MATRIX RELOADED
C. Roberto
Igual ao primeiro filme esse continua a revelação,
ou seja, velando novamente antigos ensinamentos numa linguagem nova.
Essa linguagem nova está nos elementos tecnológicos
do mundo moderno: a Realidade Virtual e a interconexão global
advinda pela Internet. Mas enquanto no primeiro filme a questão
principal era sobre o que é, afinal, a realidade, esse segundo
traz à discussão se temos realmente o livre-arbítrio:
a questão da escolha.
No primeiro filme, Neo procurava a resposta, nas palavras de Trinit,
à "pergunta que nos impulsiona": o que é a
verdade? Morpheu lhe responde: "Que você é um escravo.
Como todo mundo, você nasceu num cativeiro, nasceu numa prisão
que não consegue sentir ou tocar. Uma prisão para sua
mente... A Matrix, está em todo lugar. A nossa volta. Mesmo
agora, nesta sala. Você pode vê-la quando olha pela janela,
ou quando liga sua televisão. Você a sente quando vai
para o trabalho, quando vai a igreja, quando paga seus impostos. É
o mundo colocado diante dos seus olhos para que não veja a
verdade...
Infelizmente é impossível dizer o que é a Matrix.
Você tem de ver por si mesmo".
Na realidade o nome Matrix tem um sentido oculto: "Ma"
indica Maya, que significa ilusão em sânscrito, e "trix"
indica três (as três ilusões que, segundo o hinduísmo,
ocultam a realidade: a ilusão física, a ilusão
psíquica e a ilusão espiritual). No primeiro filme conhecemos
o Oráculo, uma Pitonisa que, é lógico, sabe tudo
o que vai se passar durante sua conversa com Neo: sabe que ele vai
quebrar o vaso, sabe que ele não vai aceitar se sentar, e sabe
que ele não é o Predestinado, o homem que iria surgir
para salvar a humanidade da ilusão criada pelas máquinas:
"Ser o escolhido é como estar apaixonado. Ninguém
pode te dizer se você está. Você simplesmente sabe.
Não tem dúvida, nenhuma". E Neo sabia que não
era, pois não sentia que era.
Neo não é mesmo o escolhido. O Oráculo, afirma
que ele tem o dom, mas parece que "está esperando por
algo". Quando Neo lhe indaga a respeito do que poderia estar
esperando, ela lhe responde: "sua próxima vida talvez".
Sabemos que todos nós "temos o dom", por isso o Oráculo
não negou a Neo a possibilidade de que ele pudesse se transformar
no Predestinado e afirmou que em breve ele teria que fazer uma escolha
entre ele, Neo, e Morpheu. Neo não se identificava em nada
com a humanidade liberta, não havia amor altruísta em
seu coração, ele não sabia o que fazer e tinha
certeza que não era o Predestinado, só uma coisa lhe
intrigava: a certeza de Morpheu de que ele era o escolhido. Com sua
mente cheia de dúvidas, tinha apenas uma certeza: Morpheu tinha
de sobreviver, Morpheu era a única esperança. Então
usou todas as suas escolhas (seu livre-arbítrio) a favor da
vida de Morpheu. Por Morpheu ele morreu e pelo amor de Trinity ele
ressuscitou. A paixão de Trinity ocupou, então, todo
o seu ser e ele conheceu Eros, o amor sensual.
Liberto das limitações impostas às mentes comuns
pela Matrix (a estrutura geradora da ilusão), Neo se dirige
a ela, no final do primeiro filme, e se diz decidido a: "mostrar
a essas pessoas o que não quer que elas vejam. Vou mostrar
a elas um mundo sem você. Um mundo sem regras, sem controles.
Um mundo onde tudo é possível... Para onde vamos daqui,
é uma escolha que deixo para você". E Matrix melhorou
seus agentes. Enquanto isso, Neo passa a conhecer e a viver intensamente
o amor à amada. Neo não sentia amor à humanidade.
Para ele as oferendas, os agradecimentos e os pedidos feitos a ele,
como se fosse um deus, eram sem sentido. Ele não se considerava
o Predestinado ("eu não sei o que fazer", dizia)
e a única coisa que importava era viver o amor com Trinity
e não perdê-la: "eu preciso de você".
Seus pesadelos constantes, em que acordava antes de ver a morte de
Trinity, continuavam a lhe atormentar. Após um deles, se encontra
com o Conselheiro, e em sua conversa vemos que não aceita a
visão de ser controlado pelas máquinas em Zion: "nós
podemos desligá-las". Mas admite ser dependente delas,
assim como elas dependem da humanidade. Numa visão mais ampla,
a humanidade se tornou dependente da Matrix (a tripla ilusão)
e essa é totalmente dependente da humanidade.
Então outra vez ele se encontra com o Oráculo, que
se admira do homem em que Neo se transformara. Durante a conversa,
ela já sabia de suas visões sobre Trinity e sobre uma
porta de luz , sabia que dessa vez Neo iria se sentar para conversar,
que ele iria aceitar o doce que ela ofereceria, e lhe afirma que já
sabe de tudo porque todas as escolhas dele já tinham sido feitas:
"você está aqui somente para saber o porquê".
Mas Neo não aceita não ter o comando consciente sobre
si mesmo e sobre suas escolhas.
Surge novamente o agente Smith. No primeiro filme ele se coloca como
a cura para o mal, que segundo ele é representado pela maior
de todas as criações de Deus na Terra, o ser humano.
Ao mesmo tempo em que ele quer destruir todos os rebeldes, ele inveja
a liberdade deles, quer ser livre da Matrix e sentir a humanidade.
Após sua aparente destruição por Neo, Smith consegue
se livrar parcialmente da Matrix e adquire a capacidade de se transmitir
(se replicando), como um vírus de computador, a qualquer personagem
dentro da Matrix, e deseja, mais que nunca, matar Neo. Consegue então
sair da Matrix e "infectar" o mundo "real" através
de Bane, e é através dele que Smith, cortando a própria
mão, consegue experimentar a sensação de estar
vivo, de sentir dor, de sangrar.
No primeiro filme, um dos membros da tripulação, Mouse,
fala com Neo: "Negar os nossos impulsos é negar aquilo
que faz de nós humanos". Ele se referia sobre a sexualidade
humana, algo que Neo descobriu com Trinity (no primeiro filme, como
hacker, recusou um convite para "se divertir" com algumas
garotas, mas mesmo assim saiu e conheceu Trinity). É uma alusão
ao dever interno de cada um de nós em estar extremamente consciente
de nossos impulsos, não os recalcando hipocritamente para as
regiões do subconsciente, onde irão se acumular como
tralhas no armário. Desse nosso "quarto dos fundos",
nossos impulsos continuarão a atuar sem nenhum controle, disciplina
ou educação, sorrateiramente, até invadirem como
uma enchente de um rio bravio, a consciência, dominando-a e
arrastando-a às maiores perversões. Essa tônica
volta com uma força descomunal após Morpheus fazer seu
discurso em Zion. O
povo de Zion exercita o seu dever de ser quem são realmente,
exercer a sua
humanidade, através do amor sensual (Eros) e do prazer da dança,
conscientemente e com responsabilidade, pensando apenas naquele momento
presente, para "fazer a terra tremer" sob os pés
das máquinas. Dançam como uma preparação
para a guerra, muitos entrando numa espécie de transe ao som
dos tambores (transe xamânico, danças circulares sagradas,
kirtans, exercícios tântricos hindus, e etc., nossas
tradições estão repletas de exemplos). Zion tem
uma realidade própria e o filme mostra que o poder da humanidade
sobre a Matrix está justamente na própria humanidade
(filosofia tântrica). Morpheu demonstra como não temer
o futuro, baseado justamente no nosso passado de vitórias e
acertos que nos fizeram chegar até o presente, independente
das derrotas e erros.
Um outro momento crítico surge quando Neo encontra Merovigian,
um programa que descobriu outra faceta da verdade: "existe uma
só verdade final: a lei de causa e efeito". Ele revela
que tudo sempre esteve determinado, que só nos resta descobrir
os porquês, e que saber os porquês é ter poder.
Enquanto não soubermos os porquês seremos marionetes
da Matrix, jogados de um lado para o outro, escravos de nossas sensações.
Mas Merovigian, embriagado pelo poder que saber os porquês proporciona,
continua marionete da Matrix. Sempre ávido por poder (como
afirmara o Oráculo a Neo), se vê envolvido nos laços
de causalidade da Matrix, e se vê perplexo com a traição
de Persephone (uma demonstração da lei do karma que
o pegou de surpresa, sem que ele soubesse o porquê).
Após o excepcional resgate do Key maker (o chaveiro), Neo
encontra finalmente a Fonte: o Arquiteto. O Criador da Matrix, mantém
o discurso determinista quando afirma que já sabe a primeira
pergunta que ele vai fazer: "quem sou eu?". O Arquiteto
responde-lhe dizendo que a Matrix não é o primeiro mundo
ilusório criado para a mente humana e que Neo não passa
de uma "anomalia programada", que tudo o que ele passou
até então já estava determinado e que todas as
transgressões já estavam previstas pelo sistema, como
uma anomalia da programação que é necessária,
mas plenamente controlável.
Revela também que ele não era o primeiro Predestinado,
que Zion já existira antes (cinco vezes) e que fora destruída
todas as vezes, da mesma forma que seria destruída agora novamente.
Também está determinado que Trinity irá morrer
e que ele, o suposto Predestinado programado e esperado, também
seria destruído, mas não antes de resgatar certo número
de humanos, a fim de criar uma nova Zion. Então ele, com seus
poderes e todo o conhecimento obtido, seriam reabsorvidos pela Matrix.
Matrix evolui a cada ciclo de vida e morte de um Predestinado!? O
Arquiteto tenta convencer Neo de que não há o que ele
possa fazer acerca do determinismo da Matrix, pois o próprio
mundo "real" (Zion e Neo) foi fabricado pela Matrix (e por
isso Smith consegue infectá-lo) e estavam sob seu controle.
Então o que é real?
Somos realmente responsáveis por nossas escolhas ou tudo já
estava
pré-determinado? Esse é o ponto chave do filme. O Arquiteto
joga com Neo,
supondo ser ele a anomalia programada. Mas Neo é muito diferente
dos outros
anteriores, possui um raciocínio muito rápido e um controle
de todos os seus
aspectos internos de personalidade (Sombra, criança, e etc.,
vistos através de
monitores) de uma forma impressionante. Um gesto seu basta para que
todo o seu barulho interno silencie. E ele percebe rapidamente que
a resposta do Arquiteto à sua pergunta (quem sou eu?) não
é a verdade e sim mais um jogo (talvez a maior de todas as
ilusões). Desde que ressuscita no primeiro filme, Neo se torna
um ser imprevisível à Matrix, driblando seu determinismo.
Acreditando ter livre-arbítrio, ele faz escolhas que desestabilizam
Matrix.
Para o Arquiteto (O PAI, branco luminoso e determinista) e para o
Oráculo (A
MÃE, negra enigmática e intuitiva), os dois criadores
da Matrix, o determinismo é a regra. Mas ela, o Oráculo,
acredita em Neo e torce por ele.
Neo insiste em não aceitar o determinismo imposto a ele enquanto
o Arquiteto
diz que a Matrix impõe as escolhas à humanidade em nível
inconsciente, de
forma a manter o seu determinismo artificial. Artificial porque essa
versão da
Matrix admite a possibilidade da escolha não baseada na lógica,
e sim na
intuição, herança provinda das qualidades do
antigo programa "Oráculo" (criado
para estudar a mente humana) adicionado nessa versão da Matrix.
Neo questiona
e afirma que ele ainda tem duas escolhas. O Arquiteto, enfim, capitula
e
concorda, mas afirma que em qualquer escolha feita por Neo, Zion,
Trinity, e
ele próprio irão morrer. A diferença básica
é que numa a humanidade e Matrix
permanecerão existindo e outra Zion será criada, e na
outra escolha toda a
humanidade desaparecerá (os libertos e os não libertos
do casulo) e a Matrix
sairá muito avariada, embora ainda "viva". Todos
os outros seis predestinados
tinham em comum o amor pelos seres humanos e isso os fazia vulneráveis
à
auto-destruição em nome da humanidade. Assim Matrix
sempre sobreviveria. Os outros, embora manifestassem a ação
e assumissem seu papel de "salvadores", escondiam em seu
inconsciente facetas sobre as quais não tinha controle, e probabilisticamente
uma, entre as centenas delas, sempre aceitaria a escolha determinada
pelo Arquiteto. A armadilha, o controle, seria sempre ditada pela
escolha mais lógica. A diferença em Neo é que
ele, diferentemente dos outros, não usava a lógica.
A intuição (herdada de sua porção MÃE)
passou a fazer parte de seu íntimo: ele via o futuro determinado,
pressentia a presença de estranhos e via a natureza real de
tudo o que existia dentro da Matrix (o mundo sutil que constrói
e mantém a ilusão).
A MENSAGEM DE MATRIX
Morpheu define Neo, no primeiro filme, como "um homem que aceita
o que vê".
Daí o seu nome dentro da Matrix: Thomas (ou Tomé). Enquanto
Morpheu acredita no passado histórico de lutas e vitórias
e na promessa, vinda com a tradição oral (uma profecia
antiga), de um salvador, Neo não acredita em nada que ouve,
acredita apenas naquilo que sente. Ele sente que não é
o salvador. Ele sente que não salvou ninguém ("você
é que veio ao meu encontro. Você é que se salvou").
Ele sente e vê que a Matrix é uma ilusão. Ele
sente, vê e sabe que pode alterar as regras da Matrix, pois
ela é somente um "programa de computador". Ele não
tem crença pré-determinada nenhuma e com isso encara
todo o presente, que se desenrola à sua frente, com a mente
vazia de expectativas.
Ele desenvolve a perfeita mente de Buda, livre de "pré-conceitos".
Não podemos diminuir a posição de Morpheu, detentor
de uma fé inabalável, pois, mesmo sem acreditar em Morpheu,
Neo sente que tem de seguí-lo, obedecê-lo e ajudá-lo,
pois a fé firme e inabalável cria um alicerce firme
para que todos se desenvolvam e continuem a sua missão. A fé
firme sempre é baseada na esperança. Para o Arquiteto,
"a esperança é o erro fatal da natureza humana
e a razão de sua força". Tudo seria uma questão
de escolha!? Neo, novamente, fez a sua e seguiu a única coisa
que sentia que era verdade: o seu amor por Trinity. Ele não
poderia sacrificar a única coisa real que conhecia, via e sentia
(seu amor), para manter um mundo ilusório funcionando.
O filme retrata, também, a Criação como uma
perfeição imperfeita, perfeita justamente porque é
imperfeita, criada por uma entidade não absoluta, mas falível,
semelhante aos humanos, apenas muito mais inteligente. Talvez o Arquiteto
nem saiba quem realmente é Neo. Retrata que além do
mundo físico existe um mundo escondido, que é muito
mais real que o físico (o mundo astral das emoções),
onde todas as emoções são muito mais vivas e
reais, onde a humanidade é unida por um ideal libertário
consciente. Mas se esse mundo "mais real" é influenciado
pela ilusão (por Matrix), logo também não passa
de uma ilusão. A vida dos humanos num casulo pode ser também
uma ilusão!!? Neo adquire essa certeza quando se dá
conta que também pode sentir a presença das máquinas,
e como só acredita no que sente e vê, ele dribla novamente
as regras desse mundo "mais real". Mas a energia despendida
é tão grande que ele novamente "morre", ou
entra em uma espécie de coma. Será que sua próxima
ressurreição trará consigo um conhecimento de
uma nova realidade, muito mais real que a astral, onde os seres humanos
experimentam, e podem se tornar, a mesma luz que emana do Arquiteto?
Um mundo onde se pode conhecer a causa das causas (o mundo causal),
onde se pode conhecer o nosso verdadeiro eu, nossa verdadeira missão,
nossa verdadeira origem e nosso verdadeiro destino final?
Talvez agora, numa nova vida, Neo poderá se tornar o Predestinado.