DOS MALES, O MAIOR

Miriam leitão – O Globo

O pior mal feito ao Brasil pelos políticos envolvidos em escândalos e pelo presidente Lula, com suas declarações, é ir confirmando valores tortos; é ir sedimentando a ideologia do todo-mundo-faz; é ir desanimando os cidadãos. No episódio Sarney, o presidente Lula produziu um festival de frases inconvenientes. Neste e em outros casos, o Senado ajuda a alimentar a ideia de que é um estorvo.

Lula não gosta de dar entrevistas e sua assessoria no Planalto ajuda a disseminar uma estatística com uma interpretação errada. A de que ele falou mais com a imprensa do que qualquer outro. Entrevista é entrevista: há contraditório, há perguntas, há contraponto. Lula fala diariamente o que lhe vem à cabeça, e joga sobre os jornalistas os seus éditos.

E que éditos! Na atual crise do Senado, Lula demonstrou acreditar que algumas pessoas são melhores que as outras, quando disse que o senador José Sarney (PMDB-AP) não é uma “pessoa comum” e por isso mereceria mais respeito. Volta-se assim à concepção do “fidalgo”, do “sabe com quem está falando?”, de todo aquele lixo que o Brasil tenta varrer lutando para que vigore a ideia da igualdade perante à lei.

Depois, criticou a imprensa por estar supostamente ignorando a “biografia” do senador. De novo, a ideia de que ele é mais igual que os outros. Mais adiante, defendeu a tese de que há mau comportamento aceitável, ao dizer que uma coisa é matar, roubar, outra é pedir um emprego. Posto assim, parece justo. Pedir emprego não é crime. Mas o que estava sendo exibido eram casos sucessivos do uso do bem público pelos interesses privados; de nomeações em série de parentes, amigos, parentes de amigos pelo senador Sarney, seus filhos e netos para o Senado da República como se fosse coisa deles e não o Senado da República. Mas se o presidente Lula passou a ler os jornais — coisa que já disse que não gosta de fazer — poderia ver que há várias outras investigações de órgãos públicos mostrando que nepotismo não é a única questão que pesa sobre o presidente do Senado.

A superficialidade com que o presidente da República trata o seríssimo caso do presidente do Senado é a mesma com a qual tratou o caso que o envolveu. No mensalão, sua primeira reação foi dizer que seu partido fez “o que é feito sistematicamente neste país”. Estava abonando assim a formação de caixa dois que pagou contas como a da publicidade da sua campanha.

Agora, quando sua posição evoluiu para o “não tenho nada com isso”, o presidente Lula também deseduca. Mostra que é possível não ter qualquer compromisso com o que fez e disse na véspera, e demonstra de novo falta de compreensão do funcionamento das instituições. O presidente tem a ver sim com tudo isso. Quanto mais não seja porque tem ordenado que a sua base política apoie Sarney a qualquer preço, já que o mais importante é o cálculo político para as eleições de 2010. E de 2014. O presidente já não governa, monta palanques estaduais. Para isso passa por cima até do próprio partido.

Nenhuma surpresa neste caso do seu apoio ao senador Sarney. O Lula que faz isso é o mesmo que beijou a mão do então senador Jader Barbalho (PMDB-PA), hoje deputado; que disse que entregaria um cheque assinado em branco ao ex-deputado Roberto Jefferson; que defendeu Renan Calheiros (PMDB-AL) no indefensável episódio do pagamento das contas da amante por uma empreiteira. É o mesmo que defendeu todos os envolvidos em escândalos desde o começo do governo, e depois tratou de dizer “não tenho nada com isso” quando a crise se agravou.

Um país pode sair maior de um escândalo quando seus líderes tomam as decisões certas e as instituições funcionam punindo o mau comportamento. Ou um país pode se acostumar com o erro, quando os líderes se esforçam para que a população aceite como parte da rotina o que é desvio, distorção, anomalia. Em todos os países há escândalos e corrupção. Em alguns, eles servem para construir avanços institucionais. Infelizmente não parece ser este o caso do Brasil.

O Senado, com seus 183 anos de história, parece não ter percebido o risco que corre. Começa a ser visto como uma instituição obsoleta. Para que serve mesmo? Podem se perguntar os que elegem os representantes e pagam seus custos. Os escândalos vão se tornando rotina. O Conselho de Ética da Casa com 75% de integrantes envolvidos em algum tipo de irregularidade e presidida por um senador sem voto pode dar às pessoas alguma esperança de que se comporte de acordo com o nome que tem? Só para citar três titulares, o presidente do Conselho, Paulo Duque (PMDB-RJ) é suplente do suplente; Wellington Salgado (PMDB-MG) é suplente; Gim Argello (PTB-DF) é suplente de um ex-senador que foi afastado por escândalo. O Senado tem hoje 20% de senadores sem voto, políticos que não têm compromisso algum com o eleitor, até porque não chegaram lá através dos eleitores.

Se o Senado quer confirmar a ideia de que é caro, fonte de desvios, e com utilidade duvidosa, deve continuar fazendo exatamente o que tem feito. Deve continuar dando demonstrações diárias de que não é uma instituição que pertence ao país, mas sim aos senadores, seus familiares, assessores, amigos; que mesmo sendo integrante do Poder Legislativo, legisla secretamente e em causa própria; que despreza a opinião pública.

O presidente Lula, se quer deixar como sua mais forte herança a dissolução de valores, deve continuar assim, falando sem refletir no impacto que isso causa no país, principalmente nos jovens. Deve continuar improvisando ao sabor do interesse do dia e atento apenas à lógica eleitoral.

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