PLATÃO E O SONO

Na lista Voadores se comenta muito sobre a importância dos bons pensamentos e da boa alimentação para ter uma boa saída do corpo ao dormir (seja consciente ou não) evitando que, por sintonia e afinidade, possa o seu espírito ir para lugares não muito apropriados ao desenvolvimento espiritual. Pois bem: um velho Voador, há 2.400 anos atrás, já falava a mesma coisa, sem tirar nem pôr!

Quanto aos desejos e à natureza do homem tirânico

Sócrates – Entre os prazeres e os desejos não necessários, alguns me parecem ilegítimos. Creio que sejam inatos em cada um de nós, mas, reprimidos pelas leis e pelos desejos melhores, com a ajuda da razão, podem ser totalmente extirpados em alguns, ou ficarem só em pequeno número e enfraquecidos, ao passo que nos outros subsistem mais fortes e em maior número.

Adimanto – A que desejos te referes?

Sócrates – Aqueles que despertam durante o sono, quando repousa essa parte da alma que é racional, benigna e feita para comandar a outra, e a parte bestial e selvagem, empanturrada de comida ou de bebida, estremece e, depois de ter sacudido o sono, parte em busca da satisfação dos seus maus pendores. Tu sabes que em tais casos ela ousa tudo, como se fosse desembaraçada e livre de toda vergonha e de toda prudência. Não receia tentar, em pensamento, unir-se à sua mãe ou a quem quer que seja, homem, deus ou animal, envolver-se em qualquer tipo de crime e não deixar de ingerir nenhuma espécie de alimento. Numa palavra, não há loucura nem impudência de que não seja capaz.

Adimanto – É verdade o que dizes.

Sócrates – Mas quando um homem, saudável de corpo e moderado, se entrega ao sono depois de ter despertado o elemento racional da sua alma e tê-lo alimentado de belos pensamentos e nobres especulações, pensando a respeito de si mesmo; quando evitou tanto reduzir à fome como saciar o elemento concupiscível, a fim de que se mantenha em repouso e não cause perturbações, pelas suas alegrias ou tristezas, ao princípio melhor, mas o deixe, só consigo mesmo e liberto, examinar e esforçar-se por apreender que ignora do passado, do presente e do futuro; quando este homem dominou de igual modo o elemento irascível e não adormece com o coração tomado de ira contra alguém; quando acalmou estes dois elementos da alma e estimulou o terceiro, em que reside a sabedoria, e, por fim, repousa, então, como sabes, toma contato com a verdade melhor do que nunca, e as visões dos seus sonhos não são de modo nenhum desregradas.

Adimanto – Estou convicto disso.
Sócrates – Mas alongamos em demasia este ponto. O que queríamos constatar era que há em cada um de nós, mesmo nos que parecem totalmente disciplinados, uma espécie de desejos terríveis, selvagens, sem leis, e isso é posto em relevo pelos sonhos. Vê se o que digo te parece verdadeiro e se concordas comigo.

Adimanto – Sim, concordo.

Do livro A República, Cap. IX
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