2006 foi o ano dos Beatles pelo menos pra mim. Foi apenas nesse ano que tomei a iniciativa de pegar toda a discografia deles em MP3. Mais ainda, foi o ano onde fui abençoado com a dádiva de poder ouvir os Beatles em 5.1 surround no álbum Love (um casamento do melhor da música com o melhor da tecnologia). Obviamente fiquei salivando por mais, e descobri que um grupo de fãs (que usa a sigla TOUP) fez mixagens dos álbuns dos Beatles em 5.1 com uma qualidade que rivaliza a de um trabalho de estúdio. E mais: ainda ganhei o box completo e ORIGINAL do Beatles Anthology, também em 5.1, contando a HISTÓRIA dos Beatles!!! Yes! Yes!
Graças ao surround foi que passei a apreciar as músicas menos "convencionais" deles, como "A day in the life", "Lucy in the sky with diamonds", "Rain" e "I'm the walrus", que ganharam tanta vida que mais parece que elas estavam esperando a época tecnológica certa pra desabrochar.
Mas o que vou tratar aqui é do TOUP e suas mixagens. Como já falei aqui antes, alguns produtores preguiçosos e/ou pirangueiros e/ou mal caráter lançam DVDs de grupos famosos como Queen e The Cure com um "suposto" áudio 5.1 que nada mais é do que a aplicação de um efeito surround a uma matriz estéreo (coisa que qualquer placa de som de computador atual já faz NATURALMENTE). Ou seja, se você for nas caixinhas traseiras, vai ouvir um pouco da bateria, do baixo, enfim, de tudo, mas como se fosse um "eco". E o canal central NÃO vai ter a voz do artista isolada, como é de praxe em filmes surround.
Então, quando ouvi falar que alguns fãs lançaram os Beatles em 5.1, achei que fosse usando esse efeito, só que uma pessoa fã doente dos Beatles que ouviu me disse que dava pra ouvir a voz isolada no centro, e a guitarra isolada em outro canal, etc. Consegui com ele os arquivos em DTS-WAV e definitivamente me surpreendi!!! Os caras conseguiram fazer um trabalho semi-profissional usando apenas discos que eu e você temos em casa! Eles passaram meses, ou até mesmo anos, trabalhando em cada álbum, pra conseguir a melhor qualidade de som, e o resultado compensa. A grande sacada deles foi usar uma técnica conhecida como OOPS, ou "Out Of Phase Stereo" (estéreo fora de fase). O efeito OOPS pode ser usado em todas as suas gravações de estéreo para ouvi-las de um modo que você nunca ouviu elas antes. É uma técnica simples e conhecida desde os anos 70, que cria um novo canal de som a partir do estéreo. Tal processo também é conhecido como "esquerda menos direita".
COMO FUNCIONA
Os auto-falantes do seu sistema estéreo convertem um sinal elétrico em som, movendo o cone dos auto-falantes em relação às ondas positivas e negativas do sinal.
No exemplo acima, vemos um simples tom "puro"; o sinal elétrico faz o cone da caixa de som "oscilar" (ir pra frente e pra trás rapidamente) se movendo pra frente, por exemplo, no positivo (+) e pra trás no negativo (-). Esse movimento faz o ar na frente da caixa se mover, e este ar oscilando alcança suas orelhas como som. Uma única onda é chamada de freqüência (o quão freqüentemente o som oscila) e você ouve isto como um tom.
O som gravado é composto de muitas destas ondas elétricas em várias combinações, relativas às freqüências dos sons que foram gravados.
Agora, imagine dois sinais que são idênticos, exceto que eles estão "fora de fase" um com o outro, isto é, quando um sinal está tendo uma curva positiva (ascendente), o outro possui uma curva negativa idêntica. Se estes sinais forem misturados, eles cancelarão um ao outro. A onda positiva do primeiro sinal tenta fazer o cone ir pra frente, mas é contrariado pela onda negativa igual oposta ao segundo sinal, que tenta prender o cone de volta, então o resultado é nenhum som.
Agora a boa parte!
Em uma gravação estéreo alguns dos sons são registrados no canal esquerdo, e alguns são registrados no direito. Porém, por causa da mixagem feita durante o processo de gravação, alguns sons estão em AMBOS os canais. É muito comum em gravações estéreo modernas, por exemplo, os instrumentos estarem apenas em um canal, em ambos os lados, e os vocais "no meio", isto é, misturados em ambos os canais.
Agora, se você levasse um dos canais do exemplo acima e combinasse eles FORA DE FASE (positivo no negativo, e negativo no positivo) com o outro canal, o que for IGUAL em ambos os canais seriam cancelados, e você ouviria só o que for DIFERENTE em ambos os canais. Em nosso exemplo, você cancelaria o vocal, e ouviria só o acompanhamento instrumental. O inverso também pode ser conseguido, ou seja, isolar apenas o que for igual (no caso, a voz) e "jogar fora" os instrumentais.
Então foi assim que os fãs conseguiram isolar alguns sons pra fazer ótimas mixagens em 5.1. Claro, vai depender muito de como a música foi gravada e mixada originalmente, mas na maioria dos casos o resultado é surpreendente!
Publicado sex,12 de janeiro, 2007, às 4:01 PM 5 comentários