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ZARATUSTRA: DA ÁRVORE DA MONTANHA
qui, 14 de fevereiro, 2013
 


Nietzsche, sobre aqueles que alcançam (ou arranjam pra si) rapidamente altos postos espirituais, elevados níveis de santidade ou pureza, e se tornam orgulhosos, levianos consigo e com os demais, ocultando de si e dos outros suas fraquezas, seus vícios e seus males.


Da Árvore da Montanha

Os olhos de Zaratustra tinham visto um mancebo que evitava a sua presença. E, uma tarde, ao atravessar sozinho as montanhas que rodeiam a cidade denominada "Vaca Malhada", encontrou esse mancebo sentado ao pé de uma árvore, dirigindo ao vale um olhar fatigado. Zaratustra agarrou a árvore a que o mancebo se encostava e disse: "Se eu quisesse sacudir esta árvore com as minhas mãos não poderia; mas o vento que não vemos açoita-a e dobra-a como lhe apraz. Também a nós mãos invisíveis nos açoitam e dobram rudemente".

A tais palavras, o mancebo ergueu-se assustado, dizendo: "Ouço Zaratustra, e positivamente estava a pensar nele".
"Por que te assustas? O que sucede à arvore sucede ao homem. Quanto mais se quer erguer para o alto e para a luz, mais vigorosamente enterra as suas raízes para baixo, para o tenebroso e profundo, para o mal".

"Sim; para o mal! - exclamou o mancebo - Como é possível teres descoberto a minha alma?"

Zaratustra sorriu e disse: "Há almas que nunca se descobrirão, a não ser que se principie por inventá-las".

"Sim; para o mal! - exclamou outra vez o mancebo. Dizias a verdade, Zaratustra. Já não tenho confiança em mim desde que quero subir às alturas, e já nada tem confiança em mim. A que se deve isto? Eu me transformo muito depressa: o meu hoje contradiz o meu ontem. Com freqüência salto degraus quando subo, coisa que os degraus não me perdoam. Quando chego em cima, sempre me encontro só. Ninguém me fala; o frio da solidão faz-me tiritar. Que é que quero, então, nas alturas? O meu desprezo e o meu desejo crescem a par; quanto mais me elevo mais desprezo o que se eleva? Como me envergonho da minha ascensão e das minhas quedas! Como me rio de tanto anelar! Como odeio o que voa! Como me sinto cansado nas alturas!"

O mancebo calou-se. Zaratustra olhou atento a árvore a cujo pé se encontravam e falou assim: "Esta árvore está solitária na montanha. Cresce muito sobranceira aos homens e aos animais. E se quisesse falar ninguém haveria que a pudesse compreender: tanto cresceu. Agora espera, e continua esperando. Que esperará, então? Habita perto demais das nuvens: acaso esperará o primeiro raio?"

Quando Zaratustra acabava de dizer isto, o mancebo exclamou com gestos veementes: "É verdade, Zaratustra: dizes bem. Eu ansiei por minha queda ao querer chegar às alturas, e tu eras o raio que esperava. Olha: que sou eu, desde que tu nos apareceste? A inveja aniquilou-me!" Assim falou o mancebo, e chorou amargamente. Zaratustra cingiu-lhe a cintura com o braço e levou-o consigo.

Depois de andarem juntos durante algum tempo, Zaratustra começou a falar assim: "Tenho o coração dilacerado. Melhor do que as tuas palavras, dizem-me os teus olhos todo o perigo que corres. Ainda não és livre, ainda procuras a liberdade. As tuas buscas desvelaram-te e envaideceram-te de maneira excessiva. Queres escalar a altura livre; a tua alma está sedenta de estrelas; mas também os teus maus instintos têm sede de liberdade. Os teus cães selvagens querem ser livres; ladram de prazer no seu covil quando o teu espírito tende a abrir todas as prisões. Para mim, és ainda um preso que sonha com a liberdade. Ai, a alma de presos assim torna-se prudente, mas também astuta e má. O que libertou o teu espírito necessita ainda purificar-se. Ainda lhe restam muitos vestígios de prisão e de lodo: é preciso, todavia, que a tua vista se purifique. Sim; conheço o teu perigo; mas por amor de mim te aconselho a não afastares para longe de ti o teu amor e a tua esperança!

Ainda te reconheces nobre, assim como nobre te reconhecem os outros, os que estão mal contigo e te olham com maus olhos. Fica sabendo que todos tropeçam com algum nobre no seu caminho. Também os bons tropeçam com algum nobre no seu caminho, e se lhe chamam bom é tão-somente para o pôr de lado. O nobre quer criar alguma coisa nobre e uma nova virtude. O bom deseja o velho e que o velho se conserve. O perigo do nobre, contudo, não é tornar-se bom, mas insolente, zombeteiro e destruidor. Ah, eu conheci nobres que perderam a sua mais elevada esperança. E depois caluniaram todas as elevadas esperanças. Agora têm vivido abertamente com minguadas aspirações, e apenas planejaram um fim de um dia para outro.

"O espírito é voluptuosidade" - diziam. E então o seu espírito quebrou as asas; arrastar-se-à agora de trás para diante, maculando tudo quanto consome. Noutro tempo pensavam fazer-se heróis; agora são folgazões. O herói é para ele aflição e espanto. Mas, por amor de mim e da minha esperança te digo: não expulses para longe de ti o herói que há na tua alma! Santifica a tua mais elevada esperança!"

Assim falou Zaratustra.


 
Filosofia - publicado às 12:17 AM 44 comentários
AS LIÇÕES DO COLISEU
sex, 8 de fevereiro, 2013
 


Entre os vários livros que vou lendo aos poucos um está ocupando mais minha mente: Os Mártires do Coliseu, de A. J. O'Reilly. Começou como fascínio e curiosidade por este monumento imponente e toda a história que o cerca, mas acabou me absorvendo a mente um paradoxo que reflete na atualidade.

Desenvolverei o tema com calma. Vamos primeiro remontar à antiguidade, com a construção do Coliseu. A situação era a seguinte: Em 64 d.C. Nero já tinha incendiado Roma e colocado a culpa nos cristãos, que já não eram lá bem vistos pela sociedade. Nero foi obrigado a se suicidar pelo Senado em 68 e em 72 iniciou-se a construção do Coliseu, com a mão-de-obra de 60 mil escravos judeus que foram trazidos de Israel após os romanos destruírem Jerusalém e o segundo Templo (o que Jesus falou que não ficaria pedra sobre pedra). A construção levou 9 anos. A festa de inauguração durou 100 dias, com direito a guerra de navios (o Coliseu podia ser enchido de água) e mortes ao montes, de todas as maneiras possíveis e imagináveis.

É justamente nesse aspecto que quero focar meu post: a mentalidade da época. Para os romanos era natural, diria até "saudável", esses hábitos de se divertir com a morte alheia. Desde os tempos dos Etruscos que existia o ritual RELIGIOSO de, para comemorar a morte de um cidadão importante, se matar pessoas (escravos, mulheres) para ajudá-lo no além (isso também aparece entre a nobreza chinesa e egípcia). Quanto mais importante, mais gente morta com mais pompa e mais público. O costume "evoluiu" para simples entretenimento. O conceito de que "o mais forte sobrevive matando o mais fraco" sempre permeou a sociedade humana na antiguidade, quando batalhávamos pra sobreviver com poucos recursos. Para isso usávamos os instintos mais básicos de sobrevivência o tempo todo. Os romanos, inteligentíssimos e sofisticados, elevaram a violência e a bestialidade a um status de entretenimento para toda (repito, TODA) a família, de todas as classes sociais. O Coliseu era a maior e mais pungente prova disso. Cada cidadão recebia uma senha (um número) pra ter sua cadeira reservada no Coliseu. A nobreza ficava mais próxima do nível da arena, classe média no meio e os escravos e estrangeiros dividiam o nível mais acima. As mulheres e os pobres ficavam nas últimas fileiras da arquibancada, lá em cima. Cabiam ao todo 80 mil pessoas no Coliseu (a nível de comparação, no maior estádio do Brasil - o Maracanã - cabe atualmente 79 mil pessoas). Os jogos de Gladiadores já eram sucesso 300 anos antes do Coliseu ser construído, então era algo plenamente aceito e entranhado na sociedade (uma verdadeira "tradição"). A entrada era gratuita, e o povo ainda recebia comida, subsidiada pelo governo (o "bolsa-coliseu"), o que entrou para a história como "política do pão e circo", extremamente eficiente e que permeia com tristeza a história do Brasil até hoje.

Havia uma programação diária para o Coliseu, que começava pela manhã (as "Venationes") com a exibição de animais selvagens, capturados nas terras distantes do vasto Império Romano. Era a única oportunidade pra um cidadão que viveu e cresceu em Roma ver um Guepardo, um Elefante, um Rinoceronte. O habitat do animal era recriado com a colocação de árvores e arbustos na própria arena. Depois soltavam algumas pessoas lá dentro pra serem mortas por animais enfurecidos ou famintos. Ou botavam dois animais selvagens pra lutar até a morte. Depois vinham os guerreiros (algumas vezes até mulheres!) de armadura, redes e lanças iam caçar e matar os animais. A carne dos animais mortos era fatiada na cozinha embaixo da arena, embalada e distribuída pra platéia. Ao meio-dia tinha a execução de prisioneiros, feita para o populacho, sem muito requinte (era de bom tom que os nobres fossem embora almoçar, embora alguns mais sádicos ficassem) e à tarde vinha o melhor do dia: a luta de gladiadores!!! Os gladiadores eram os lutadores de UFC da antiguidade: ídolos incontestes. Crianças faziam bonecos e desenhos nas paredes das vitórias, pessoas se tornavam tão famosas e queridas a ponto de dar inveja ao Imperador (tanto que o Imperador Comodus - o mesmo retratado no filme "Gladiador" resolveu "lutar" de fachada nas Arenas pra conseguir o título de "Mille Gladiatorum Victor": O Vencedor de Mil Gladiadores).

O capítulo mais conhecido do Coliseu é a perseguição aos cristãos. Milhares morreram ali, de todas as idades e classes sociais, apenas por professarem a fé cristã. A perseguição começou entre os judeus (quando era território de Roma), que viam nessa doutrina o esvaziamento do poder do sinédrio. Para os romanos a doutrina cristã poderia ter sido incorporada à multitude de deuses que, inteligentemente, os romanos toleravam pra manter sua política territorial sem muitas revoltas, não fosse por um detalhe: Os cristãos não só não faziam sacrifícios a seu Deus como não tolevaram que outros fizessem qualquer tipo de sacrifício a qualquer Deus. Isso se tornou, para Roma, uma "superstição perigosa", algo que era uma má influência pra sociedade (lembrem: o contexto social e religioso era um por centenas de anos, e toda a "tradição" era ameaçada por um secto, um grupo dissidente dos judeus que desprezava tudo o que eles acreditavam). A coisa ganhou contornos dramáticos com Nero e o incêndio de Roma. Pra escapar de qualquer acusação, Nero tratou de culpar os cristãos, e como eles já não eram populares...

O Coliseu se tornou o palco para o martírio dos cristãos por uma centena de anos e, ironicamente, fortaleceu o que os romanos pretendiam destruir. Isso porque o cristianismo, ao contrário das outras religiões, alimenta-se do sacrifício, do "Imitatio Christi", do mais fraco (manso) na Terra ser o mais "forte" no céu. Quanto mais aumentava a perseguição e morte (com decretos espalhados em todo o território romano) mais aumentava a popularidade dos cristãos. E a sede dos romanos curtir um "espetáculo" com as mortes contribuiu enormemente pra isso: ao contrários dos outros condenados, os cristãos abraçavam a morte com júbilo e resignação. Isso era algo que não se via todo dia, e os comentários a respeito passaram de boca em boca junto às notícias sobre os gladiadores e animais exóticos. A coragem demonstrada diante da morte passou de fraqueza para fortaleza, e o interesse pela doutrina que conferia a essas pessoas tanta certeza de uma recompensa no além aumentou graças a essa poderosa "antena emissora" que era o Coliseu. A própria Igreja Católica reconheceu isso e preservou o Coliseu (que ia ser destruído completamente no Renascentismo pra tirarem matéria-prima pra estátuas, pontes, casas, etc) como um monumento cristão. Fica entendido aí o porque de o país que tanto perseguiu os cristãos ter sido o primeiro país a ser oficialmente "convertido".

Esse é o ponto onde quero chegar: A perseguição levou a uma união, popularidade e fortalecimento de algo que, se deixado quieto, talvez não adquirisse tamanha dimensão. E o que acontece séculos depois, quando os cristãos, outrora perseguidos, adquiriram o poder do continente europeu? Perseguição e morte. Será que não aprendemos nada com a história?
Se formos ficar só na atualidade veremos o triste episódio de Silas Malafaia (que, apesar de representar apenas uma denominação, na verdade fala por muitos cristãos, sejam evangélicos ou católicos) atacando a homossexualidade na TV como se fosse uma praga, uma aberração, uma má influência pra sociedade. Como o mundo dá voltas e permanece, em essência, o mesmo...

Se formos utilizar a história, veremos que no futuro os grupos pro-homossexuais deterão o poder. Espero que ao menos eles tenham a sabedoria e o bom-senso de pôr um fim a esse ciclo de perseguições.


Referência:
História do Coliseu;
Persecution of Christians in the Roman Empire


 
Cristianismo - publicado às 9:12 AM 134 comentários