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REINO DIVIDIDO
qua, 22 de outubro, 2014
 


Morei por 2 anos no Acre. Mais especificamente numa cidadezinha perdida e isolada no meio da Floresta Amazônica. O "centro" da cidade consistia de 2 avenidas que formavam um T e mais algumas ruazinhas em torno disso.

Ali tínhamos o povo original da época da extração da seringa (os "soldados da borracha", que fez sua parte na 2ª guerra mundial fornecendo matéria-prima para os pneus dos aliados, um episódio estrategicamente mais importante do que as forças armadas que foram enviadas) e seus descendentes. Muitos deles nordestinos, mas que já esqueceram suas raízes e tradições (a não ser dormir em rede, que era um passatempo dos mais apreciados).

Só havia uma escola para toda a cidade. Pública. Eu tinha 10 anos de idade e até então eu tinha sido um excelente aluno, que passava com boas notas nas escolas privadas do Recife. Quando cheguei no Acre eu era uma espécie de gênio, somente porque eu tive acesso a mais (e melhores) informações que as próprias professoras de lá. No começo isso foi ótimo, fazia fácil as provas, mas depois começou a criar uma certa animosidade com as professoras porque eu não conseguia me segurar quando ela ensinava errado. Pra terem uma idéia minha mãe, veterinária, se tornou a professora de português da escola por um tempo só pra poder ajudar os alunos. Depois dos dois anos voltei pra Recife e percebi que havia perdido os fundamentos necessários para a compreensão de Química e Física, e desde então passei a ser um aluno medíocre, perdendo assim o interesse pelos estudos acadêmicos na mesma proporção em que aumentou o meu interesse pelos videogames.

Ou seja, eu sei na pele a importância de uma educação de base. Estive nos dois lados: do lado de uma elite que pôde ter uma educação de ponta, paga, e que se vê diante de uma população parada no tempo por conta da ignorância. E também do lado do ignorante, a pessoa com uma formação de ensino deficiente que tenta alcançar o nível dos outros alunos.

O povo da cidadezinha vivia em casas onde o banheiro ficava do lado de fora, porque era assim que viviam seus antepassados. Então, numa noite fria, você tinha de abrir a porta dos fundos, pegar uma lanterna, ter cuidado com cobras e ir até a casinha que ficava a uma distância de uns 5 metros. Não era falta de material, nem mão-de-obra, nem de dinheiro (mesmo as casas de alvenaria ainda usavam esse sistema). Minha mãe então resolveu pagar para construir uma casa nos "subúrbios" da cidade (ou seja, mais lá dentro da floresta), com banheiro interno e um sistema de encanamento pros dejetos irem pra dentro da floresta. Fizemos uma horta, pra podermos plantar nossas verduras. Isso foi visto como uma idéia bizarra pelos vizinhos, pois não fazia parte da cultura deles PLANTAR PRA COMER (tudo vinha da capital, exceto a carne de boi). Chegava ao ponto da vizinha pedir tomates à gente, mas não movia uma palha pra fazer uma horta. Só depois entendi essa bizarrice: Por gerações esse povo imigrante viveu exclusivamente pra borracha, pegando a seringa de árvores que já existiam e fazendo da sua vida a extração, nunca o cultivo. Era um trabalho temporário, e viviam pensando em fazer dinheiro e retornar ao seu Estado de origem, por isso não investiam em suas casas. O povo ficou, criou raízes, mas a mentalidade de outrora continuou.

Mas algo que aprendi de mais importante no Acre não tem a ver com Educação fundamental, e sim com educação (moral/social). Por uma coincidência qualquer morávamos numa casa em que tínhamos como vizinho a pessoa mais chique e rica da cidade e seu filho (loiro, de olhos verdes). E do outro lado, duas casas depois, a pessoa mais pobre e humilde da rua, e seus 3 filhos negros/caboclos. Como havia uma só escola, todos estudávamos lá, independente de classe social, e vestíamos as mesmas roupas, comíamos a mesma comida (bolacha Maria, Café-com-leite e Sopa) e brincávamos na mesma rua. O filho mais velho da casa mais pobre, já um adolescente, não passava confiança e por isso eu evitava brincar com ele. Já os outros dois eram meus melhores amigos, doces de pessoa, educadíssimos, e eu, filho único na época, me senti acolhido como se irmão fosse. De todas as crianças da cidade - incluindo o vizinho rico - esses dois eram os que tinham maior caráter. Eu partilhava minhas revistas e meu videogame Atari com eles, e eles partilhavam suas brincadeiras, me ensinavam a fazer revólver de madeira, a pegar filhote de jacaré com a mão (é, tinha cobras e jacarés no quintal, por mais clichê que possa parecer) e andar de carrinho de rolimã.

Aprendi que é possível viver numa sociedade onde todos se respeitam e têm a contribuir. Onde todos possam ir à mesma escola. Brincar na mesma rua. Aprendi que investimento em Educação é essencial para melhorar a qualidade de vida de um povo. Para injetar progresso num povo. E que educação independe de classe social ou de escola.

Vejo com tristeza essa separação do meu país entre pobres, classe média e ricos; negros, índios e brancos; vermelhos e azuis; nós e eles; machistas e feministas; comunistas e direitistas; evangélicos e LGBT. E tudo isso alimentado por ninguém menos que aquele que deveria zelar pela união de nossa cultura plural. Pela sua Educação (e educação). Pelo seu progresso. Mas hoje vivemos em um Reino Dividido.

"E todo o reino dividido contra si mesmo é devastado; e toda a cidade, ou casa, dividida contra si mesma não subsistirá."
(Mateus 12:25)


Referência:
Onde nós vamos parar com essa visão de mundo?


 
Pensamentos - publicado às 11:22 AM 94 comentários
O DOADOR DE MEMÓRIAS
dom, 12 de outubro, 2014
 


O Doador de Memórias (The Giver, 2014) é um filme de reflexão, para reflexão. Mas não muita.

Os adoradores de filmes como "Waking Life", "Ponto de Mutação" e a trilogia "Antes do(a) (Amanhecer, Pôr-do-Sol, Meia noite)" sentirão falta de maior substância, mas também não é um filme raso: ele apenas não se põe de pé com as próprias pernas. Me lembra "Tron: o legado" e "Oblivion", em que ele começa instigante, parece que vai explodir sua cabeça como em "Matrix", mas aí ele se perde num final pouco inspirado. Mas não se enganem: não é um filme ruim, ao contrário. Me peguei pensando nele nos dias seguintes, especialmente por estar convivendo com diferentes culturas.

A história do filme gira em torno de uma comunidade altamente tecnológica vivendo num mundo pós-apocaliptico. Essa comunidade me lembrou demais o visual e a organização de Nosso Lar com o controle descrito no livro "1984". Há horários pra ir pra casa, horário pra dormir, tomar remédios "pra saúde" toda manhã, todos os seus movimentos são vigiados por drones e câmeras dentro de casa, e a qualquer momento você pode receber uma visita cortês da "governadora" (Meryl Streep, numa interpretação contida). Tudo isso de forma gentil, acolhedora, para o seu próprio bem e pro bem da sociedade. Esse é o ponto mais interessante do filme: as diferenças, a individualidade e as emoções foram banidas em nome da comunidade. O resultado é um lugar pacífico, harmonioso, lindo e... estéril. Essa última característica é representada visualmente com a fotografia em preto-e-branco. Nessa comunidade cada profissão é escolhida de acordo com as aptidões naturais de cada pessoa. O personagem principal é meio sonhador, então ficou com a responsabilidade de ser o "Recebedor de memórias" da comunidade. Essas memórias são transmitidas por livros (que só o recebedor tem acesso) e por meio de uma espécie de transmissão telepática, através do Recebedor mais velho, que vai ficar encarregado de passar tudo o que sabe ao mais novo.

A comunidade é mantida na mais completa ignorância de tudo o que se passou. Vivem no agora, e entregam o futuro ao conselho de anciões. Não sabem o que existe para além das fronteiras da cidade. Não questionam. Não usam palavras que possam levar à dúvida. Não sentem amor ou ódio, pois essas emoções podem ser destrutivas. E, enquanto o novo Recebedor vai aprendendo sobre o passado, mais ele se torna "humano" novamente, e isso é representado pelas cores que ele vai percebendo ao seu redor (recurso usado magnificamente no filme "Pleasantville: A Vida em Preto e Branco").

As intervenções do novo Recebedor começam a afetar o equilíbrio da comunidade. E assim se desenrola a história.

As atuações e o envolvimento com o filme ficam um pouco prejudicados por conta da falta de emoção por parte dos personagens, mas nas mãos de um bom diretor/montador isso não seria problema. Jeff Bridges (o Recebedor de memórias mais velho) poderia ser um hippie porra louca por conta de tudo o que leu e viu, mas é só mais um cidadão sem graça. O legal do filme foram os questionamentos que ele me trouxe, os paralelos com o que li e tenho vivido. Primeiro, a semelhança com Nosso Lar: como as pessoas lá são incentivadas a agir num certo ritmo, entrar numa coisa meio colméia, sem altos e baixos, me fez pensar se esse lugar de apoio no meio do umbral não seria assim justamente pra conter qualquer tipo de emoção? Saudade, revolta, dor, paixão... em teoria o espírito, quando "fora" da carne, fica mais susceptível a todo tipo de emoção que pode arrastá-lo dos mais altos céus até as regiões mais profundas. Nosso Lar não seria mais do que uma prisão correcional temporária, onde você não pode ser você mesmo, pra sua própria proteção.

Outra questão é o problema da normatização. Quando vivemos em sociedades pluriculturais há sempre um choque de civilizações. Aprendemos o que é feio (ou mal-educado) de se fazer, seja falar um pouco mais alto na praia, ou até mesmo assobiar. Em pouco temos estamos adaptados (normatizados) e passamos a estranhar/criticar nossa própria cultura. Até que descobrimos uma nova cultura, onde o "fino" da educação que você acabou de aprender pode ser, na verdade, pouco cortês. Então, o quanto devemos abdicar de nós mesmos pra vivermos em sociedade? O que é melhor: uma sociedade onde tudo é permitido e a alegria se mistura com a selvageria, ou uma sociedade controlada, onde você se tolhe (ou é tolhido) em nome de um bem maior?

Essas são questões que não estão diretamente ligadas ao filme, mas que ainda assim vale a pena assisti-lo pela contextualização que ele proporciona.

(Dica da leitora Amanda Lima)


 
Cinema - publicado às 3:36 PM 6 comentários
PRE-CONCEITOS: VONTADE DE DEUS?
sáb, 4 de outubro, 2014
 


O Ateísmo/Agnosticismo de qualidade pode ser tão bom quanto qualquer boa filosofia, seja ela religiosa ou não. O Ateísmo destrutivo, que visa tão-somente ridicularizar os não-ateus e pregar que o seu "não-Deus" é a verdade e que todos os outros estão errados é um saco, e a pessoa não se torna em nada diferente de um fanático (insira-aqui-a-sua-religião). A filosofia por trás do ateísmo, por outro lado, na verdade pode acabar ironicamente AJUDANDO e muito na organização de idéias espiritualistas, pois a religião busca re-ligar o Homem a Deus, mas também aos outros Homens. E conhecendo aos outros podemos conhecer mais a nós mesmos! Afinal, nos círculos esotéricos não vemos que foi por isso que Deus resolveu nos criar? Pra "se ver"/se reconhecer "de fora"?

O vídeo abaixo nos traz questionamentos com humor. Ter medo dos questionamentos é sinal de que as idéias que você tenha, seja quais foram, não estão realmente integradas ao seu ser, apenas aceitas sem reflexão. O "e se?" não é pra ser automaticamente aceito, apenas contemplado. Não é uma idéia que precisa subjugar outra idéia. É aí que está o erro dos ateus fanáticos, assim como o de qualquer fanático.


Nossos livros sagrados são muito interessantes, trazem mensagens inspiradas que MERECEM ser divulgadas, debatidas, implantadas em nossa sociedade. Mas também trazem muita coisa mesquinha de um tempo em que se olhava mais para o próprio umbigo (às vezes até por questão de sobrevivência). Como separar o joio do trigo? Cada um vai fazer um apanhado do que é certo ou errado ou vão seguir apenas o que lhe interessam nos livros? Bem, de certa forma fazemos isso quando trabalhamos (ou mesmo ligamos o fogão) no sábado, ou usamos roupa de polyester. É interessante notar que não vemos fanáticos israelenses matando outras pessoas por trabalharem no sábado. Parecem ter mais juízo que os radicais islâmicos, que matam seu próprio povo (e outros povos) por coisas escritas num livro sagrado. Se chegamos num ponto em que muitos dos mais fiéis seguidores de religiões têm algum juízo em deixar certas coisas de lado, por que não podemos avançar mais nesse quesito? Por que a perseguição contra homossexuais, em pleno século 21, em plena campanha pra o cargo mais importante de um país??

Será que quando seguimos esses julgamentos baseados em livros sagrados estamos seguindo a vontade de Deus ou de alguém que quis impor um tipo de controle social ou cultural e viu aí a oportunidade perfeita?


 
Holismo, Judaísmo, Metafísica, Pensamentos - publicado às 10:34 AM 291 comentários