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   <title>Saindo da Matrix</title>
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   <subtitle>espiritualidade, filosofia, esoterismo, espiritismo, budismo</subtitle>
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   <title>O CONTEXTO DA AYAHUASCA</title>
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   <published>2010-03-14T16:11:09Z</published>
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      <name>AcidZero</name>
      
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      <![CDATA[<img src="geraldinho.jpg" hspace="15" vspace="5" ALT="Por Mario Cau" class="imagem">No último dia 12 o Brasil perdeu tragicamente um de seus maiores cartunistas, Glauco, assassinado juntamente com seu filho, Raoni, por um usuário de drogas ilícitas, "entusiasta" da Ayahuasca e, consequentemente, da Igreja que Glauco havia fundado, ligada ao Santo Daime e que ficava em sua casa.

Não poderia estar mais abalado com a notícia e, mesmo após alguns dias, ainda não me recuperei. Cresci lendo esse cara em revistas, tirinhas e charges de jornais. Ele, Angeli, Laerte e Aragonés são minha referência de humor inteligente nos quadrinhos. É pra evitar coisas assim que gostaria de partilhar meus pensamentos, no sentido de esclarecer (não combater, nem condenar, ou procurar culpados) pessoas no uso de certas substâncias para o auto-conhecimento.

Carlos Castañeda é bastante conhecido do público "alternativo". Ele usou por bastante tempo o alucinógeno Peiote, <b>guiado</b> por seu Shaman, Don Juan. As pessoas descompromissadas com a espiritualidade lêem o que interessa e descartam o que não interessa, e assim justificam suas experiências "místicas" com drogas (lícitas ou não) como uma busca espiritual. E param na busca. Eterna busca, porque em algum ponto esquecem o que estão buscando (se é que algum dia souberam) e ficam apenas nas drogas. Mas, vejamos o que Castañeda (e Don Juan) pensam disso, nessa <a href="http://avisospsicodelicos.blogspot.com/2009/06/entrevista-de-carlos-castaneda.html">entrevista</a>:

<div class="quotes"><b>Sam Keen:</b> Em seu livro mais recente, "Viagem a Ixtlan", você revê a impressão dada nos primeiros livros de que o uso de plantas psicotrópicas era o método principal usado por Don Juan no intuito de ensiná-lo sobre a feitiçaria. Como você vê agora o lugar dos psicotrópicos em seus ensinamentos?
<b>Carlos Castaneda:</b> Don Juan usou plantas psicotrópicas no período intermediário do meu aprendizado porque eu era muito estúpido, sofisticado e arrogante. Eu me agarrava à minha descrição do mundo como se ela fosse a única verdade. Os psicotrópicos criaram um vácuo no meu sistema de interpretações. Eles destruíram minha certeza dogmática. Mas eu paguei um <i>enorme preço</i>. Quando a cola que segurava meu mundo unido foi dissolvida, meu corpo estava fraco e eu demorei meses para me recuperar. Eu fiquei ansioso e funcionava a um nível muito baixo. 

<b>Sam Keen:</b> Don Juan usa drogas psicotrópicas regularmente para parar o mundo?
<b>Carlos Castaneda:</b> Não. Ele pode agora mesmo pará-lo com a sua vontade. Ele me disse que para mim a tentativa de ver sem a ajuda das plantas seria inútil.
Mas se eu me comportasse como um guerreiro e assumisse a responsabilidade não precisaria delas; elas apenas <i>enfraqueceriam</i> meu corpo.

E completa, mais à frente:

<b>Carlos Castaneda:</b> É este elemento de compromisso com o mundo que me mantém seguindo o caminho que Don Juan me mostrou. Não há necessidade de transcender o mundo. Tudo o que você precisa saber está aqui defronte nós, se prestarmos atenção. Se você entrar num estado de realidade extraordinária, como faz quando usa plantas psicotrópicas, está apenas usando a <i>força</i> que precisa para ver o <i>caráter milagroso da realidade ordinária</i>. Para mim o modo se viver o caminho com coração não é introspectivo ou de transcendência mística, mas a <i>presença no mundo</i>. Este mundo é o campo de caçada do guerreiro.</div>

Sem mais, meritíssimo.

Tenho certeza de que qualquer droga, se ingerida num contexto SÉRIO espiritual, pode ser direcionada para o bem, para a evolução. Por exemplo, o café. Digamos que eu faça um ritual do café, com todo um suporte físico (cânticos, incensos, templos) e psicológico, e só o ingira neste dado contexto psíquico e social. Pronto: a cafeína irá atuar de forma a potencializar meu lado espiritual. Acontece que nós tomamos café no escritório, no trabalho, pra "relaxar" (muito embora seja um estimulante, eu tomo pra relaxar) ou pra ficar acordado pro estudar a noite toda. Temos uma cultura do café JÁ estabelecida. A diferença aqui é o CONTEXTO.

Qual o contexto do Daime, hoje?

Além das pessoas que se devotam à causa, e que são sérias, honradas, compromissadas com os rituais e com a doutrina (e que existem nas mais diversas religiões), temos os aventureiros de fim-de-semana, que são jovens, sem compromisso com NADA, sem bagagem espiritual e, muitas vezes, com larga experiência em drogas ilícitas.

Uma ida ao <a href="http://www.orkut.com.br/Main#Profile?uid=3738034217193656700">perfil do Orkut</a> do estudante assassino de Glauco nos mostra as comunidades que ele visitava vi várias comunidades de Daime e Ayahuasca, no meio de outras, como "Joselitos do meu Brasil", "Surtados", "Laricas", "Bob Marley", "Fuck the police" e... "Mahatma Gandhi" (?). Uma das comunidades de Daime listadas chamava abertamente, logo em sua descrição, todos os irmãos pra uma "celebração", como se fosse uma Rave (ah, o assassino também participava da comunidade "Raves"). Estariam o Gandhi, Bob Marley e as Raves condenadas por fazerem parte do mundo de um assassino surtado? Não. Muito menos o <a class="overlib" onmouseover="return overlib('Ele poderia estar doidão com qualquer coisa, além do que nem todo drogado é assassino.');" onmouseout="nd();">Daime</a>. Mas a listagem de comunidades nos dá um vislumbre de por onde sua mente transita, seu consciente. Dar o diagnóstico de "bipolar" a esse indivíduo só por olhar as comunidades seria leviano, mas ao analisar os <a href="http://www.estadao.com.br/noticias/arteelazer,suspeito-de-matar-glauco-e-seu-filho-dizia-ser-jesus-cristo,523359,0.htm">relatos</a> de que ele pretendia levar Glauco (sob tortura) para a sua mãe, para que ele dissesse a ela que ele (o assassino) era Jesus Cristo (!), e logo depois atirar em Glauco e seu filho, começamos a ter um vislumbre maior do quadro, não acham?

Vamos pegar o perfil desse jovem. Qual a boa pra quem já "curtiu" todo tipo de coisa, e está a fim de experimentar algo diferente? Tem gente que procura até dolorosos ritos de iniciação indígenas, onde se injeta veneno de sapo no braço, só pra dar "uma limpada" (totalmente fora do contexto, como nas <a href="http://www.youtube.com/watch?v=QWDd-8UFr6o">matas virgens de Copacabana</a>). Por que não experimentar a Ayahuasca?

E isso não é culpa do Daime, nem da Ayahuasca, nem das tradições, que eram MUITO mais fechadas no seu início, não só pelo aspecto geográfico (nasceu nas florestas do Acre, próximo de onde eu <a class="overlib" onmouseover="return overlib('E posso lhes garantir que não há NADA de urbano, nem no lugar, nem na sociedade de lá, que está integrada com a natureza de uma forma que nós, aqui nas cidades, não conseguiríamos nem que nascêssemos e vivêssemos dentro dos matos (impossível comparar a floresta com os matinhos que temos por aqui).');" onmouseout="nd();">morei por 2 anos</a>, aliás), como pelo contexto. Você não saía do Shopping pra ir tomar Ayahuasca, e depois de 4 horas pegava o carro pra voltar pra dormir em casa, não. Ou enfrentava um dia de viagem de carro por dentro de estradas de barro e lama, ou ia de barco (na verdade uma frágil canoa com motor), no meio de rios cheios de jacaré (e não estou sendo dramático, eles simplesmente existem por lá até hoje). Acredito que só isso já separava o verdadeiro buscador dos aventureiros de fim-de-semana. O problema é o CONTEXTO. A Ayahuasca virou uma bebida urbana, tomada dentro de um contexto pseudo-xamânico! Como lidar com o inconsciente das pessoas quando o hino, totalmente deslocado da realidade social, não funciona com os "turistas"? Como assumir essa responsabilidade? Vamos dizer que a bebida seja DEUS, como diz a tradição. Será que YaVeH é pra TODOS? Allah é pra TODOS? O Deus cristão toca o budista da mesma forma que Buda? Então por que a Ayahuasca deve ser pra TODOS, indiscriminadamente?

Tem gente que morre se tomar Aspirina. Pra maioria, funciona. Cafeína pode causar dor-de-cabeça em muitos. Em outros, tira. Certas drogas (farmacêuticas ou não) são indicadas pra uns casos, e pra outros não. Durante a miração, os compostos presentes na Ayahuasca, como o <a class="overlib" onmouseover="return overlib('Embora isoladamente o DMT seja metabolizado pelo organismo, o que os daimistas não contam (ou não sabem) é que uma das substâncias usadas na mistura tem justamente a função de impedir seu metabolismo. Ou seja, libera-se em maior ou menor grau o efeito similar ao do LSD e Cogumelos.');" onmouseout="nd();">DMT</a> (que as pessoas se recusam - não sei porque - a chamar de <a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Droga_natural">droga</a>) abrem as portas do inconsciente, e daí advem a importância dos hinos, que são guias para manter a pessoa numa certa vibração, num certo pensamento, pra que ela não se perca (e se afogue) neste oceano que é o inconsciente. Infelizmente muita gente não consegue "nadar" adequadamente, e acaba sofrendo sequelas. O Psicanalista Transpessoal <a href="http://www.voadores.com.br/site/geral.php?txt_funcao=colunas&view=4">Lázaro Freire</a> - que, como pesquisador, conhece os efeitos do Daime e de outros psicoativos - recebe vários casos de pacientes que sofreram de surto de pânico e bipolaridade após o uso da Ayahuasca. Por mais que digam que é "seguro", e tenha sido recentemente liberado pelo governo, não há NADA que seja 100% seguro pra TODOS. Nem avião, nem açúcar, caramba!

Fica então o alerta de Lázaro, que já falava dos perigos de se administrar antidepressivos, inibidores da MAO e serotoninérgicos (tudo o que tem na Ayahuasca) a pacientes bipolares (transtorno que acomete cerca de 1,6% da população, hoje em dia) há muito, muito tempo:

<center>"<b>Quem pode tomar, não precisa. Quem precisa tomar, não pode.</b>"</center>

E continua:
<div class="quotes">De hoje em diante, lembrem-se: está demonstrado que na inocente roda de "chá-manismo" pode haver algum psicótico com potencial assassino e passagem na polícia por drogas, que está se enchendo de alucinógenos na sua frente, e que pode a qualquer momento se declarar Jesus e começar a atirar... Se por um lado muita gente boa procura essa bebida na esperança de um "atalho" consciencial, ao mesmo tempo praticamente TODOS os atuais ou ex "doidões" e drogados do país também cultuam - por motivos óbvios - essa nova forma de religião "baseada" em cogumelos ou chás. Além de muitos psicóticos e borderlines que, claro, se sentem mais à vontade em um ambiente de fantasias e "mirações" - muitos suspendem medicamentos "trocando-os" pela "cura" do daime. Reparem o vocabulário dos tipos que frequentam algumas casas: no meio de gente inocente e com boa intenção, essa turma barra-pesada e/ou psicodélica provavelmente também estará lá, trocando seu alucinógeno por outro mais barato, legal, potente e pretensamente espiritual. Qual o "doidão" que nunca experimentou Daime nem ao menos uma vez? Tem certeza de que conhece o passado, histórico policial, psiquiátrico e de drogas de todos da roda em que você foi passar 8 horas alucinado e indefeso?</div>

E o meu recado aos daimistas é: se preservem enquanto religião. Valorizem a doutrina, a transformação interna. Deixem o chá para pessoas um nível mais avançado de entendimento e COMPROMETIMENTO. A ICAR não dá seu néctar espiritual de mão beijada pra qualquer visitante de missa. O judaísmo também não. O islamismo, menos ainda. Me parece uma fórmula testada e aprovada ao longo de milênios, pra evitar a deturpação e banalização, e filtrar melhor seus integrantes. Fica a dicA.


<font size="1"><b><i>Referência:</i> 
<a href="http://www.saindodamatrix.com.br/archives/2005/12/santo_daime.html">Post sobre o Santo Daime (Ayahuasca) v1.4</a></b></font>]]>
      
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   <title>EU SOU SHE-BEAR!</title>
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   <published>2010-03-12T00:55:57Z</published>
   <updated>2010-03-12T17:57:03Z</updated>
   
   <summary>Uma belíssima encenação de uma história de fé e má sorte</summary>
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      <name>AcidZero</name>
      
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   <content type="html" xml:lang="pt" xml:base="http://www.saindodamatrix.com.br/">
      <![CDATA[A Bíblia é cheia de belas histórias. Algumas delas são encenadas anualmente, como a <a href="http://www.saindodamatrix.com.br/archives/2007/04/quem_matou_jesu.html">Paixão de Cristo</a>, em Pernambuco. Vários filmes bíblicos já foram feitos, como "Os 10 mandamentos" e "Paulo de Tarso". Mas ainda há muito a se contar, especialmente no Velho Testamento. Uma passagem em especial cativou a imaginação dos produtores do Black20 Studios, que fizeram uma belíssima encenação desta história de fé e má sorte.

Conta a Bíblia (II Reis 2:23-24) que Eliseu subiu a Betel; e, pelo caminho uns meninos zombaram dele, chamando-o de "calvo". Eliseu, virando-se ele para trás, os viu, e os amaldiçoou em nome do Senhor. Então duas URSAS saíram do bosque, e despedaçaram 42 daqueles meninos.

Aleluia!

Vejamos agora o vídeo com a reconstituição histórica desta peleja travada:

<center><object width="480" height="295"><param name="movie" value="http://www.youtube.com/v/pehhlAU00gQ&hl=pt_BR&fs=1&"></param><param name="allowFullScreen" value="true"></param><param name="allowscriptaccess" value="always"></param><embed src="http://www.youtube.com/v/pehhlAU00gQ&hl=pt_BR&fs=1&" type="application/x-shockwave-flash" allowscriptaccess="always" allowfullscreen="true" width="480" height="295"></embed></object></center>

Melhor que a Paixão de Cristo, não é? Eu achei.

Moral da história:
Nunca, NUNCA mesmo, chame um judeu (ou cristão, já que eles têm o mesmo Deus) de careca. Você não sabe a relação de intimidade dele com o Senhor, e pode sofrer uma morte horrenda.]]>
      
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   <title>QUEM VAI, QUEM VEM</title>
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   <published>2010-03-10T06:33:28Z</published>
   <updated>2010-03-10T20:03:07Z</updated>
   
   <summary>Quem vai, quem vem, quem fica, são todos facetas de nós mesmos, neste grande e complexo organismo que é a Vida.</summary>
   <author>
      <name>AcidZero</name>
      
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      <![CDATA[<ul id='imagem' style="width: 310px;"><b>Maria Rita - Encontros e Despedidas</b><br><object classid="clsid:d27cdb6e-ae6d-11cf-96b8-444553540000" codebase="http://fpdownload.macromedia.com/pub/shockwave/cabs/flash/swflash.cab#version=8,0,0,0" width="300" height="28" id="divplaylist"><param name="movie" value="http://www.divshare.com/flash/playlist?myId=10716807-8e1" /><embed src="http://www.divshare.com/flash/playlist?myId=10716807-8e1" width="300" height="28" name="divplaylist" type="application/x-shockwave-flash" pluginspage="http://www.macromedia.com/go/getflashplayer"></embed></object><br><img src="drwright-meditando.jpg"></ul>Geralmente não fico muito feliz quando um bebê nasce, nem muito triste quando alguém querido se vai. Fico pensativo, introvertido, pensando na continuidade e efemeridade das coisas. "Coisas" que incluem nós mesmos. Quando olho uma criança, dificilmente vejo uma criança, e sim um adulto enclausurado, lutando contra suas limitações (sinapses cerebrais não-formadas, dificuldades motoras e decorrentes do próprio "equipamento" em miniatura). Da mesma forma quando olho um idoso, com todos os problemas advindos de sua condição. E, no final, eles se parecem. E um volta pra onde o outro veio.

Pra onde é esse lugar? Será que tem de ser um "lugar"? Seria então pro nada?

Mas, o que seria o "nada"? O próprio ato de chamar de "nada" essa condição já cria algo: o <b>nada</b>. Nem sabemos se o nada existe como imaginamos, ou seja, a ausência de tudo, o vazio, a dissolução. Queremos saber mais sobre o "nada", dar um sentido a nossas existências, e então surgem as explicações das religiões. Até o budismo e o islamismo, que em essência não se preocupam (ou não dão valor) com isso, têm a sua. Mas quem garante que uma delas esteja certa? Quem garante que não estejam? Por isso me espanto com o ceticismo "agressive" (também conhecido como <a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Ate%C3%ADsmo_forte">ateísmo forte</a>), que basicamente acredita que nós, como o universo, nascemos do nada e vamos pra lugar nenhum. Isso pra mim é acreditar em algo fortemente. Os torna "crentes" em um tipo de ilusão que não é diferente das elaboradas criações das religiões das quais eles riem. Isso é ignorar os meandros e construções da mente humana, que em praticamente todas as civilizações desenvolveu conceitos abstratos para responder a esses enigmas, e muitos deles se parecem em essência (os arquétipos). É ignorar a intuição, a beleza da conexão não-local entre seres vivos, que ocorre com milhares de pessoas e animais, sem que precisemos pra isso ter uma explicação científica (acontece até com fótons!).

É essa conexão não-local que nos permite estar sempre em um tipo de "contato" com aqueles que se foram. Não é um contato físico, nem algo que possa ser mensurável, sentido ou descrito. No filme "Avatar" os seres do planeta Pandora se conectam por meio de "antenas", como um cabo USB. E a sucessão de conexões vai formando uma malha neuronal, uma "internet biológica" que permite a comunicação a nível de pensamentos, sentimentos, mesmo entre homens e animais. Nós não temos antenas físicas, mas podemos ter um Wi-Fi bem capenga. As capacidades de nosso cérebro ainda nos são um mistério. Quando ligamos pra alguém que não vemos há muito tempo sentimos um elo, uma intimidade, auxiliado pelos estímulos físicos (som) e pelas lembranças, pela saudade. Ativamos as áreas da memória relacionadas àquela pessoa, enfim, estamos trabalhando dentro de um terreno "real" (som), e ao mesmo tempo virtual (mente). Ao desligar ainda sentimos um bem-estar que se perpetua, a consciência de que aquela pessoa existe e está em um lugar específico, vive sua vida, você vive a sua, e a Vida segue. Pode acontecer pequenas sincronicidades, como você falar de uma pessoa e ela lhe ligar no mesmo dia, ou compartilharem sentimentos na mesma hora, em locais diferentes (só sabendo depois). Mas, quando a possibilidade de contato se rompe definitivamente (seja pela morte, ou outras circunstâncias) tendemos a bloquear, pela "lógica", as áreas da mente que poderiam sustentar essa comunicação. Não estou falando de mediunidade ostensiva, nem de experiências "do além", mas uma coisa mais sutil, que pode acontecer independente das religiões. É uma sensação de que você SABE que aquela pessoa está apenas longe, mas EXISTE em algum lugar, e está bem. Algumas vezes isso acontece com parentes de quem já partiu, mas não imediatamente. A pessoa acorda um dia com essa sensação de que acabou de "ligar" pra outra. O espiritismo explica que você visitou ou foi visitado pelo parente durante o sono, via "desdobramento" (projeção astral). É algo que tem entre os povos indígenas e até no Islamismo. Segundo o Islã, as formas de comunicação com os <a class="overlib" onmouseover="return overlib('Não estou certo se incluem comunicações com mortos nesse esquema, mas a idéia de planos de existência de consciências segue o mesmo princípio, independente de como chamam seus &quot;habitantes&quot;.');" onmouseout="nd();">planos superiores</a> se dá através de inspiração, dos sonhos e por meio de <a class="overlib" onmouseover="return overlib('Desses dois últimos é dito que se realizam &quot;por trás de um véu&quot;, ou seja, são difusos (teríamos aí um vislumbre do processamento figurativo do Inconsciente, no Islamismo?).');" onmouseout="nd();">visões</a>.

Quem vai, quem vem, quem fica, são todos facetas de nós mesmos, neste grande e complexo organismo que é a Vida.

Mais importante do que se comunicar, em algum nível, com os que se foram, é manter os canais de comunicação "Wi-Fi" abertos com quem ainda está aqui. Lembrando que não me refiro a comunicação social, vernacular, mas os sentimentos mais íntimos que emanamos para o outro. Como anda esta comunicação? Aberta e tranquila? Sem ruídos? Confusa? Truncada? Bloqueada? Pra estabelecer uma comunicação perfeita com os seres é preciso desenvolver um nível em que você está em paz com você mesmo, com os outros e com o mundo. É esse o aspecto mais valorizado no Zen Budismo, e o mais esquecido no cristianismo (não por falta de avisos de Jesus). Não é uma paz movida a Lexotan, nem um verniz de tranquilidade, mas um sentimento genuíno que brota espontaneamente, e quando você a tiver saberá, em cada célula do seu corpo.

Claro que, se tem uma coisa que arrasa com a conexão, é a culpa. Culpa de não ter vivido o melhor possível ao lado de outra pessoa, culpa por coisas ditas ou não ditas. Isso gera um mal-estar que, em grande escala, acaba por provocar um rompimento na comunicação com nossas próprias células, e daí surgem as doenças, como o câncer. Por isso é preciso viver como se este fosse nosso último dia, ou o último dia da pessoa com quem nos relacionamos. É estar Zen, ou seja: Presente, alerta, e em paz, para quando o "Grande Organismo" solicitar aquela pequena célula em outra parte, noutra função, você estar em paz consigo mesmo e com o outro, sem pendências. É por isso que Jesus nos ensina, com uma sabedoria que sobrevive aos tempos:

<center><b>Portanto, se estiveres apresentando a tua oferta no altar, e aí te lembrares de que teu irmão tem alguma coisa contra ti, deixa ali diante do altar a tua oferta, e vai conciliar-te primeiro com teu irmão, e depois vem apresentar a tua oferta</b><br>(Mat 5:23-24)</center>

Olhando o contexto da época, Jesus dá mais uma estocada no cinismo dos religiosos que só são religiosos na FORMA. Jesus reforça o aspecto interno como a coisa principal no cristianismo. Se for analisar a frase direitinho, ele deixa "Deus" (em seu aspecto externo, de adoração a alguma entidade) em segundo plano, e coloca o aspecto "Deus em nós" como a coisa mais <a class="overlib" onmouseover="return overlib('Reforçado por ele em Mateus 10:40, 18:50 e 25:40.');" onmouseout="nd();">importante</a> de sua doutrina.]]>
      
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   <title>FELIZ DIA DAS MULHERES</title>
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   <published>2010-03-08T05:32:22Z</published>
   <updated>2010-03-08T05:48:59Z</updated>
   
   <summary>Sintam-se representadas aqui por Kathryn Bigelow, vencedora do Oscar</summary>
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         <category term="Cinema" scheme="http://www.sixapart.com/ns/types#category" />
   
   
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      <![CDATA[<center><img src="oscar-bigelow.jpg"></center><br>
Sintam-se representadas aqui por Kathryn Bigelow, que deixou de ser conhecida como "ex-mulher de Cameron", pra ser a <b>primeira</b> mulher vencedora do <b>Oscar de melhor filme</b> e (pasmem!) <b>direção</b>, com "Guerra ao Terror" (The Hurt Locker).


<font size="1"><b>Muito embora ache que não foi merecido, mas isso é outra história...</b></font>]]>
      
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   <title>REENCARNAÇÃO PARA OS GREGOS (ORFISMO)</title>
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   <published>2010-03-04T23:59:45Z</published>
   <updated>2010-03-05T02:17:14Z</updated>
   
   <summary>O orfismo é um movimento religioso grego que influenciou fortemente o cristianismo.</summary>
   <author>
      <name>AcidZero</name>
      
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         <category term="Holismo" scheme="http://www.sixapart.com/ns/types#category" />
   
   
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      <![CDATA[<ul id='imagem' style="width: 290px;"><b>Seiji Yokoyama - Saint Seya's harps</b><br><object classid="clsid:d27cdb6e-ae6d-11cf-96b8-444553540000" codebase="http://fpdownload.macromedia.com/pub/shockwave/cabs/flash/swflash.cab#version=8,0,0,0" width="280" height="28" id="divplaylist"><param name="movie" value="http://www.divshare.com/flash/playlist?myId=10663129-a48" /><embed src="http://www.divshare.com/flash/playlist?myId=10663129-a48" width="280" height="28" name="divplaylist" type="application/x-shockwave-flash" pluginspage="http://www.macromedia.com/go/getflashplayer"></embed></object><br><img src="orfeu-lira.jpg"></ul><b>Adaptado do <a href="http://www.freemasons-freemasonry.com/8carvalho.html">artigo de William Almeida de Carvalho</a></b>


O orfismo é um movimento religioso complexo onde se detectam influências dionisíacas, pitagóricas, egípcias, apolíneas e, obviamente, orientais. Teria sido fundado por Orfeu, um herói lendário da grécia e patrono da música.

Há dúvidas se Orfeu teria sido um personagem histórico. Reza a  lenda que ele teria nascido na Trácia e era filho de uma <a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Musas">Musa</a> (provavelmente Calíope, patrona da poesia épica e a mais importante das musas) e Eagros, rei da Trácia. Outra versão apresenta-o como filho do próprio Apolo. Orfeu é considerado como o maior músico da antigüidade, não só pela música, como pelo canto. Todos os poetas antigos celebraram sua lira e sua cítara, que teria sido inventada ou <a class="overlib" onmouseover="return overlib('Pois aumentou-lhe o número de cordas, de sete para nove, numa homenagem às Nove Musas.');" onmouseout="nd();">aperfeiçoada</a> por ele. Seus acordes eram tão melodiosos que os homens e os animais quedavam paralisados para o escutar. Os animais ferozes deitavam-se a seus pés como cordeiros; as árvores vergavam para melhor escutá-lo; os homens mais coléricos sentiam-se penetrados de ternura e bondade. Educador da humanidade, conduziu os Trácios da selvageria para a civilização. Iniciado nos "mistérios", completou sua formação religiosa e filosófica viajando pelo mundo. Ao retornar do Egito, divulgou na Grécia a idéia da "expiação das faltas e dos crimes", bem como os cultos de Dioniso e os mistérios órficos, prometendo, desde logo, a imortalidade a quem neles se iniciasse.

Possui-se hoje uma visão razoável do orfismo através dos diversos escritos, principalmente os textos de Platão e Virgílio, que o integraram no seio de suas obras. O orfismo oscila entre o culto a <a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Dioniso">Dioniso</a> (ou Dionísio), que sempre desejou romper a camisa-de-força da religião tradicional da pólis grega, e <a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Apolo">Apolo</a>, cuja <a class="overlib" onmouseover="return overlib('Este culto comandou a religião estatal com mão-de-ferro, freando qualquer inovação que significasse um rompimento com o <b>métron</b> (<i>medida ideal</i>), tão conhecidos na lição apolínea por excelência: <i>conhece-te a ti mesmo</i> e <i>nada em demasia</i>. A inteligência, a ciência e a sabedoria são consideradas pelos seguidores de Apolo como modelos divinos. A serenidade apolínea tornou-se, para o homem grego, o emblema da perfeição.');" onmouseout="nd();">seriedade</a> corrigia os excessos e os desvairios dionisíacos. Esta aproximação que Orfeu faz dos dois deuses antagônicos tem um certo sentido: segundo Eliade, o espírito grego exprime por ela sua esperança de encontrar uma solução às crises desencadeadas pela ruína dos valores das religiões <a class="overlib" onmouseover="return overlib('Cujas valores podemos observar nas obras Ilíada, Odisséia e nos Hinos Homéricos, todos atribuídos ao poeta grego Homero.');" onmouseout="nd();">homéricas</a>.


<b>Mitologia</b>

<ul id='imagem' style="width: 180px;"><img src="orfismo-ovo.gif"><br><b>Ovo cósmico</b></ul>Orfeu é essencialmente um reformador. O orfismo quebra com a religião homérica, principalmente no tocante à sua teogonia. Salienta-se que a teogonia de Homero foi transmitida pelos rapsodos gregos. Sumariamente, a teogonia órfica afirma o seguinte: na origem estava Cronos (o Tempo) e dele saíram o Éter e o Caos, que geraram o Ovo Cósmico, um ovo de prata imenso (daí a proibição de se comerem ovos). Desse Ovo surgiu o deus andrógino Fanes, mais tarde chamado de Eros. Após seu nascimento, a parte superior do ovo tornou-se o céu e a parte inferior, a terra. Fanes criou a Lua e o Sol, os outros deuses e o mundo. Zeus, contudo, engole Fanes e toda a criação. Houve a produção de um mundo novo, tornando-se, a partir daí, o criador único. Um papiro, descoberto em 1962, revela uma teogonia ainda mais radical: um verso, atribuído a Orfeu, proclama que "Zeus é o começo, o meio e o fim de todas as coisas". A seguir, Zeus criou um numeroso panteão no qual é preciso salientar Dioniso-Zagreu, que terá papel fundamental no culto do orfismo.

A mitologia conta que Zagreu, o primeiro Dioniso, era filho de Zeus com Sêmele. Os Titãs, a mando de Hera, raptaram Zagreu, mataram-no e cozinharam-no num caldeirão. Em seguida, o devoraram-no. Zeus, possesso, fulminou os Titãs, transformando-os em cinzas. Dessas cinzas nasceram os homens, com sua dupla natureza: o mal advindo de sua natureza titânica, e o bem, representado pelo menino Dioniso-Zagreu, que os Titãs tinham devorado. A chispa do divino, que o homem carrega dentro de si, advém pois de Dioniso, deus da fertilidade e também da morte. Na religião dionisíaca inexiste, contudo, esperança escatológica, enquanto o orfismo é essencialmente soteriológico (prega a salvação humana).


<b>Características</b>

O orfismo rejeitava os ritos antigos, nos quais os iniciados despedaçavam animais ainda vivos, para consumo do sangue e da carne, pois os orfistas eram radicalmente vegetarianos.

De Apolo, herdou uma componente da <a class="overlib" onmouseover="return overlib('Segundo Aristóteles, a catarse refere-se à purificação das almas por meio de uma descarga emocional provocada por um drama. No caso dos heróis, era preciso que ele passasse da graça para a desgraça (tal idéia é usada o tempo todo nos filmes de ação, como Star Wars ou Avatar, e representa a &quot;Jornada do Herói&quot;, descrita por Joseph Campbell). Na psicologia, a catarse é o experimentar da liberdade em relação a alguma situação opressora,  através de uma experiência intensa e emocional (os filmes também usam esse mecanismo pra fazer a pessoa buscar a catarse, como chutar a bunda do chefe ou exigir um hambúrguer do McDonalds DECENTE com um taco de baseball na mão).');" onmouseout="nd();"><b>catarsis</b></a> (<i>purificação</i>, ou <i>purgação</i>), tão praticada no oráculo apolíneo de Delfos, mas era radicalmente contra a idéia de Apolo de que esta visava prioritariamente a purificar o homicídio. Os órficos eram ascéticos, que purificavam-se nesta e na outra vida, visando libertar-se do ciclo das existências. A religião apolínea era o bem viver; a órfica, o bem morrer.

Os órficos substituíram a "folia" dionisíaca pela catarsis apolínea. Através da prece e da oferenda, a purificação é um dos ritos principais das religiões antigas. Tudo que é impuro provoca a repulsão dos deuses e, por impuro, entende-se tanto a alma quanto o corpo. Convém notar que, por purificação, entende-se tanto a individual como a coletiva. Na antigüidade grega, quando se cometia um crime, o castigo recaía não só sobre o criminoso como sobre todo o seu clã. Assim, uma pretensa purificação de um crime tinha que ser não só individual como coletiva. Os cultos dionisíacos eram secretos e envoltos em mistério (ao contrário dos <a class="overlib" onmouseover="return overlib('Eliade nota uma semelhança entre os ritos apolíneos e os xamânicos, pois ambos procuram o conhecimento, a sabedoria e a exaltação do espírito, ao contrário das histerias (no sentido grego) e das possessões dionisíacas.');" onmouseout="nd();">cultos apolíneos</a>, que eram públicos). Por sinal, conhece-se muito pouco destes ritos secretos e destas iniciações órficas. Os órficos resolveram o problema da culpa de forma original na cultura grega: a culpa é sempre de responsabilidade individual e por ela se paga aqui; quem não conseguiu purgar-se nesta vida, pagará por suas faltas no além e nas outras reencarnações até a catarsis final.

A semelhança entre o orfismo e o pitagorismo, nos aspectos religiosos, é por demais sintomática: o dualismo corpo-alma, a crença na imortalidade da alma, a metempsicose, a punição no Hades (inferno), a glorificação final da <i>psiqué</i> nos Campos Elíseos, o vegetarianismo, o ascetismo e a importância das purificações. Por outro lado, o orfismo era menos elitista do que o pitagorismo, menos esotérico e não se imiscuia em política.


<b>Reencarnação</b>

É importante aqui salientar o caráter monoteísta do orfismo, que representa uma ruptura importante com os mitos olímpicos advindos dos rapsodos homéricos. O orfismo propugna por uma noção de um deus criador, soberano, simbolizando a vida universal. Contudo, o rompimento mais radical com o mito homérico é na parte escatológica, ou seja, na ciência dos fins últimos do homem, naquilo que deverá seguir à vida terrestre. A descida ao Hades simboliza a vida após a morte. A concepção órfica da imortalidade advém de um crime primordial: a alma está enterrada no corpo como se fosse um túmulo (<b>soma-sema</b>, que significa <i>corpo-túmulo</i>). Como conseqüência, a existência encarnada se assemelha mais a uma morte, e o falecimento constitui o começo da verdadeira vida. Esta verdadeira "vida" não é obtida automaticamente; a alma será julgada segundo as suas faltas e os seus méritos. Após um certo período, ela reencarna. A influência egípcia – julgamento de Osíris e reencarnação – é insofismável no orfismo. Nessa via crucis, de reencarnação em reencarnação, até mesmo em corpo de animais (metempisocose), a alma vai se purificando. Nesses intervalos reincarnacionistas a alma chega a demorar uns 1000 anos no castigo do inferno, onde sofre um ciclo de pesadas penas. Quando completamente purificada, sai desse ciclo de gerações para reinar entre os heróis. O destino, obviamente, não será o mesmo para os iniciados órficos e os profanos. O mortal comum profano deverá percorrer dez vezes o ciclo antes de escapar.

<ul id='imagem' style="width: 280px;"><img src="orphic-gold.jpg"><br><b>Inscrições órficas numa fina lâmina de ouro</b></ul>Um artefato importantíssimo no orfismo são as "lamelas órficas". São pequenas lâminas ou placas de ouro, descobertas na Itália meridional e na Ilha de Creta, e em túmulos órficos. São todas marcadas com o sinal secreto Y, até hoje um mistério. Delgadas e elegantes, enroladas sobre si mesmas, eram depositadas em pequenas placas hexagonais. Estas, presas a correntes de ouro, eram colocadas no pescoço dos iniciados, como talismãs, à maneira de passaporte para a eternidade.

Numa das lamelas encontradas, estão incrustados versos de aconselhamento à alma do morto para sua viagem em direção ao Hades. Em lá chegando, deve escolher entre um caminho da direita e um da esquerda. "À esquerda da morada do Hades, tu encontrarás o Lago da Memória (Lethes), e os guardiões estarão lá. Diga-lhes... eu sou o menino da Terra e do Céu estrelado, mas estou morrendo de sede. Dá-me rapidamente a água fresca que flue do Lago da Memória". Para a alma que deve retornar a terra para reencarnar-se, essa água do Lethes tem por função não esquecer sua existência terrestre, mas eclipsar a recordação do mundo pós-morte. O orfismo assim reverte a função da água do Esquecimento pela nova doutrina da transmigração. O esquecimento não simboliza mais a morte, mas o retorno à vida. A alma que teve a imprudência de beber na fonte do Lethes reencarna e será novamente projetada no ciclo do devir.

Para aquelas almas que não precisam mais se reencarnar, é aconselhado evitar a água do Lago da Memória e passar ao caminho da direita. E está escrito numa das lamelas: "Venho de uma comunidade de puros, ó puro soberano dos Infernos". Ao que Persófone replica: "Saúdo-te, toma o caminho da direita em direção aos prados sagrados e aos bosques de Perséfone".

A sede da alma, comum a tantas culturas, configura não apenas o refrigério, pelo longo caminhar da mesma em direção a outra vida, mas sobretudo, simboliza a ressurreição, no sentido da passagem definitiva para um mundo melhor. Se, para os gregos "os mortos são aqueles que perderam a memória", o esquecimento para os órficos não mais configura a morte, mas o retorno à vida.


<b>Conclusão</b>

<ul id='imagem' style="width: 280px;"><img src="orfeu-mosaico.jpg"><br><b>Mosaico de Orfeu, encontrado numa vila romana</b></ul>Orfeu não morreu com a Grécia antiga. A sua figura continuou a ser reinterpretada pelos teólogos, tanto judeus quanto cristãos. Especialmente cristãos, se considerarmos que o cristianismo como o conhecemos floresceu na Grécia e em Roma. Nos afrescos das catacumbas romanas encontram-se imagens de Orfeu, tangendo sua lira no meio de animais simbolicamente cristãos: carneiros, ovelhas, cachorros e pombas. Noutros, encontram-se duas ovelhas: uma simbolizando Orfeu e outra, o Cristo. Nos mosaicos do mausoléu de Gala Placídia, em Ravena, é representado como Bom-Pastor. Uma antiga cena de crucificação chega mesmo a chamar Cristo de "Orfeu báquico". A semelhança dos simbolismos são flagrantes: o crime primordial dos Titãs e o pecado original de Adão e Eva; a consumação do corpo do deus cristão e do deus grego; Cristo como filho de Deus assim como Orfeu era filho de Apolo, são pontos comuns entre as duas doutrinas religiosas, numa visão simplista. Se pouco restou dos mistérios órficos, a figura de Orfeu tem cadeira cativa no inconsciente coletivo de nosso mundo.


<font size="1"><b><i>Leia também:</i>
<a href="http://www.saindodamatrix.com.br/archives/2007/08/reencarnacao.html">Post sobre reencarnação nas diversas culturas</a>;
<a href="http://www.saindodamatrix.com.br/archives/2003/10/reencarnacao_hinduismo.html">Reencarnação no hinduísmo</a>;
<a href="http://www.saindodamatrix.com.br/archives/2003/01/reencarnacao-cristianismo.html">Reencarnação no cristianismo</a>;
<a href="http://www.saindodamatrix.com.br/archives/2005/12/reencarnacao_judeus.html">Reencarnação no judaísmo</a></b></font>]]>
      
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