Saindo da Matrix

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    • MEMÓRIAS DE SÃO PAULO

      sex, 26 de novembro, 2010

      Como toda boa jornada, tudo começou com o chamado da Deusa. Um email da Goddess me convidava pra São Paulo pra participar do I Simpósio brasileiro de Hermetismo e ciências ocultas. "Quando a esmola é muita o cego desconfia", então fiquei com um pé atrás, mas não é que era mesmo meu dia de sorte? O congresso ocorreria em novembro, exatamente no mês em que estaria de férias do trabalho, e exatamente no mês em que Paul McCartney faria um show em SP. Mas, como tudo tem um preço, eu teria de me desdobrar pra fazer uma palestra sobre um assunto totalmente novo em apenas um mês e meio. Não que eu precisasse fazer algo realmente novo, mas se eu tivesse de me apresentar pra um grande público pela primeira vez (composto de muita gente que já leu quase todo o blog) teria de ser em grande estilo, com algo que valesse a pena pagar pra ver.

      Uma vez aceito o chamado, empreendi a caminhada em direção a procurar um tema que tivesse a ver com hermetismo. Foi então que surgiu a mentora, que não só disse que me acompanharia na aventura quanto me assessorou na busca pelo tema, que deveria envolver assuntos que eu dominasse e me sentisse à vontade. Filmes, pensei. Filmes, Jung e política têm sido os temas do blog ultimamente, mas só os dois primeiros foram bem recebidos (hehehe). Mas, como relacionar isso com hermetismo? Foi aí que, na espera da consulta com minha analista, me deparei com o livro "Estudos Alquímicos" de Carl Jung. Ciências ocultas analisada pelo meu ídolo Jung! Uau. Folheando o livro, vi que ele era ideal pra minha palestra, cujo tema rapidamente se tornou "Jung e o ocultismo na grande mídia". E mais: descobri que a alquimia foi uma descendência direta do hermetismo!

      Comecei a trabalhar furiosamente, dividindo meu tempo entre as demandas do trabalho "oficial" (que não eram poucas, já que ia entrar de férias) e o "espiritual", os dois com prazos apertados. Por sorte teve um feriadão que me permitiu ficar em casa trancado como um louco, lendo, pensando e escrevendo. O assunto era extenso, complexo e se ramificava em três vertentes (psicologia, filmes e ocultismo). No fim tinha uma massa de texto que só fazia sentido pra mim. Chegou então a hora de organizar aquilo de forma a se tornar compreensível, não ficar chato nem didático demais. Por sorte me formei em Design (comunicação visual incluso) e fazer os slides foi a parte mais prazerosa, ver um trabalho tão mental se concretizando em símbolos. Em dado momento dos estudos eu pensei em incluir coisas sobre os perigos do ocultismo, tornar a coisa um pouco sombria, mas a partir do contato com esses símbolos dos slides a palestra foi tomando um rumo totalmente imprevisto pra mim, mais leve, mais benéfico, e com um sentido de completude e aceitação do ciclo da vida com a dissolução do ego. As "coincidências" das leituras nesse sentido e a coerência final da palestra me levaram a acreditar que estava sendo guiado para aquilo, pois as idéias simplesmente fluíam. No final das contas essa mensagem se provou ser a mais importante de toda a minha palestra.

      Outros ajudantes apareceram para auxiliar a minha jornada. Dois psicólogos tiveram a paciência de suportar uma prévia da palestra ainda incompleta com todo o meu nervosismo e insegurança, e deram dicas valiosíssimas sobre um erro grosseiro que ia cometer sobre um aspecto das teorias de Jung (tipos psicológicos). Com o aval dos psicólogos, fiquei mais confiante com meu trabalho, e ganhei emprestado mais 6 livros de Jung, um deles valiosíssimo pra palestra e que precisava ser lido faltando apenas 1 semana: "Psicologia e Alquimia".

      Concluí os slides faltando 1 hora pra embarcar pra São Paulo. Mas terminei tudo o que queria, do jeito que eu queria. Incluí trechos dos filmes dentro dos slides. Enfim, estava indo com a consciência tranquila estar oferecendo o melhor trabalho possível pro Simpósio. Embarcamos eu e Paula e a viagem transcorreu sem percalços... até chegar em Guarulhos. Como em toda boa jornada, enfrentamos o desafio na forma de uma tempestade que se abateu exatamente sobre o aeroporto. O piloto tentou pousar, mas as condições de vento mudaram a uns 100 metros de altura do chão e o avião foi obrigado a arremeter, uma experiência visual e sonora de terror que não desejo a ninguém. Passamos mais uma hora sobrevoando a cidade, no meio de raios e trovões e cruzando nuvens espessas de chuva. Durante esse tempo em que algumas pessoas oravam, choravam ou apenas dormiam (desmaiavam?) pude lembrar com ironia do tema da palestra, que poderia ser, afinal, uma preparação pra mim mesmo, e fiquei em paz com a idéia de morrer ali. Só esperava que encontrassem o pen-drive com a palestra e a exibissem no dia do Simpósio como última homenagem (dramático, não?).

      Pedi muito leigamente aos elementais e aos organizadores espirituais do Simpósio pra dar uma ajudinha, mas felizmente o próprio pessoal do Simpósio que estava no aeroporto já estava fazendo das suas pro tempo melhorar. Pude acompanhar o milagre da janela do avião: uma enorme nuvem negra saindo de cima da pista enquanto passávamos perpendicular a ela. O piloto não pensou duas vezes e deu um cavalo de pau e apontou na pista pra pousar. Fomos os primeiros de muitos a pousar. Mais 10 minutos naquelas condições e teríamos de ir pra Campinas, muito distante dali.

      Como foi tudo meio surreal - com um pouso tranquilo após toda a tribulação - fiquei com aquela sensação de que a qualquer momento Deus apareceria e diria "pegadinha do Mallandro!", algo do tipo "Lost", e o fato de na chegada ser recepcionado por um cara alto, forte, de cabelos encaracolados e todo de branco cuja primeira frase foi "Eu sou Gabriel" não ajudou em nada. A partir daí foi tudo perfeito na viagem, com passeios mil, andamos mais do que Frodo e o bonde do Anel, comemos as melhores pizzas de SP, vimos Belle e Sebastian, as aquarelas de Akira Kurosawa, as pinturas de Monet e Renoir, cantamos com Paul, jogamos pedra no Ibirapuera, comemos bauru e tomamos café no Starbucks. E a contrapartida da viagem acabou se revelando um imenso prazer, com a organização do Simpósio composta de gente super legal, atenciosa, jovem e divertida. Todo o Simpósio seguiu esse estilo, mas com muita seriedade e profundidade envolvida. Claro que não vou diluir minhas impressões do Simpósio e seus palestrantes nesse post, que é só um breve relato da viagem e um aperitivo do que vem por aí. Na verdade a ficha ainda está caindo de que fui mesmo pra SP e vi tudo isso, por isso o mutismo desses últimos dias (o cérebro ainda está processando tudo). Mas posso adiantar que a palestra foi um sucesso e que vou publicar o vídeo aqui (ainda falta editar tudo).

      Meu muito obrigado a todos os envolvidos que proporcionaram as férias da minha vida, e o nascimento de uma nova faceta do Acid, mais "real" e menos virtual. :)




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      Pensamentos - publicado às 4:18 PM 30 comentários