O DISCURSO DE RATISBONA

Pode parecer que eu detesto o catolicismo, que fico pegando no pé do Papa, mas o caso aqui é que eu detesto mesmo é a hipocrisia dos homens públicos… Você não vê o líder do Irã falando em paz com os povos, vê? Ele é MAU, e embora seus planos e idéias sejam abomináveis, eu o admiro por ser o que verdadeiramente ele É, embora não valha nada. Já o PapaKim Skywalker fica falando em diálogo interreligioso e fingindo de conciliador, quando ele – sempre com um sorrisinho no canto da boca – durante a vida não fez NADA de concreto para unir as religiões em torno de um denominador-comum, como fez João Paulo II (a acho que JP2 só não fez mais porque o Ratzinger assumiu o controle do Vaticano depois que ele ficou doente).

Segue abaixo uma tradução mea-boca de um artigo publicado no El País:

O discurso de Ratisbona

Por Juan José Tamayo

O discurso de Bento XVI na Universidade de Ratisbona, que irritou gregos e troianos, situa-se dentro da lógica de seu pensamento desde que iniciou seu giro conservador na década de 70. Como presidente da Congregação para a Doutrina da Fé, o Cardeal Ratzinger condenou vários teólogos que estavam elaborando uma teologia de pluralismo religioso e diálogo com outras religiões. O ceilandês Tissa Balasurya foi suspenso e posteriormente reabilitado. O jesuíta belga Jacques Dupuis, professor de Teologia durante quase 40 anos na Índia, sofreu um longo calvário por sua obra Para uma teologia cristã do pluralismo religioso (Bréscia 1997), acusada de graves erros contra os princípios fundamentais da fé divina e católica. Também foram condenadas algumas obras do jesuíta índio Tony de Mello. Mas os três tiveram defensores de luxo: a conferência de jesuítas da Ásia se pronunciou a favor de Tony de Mello; o arcebispo de Calcutá, Henry d’Suoza, e o arcebispo emérito de Viena, cardeal Franz König, se definiram a favor de Dupuis; numerosas instituições teológicas do mundo se colocaram ao lado de Tissa Balasuriya.

O maior ataque de Ratzinger contra o diálogo interreligioso foi a Declaração da Congregação para a Doutrina da Fé Dominus Iesus, de 2000, que abriu um racha profundo entre as igrejas cristãs, ao mesmo tempo que dinamitou todas as pontes que vinham fazendo teólogos e teólogas das mais diferentes religiões, líderes religiosos, intelectuais e políticos. Ratzinger afirmava ali que a Igreja Católica é “a Igreja verdadeira” e que as “Igrejas particulares” (ortodoxas) e as comunidades eclesiais (protestantes e anglicanas) “não são Igrejas no sentido próprio” (n. 17). O tom era igualmente excludente em relação às religiões não-cristãs. “Se é certo – dizia – que os não-cristãos podem receber a graça Divina, também é certo que, objetivamente eles estão em uma situação gravemente deficitária em comparação aos que, na Igreja, têm a plenitude de meios para a salvação“.

How the Pope stole Christmas

A denúncia da “ditadura do relativismo” é uma constante no pensamento de Ratzinger. Na Dominus Iesus condenava as teorias do tipo relativista que tratam de justificar o pluralismo religioso, “não só de fato, mas de direito”, o subjetivismo, o indiferentismo, etc. Ainda ressoam em meus ouvidos as mais severas críticas lançadas contra o relativismo na própria missa anterior a celebração do conclave em que seria eleito Papa. Críticas feitas por uma consciência que possui a verdade exclusiva, e não um partícipe de uma busca conjunta.

A crítica do relativismo leva diretamente à simplificação, deformação e falseamento das posições em contrário. Esses desvios são os que se dão no discurso da Universidade de Ratisbona, em 12 de setembro, e a partir de uma citação, ao meu ver infeliz, do Imperador Bizantino Miguel II Paleólogo, que oferece uma idéia beligerante da religião muçulmana e uma imagem violenta do profeta Maomé. A própria citação, independentemente de que se concorde ou não, não foi casual, e revela a tendenciosidade do discurso e, objetivamente, situa o discurso do Papa no horizonte da teoria dos choques de civilizações de Huntington, para quem o Islã é “a civilização menos tolerante das religiões monoteístas”, e o pensamento etnocêntrico de Sartori, que qualifica o Islã como uma religião totalitária e incompatível com a sociedade pluralista, já que, disse, segue pensando na espada. “Deve ficar claro – afirmava Ratzinger em 1996 – que não se insere no espaço de liberdade de uma sociedade plural”.

Bento XVI poderia ter escolhido outros testemunhos de época mais respeitosos com o Islã, como os de Francisco de Assis, de Raimon Llull e O gentil e os 3 sábios, ou de Nicolás de Cusa, em A paz da fé. Francisco de Assis se mostrava partidário do diálogo islâmico-cristão e contrário à Cruzada contra os muçulmanos por considerar que o Evangelho manda amar seus inimigos e não fazer-lhes guerra. Uma vez começada a Cruzada, se dirigiu ao campo de batalha e foi falar com o Sultão. Os dois dialogaram em um clima pacífico e rezaram juntos. Estes testemunhos teriam sido muito mais conformes com o objetivo de diálogo de culturas que o Papa dizia promover.

Além do mais, a violência não pertence à essência do Islã, nem a “Guerra Santa” é um dos seus pilares e, menos ainda, um dever dos muçulmanos. Constitui-se mais de uma perversão, uma patologia da religião muçulmana, como é também do cristianismo. Como se encarregaram de demonstrar os estudiosos do Islã, é incorreto e tendencioso traduzir Jihad por “Guerra Santa”. Seu verdadeiro significado é esforço.

Segundo Sayyid Abul al’Mawdudi (1903-1979), escritor e político muçulmano, Jihad é antes de tudo uma luta moral no interior da comunidade islâmica, orientada a sua reforma, que consiste em mudanças tanto a nível pessoal como social. Sem mudança pessoal nas motivações, nos pontos de vista e objetivos da personalidade de cada indivíduo, não servem de nada as mudanças políticas e econômicas. Mudanças que acontecerão de maneira gradual, através da educação, não pela força. Junto a essa mudança pessoal, há que se lutar contra as injustiças e por reformas sociais, fomentando a cooperação para buscar melhores condições de vida para todas as pessoas, com atenção especial às pessoas mais necessitadas, como as viúvas e os órfãos, os inválidos e incapacitados.

Temos de agradecer pelas desculpas de Bento XVI e valorar positivamente a declaração de que ele não se identifica com o testemunho de Miguel II. Mas o problema não está em uma citação ou em um parágrafo da fala do Papa. É o discurso em si, em seu conjunto, cristão-cêntrico e euro-cêntrico, que precisa ser revisado em profundidade, porque não contribue com o diálogo. E optar pelo paradigma intercultural, interreligioso e inter-étnico, em sintonia com a teologia libertadora des religiões e em convergência com as diversas iniciativas de paz no plano internacional.

Juan José Tamayo é diretor da cadeira de Teologia e Ciências das Religiões da Universidade Carlos III, de Madrid, e autor de Fundamentalismos y diálogo de religiones (Trotta, Madrid, 2005).

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