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CORRUPÇÃO NÃO TEM CURA


Por Giuliana Reginatto pra o Yahoo notícias

São Paulo, 22 (AE) - "A cama caiu". Este é o nome da tela, pintada pelo artista Waldomiro de Deus, em 2005, quando os pilares do Congresso Nacional começaram a ruir. E se as tramóias políticas jamais fossem descobertas, a cama continuaria em pé? O psicoterapeuta e médico do Hospital das Clínicas de São Paulo João Figueiró garante que sim.

"Corrupção é um desvio de caráter praticamente incurável, irreversível, que pode ser contido apenas por meio de sanções externas. Por exemplo: se você avança o sinal vermelho, é multado", comenta o especialista.

Para infratores de trânsito, pontos na carteira. Para crianças desobedientes, fim da sobremesa. E com um político faltoso, o que se faz? "Nada se faz, geralmente. É essa impunidade que encoraja a prática da corrupção na política", diz Figueiró. O caso Fernando Collor de Mello exemplifica com perfeição o pensamento do profissional. Alvo de um impeachment em 1992, o ex-presidente foi eleito senador na última eleição.

Para muitos, o diagnóstico da corrupção como mal crônico pode parecer cruel demais. Para outros, no entanto, a constatação de que "a ocasião faz o ladrão", como afirma o conhecido ditado popular, pouco incomoda. "Perdemos a capacidade de espanto. Levar vantagem é visto como positivo na sociedade, é o jeitinho brasileiro", analisa Figueiró.

ENTREVISTA

O tema corrupção é instrumento de pesquisa do psicoterapeuta João Figueiró, do Hospital das Clínicas de São Paulo, desde 1970. Para ele, trata-se de um mal incurável e constituído na infância. "A fase nuclear de constituição da personalidade se dá entre cinco e oito anos", afirma. A seguir, os principais trechos da entrevista.

AGÊNCIA ESTADO - Se corrupção é incurável, o que se pode fazer com os corruptos?
JOÃO FIGUEIRÓ - É muito complicado operar alterações de personalidade e caráter. Isso exigiria grande esforço, seria necessário que a pessoa buscasse ajuda. Eu, em mais de 30 anos de carreira, nunca encontrei um corrupto que me procurasse porque sentia-se desconfortável e queria mudar. O corrupto, no geral, não sofre com suas atitudes, não sente remorso. Muitos até aproveitam para construir uma imagem de malandro, de esperto, e isso faz sucesso no Brasil.

AE - Quer dizer que "mensaleiros" e "sanguessugas" não se arrependeram nem quando flagrados?
FIGUEIRÓ - O corrupto, geralmente, é também inteligente. A pessoa sempre tentará buscar uma forma de justificar sua atitude. É o tal do 'rouba mas faz.' O comportamento transgressor está tão incorporado à cultura do brasileiro que roubar passou a ser visto como algo banal. Passei a me interessar pelo assunto na Copa de 70, quando o jogador Gerson apareceu em uma propaganda dizendo o seguinte: 'Você também gosta de levar vantagem em tudo'. Ser malandro aparece como um valor.

AE - Trata-se de um valor construído na infância?
FIGUEIRÓ - A fase nuclear de constituição da personalidade se dá entre cinco e oito anos. É quando se definem os modos de percepção da realidade pela criança. É claro que muito pode acontecer na constituição do caráter ao longo da vida. Dizemos que o cérebro continua a se constituir neurologicamente e psiquicamente até os 25 anos, mas muito do caráter de alguém depende das relações significativas que a pessoa manteve no ambiente físico que a cercou durante a vida: a escola, a família...

AE - Corrupção é aprendida?
FIGUEIRÓ - Não está errado o ditado que afirma "filho de peixe, peixinho é". Nós não nascemos civilizados, vamos nos tornando cidadãos por imitação de modelos externos. O bebê desconhece até os limites físicos de seu corpo. Filhos não ouvem o que os pais dizem, mas vêem o que fazem. Todos, pais e filhos, são enganadores. O discurso humano é mentiroso por natureza.

AE - Mentimos mesmo quando queremos dizer a verdade?
FIGUEIRÓ - Não há animal que não engane. Aves, camaleões fazem isso, é uma questão de sobrevivência. O homem levou a tática ao extremo, não é confiável nem para si mesmo. Nós somos capazes de acreditar na mentira que contamos para nós mesmos. Você diz que começa a dieta na segunda e na maioria da vezes é mentira, mas você acredita nisso quando diz.


Publicado qui,22 de fevereiro, 2007, às 3:13 PM  Sem comentários