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O filme começa com uma desculpa sincera:

Um detalhe curioso é que Daniel Filho é ateu, e ficou encantado pela PESSOA do Chico, ao ler o livro. E por isso fez o filme desta forma, não procurando ser proselitista, nem ser uma bandeira do espiritismo (do qual se fala pouco). Achei a abordagem excelente. Talvez fosse mais interessante se Daniel Filho se aprofundasse mais no tema da vaidade (a peruca, as fotos da revista Cruzeiro), mas a gente nota que não há TEMPO de se aprofundar em muitas das facetas do Chico. Fatos interessantíssimos do livro tiveram de ficar de fora (talvez com o sucesso façam uma "versão do diretor"), como a vez que ele tomou um "tiro" de um espírito, que ele achava que era gente viva. Ou o seguinte trecho, que eu considero o mais interessante do livro:
Por isso recomendo o livro. Dá uma idéia do que Chico teve de sofrer por ser médium e ver espíritos (não só espíritos bons), e a perseguição espiritual por desenvolver um trabalho tão importante. Ainda hoje há quem difame o Chico sem NENHUM motivo ou indício de má conduta, apenas por um prazer obsceno de querer jogar os outros na lama em que essa pessoa se encontra.
Os atores estão fantásticos! Desde o garoto (cuja dicção com sotaque mineiro atrapalha um pouco quem não está acostumado à velocidade das palavras) até as mães do Chico, todos estão perfeitos. Eu achei que ia me impressionar com Nelson Xavier (e de fato me impressionei logo na cena de abertura, quando ele bota o óculos, chega me arrepiei), mas foi o ator Ângelo Antônio, que faz o Chico adulto, que pra mim roubou o filme. Nunca pensei que ele, com aquela cara de galã de novela, pudesse se transformar daquele jeito, emulando o Chico! Acho que o trabalho dele foi o mais difícil, já que naquela época Chico não usava os seus icônicos acessórios (a peruca e o óculos), e tudo o que temos dele são as fotos. E, baseado nelas, existe na cabeça de cada admirador do Chico o jeito dele falar, de andar e de se mover, como o "capiau" que era. E Ângelo consegue dar vida àquelas imagens, exatamente como imaginávamos que ele seria!!!! Parabéns!
Já a atuação de Nelson é contida e precisa, digna de um ator consagrado que está apenas "emprestando o corpo" a uma figura conhecida.
Letícia Sabatella, como a mãe do Chico, é uma tchutchuquinha linda (como diria o Marcelo Tas) e competente, e a Giulia Gam (como madrinha) poderia facilmente fazer o papel da Bellatrix no lugar da Helena Bonham Carter.
Tony Ramos fica meio apagadinho durante boa parte do filme, só naquela atuação novelesca, falando alto e resmungando, e tal, mas quando chega na cena do tribunal, o cara BRILHA. Muito. Segurei o choro ali, e quando lembro ainda me emociono.
Até mesmo o personagem Emmanuel, massacrado pela crítica, me parece DEMAIS com o desenho de quem o viu materializado com aquela roupa de tribuno romano, e o jeito "chato" e altivo que ele passa pra quem lê os livros e ouve as divertidas histórias do Chico está ali, bem representado.
O filme se tornou a maior bilheteria nacional numa estréia, sendo visto por mais de 600 mil pessoas e arrecadando nos 3 primeiros dias R$ 5,9 milhões. É o "Avatar brasileiro".
Quem quem já leu o livro vai ao cinema com um monte de informações que só deixam a experiência mais viva, mais emocionante. Infelizmente há uma parte do filme que é central para a vida de Chico, que é a entrevista para a revista "O Cruzeiro", mas que o filme/roteiro não consegue transmitir ao público a real dimensão do que foi aquilo. A revista era o semanal mais lido do Brasil, era a "Veja" e a "Istoé" juntas, e isso foi uma humilhação tão grande para o Chico que ele se afastou da imprensa por vários anos... mas, ao mesmo tempo, esse evento o tornou mais conhecido em todo o Brasil, e culminou com a entrevista para o programa Pinga-Fogo, que foi um divisor de águas para o espiritismo brasileiro, e cuja audiência superou até mesmo a da copa de 70!
No filme vemos Chico psicografando respostas em economês, e até escrevendo de trás pra frente, como num espelho, e em inglês! Isso de fato aconteceu, mas não foi com os repórteres do Cruzeiro, e sim do "O Globo", um pouco antes. Vejamos no livro:
O filme termina e acontece algo inédito pra mim até então: as pessoas não se levantam, e continuam em silêncio assistindo aos créditos, enquanto Chico (o verdadeiro) dá sua entrevista ao Pinga-Fogo. Os créditos enfim terminam, e as pessoas saem em silêncio... Um lindo silêncio... E isso vem se repetindo em vários cinemas pelo Brasil.
A única falha do filme foi repetir nos créditos os trechos reais do Pinga Fogo exatamente o que já havia sido falado no filme. Havia tanto o que partilhar de novo, que não tem como não achar um desperdício de oportunidade para os ensinamentos de Chico (na verdade Emmanuel, que tava do lado) chegarem ao grande público. Mas fica a semente, e quem quiser ver o programa Pinga Fogo em sua totalidade pode comprar o DVD (que tem, inclusive, a segunda participação que ele fez no mesmo programa, um ano depois) ou caçar trechos no Youtube (não tem tudo).
Deixando o filme de lado e falando sobre a pessoa Chico Xavier, podemos perceber que a entrada no espiritismo (doutrina então obscura, vinda da França) se deu mais porque foi o único grupo que o acolheu e respondeu a seus questionamentos, dando um sentido ao que estava acontecendo com ele. Claro que isso não foi ao acaso, já que, observando toda a sua vida, vemos que foi um planejamento da espiritualidade para ele ser o introdutor (de fato) e modelo do espiritismo no Brasil. Mas fico aqui a pensar, se ele tivesse tido acolhimento na Igreja Católica, se não teria sido o primeiro santo brasileiro. Afinal, a única "prática espírita" de Chico era a psicografia. A caridade, o amor, a visita aos presos, tudo isso são práticas cristãs que ele nunca negou como tal. Todo o desenvolvimento do corpo doutrinário do espiritismo, através dos livros psicografados por Chico, não foi o Chico que escreveu, como ele mesmo dizia. Então poderíamos dizer que ele foi um modelo de cristão para toda a humanidade.
Com isso em mente, comecei a procurar na bíblia como agiam os primeiros cristãos. Fiquei um tanto quanto desapontado, quando li em Atos dos Apóstolos o discurso de Pedro, com coisas como "Arrependei-vos, e cada um de vós seja batizado em nome de Jesus Cristo, para remissão de vossos pecados", ou "toda alma que não ouvir a esse profeta, será exterminada dentre o povo", e o efeito que isso causava: "Em cada alma havia temor, e muitos prodígios e sinais eram feitos pelos apóstolos." Fiquei meio ressabiado. Quando li a desventura do pobre e "vacilão" Ananias, meu estranhamento se transformou em repulsa:
Isso não parece coisa de Cristo. Parece mais o modo de operar de certas denominações evangélicas. Ananias e sua esposa certamente não venderam sua propriedade de bom grado e com certeza no coração; me pareciam mais constrangidos a tal (provavelmente pelo tal "temor a Deus e ao Espírito Santo"). Jesus não veio implantar o comunismo compulsório, nem dízimo, nem o medo de Deus. Por que então seus apóstolos se deram esse direito?
Chico Xavier seria, então, um cristão, no sentido de "apóstolo de Cristo"? Um homem que trocou o "temor" pelo "amor" (como, aliás, fez Jesus) não merece ser confundido com práticas doutrinárias distorcidas de milênios atrás. Como Jesus ensinou, "não se põe vinho novo em vasilhames velhos, do contrário se arrebentam. Perde-se o vinho, e perde-se o vasilhame. Mas põe-se vinho novo em vasilhames novos, e assim ambos se conservam". E é por isso, então, que Chico Xavier está melhor denominado como "Espírita". Em um sentido não tão próximo do estipulado por Kardec (mais racional e menos emotivo), mas sim do exemplo de Jesus. Infelizmente Chico acaba sofrendo do mesmo mal que assolou Jesus: a idolatria. Em vez de seguirem seu exemplo, a maioria se satisfaz em idolatrá-lo, colocá-lo num altar, fazer pedidos e achar que com essa babação estão "salvando sua alma". Chico é um guia, como muitos que vieram à Terra pra nos mostrar o caminho através de ações. Do que precisamos mais na Terra: De "Lady Gagas" ou "Chicos"? E como estamos educando nossas crianças? Pra admirar e se espelhar em um, ou outro?
Nos sites sobre Chico encontrei um relato de Daniela Assunção, que comove pela singeleza e como uma criança foi tocada pelo amor desse médium. Nos lembra o quanto estivemos "perto" dele, do quanto ele estava presente em nossas vidas, na nossa (pelo menos a minha) geração.
Infelizmente isso é verdade. Porque é mais fácil (e bonito) venerar o brilho do diamante lapidado do que lapidar a pedra bruta em nós.
Referência:
Programa Pinga Fogo;
PALAVRAS DE CHICO XAVIER (parte 1);
PALAVRAS DE CHICO XAVIER (parte 2);
Chico Xavier, charlatão?
