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VAMOS NOS COLORIR
dom, 15 de setembro, 2013
 


Tenho meditado um pouco na frase de Álvaro de Campos:

"É sempre de nós que nos separamos quando deixamos alguém."

Ela é muito boa pra colocar em perspectiva nossas relações com as pessoas, as coisas, com a vida.

No filme Pleasantville as coisas (e depois pessoas) vão adquirindo cor a medida em que elas saem do "normal", do esperado. É difícil para os personagens (e até nós, espectadores) dizer exatamente porque cada coisa vai ganhando cor, mas em um olhar mais aprofundado vemos que esse "sair do normal" é na verdade uma mudança do olhar ou de uma pessoa ou do conjunto de pessoas em relação a um objeto (como o carro, que é percebido como algo mais do que um transporte, ou as rosas evocando paixão ou luxúria) ou mudança interior da pessoa em relação ao mundo. É interessante notar como justamente os objetos vão primeiro sendo afetados, e só depois as pessoas. As sensações, como o beijo, ou o chiclete sendo usado pra exprimir PERSONALIDADE, vão moldando o caráter dos personagens e trazendo lentamente cor a eles. Daria pra fazer uma dissertação sobre isso e como nos relacionamos mais com as coisas do que com as pessoas, ou seja, como nos exprimimos mais através das coisas do que por nós mesmos, ou como usamos ferramentas para nos definir como ser humano (e o macaco de Kubrick com o osso levantado surge em minha mente enquanto escrevo).

A jukebox do filme Pleasantville ganha cor rapidamente. Ela sempre funcionou pra tocar música e distrair os clientes jovens da sorveteria. Mas sua percepção e uso "mudaram". Como, se continuou a tocar música? Porque já não era "apenas" música. Era o Rock n'roll. E o Rock mudou mentes e mundos porque trazia em si uma experiência transformadora, libertadora. A Apple é mestra em transformar um produto em uma experiência. Um Iphone não é só um Iphone, e por mais que a concorrência procure trazer celulares melhores tecnicamente ela não vai conseguir reproduzir essa experiência pra quem foi "fisgado" por ela na revolução que foi a transformação do seu aparelho telefônico em computador, e nada mais seria da mesma forma daquele momento em diante. Fazendo um paralelo com o filme, foi nesse momento que a Jukebox ganhou cor.

Hoje vemos várias pessoas em preto-e-branco carregando seus celulares coloridos. Algumas ganharam cor própria através daquela experiência, mas a maioria ainda vive em função daquela experiência. Esse pra mim é o maior problema das drogas e o porque sou frontalmente contra: enquanto alguns conseguem usá-la como uma porta para o crescimento de si e dos outros aqui, no mundo - como os Beatles ou mesmo Steve Jobs - a imensa maioria se apequena diante da experiência e foge da realidade que, por mais "irreal" que seja, ainda é o nosso campo de atuação e - por que não? - trabalho.

Mas, "voltando" ao tema inicial, se considerarmos como nos relacionamos com os objetos em relação às nossas experiências, podemos vislumbrar como nos relacionamos com as pessoas e quais experiências tiramos delas. E é justamente aí que está a beleza e profundidade da frase de Álvaro de Campos. Porque as pessoas que passam por nossas vidas não são apenas pessoas. Nem ferramentas. São experiências. Experiências que acontecem em NÓS, ativando partes que nem sabíamos que tínhamos, potencialidades adormecidas, perspectiva de vida que não tínhamos vislumbrado porque estávamos dormentes. Mas temos que escolher se seremos apenas levados por essas experiências, como drogas ou Iphones, nos apequenando, ou se vamos ser transformados por elas, cultivando aquilo que recebemos e doando ao próximo, transformando os outros, e assim aquela pessoa/experiência será imortal, e você estará sempre com ela, independente da distância ou do tempo.

Vamos nos colorir.


 
Cinema, Pensamentos - publicado às 6:06 AM 26 comentários