Saindo da Matrix

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    • DEUS É JAPONÊS

      ter, 5 de abril, 2011
        Super Mario 64 - Dire, dire docks


      ...e nós somos o Mario.

      Que Mario? Aquele... er... não vou ser indelicado com as jovens senhoras que visitam meu blog, mas aviso logo que este é um post para a geração que cresceu jogando Super Mario. Eis que eram altas horas da madrugada e a conversa com meu interlocutor - Mestre em Botânica e Mario Kart - enveredou para o metafísico. Uma velha discussão sobre individualidade depois da morte se diferenciou das demais pelo nível de metalinguagem alcançado, que pode fazer com que um tema espinhoso como o sentido da Vida se torne mais compreensível para gamemaníacos, pelo menos:


      Toad:
      ...você assumir que nós vamos voltar para a Fonte é assumir a perda da sua individualidade, ou seja, uma morte definitiva e o suposto despertar de um Ser Supremo ou de um "braço" deste ser supremo. Mas o que acontece é que: primeiro, o Criador se distingue da criação. Como demonstrar isto? O Criador, por ser onisciente, não pode se auto-obstruir. Além do que não faria sentido se fazer identidade para conhecer o que já é por Ele conhecido. Percebe?

      Acid:
      Humm... Não estou seguindo esse raciocínio. Acho que o horário não favorece esse tipo de abstração.

      Toad:
      Heuhehe. Deixa eu ver se consigo escrever algo mais com cara do horário, tipo, simples e direto: Assim, ou somos todos Deus, ou há distinção entre Criador e criatura, certo?

      Acid:
      Depois de morto?

      Toad:
      Agora, vivos. Ou depois de morto também, tanto faz. Ou há esta distinção entre Criador e criatura, ou não há.

      Acid:
      Hum

      Toad:
      Então, supondo que não haja... Que todos somos Deus, neste caso, cada um de nós teria uma identidade ilusória.

      Acid:
      Isso. Pegadinha do Mallandro.

      Toad:
      Hueheuheuheu Isso aí. Mas cada uma dessas identidades ilusórias tem como principais características a liberdade de escolher, e a vontade de conhecer, a sede pelo conhecimento. Bom, mas Deus, em suas características de ato puro, primeiro motor, onisciente, onipresente etc não precisa conhecer, visto que é onipotente e onisciente, e por isso também não precisa escolher, pois todas as suas escolhas estão em ato, já que é ato puro.

      Acid:
      E se formos apenas um Second Life de Deus?

      Toad:
      huahauhauhauhauhuahua

      Acid:
      Com inteligência artificial! Aprendemos por nós mesmos.

      Toad:
      Então, faz mais sentido, mas não com inteligência artificial. É um Second Life com seres, digamos, "independentes". Eles têm a liberdade de escolha por eles mesmos, têm vontade própria e sua sede de conhecimento condiz com o tempo de sua existência, com suas experiências, percebe?

      Acid:
      Liberdade dentro do confinamento, dentro do jogo.

      Toad:
      Aí faz mais sentido a distinção entre Criador e criatura. Mas pense que o cara que bolou o jogo o fez do modo mais perfeito possível para que essas criaturas pudessem exercer o seu arbítrio.

      Acid:
      Shigeru Miyamoto é Deus e Mario é sua criatura.

      Toad:
      Analogamente. Mas pense em Mario como um ser autônomo, e não como uma projeção de Miyamoto.

      Acid:
      Então Deus é japonês. Resolvido o mistério.

      Toad:
      huahuhhauhauhua

      Acid:
      E se Mario JURA que é autônomo? Mas na verdade ele só faz o que Miyamoto PERMITIR que ele faça?

      Toad:
      Miyamoto ama o Mario como filho, só quer o bem dele. Mas Miyamoto permite que Mario escolha.

      Acid:
      Mario tem uma historia, tem irmão, tem amante, inimigos, trabalho, tem a meta de vida dele. Anda até de kart pra se divertir. Mas ele não conhece Miyamoto.

      Toad:
      Mas ele intui a presença de Miyamoto.

      Acid:
      E ainda assim ele é Miyamoto.

      Toad:
      E Miyamoto se faz conhecer.

      Acid:
      Isso! E quem sabe até se conheça em Mario.

      Toad:
      Mario então descobre que pode escolher entre buscar o pai dele e descobrir o êxtase eterno que existe no sentimento que há na relação dos dois, ou fugir para sempre do pai. Mas se Miyamoto já conhecer Mario e o cenário do jogo por completo, então não precisa se conhecer do mesmo modo. Se Deus é onisciente, conhece tudo o que foi, tudo o que é e tudo o que será, tudo o que poderia ser e o que jamais poderia ser, então não tem o que conhecer na criação.

      Acid:
      Você acha que Miyamoto não joga Mario kart?

      Toad:
      Não sei se joga. Se Miyamoto conhece todo o jogo, não tem o que conhecer em Mario.

      Acid:
      Apesar de conhecer tudo ali? É a experiência, Toad!

      Toad:
      Isso aí. Miyamoto precisa de experiência. Deus é onipresente; experiência leva ao conhecimento.

      Acid:
      Não, é a experiência de jogar!

      Toad:
      Miyamoto conhece a configuração, mas precisa da prática para conhecer mais.

      Acid:
      É o viver! Estar.

      Toad:
      Deus não precisa da prática para conhecer, pois já conhece.

      Acid:
      Viver em Jesus deve ter sido uma experiência e tanto.

      Toad:
      Esse é um baita mistério. É o amor. Não foi uma experiência no sentido de vivenciar algo para conhecer.

      Acid:
      "Não acredito em um Deus que não joga Mario Kart".

      Toad:
      huahuahuahuahua

      Acid:
      Miyamoto já conhece Mario Kart.

      Toad:
      A experiência em Cristo foi caridade pura.

      Acid:
      Até você já conhece Mario Kart! Jogar é uma experiência supraconhecimento. É uma comunhão. Taí: comunhão.

      Toad:
      Mas algo como Cristo, seria assim: Miyamoto viu que Mario, em vez de salvar a princesa, só queria andar de kart, pular em cima de tartaruga e jogar casco nas outras, e muito menos queria saber de seu criador. Então Miyamoto encarnou em Yoshi/Yeshua.
      Então o Yoshi veio para ajudar Mario a retomar sua linha, assumir seu compromisso com a princesa e assim, quem sabe, decidir, pelo amor por ela, amar verdadeiramente, ir para junto de seu pai. Para isto, Yoshi levou Mario até o castelo, mas Luigi, que estava se divertindo com Mario, não gostou e sacrificou Yoshi...

      Acid:
      Aí Miyamoto usou o Continue.

      Toad:
      (sai cada coisa a essa hora da madruga... hueheuhue)
      Isso, e Yoshi ressuscitou...

      Acid:
      Espero que não estejamos blasfemando.

      Toad:
      Agora com asinhas.

      Acid:
      HahAHhAHaHHAHA!

      Toad:
      Eu também.

      Acid:
      Asinha foi genial!

      Toad:
      Meu irmão... Precisamos escrever isso.
      Mas pô, a analogia foi boa.
      Yoshi, Yeshua.
      O sacrifício.
      Luigi irmão do Mario.
      O acusador e aquele que foi salvo.
      Foi bem construído.

      Acid:
      Judas era o Wario.


      É isso. Esse é um bom ponto de partida pra debatermos a nossa experiência com Deus, a relação (se é que existe) Criador/criatura, a diferença entre as doutrinas, etc.




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      Metafísica, Pensamentos - publicado às 8:09 PM 79 comentários