu de eu passar mais de um mês assistindo aulas de um professor de outro curso achando que era um professor e uma matéria de Design.

Não vou torrar a paciência de vocês contando o COMO ocorreu, pois o interessante é que, graças aos esforços da coordenação (que a essa altura já deve me considerar um “aluno especial”, no sentido Down da palavra) eu vou continuar assistindo a cadeira do outro curso, já que eu perdi mais de meio semestre da que eu me matriculei originalmente. E devo confessar que estou adorando, pois a cadeira, que eu descobri (bem depois) ser Sociologia da arte, versa basicamente sobre Estruturalismo e sociedade.

E o que seria o Estruturalismo? Ele foi a antítese do Existencialismo. Durante as décadas de 40 e 50, o Existencialismo como era praticado por Jean-Paul Sartre era o modo dominante. Dizia que o ponto de partida do indivíduo é caracterizado pelo que se tem designado por “atitude existencial”, ou uma sensação de desorientação e confusão face a um mundo aparentemente sem sentido e absurdo. Já o Estruturalismo rejeitava essa noção existencialista de liberdade humana radical e, ao invés disso, concentrava-se na maneira como o comportamento humano é determinado por estruturas culturais, sociais e psicológicas.

O que seria estrutura? Pode-se pensar em elementos construtivos particulares que formam um corpo. Essa estrutura existiria antes como um projeto, uma intenção que organizaria as formas particulares. Tal projeto pode ser aplicado tanto no campo arquitetônico como no social. O Estruturalismo se preocupa em descobrir as bases que moldam o ser humano.

Abro um parêntese aqui pra confessar que me apaixonei logo de cara por esta matéria. A idéia de um “projeto” localizado não se sabe aonde é praticamente metafísica, se pensarmos que o próprio corpo humano, na sua formação intra-uterina, SEGUE um projeto de construção que está codificado no DNA, que tem o tamanho de 2,3 nanômetros. E a ciência não sabe explicar como cada célula criada sabe exatamente qual o seu papel e como ela tem na “memória” a construção de como é o corpo.

Para o mais proeminente praticante do estruturalismo, o antropólogo e etnógrafo Claude Lévi-Strauss, a base comum que existe no ser humano é que o Homo Sapiens se difere da natureza, pois todo ser humano ROMPE com a natureza para adentrar o mundo cultural. É, assim, um ser apartado de seu meio natural. Isso acontece porque, antes de cada indivíduo vir ao mundo, já existe ao seu redor os códigos morais, sociais, a língua, a postura diante da vida, que é repassada de geração a geração. Entre você e a natureza há o Ego, uma forma particular de visão, localizada no tempo e no espaço.

Isso me lembrou o filme The Matrix, quando o Agente Smith desabafa pra Morpheus que o ser humano só poderia ser categorizado como um Vírus, pois, segundo ele: “Todos os mamíferos do planeta instintivamente entram em equilíbrio com o meio-ambiente, mas os humanos não. Vocês vão para uma área e se multiplicam, e se multiplicam, até que todos os recursos naturais sejam consumidos”.

Lévi-Strauss analisou fenômenos culturais (incluindo mitologia, relações de família e preparação de alimentos) e explicou que os antônimos estão na base da estrutura sócio-cultural. Em seus primeiros trabalhos, demonstrou que os grupos familiares tribais eram geralmente encontrados em pares, ou em grupos emparelhados nos quais ambos se opunham e se necessitavam ao mesmo tempo. Na Bacia Amazônica, por exemplo, duas grandes famílias construíam suas casas em dois semi-círculos frente-a-frente, formando um grande círculo. Também mostrou que os mapas cognitivos, as maneiras que os povos categorizavam animais, árvores, e assim por diante, eram baseados em séries de antônimos. Mais tarde em seu trabalho mais popular O Cru e O Cozido, mostra como um antônimo aqui transformava-se em outro antônimo ali. Cultura, explicou Lévi-Strauss, é um processo dialético: tese, antítese, síntese.

O Estruturalismo têm sido frequentemente criticado por ser não histórico e por favorecer forças estruturais determinísticas em detrimento do livre-arbítrio. Mas, até onde vai nosso livre-arbítrio, e principalmente: o QUANTO exercemos DE FATO nosso livre-arbítrio?

Até mesmo Michel Foucault, um Pós-Estruturalista, teve sua fase estrutural em livros como A Ordem do Discurso, onde examina a história da ciência para estudar como estruturas de epistemologia (teoria da ciência) moldavam como as pessoas imaginavam o conhecimento e o saber. E devemos reconhecer a existência do Estruturalismo até mesmo na forma que foi criado (como a antítese do existencialismo) e como foi deixado de lado (com seu Nêmesis no Pós-Estruturalismo). Aguardemos a síntese.

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