Meu outro blog!
Retornar à página principal


COMEÇOU MAL


Por Cristóvam Buarque, Senador do PDT do Distrito Federal

Ninguém sente saudades da última legislatura. Mensalões e sanguessugas tomaram conta do noticiário, como se nosso Parlamento fosse um programa policial de televisão.

A nova legislatura também começa mal. Enquanto o Brasil vive em clima de guerra civil, a educação de nossas crianças fica para trás em relação ao resto do mundo, a economia cresce a taxas menores que a dos países emergentes; as estradas continuam esburacadas, os aeroportos paralisados; o desmatamento avança; a desigualdade social cresce, e no lugar de colocar esses e outros problemas na pauta, o Parlamento prefere priorizar o aumento nos salários dos parlamentares.

A imprensa tem divulgado pronunciamentos e reinvidicações de reajustes de salários e direitos a jetons por parte de ministros do Supremo e parlamentares. É a disputa pública entre os dois grupos sobre quem recebe mais.

É vergonhoso e triste ver o País enfrentando tantos problemas e os seus líderes máximos, no Judiciário e no Legislativo, discutindo seus próprios salários. Em um país onde o salário mínimo é de R$ 350, os parlamentares querem igualar seus salários aos R$ 24,7 mil dos ministros do Supremo Tribunal Federal que ainda querem aumentos. Apesar dos dois salários esconderem vantagens adicionais, livres do imposto de renda, que não aparecem no contracheque.

O Brasil será um bom país quando parlamentares e ministros do Supremo deixarem de comparar seus salários entre si e passarem a compará-los com o salário mínimo. Hoje, somando o salário e as vantagens adicionais, as remunerações dos níveis superiores do setor público equivalem a quase 100 vezes o valor do salário mínimo.

A imprensa abraça esse debate vergonhoso, ao invés de fazer um debate mais profundo: se nós, pois sou um deles, parlamentares e juízes merecemos os salários que recebemos. Ainda mais grave do que a comparação entre os salários é a comparação dos salários com o resultado do trabalho. É o povo que paga, por meio dos impostos, os salários do Legislativo e do Judiciário, e dificilmente compraria nossos serviços pelo valor dos salários que recebemos.

Se, no Parlamento, estivéssemos solucionando o problema da violência, do desemprego, da péssima educação pública, do caos na saúde, da crise ambiental, na ineficiência do sistema político, até que poderíamos pedir aumento, mas, pelo resultado de nosso trabalho, o povo acha que já ganhamos muito. Não deve ser diferente a opinião sobre o Sistema Judiciário. Se estivesse ajudando a fazer um Brasil mais justo, se estivesse aplicando as leis conforme os direitos sociais e humanos, se estivesse ajudando a distribuir justiça, os ministros até que podiam justificar os seus salários.

Porém, o que se vê é um Parlamento que ignora os problemas do povo, e um Judiciário que administra as leis conforme o poder e a influência dos advogados, as relações pessoais entre os interessados, e criando caos, como se viu no caso do processo eleitoral no ano passado, mudanças de regras até erraticamente muito próximo da eleição.

Atualmente, o produto do nosso trabalho não está atendendo aos brasileiros de hoje nem ajudando a construir um Brasil melhor para o futuro. Não estamos dando a contribuição que se espera de nós, na construção da República. A melhor prova disso é dar prioridade a uma pauta absurda que gira em torno do aumento do próprio salário.

Estamos começando mal o novo ano.


Publicado seg,26 de fevereiro, 2007, às 5:09 PM  2 comentários