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A EVOLUÇÃO COMO ESPIRAL
ter, 29 de janeiro, 2013
 


Por Frater Alef


"A condição humana é tal que o Ser pode encontrar-se com o Divino e mergulhar na Presença num Sábado
e na Segunda-feira ver-se numa briga de trânsito por conta de uma fechada" - א


Inúmeras formas existem para se compreender tanto as contradições humanas quanto o próprio processo evolutivo humano, e a que abordaremos hoje é a evolução como espiral.

O ser humano pode expandir sua consciência em várias direções e dimensões, para o propósito dessa visão compreendemos o processo como uma espiral vertical que em círculos pode se mover para cima e para baixo.

Imagine que você vá a uma cerimônia mágica ou religiosa durante o fim de semana e lá tenha uma experiência espiritual significativa, seja ela da presença do Divino, um profundo estado de compaixão, esperança de que as coisas ficarão bem, vontade de ajudar o próximo. Depois de deixar o local volta para sua casa e seus afazeres e aos poucos aquela sensação vai se perdendo como um sonho que não anotamos e logo esvaece da memória ficando só a vaga lembrança do que você sentiu e não a sensação em si. Os dias passam e você se encontra cada vez mais distante daquela sensação até que não reste mais nada, no máximo uma saudade de algo que você não sabe exatamente o que é, e nesse meio tempo você passa por situações cotidianas cada vez mais tensas e conflituosas que - não raro - revelam o pior de você, seja na sua relação com os demais, seja com você mesmo.

Chega novamente o fim de semana e você repete a primeira experiência, a semana chega repete a segunda experiência e assim sucessivamente.

Como no eterno retorno nietzschiano o ser se vê repetindo as mesmas experiências e tendo as mesmas sensações, seus aprendizados adquiridos em seus estudos e experiências místicas parecem desconectados da realidade diária, ainda que lhe pareçam tão enraizadas e profundas quando apreendidas.

Essa é a espiral em que nos movemos, alguns tem círculos maiores, indo muito alto e em seguida caindo profundamente na inconsciência e desligando-se de quem verdadeiramente são ou do que poderiam ser, outros tem círculos menores variando muito pouco em relação do ponto mais baixo e do ponto mais alto.
Além de tudo isso é necessário lembrar que a espiral se locomove para cima ou para baixo, ou ainda pode ficar com seu centro parado e seu raio crescendo cada vez mais, cada vez mais alto e cada vez mais fundo, até que invariavelmente o centro não se sustenta, o falcão não ouve mais o falcoeiro e a anarquia é liberta no mundo.

A observação desses padrões através desse método nos dá chaves importantes para o desenvolvimento da consciência, para o autoconhecimento e para a compreensão dos processos de outros irmãos. Todos nós estamos nessa espiral e isso nos ajuda a entender porque pessoas que consideramos tão boas tem atitudes que nos parecem incoerentes: ela está na parte de baixo da espiral, e podemos ser mais compreensivos com nós mesmos e nossos irmãos ao percebermos que cada um de nós está em momentos diferentes dela.
Isso também nos dá uma ferramenta poderosa de compreensão, pois ninguém é, tudo está. Hoje o ser é uma coisa e amanhã ele é outra, julgue um homem pelo que você acha que ele é e pouquíssimo tempo depois seu julgamento está desatualizado. Julgue de acordo com o que ele pode ser e não há como errar.

Somos nossos altos e baixos e um buscador sincero vai diligentemente trabalhar para reconhecer seu ponto mais baixo e elevá-lo constantemente a ponto de ter um círculo cada vez menor, ao mesmo tempo em que vai buscar sempre fazer com que o ponto mais alto de sua espiral continue subindo alcançando degraus cada vez mais altos da consciência. O exercício é manter-se no topo, que seu ponto mais alto seja seu estado natural. Para tanto o ser deve observar-se constantemente e reconhecer os pontos altos e baixos de sua espiral, assim o fazendo deve buscar sempre uma atitude que o leve em direção ao ponto mais alto, manifestar as atitudes desse ponto é uma chave para manter-se lá, viver essas experiência e antes de deixar o ato que o religou do divino, interagir com outros seres e realizar reflexões profundas sobre si mesmo, ancorando a consciência ou numa analogia a escalada, pregando espigões que não lhe permitam cair além daquele ponto.

Observar as pessoas de nossa convivência e reconhecer também seus pontos altos e baixos é um forma de não permitir que os comportamentos alheios influenciem no seu; Assim, se você está na parte superior e é incomodado ou deve interagir com alguém que parece estar bem abaixo de seu centro, é o momento de ser compreensivo e dessa forma trazê-lo para cima ao invés de permitir ser arrastado para baixo.

Tome a si mesmo sempre pelo ponto mais baixo, dessa forma você vai lutar com muito mais força para elevar seu nadir (ou ponto mais baixo), e tome os outros sempre pelo seu ponto mais alto, independente do estado em que esteja ele, mantenha sempre na memória o Zênite desse ser, o seu ponto mais alto, assim terá à sua volta somente pessoas excepcionais, e se em algum momento ele lhe mostrar o seu pior, responda de acordo com o seu melhor. Assim, de alma para alma, ele encontrará o caminho de volta até o topo, e você não precisará mais descer.

Depois de compreendida essa lição, cabe aos irmãos lembrarem que essa espiral é em 3 dimensões, mas por ora trabalhemos em nossos círculos; as esferas só para daqui a algum tempo.

Chay !

- Frater Alef


Referência:
A evolução da consciência;
Espirais


 
Filosofia, Holismo, Metafísica - publicado às 10:06 AM 25 comentários
BRANCA DE NEVE E O CAÇADOR (PARTE 2)
sex, 25 de janeiro, 2013
 


Continuação da parte 1, onde vimos que a história da Branca de Neve é um contraponto entre a feminilidade da Bruxa e da princesa. Pólos opostos, mas complementares, como veremos a seguir:


Por Olívia Braschi, no blog Sociedade Gnóstica Internacional


Ainda em sua primeira cena, reparamos que a história se ambienta durante a fase de transição entre o paganismo e o cristianismo, pois a Branca de Neve segura nas mãos bonecos por ela confeccionados de palha, representando o masculino e feminino. Em seguida, se dirige ao fogo como divindade, mas profere o Pai Nosso, oração cristã, apontando ser ela uma representação solar a fim de contrapor a rainha lunar. No entanto, ela traz consigo aquela característica feminina de interagir com a natureza, tão cultivada pela antiga religião, uma vez que a sua fuga foi sinalizada por dois pássaros que a guiaram até um cavalo branco que a aguardava na beira da praia. Inclusive, a montaria também é vista como uma espécie de iniciação atingida depois de uma peregrinação, sendo própria de guerreiros, geralmente representados por reis ou cavaleiros, e por isso também é chamada de iniciação real. Ainda, montar um cavalo pode significar a passagem por um momento de transição, de fluxo e movimento, e por ser branco, pode representar o processo de maturação psicossexual, a perda da virgindade no sentido de ingenuidade no momento em que há o encontro com a vida exterior, com o mundo.

Nessa linha de raciocínio, o próprio deslocamento físico dos personagens acompanha a necessidade de desenvolvimento emocional da protagonista, a qual experimenta a dor de buscar trilhar os próprios caminhos, embarcando em uma viagem interior que a levará a um processo de autoconhecimento. Ressalta-se ainda que a fuga a levou exatamente para a Floresta Negra, local onde poucos se arriscam e onde Ravenna não consegue interferir. É tão grande o poder daquela região que sequer os cavalos entram, obrigando aqueles que a buscam a seguirem a pé.

Ao entrar nela e em meio ao desespero, a princesa inala o seu pó alucinógeno e perde a consciência, passando por um processo similar à descida de Perséfone ao reino de Hades. Ambas as garotas que, após mergulharem no próprio inconsciente tornam-se mulheres, renascendo para a vida amadurecidas, donas do próprio nariz.

Ainda sobre as florestas, nos contos elas são praticamente uma passagem obrigatória na trajetória dos personagens que precisam aprender, transformar, libertar, resgatar ou superar a si mesmos ou aos outros, representando ainda o feminino, o útero materno, a origem da vida, o emocional, marcando também toda ambiguidade e conflito entre tudo que é luminoso e sombrio na psique.

O fato de ter atingido certa idade e de ter fugido, demonstra um despertar da consciência emocional da Branca de Neve, motivo pelo qual os poderes da rainha estão diminuindo e a terra floresce novamente. É o coração, a Fagulha Divina da garota que acorda para o mundo adulto e feminino, a qual precisa ser consumida pela madastra para sua própria salvação. Ainda, a bela mulher que emerge de dentro da princesa ameaça verticalmente o poder de sedução de Ravenna, que evita envelhecer ao custo de muitas vidas. Caso a jovem consiga se estabelecer como mulher, ela será rival direta da rainha, ativando fortemente na madrastra todos aqueles Egos.

Paralelamente, pode-se avaliar que a rainha representa um punhado destes Egos negativos que existem no interior de uma mulher, os quais sentem-se afrontados pela crescente chama de amor, pureza e inocência dentro do coração daquele ser feminino, ameaçando a sua predominância na medida em que aumenta a Chama, equilibrando a energia negativa e levando ela a trilhar o caminho do meio.

A resistência é forte e, assim como a Ravenna, tais Egos atacam como podem, batalhando a cada iluminação, transformando o processo de desenvolvimento da consciência em uma verdadeira guerra. Ainda dentro da floresta, a Branca de Neve já ganha um aliado, o caçador, que passa de perseguidor à protetor e tem a tarefa de guiar a jovem com segurança até o castelo do Duque, vizinho e braço direito do seu falecido pai, onde acredita ser acolhida. Ainda, na ponte de saída da Floresta Negra, ambos são brutalmente atacados por um Troll, o qual afasta o caçador e no momento em que está prestes a atacar a princesa, sente-se acolhido por sua compaixão e desiste.

A seguir, já fora da floresta, a dupla encontra as senhoras do lago, que os abrigam pela noite. Trata-se de uma comunidade apenas de mulheres e crianças, onde elas marcam os próprios rostos com cicatrizes, sacrificando a sua beleza física como forma de proteção contra a rainha, pois sem a o poder da beleza, elas tornam-se desinteressantes para Ravenna. Não obstante, estas mulheres chamam a atenção, tendo em vista que este é o primeiro contato com o feminino após o cárcere de muitos anos. Elas se cobriam com véus e pintavam os olhos, lembrando o uso do Kohl, um tema bem abordado pela analista Junguiana Barbara Black Kolvut no livro "A Tecelã". O Kohl é uma substância plúmbea utilizada desde eras remotas para contornar os olhos, as janelas da alma. Ao ser utilizado como delineador para pintar os olhos, entende-se que a moça o faz para velar a alma. Na Bíblia, as mulheres se preparam para atos heróicos aplicando Kohl num ritual cerimonioso em que se vestem e mascaram sua intenção íntima. Na época do Antigo Testamento, as mulheres entravam em contato com sua força criativa feminina cobrindo-se com véus. Portanto, as mulheres dessa aldeia representam tudo que é oculto e feminino, o respeito e conhecimento dos ciclos internos da mulher, alterando momentos de expansão e introversão.


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Cinema - publicado às 3:05 PM 16 comentários
BRANCA DE NEVE E O CAÇADOR (parte 1)
seg, 21 de janeiro, 2013
 


Por Olívia Braschi, no blog Sociedade Gnóstica Internacional


No decorrer dos anos foram conhecidas diversas adaptações cinematográficas para o clássico conto dos Irmãos Grimm "A Branca de Neve e os Sete Anões", desde o desenho de Walt Disney (sua primeira animação) até o recente "Espelho, Espelho Meu", que trouxe a consagrada Julia Roberts no papel da madrasta. Entretanto, foi surpreendente a versão de Rupert Sanders intitulada "Branca de Neve e o Caçador" (lançado em 2012), a qual apresenta uma grande carga de simbologias. O filme traz em seu elenco a atriz do momento Kirsten Stwart no papel da Branca de Neve, Chris Hemsworth como o caçador e a bela Charlize Theron encarna a rainha má, presenteando os expectadores com uma ótima atuação. A produção de Joe Roth também acertou em cheio ao escolher um cenário nórdico europeu, bem próprio da Idade Média, afastando-se da visão açucarada, romântica e idílica que normalmente é oferecida pelos cineastas.

O roteiro conta com a presença dos clichês básicos, porém com uma roupagem completamente diferente, rica em detalhes. O enredo apresenta alguns elementos importantes, como a predestinação da protagonista, bem como todo árduo caminho que deve ser trilhado a fim de se alcançar a Vitória. Contudo, a tônica da trama foi apresentada com uma energia fundamentalmente feminina, conversando de forma direta e reta ao coração de muitas mulheres, iluminando questões tão íntimas que talvez nem nós mesmas nos demos conta.

O filme inicia com a descrição do reino, onde durante um rigoroso inverno a rainha depara-se com uma rosa vermelha, a qual resiste bravamente a todo frio intenso, representando a força interna de suportar as adversidades. Ao acariciá-la, a rainha se perfura com o espinho e faz cair três gotas de sangue em meio à neve. Na sequência, nasce a linda princesa que se desenvolve com a luminosidade particular de toda criança, sendo ressaltada por sua mãe, pouco antes de morrer, a importância da beleza que vem do coração, a qual deve ser guardada e defendida. Toda mulher entende do que se trata essa beleza, a qual se transmite pela doçura de um olhar, pelo conforto das palavras e ternura das atitudes, alegria em acolher e o instinto de proteger. Essa beleza pulsa em cada ser feminino e é muito real, embora menos palpável do que a física, a qual é facilmente percebida, sem exigir de seu observador uma maior atenção ou sensibilidade.

Após o falecimento da esposa, o monarca erroneamente se engaja em uma batalha contra um exército sombrio, cujos seres se desmanchavam durante o ataque, apontando uma natureza desumana originada pela magia negra. Ao final da batalha, Ravenna é encontrada como "prisioneira" e, enfeitiçado por sua beleza, o Rei não percebe a emboscada, constituindo o matrimônio no dia seguinte, vindo a ser assassinado por ela na noite de núpcias. Importante ressaltar que se estabelece uma forte conexão entre a nova rainha e a princesa, fato apontado pela própria Ravenna em sua breve conversa com a pequena Branca de Neve, momentos antes de se casar. Tal ligação é incompreendida por ambas, mas permeia toda trama. As personagens representam dois opostos, a dualidade presente em toda mulher, cabendo a cada uma escolher, consciente ou inconscientemente, em qual vibração irá sintonizar durante a trajetória de sua vida. Segundo um provérbio chinês, "Cem homens podem formar um acampamento, mas é preciso uma mulher para se fazer um lar". Logo, não se pode negar que os ambientes e as relações, a princípio, são regidas pela mulher, sendo ela quem dá o seu tom a tudo e a todos à sua volta. Todos os seres humanos, independentemente do gênero, têm o poder de se conhecerem no momento em que interagem uns com os outros, e se nos auto-observarmos com atenção, crescemos cada vez que analisamos os reflexos nos espelhos. Portanto, nós podemos nos revolucionar através do outro e isso é fantástico! Todavia, a responsabilidade da mulher, da mãe, da fêmea é um pouco maior. Caso essa energia esteja em desequilibro, a mulher não afeta apenas a si mesma, mas a tudo que se cria em seu entorno. Na medida em que a mulher encontra a si mesma e permanecer em harmonia com a sua natureza, ela tem a capacidade de trazer leveza para o mundo masculino com a sua energia, seu movimento, seu olhar, seu sorriso, seu perfume, o tom da sua voz. Tanto a beleza interior quanto a exterior (e a saúde) são importantes e nenhuma delas deve ser negligenciada para que haja o equilíbrio efetivamente. Ademais, a beleza tem um enorme poder intrínseco a ela que, assim como outros quesitos, pode ser bem ou mal utilizada por cada uma de nós. Assim, o filme trabalha em cima desta mesma polaridade e a consequente reação do externo à qualificação que se dá à energia interna feminina.


A relação das mulheres com a natureza é especial e foi conhecida e trabalhada intensamente através de sociedades no decorrer da história da humanidade. Os índios americanos (tanto estadunidenses como andinos), comunidades celtas, egípcias e asiáticas sempre tiveram uma conduta respeitosa e religiosa com a Mãe Natureza, Mãe Divina, ou a Grande Mãe. As mulheres eram detentoras de um enorme conhecimento de plantas, flores e frutos que supriam desde a alimentação até a medicina. Algumas mais sensitivas iam além, dominando os quatro elementos e, através de muita disciplina interna e desenvolvimento espiritual, tornavam-se verdadeiras Sacerdotisas. Essa característica da energia feminina é bem representada no momento em que Ravenna assume o reinado, pois tudo e todos que estavam ao seu redor foram atingidos pela energia deturpada e envenenada, fazendo com que a natureza e o povo se voltassem contra eles mesmos. Tudo que era verde e belo se tornou seco e sem vida, quando toda a região entrou em um processo de "inverno permanente". O vilarejo se tornou feio, frio, escuro e úmido, com vestígio de morte e sinais de destruição, e cujos habitantes pareciam zumbis famintos. Ravenna se apresenta como uma rainha bela e fria, controlada, e já nas primeiras cenas fica evidente que a madrasta não apenas representa o arquétipo da bruxa, mas que se trata de uma verdadeira feiticeira que adquiriu várias habilidades e pertence a um alto escalão de magia. Seu maior poder é o de se alimentar da energia de jovens e belas moças, tendo sugado reinos inteiros no decorrer dos séculos. Tal vampirização constante é o que a mantém jovem, bela e viva, sendo que desde o início ela cede uma fração da vitalidade que rouba com o irmão Finn, seu último laço sanguíneo o único homem em quem confia.

Diversas vezes aparecem elementos que evidenciam o uso da magia de forma negativa, representada como cacos de vidro negro que lembram a textura do carvão e uma tinta preta e oleosa que parece petróleo, ambos originados pelo carbono retirado das profundezas da Terra. Em outra cena, Ravenna leva uma facada no abdômen e não sangra, voltando-se contra o seu agressor e fazendo cessar os seus batimentos cardíacos apenas com a imposição de sua mão. A rainha também ocupa um trono preto com caveiras talhadas, esta sempre cercada por cavaleiros negros, e tem o corvo como seu animal de poder, utilizando-o também em seus rituais. Importante frisar que o corvo é tido como símbolo contraposto da pomba, que representa o Espírito Santo. Ambos os pássaros são ícones da dualidade que preside a formação do universo físico e espiritual. Essa dialética é presente em todo o catecismo maçônico, por exemplo, sendo o universo, nesse contexto, um resultado do embate entre a luz e as trevas. Por conseguinte, são símbolos iconográficos das duas realidades que lutam no interior da matéria e no âmago do espírito humano, evocando Yang e Yin, positivo e negativo, relatividade e gravidade, forças que, por serem contrárias entre si, mantém a vida do universo em equilíbrio. Comumente o corvo é associado ao mal, pois ele, assim como o abutre, se alimenta de cadáveres, porém, no contexto da história, ele simboliza a treva necessária que dá nascimento à luz.

Contudo, dentre todos os seus amuletos, o maior trunfo da rainha, sem dúvida, é o espelho de metal, tão peculiar que ela dedica a ele um grande altar e um salão próprio, o que aponta um visível ao culto à vaidade. Quando invocado por ela, o espelho materializa um homem encapuzado em forma de metal líquido derramado, capaz de revelar verdades. Inicialmente ele aponta que mais um reino cai nos seus encantos, e questiona se não há fim para o seu poder e beleza. Neste momento, assim como no decorrer das cenas, percebe-se que a rainha permitiu que a beleza a escravizasse, usando todo o seu poder e tendo atitudes grotescas para garantir a sua jovialidade. Ela leva a sua necessidade por beleza física além da questão vida e morte, já que se tornando velha ela deixaria de ter o poder de manipular e seduzir os homens.


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Cinema - publicado às 9:44 PM 83 comentários
AIVANHOV: SILÊNCIO
sex, 18 de janeiro, 2013
 


O silêncio pode dar medo para alguns, pois eles o sentem como imobilidade, como estagnação, como deserto, como vazio. Na verdade, existe silêncio e silêncio. Em linhas gerais, pode-se dizer que existem dois tipos de silêncio: o da morte e o da vida superior. É preciso amar e cultivar em si mesmo o silêncio da vida superior. Este silêncio não é inércia, mas um trabalho intenso que se realiza numa harmonia perfeita. Não é também um vazio, uma ausência, mas uma plenitude comparável a que sentem os seres unidos por um grande amor: eles vivem algo tão profundo, que não podem exprimi-lo através de gestos ou de palavras. Sim, o verdadeiro silêncio é a expressão de uma presença: a presença divina.

Omraam Mikhaël Aïvanhov


 
Pensamentos - publicado às 3:27 PM 11 comentários
CONHECE-TE A TI MESMO (NEO E SÓCRATES)
qui, 10 de janeiro, 2013
 


Do livro "Convite à filosofia", de Marilena Chauí


Quem viu o filme Matrix – antes que se tornasse o primeiro de uma série – há de se lembrar da cena em que o herói Neo é levado pelo guia Morfeu para ouvir o oráculo.
Que é um oráculo? A palavra oráculo possui dois significados principais, que aparecem nas expressões "consultar um oráculo" e "receber um oráculo". No primeiro caso, significa "uma mensagem misteriosa" enviada por um deus como reposta a uma indagação feita por algum humano; é uma revelação divina que precisa ser decifrada e interpretada. No segundo, significa "uma pessoa especial", que recebe a mensagem divina e a transmite para quem enviou a pergunta à divindade, deixando que o interrogante decifre e interprete a resposta recebida. Entre os gregos antigos, essa pessoa especial costumava ser uma mulher e era chamada sibila.

Em Matrix, aparece a sibila, uma mulher que recebeu o oráculo (isto é, a mensagem) e que é também o oráculo (ou seja, a transmissora da mensagem). Essa mulher pergunta a Neo se ele leu o que está escrito sobre a porta de entrada da casa em que acabou de entrar. Ele diz que não. Ela então lê para ele as palavras, explicando-lhe que são de uma língua há muito desaparecida, o latim. O que está escrito? Nosce te ipsum. O que significa? "Conhece-te a ti mesmo." O oráculo diz a Neo que ele – e somente ele – poderá saber se é ou não aquele que vai livrar o mundo do poder de Matrix e, portanto, somente conhecendo a si mesmo ele terá a reposta.

Poucas pessoas que viram o filme compreenderam exatamente o significado dessa cena, pois ela é a representação, no futuro, de um acontecimento do passado, ocorrido há 23 séculos, na Grécia.

Havia na Grécia, na cidade de Delfos, um santuário dedicado ao deus Apolo, deus da luz, da razão e do conhecimento verdadeiro, o patrono da sabedoria. Sobre o portal de entrada desse santuário estava escrita a grande mensagem do deus ou o principal oráculo de Apolo: "Conhece-te a ti mesmo." Um ateniense, chamado Sócrates, foi ao santuário consultar o oráculo, pois em Atenas, onde morava, muitos diziam que ele era um sábio e ele desejava saber o que significava ser um sábio e se ele poderia ser chamado de sábio. O oráculo, que era uma mulher, perguntou-lhe: "O que você sabe?". Ele respondeu: "Só sei que nada sei." Ao que o oráculo disse: "Sócrates é o mais sábio de todos os homens, pois é o único que sabe que não sabe." Sócrates, como todos sabem, é o patrono da Filosofia.


NEO E SÓCRATES

Por que as personagens do filme afirmam que Neo é "o escolhido"? Por que eles estão seguros de que ele será capaz de realizar o combate final e vencer a Matrix?

Porque ele era um pirata eletrônico, isto é, alguém capaz de invadir programas, decifrar códigos e mensagens, mas, sobretudo, porque ele também era um criador de programas de realidade virtual, um perito capaz de rivalizar com a própria Matrix e competir com ela. Por ter um poder semelhante ao dela, Neo sempre desconfiou de que a realidade não era exatamente tal como se apresentava. Sempre teve dúvidas quanto à realidade percebida e secretamente questionava o que era a Matrix. Essa interrogação o levou a vasculhar os circuitos internos da máquina (tanto assim que começou a ser perseguido por ela como alguém perigoso) e foram suas incursões secretas que o fizeram ser descoberto por Morfeus.

Por que Sócrates é considerado o "patrono da Filosofia"? Porque jamais se contentou com as opiniões estabelecidas, com os preconceitos de sua sociedade, com as crenças inquestionadas de seus conterrâneos. Ele costumava dizer que era impelido por um espírito interior (como Morfeus instigando Neo) que o levava a desconfiar das aparências e procurar a realidade verdadeira de todas as coisas.

Sócrates andava pelas ruas de Atenas fazendo aos atenienses algumas perguntas: "O que é isso em que você acredita?", "O que é isso que você está dizendo?", "O que é isso que você está fazendo?". Os atenienses achavam, por exemplo, que sabiam o que era a justiça. Sócrates lhes fazia perguntas de tal maneira sobre a justiça que, embaraçados e confusos, chegavam à conclusão de que não sabiam o que ela significava. Os atenienses acreditavam que sabiam o que era a coragem. Com suas perguntas incansáveis, Sócrates os fazia concluir que não sabiam o que significava a coragem. Os atenienses acreditavam também que sabiam o que eram a bondade, a beleza, a verdade, mas um prolongado diálogo com Sócrates os fazia perceber que não sabiam o que era aquilo em que acreditavam. A pergunta "O que é?" era o questionamento sobre a realidade essencial e profunda de uma coisa para além das aparências e contra as aparências. Com essa pergunta, Sócrates levava os atenienses a descobrir a diferença entre parecer e ser, entre mera crença ou opinião e verdade.

Sócrates era filho de uma parteira. Ele dizia que sua mãe ajudava o nascimento dos corpos e que ele também era um parteiro, mas não de corpos e sim de almas. Assim como sua mãe lidava com a Matrix corporal, ele lidava com a Matrix mental, auxiliando as mentes a libertar-se das aparências e buscar a verdade.

Como os de Neo, os combates socráticos eram também combates mentais ou de pensamento. E enfureceram de tal maneira os poderosos de Atenas que Sócrates foi condenado à morte, acusado de espalhar dúvidas sobre as idéias e os valores atenienses, corrompendo a juventude.

O paralelo entre Neo e Sócrates não se encontra apenas no fato de que ambos são instigados por "espíritos" que os fazem desconfiar das aparências nem apenas pelo encontro com um oráculo e o "Conhece-te a ti mesmo" e nem apenas porque ambos lidam com matrizes. Podemos encontrá-lo também ao comparar a trajetória de Neo até o combate final no interior da Matrix e em uma das mais célebres e famosas passagens de um escrito de um discípulo de Sócrates, o filósofo Platão. Essa passagem encontra-se numa obra intitulada A República e chama-se "O mito da caverna".


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Cinema, Filosofia - publicado às 10:47 AM 44 comentários