Página principal

   
5 estrelas
Budismo
Ciência
Cinema
Cristianismo
Espiritismo
Filosofia
Geral
Hinduísmo
Holismo
Internacional
Judaísmo
Metafísica
Pensamentos
Política
Psicologia
Sufismo
Taoísmo
Ufologia
Videolog


Ver por mês


Últimos comentários

Retornar à página principal


AYAHUASCA: O "CONTEXTO XAMÂNICO"
sáb, 27 de março, 2010
 


    Gonzalo Vargas - Wipala

Ser Xamã não é apenas botar uma pena na cabeça e ficar tocando bombo sob o efeito de alucinógenos. Mas, infelizmente, é essa a impressão que passa para o público leigo, que não viveu essa cultura e que não aprendeu na escola o contexto espiritual e social de uma época perdida há várias e várias gerações.

Um exemplo mais urbano e próximo do Xamã seria o padre da cidadezinha de interior: ele conhece praticamente todo mundo da cidade, não só de vista, mas os seus problemas e anseios (através do confessionário), é respeitado como líder espiritual, faz sermões onde analisa o rumo da cidade e aponta onde precisa melhorar, e também traz conforto e orientação espiritual para quem se sente perdido, desviado de seu grupo social. No caso de um Xamã verdadeiro ele, além disso tudo, consulta os espíritos em busca de um norte para poder guiar seu povo, e cura para os enfermos. Aí entra, em seu contexto original, a Ayahuasca, o tabaco, o peiote e outras plantas de poder.

para que não haja dúvidas, vamos analisar duas tribos que fazem uso tradicional do Ayahuasca:

Primeiro, os Yawanáwa.

...a ayahuasca é consumida tanto no processo de iniciação como nas cerimônias de cura ou de agressão. A execução das rezas com fins terapêuticos é feita em ritual celebrado à noite, quando as pessoas da aldeia já estão dormindo, de forma que acontece em ambiente restrito. A cerimônia pode ser realizada conjuntamente por um ou por vários xinaya. Normalmente, o doente não está presente ao ritual. Os xinaya, sob os efeitos da ayahuasca, cantam suas rezas sobre um pote cheio de uma bebida fermentada de mandioca (a caiçuma) que o paciente beberá depois.

É comum que, antes de ter decidido submeter-se à iniciação xamânica, a pessoa esteja familiarizada com as cerimônias, com certos conhecimentos e com algumas bebidas alucinógenas, em especial, a Ayahuasca. (...) Além disso, o iniciante deve reduzir no máximo suas relações sociais, evitando qualquer contato com as mulheres e isolando-se temporariamente na floresta, longe da aldeia. Ao mesmo tempo, começa a consumir Ayahuasca e tabaco diariamente, bem como passa a assistir sistematicamente às cerimônias de cura, durante as quais deve memorizar as rezas entoadas pelos outros xinaya e shuintia. O processo se completa com a superação de certas provas iniciatórias. (...) A memorização dos conhecimentos xamânicos requer sofrimento, e é através da abstinência alimentar e sexual, assim como das provas iniciáticas descritas, que esse estado ideal é alcançado. O iniciante deve chegar a um estado total de concentração e autocontrole para poder reter tal quantidade de saberes na memória. Ademais, a ingestão de substâncias alucinógenas - em particular, a Ayahuasca - exerce papel importante nesse processo de aprendizado das rezas e dos mitos. Dizem os Yawanáwa que, sob os efeitos dessa beberagem, o iniciando é capaz de visualizar mentalmente o conteúdo do narrado ou falado pelos xinaya que estão atuando em uma cerimônia e, assim, o conhece, memoriza e incorpora. Através dos estados alterados de consciência produzidos por estas substâncias o aprendiz entra em contato com o domínio dos yuxin, que transparece em mitos e rezas. O conhecimento deste meio é essencial à atividade xamanística, uma vez que o xamã, em qualquer de suas facetas, é mediador entre ambos os aspectos da realidade.

Agora, a tribo Harakmbet:

A principal função do Xamã é curar. E os espíritos das plantas possuem uma informação imprescindível que só pode ser captada por experts em interpretar o que acontece no "além". Uma vez que o Xamã "" o que deseja, através das substâncias de origem vegetal, ele as abandona paulatinamente e recorerá ao tabaco (paimba), que é a planta principal do Xamã. Qualquer Harakmbet, passada a iniciação, pode consumir drogas, mas só o Xamã capta a realidade diferente. É ele que consegue ver e interpretar os sinais do além e transformá-los em símbolos, desenhos ou mandalas que devem ser feitos em cima do corpo do paciente, e estudados por eles no sentido de permitir o diagnóstico e a cura das enfermidades para aquela pessoa, que pode estar numa certa planta medicinal que o Xamã intui ser a adequada para aquele caso.

Apesar do uso da Ayahuasca estar intimamente ligado à cura, ele é apenas a FERRAMENTA de acesso do Xamã a outros mundos, para que ELE vá em busca da cura. A deturpação de que a bebida SEJA a cura começou com os Xamãs da cidade. O antropólogo Jean-Pierre Chaumeil fala, em seu texto Curandeirismo do Amazonas, que o uso de alucinógenos no âmbito indígena parece essencialmente ligado a uma iniciação xamânica, já que, nas curas, o tabaco (fumado, mastigado ou bebido) é que assume papel preponderante.


Continuar a leitura

 
5 estrelas, Geral - publicado às 3:06 PM 169 comentários
MTV DEBATE
qui, 25 de março, 2010
 


Participei, na última terça (23) do programa MTV Debate, mediado por Lobão, e cujo tema foi "Daime: droga ou religião?". Vou usar este post pra ir atualizando com minhas impressões, informações e coisas que gostaria de ter dito, se tivesse tempo.

Tempo foi uma questão crucial, já que a produção primeiramente entrou em contato com os participantes e nos instruiu que o programa é dinâmico, com cortes (interrupções) por parte dos participantes, e que, na prática não daria pra falar por mais de 1 minuto. O lado direito - que era o grupo a favor de restrições ao uso da Ayahuasca - composto por Lázaro Freire (Psicanalista transpessoal e criador da Lista Voadores), eu e Anthony Wong (Toxicologista), procurou cumprir à risca as determinações, sendo objetivo e procurando a alternância de opiniões (especialmente o Lázaro), mas o lado esquerdo - que supostamente deveria esclarecer o que é o Daime em seu contexto -, composto por Carlos Maltz (astrólogo e ex-baterista do Engenheiros do Hawaii), Sérgio Seibel (psiquiatra) e Sandra Goulart (antropóloga da USP), parece não ter entendido o formato televisivo da MTV e monopolizou (não-intencionalmente) o debate, criticando as tentativas de interrupção. Uma pena (não por mim, mas pelo público, que poderia ter se beneficiado mais da dinâmica de opiniões).


Pra ilustrar tecnicamente como ficou desequilibrado, segue o tempo de fala de cada participante, por bloco, em minutos:

BLOCO 1

Lázaro: 2:10
Maltz: 1:56
Sandra: 2:22
Acid: 1:04
Wong: 2:48
Sergio: --

BLOCO 2

Lázaro: 1:34
Maltz: --
Sandra: 16 seg
Acid: --
Wong: 10 seg
Sergio: 06:52

BLOCO 3

Lázaro: --
Maltz: 03:02
Sandra: 2:20
Acid: 05 seg
Wong: 1:47
Sergio: 1:56

BLOCO 4

Maltz: 01:18
Lázaro: 47 seg
Sandra: 51 seg
Acid: 1:01
Jackie Chan: --
Sergio: --

TOTAL

Sergio: 08:48
Maltz: 06:46
Sandra: 05:49
Wong: 04:45
Lázaro: 04:31
Acid: 02:10


Particularmente eu não gostei da minha participação inicial. Em condições ideais eu poderia ter aproveitado melhor o primeiro minuto. Eu achava que a primeira pergunta seria o tema, se Daime era ou não droga, e quando passaram pra mim após a entrevista da menina eu fiquei meio perdido. Minha vontade era simplesmente detonar a menina pelo descaso com que ela foi tomar o Daime, dizer "isso que é o perigo com o Daime", que ela só queria curtir um barato (como o Maltz sugeriu, depois) e que a "religião Daime" não tem nada a ver com o contexto supostamente "católico" dela, mas fiquei me policiando pra não ser grosso na TV falando algo que só falaria aqui, na informalidade. Daí eu me repeti nas frases "contexto religioso" (era minha cabeça tentando retomar o assunto) e depois fui interrompido. Melhor, porque senão iria ficar uma fala arrastada, sem nexo.

Lázaro e Wong se saíram muito melhor de cara, afinal o primeiro tem toda uma bagagem de cursos Brasil afora, e Wong já participou de outros programas, inclusive outros "MTV Debate". O psiquiatra Sérgio Seibel foi uma boa surpresa: procurou ser claro, com linguagem acessível, e não se deixou contaminar pelo relativismo: falou o certo, que a bebida é sim uma droga alucinógena, e que foi liberada dentro de um contexto, apoiou as restrições, enfim, ele poderia estar do "nosso lado", mas estava sim do lado do esclarecimento. Quando ele começou a detalhar as experiências foi que ele se perdeu, e consumiu um tempo danado. A antropóloga devia ter muita coisa interessante a dizer, se lhe dessem 1 hora pra exposição (e eu adoraria ouvir sobre os "outros contextos" que ela falava), mas não era o caso. A impressão que ficou foi de que ela falou, falou e não disse nada. O Maltz... bem, o Maltz se sentiu ofendido por todos (a começar pelo Lobão) e ficou numa defensiva que o impedia de ver que o esclarecimento era BOM para as instituições sérias, como parece ser o caso da UDV. Durante o intervalo eu falei "cara, estamos do lado da sua religião" e ele respondeu (ou melhor, resmungou) "ela não precisa disso".

No final do 3º bloco eu me desesperei no intervalo, porque vi o quanto estavam desperdiçando tempo falando de UDV, Barquinha, Xamã, coisas que não dizem nada ao público jovem, que quer saber que danado é aquela bebida e, afinal, se era ou não era droga, e falei isso pro pessoal. Ficou meio que acordado que eu falaria isso no bloco final. Olhando o vídeo, percebi que só consegui falar porque o Lázaro cedeu boa parte de sua fala a mim, inclusive apontando pro meu lado, como se lembrasse ao pessoal do que falei no intervalo. Fiquei feliz com essa minha participação final, porque, embora eu tivesse muito mais pra contribuir, eu queria deixar CLARO, sem dúvidas ou retóricas, que o negócio é droga e só foi liberado porque por trás existe uma religião estabelecida há 70 anos. Eu ia falar que os jovens estavam cada vez mais usando a Ayahuasca SEM ter no meio os rituais ou a orientação religiosa, e ia dizer pras autoridades e entidades colocarem no Orkut "Ayahuasca" e verem a comunidade "Ayahuasca sem dogmas", com desprezo pela doutrina e acesso à bebida indiscriminadamente.

Acho que no final das contas valeu, sim, o debate. Ironicamente duas pessoas entre as três que mais falaram saíram do debate dizendo que não serviu pra nada, mas oportunidade pra esclarecimento não faltou (pra eles, pelo menos). Gostaria de agradecer a produção do MTV debate pelo profissionalismo, pelo investimento em mim e pelo espírito jovem com que guiam o programa. A performance dos convidados é que é, por natureza, imprevisível.


Referência:
Post sobre o Santo Daime (Ayahuasca);
O contexto da Ayahuasca
Ayahuasca: o "contexto xamânico"


 
Geral - publicado às 1:00 PM 128 comentários
A NÃO-VIOLÊNCIA NA CRIAÇÃO DOS FILHOS
sex, 19 de março, 2010
 


    Ravi Shankar - Discovery of India
O Dr. Arun Gandhi, neto de Mahatma Gandhi e fundador do MK Institute, contou a seguinte história sobre a vida sem violência, na forma da habilidade de seus pais, em uma palestra proferida em junho de 2002 na Universidade de Porto Rico.

Eu tinha 16 anos e vivia com meus pais, na instituição que meu avô havia fundado, e que ficava a 18 milhas da cidade de Durban, na África do Sul.
Vivíamos no interior, em meio aos canaviais, e não tínhamos vizinhos; por isso minhas irmãs e eu sempre ficávamos entusiasmados com possibilidade de ir até a cidade para visitar os amigos ou ir ao cinema.
Certo dia meu pai me pediu que o levasse até a cidade, onde participaria de uma conferência durante o dia todo. Eu fiquei radiante com esta oportunidade. Como íamos até a cidade, minha mãe me deu uma lista de coisas que precisava do supermercado e, como passaríamos o dia todo, meu pai me pediu que tratasse de alguns assuntos pendentes, como levar o carro à oficina. Quando me despedi de meu pai ele me disse:
"Nós nos encontraremos aqui, às 17 horas, e voltaremos para casa juntos."

Depois de cumprir todas as tarefas, fui até o cinema mais próximo. Distraí-me tanto com o filme (um filme duplo de John Wayne) que esqueci da hora. Quando me dei conta eram 17h30. Corri até a oficina, peguei o carro e apressei-me a buscar meu pai.

Eram quase 18 horas. Ele me perguntou ansioso:
"Por que chegou tão tarde?"
Eu me sentia mal pelo ocorrido, e não tive coragem de dizer que estava vendo um filme de John Wayne. Então, lhe disse que o carro não ficara pronto, e que tivera que esperar. O que eu não sabia era que ele já havia telefonado para a oficina. Ao perceber que eu estava mentindo, me disse:
"Algo não está certo no modo como o tenho criado, porque você não teve a coragem de me dizer a verdade. Vou refletir sobre o que fiz de errado a você. Caminharei as 18 milhas até nossa casa para pensar sobre isso."
Assim, vestido em suas melhores roupas e calçando sapatos elegantes, começou a caminhar para casa pela estrada de terra sem iluminação.
Não pude deixá-lo sozinho... Guiei por 5 horas e meia atrás dele... Vendo meu pai sofrer por causa de uma mentira estúpida que eu havia dito.
Decidi ali mesmo que nunca mais mentiria.
Muitas vezes me lembro deste episódio e penso: "Se ele tivesse me castigado da maneira como nós castigamos nossos filhos, será que teria aprendido a lição?" Não, não creio. Teria sofrido o castigo e continuaria fazendo o mesmo. Mas esta ação não-violenta foi tão forte que ficou impressa na memória como se fosse ontem.

"Este é o poder da vida sem violência."


Ler em espanhol (por Teresa)


 
Hinduísmo, Internacional - publicado às 12:00 AM 51 comentários
O CONTEXTO DA AYAHUASCA
dom, 14 de março, 2010
 


Por Mario CauNo último dia 12 o Brasil perdeu tragicamente um de seus maiores cartunistas, Glauco, assassinado juntamente com seu filho, Raoni, por um usuário de drogas ilícitas, "entusiasta" da Ayahuasca e, consequentemente, da Igreja que Glauco havia fundado, ligada ao Santo Daime e que ficava em sua casa.

Não poderia estar mais abalado com a notícia e, mesmo após alguns dias, ainda não me recuperei. Cresci lendo esse cara em revistas, tirinhas e charges de jornais. Ele, Angeli, Laerte e Aragonés são minha referência de humor inteligente nos quadrinhos. É pra evitar coisas assim que gostaria de partilhar meus pensamentos, no sentido de esclarecer (não combater, nem condenar, ou procurar culpados) pessoas no uso de certas substâncias para o auto-conhecimento.

Carlos Castañeda é bastante conhecido do público "alternativo". Ele usou por bastante tempo o alucinógeno Peiote, guiado por seu Shaman, Don Juan. As pessoas descompromissadas com a espiritualidade lêem o que interessa e descartam o que não interessa, e assim justificam suas experiências "místicas" com drogas (lícitas ou não) como uma busca espiritual. E param na busca. Eterna busca, porque em algum ponto esquecem o que estão buscando (se é que algum dia souberam) e ficam apenas nas drogas. Mas, vejamos o que Castañeda (e Don Juan) pensam disso, nessa entrevista:

Sam Keen: Em seu livro mais recente, "Viagem a Ixtlan", você revê a impressão dada nos primeiros livros de que o uso de plantas psicotrópicas era o método principal usado por Don Juan no intuito de ensiná-lo sobre a feitiçaria. Como você vê agora o lugar dos psicotrópicos em seus ensinamentos?
Carlos Castaneda: Don Juan usou plantas psicotrópicas no período intermediário do meu aprendizado porque eu era muito estúpido, sofisticado e arrogante. Eu me agarrava à minha descrição do mundo como se ela fosse a única verdade. Os psicotrópicos criaram um vácuo no meu sistema de interpretações. Eles destruíram minha certeza dogmática. Mas eu paguei um enorme preço. Quando a cola que segurava meu mundo unido foi dissolvida, meu corpo estava fraco e eu demorei meses para me recuperar. Eu fiquei ansioso e funcionava a um nível muito baixo.

Sam Keen: Don Juan usa drogas psicotrópicas regularmente para parar o mundo?
Carlos Castaneda: Não. Ele pode agora mesmo pará-lo com a sua vontade. Ele me disse que para mim a tentativa de ver sem a ajuda das plantas seria inútil.
Mas se eu me comportasse como um guerreiro e assumisse a responsabilidade não precisaria delas; elas apenas enfraqueceriam meu corpo.

E completa, mais à frente:

Carlos Castaneda: É este elemento de compromisso com o mundo que me mantém seguindo o caminho que Don Juan me mostrou. Não há necessidade de transcender o mundo. Tudo o que você precisa saber está aqui defronte nós, se prestarmos atenção. Se você entrar num estado de realidade extraordinária, como faz quando usa plantas psicotrópicas, está apenas usando a força que precisa para ver o caráter milagroso da realidade ordinária. Para mim o modo se viver o caminho com coração não é introspectivo ou de transcendência mística, mas a presença no mundo. Este mundo é o campo de caçada do guerreiro.

Sem mais, meritíssimo.

Tenho certeza de que qualquer droga, se ingerida num contexto SÉRIO espiritual, pode ser direcionada para o bem, para a evolução. Por exemplo, o café. Digamos que eu faça um ritual do café, com todo um suporte físico (cânticos, incensos, templos) e psicológico, e só o ingira neste dado contexto psíquico e social. Pronto: a cafeína irá atuar de forma a potencializar meu lado espiritual. Acontece que nós tomamos café no escritório, no trabalho, pra "relaxar" (muito embora seja um estimulante, eu tomo pra relaxar) ou pra ficar acordado pro estudar a noite toda. Temos uma cultura do café JÁ estabelecida. A diferença aqui é o CONTEXTO.

Qual o contexto do Daime, hoje?

Além das pessoas que se devotam à causa, e que são sérias, honradas, compromissadas com os rituais e com a doutrina (e que existem nas mais diversas religiões), temos os aventureiros de fim-de-semana, que são jovens, sem compromisso com NADA, sem bagagem espiritual e, muitas vezes, com larga experiência em drogas ilícitas.

Uma ida ao perfil do Orkut do estudante assassino de Glauco nos mostra as comunidades que ele visitava vi várias comunidades de Daime e Ayahuasca, no meio de outras, como "Joselitos do meu Brasil", "Surtados", "Laricas", "Bob Marley", "Fuck the police" e... "Mahatma Gandhi" (?). Uma das comunidades de Daime listadas chamava abertamente, logo em sua descrição, todos os irmãos pra uma "celebração", como se fosse uma Rave (ah, o assassino também participava da comunidade "Raves"). Estariam o Gandhi, Bob Marley e as Raves condenadas por fazerem parte do mundo de um assassino surtado? Não. Muito menos o Daime. Mas a listagem de comunidades nos dá um vislumbre de por onde sua mente transita, seu consciente. Dar o diagnóstico de "bipolar" a esse indivíduo só por olhar as comunidades seria leviano, mas ao analisar os relatos de que ele pretendia levar Glauco (sob tortura) para a sua mãe, para que ele dissesse a ela que ele (o assassino) era Jesus Cristo (!), e logo depois atirar em Glauco e seu filho, começamos a ter um vislumbre maior do quadro, não acham?

Vamos pegar o perfil desse jovem. Qual a boa pra quem já "curtiu" todo tipo de coisa, e está a fim de experimentar algo diferente? Tem gente que procura até dolorosos ritos de iniciação indígenas, onde se injeta veneno de sapo no braço, só pra dar "uma limpada" (totalmente fora do contexto, como nas matas virgens de Copacabana). Por que não experimentar a Ayahuasca?

E isso não é culpa do Daime, nem da Ayahuasca, nem das tradições, que eram MUITO mais fechadas no seu início, não só pelo aspecto geográfico (nasceu nas florestas do Acre, próximo de onde eu morei por 2 anos, aliás), como pelo contexto. Você não saía do Shopping pra ir tomar Ayahuasca, e depois de 4 horas pegava o carro pra voltar pra dormir em casa, não. Ou enfrentava um dia de viagem de carro por dentro de estradas de barro e lama, ou ia de barco (na verdade uma frágil canoa com motor), no meio de rios cheios de jacaré (e não estou sendo dramático, eles simplesmente existem por lá até hoje). Acredito que só isso já separava o verdadeiro buscador dos aventureiros de fim-de-semana. O problema é o CONTEXTO. A Ayahuasca virou uma bebida urbana, tomada dentro de um contexto pseudo-xamânico! Como lidar com o inconsciente das pessoas quando o hino, totalmente deslocado da realidade social, não funciona com os "turistas"? Como assumir essa responsabilidade? Vamos dizer que a bebida seja DEUS, como diz a tradição. Será que YaVeH é pra TODOS? Allah é pra TODOS? O Deus cristão toca o budista da mesma forma que Buda? Então por que a Ayahuasca deve ser pra TODOS, indiscriminadamente?

Tem gente que morre se tomar Aspirina. Pra maioria, funciona. Cafeína pode causar dor-de-cabeça em muitos. Em outros, tira. Certas drogas (farmacêuticas ou não) são indicadas pra uns casos, e pra outros não. Durante a miração, os compostos presentes na Ayahuasca, como o DMT (que as pessoas se recusam - não sei porque - a chamar de droga) abrem as portas do inconsciente, e daí advem a importância dos hinos, que são guias para manter a pessoa numa certa vibração, num certo pensamento, pra que ela não se perca (e se afogue) neste oceano que é o inconsciente. Infelizmente muita gente não consegue "nadar" adequadamente, e acaba sofrendo sequelas. O Psicanalista Transpessoal Lázaro Freire - que, como pesquisador, conhece os efeitos do Daime e de outros psicoativos - recebe vários casos de pacientes que sofreram de surto de pânico e bipolaridade após o uso da Ayahuasca. Por mais que digam que é "seguro", e tenha sido recentemente liberado pelo governo, não há NADA que seja 100% seguro pra TODOS. Nem avião, nem açúcar, caramba!

Fica então o alerta de Lázaro, que já falava dos perigos de se administrar antidepressivos, inibidores da MAO e serotoninérgicos (tudo o que tem na Ayahuasca) a pacientes bipolares (transtorno que acomete cerca de 1,6% da população, hoje em dia) há muito, muito tempo:

"Quem pode tomar, não precisa. Quem precisa tomar, não pode."

E continua:

De hoje em diante, lembrem-se: está demonstrado que na inocente roda de "chá-manismo" pode haver algum psicótico com potencial assassino e passagem na polícia por drogas, que está se enchendo de alucinógenos na sua frente, e que pode a qualquer momento se declarar Jesus e começar a atirar... Se por um lado muita gente boa procura essa bebida na esperança de um "atalho" consciencial, ao mesmo tempo praticamente TODOS os atuais ou ex "doidões" e drogados do país também cultuam - por motivos óbvios - essa nova forma de religião "baseada" em cogumelos ou chás. Além de muitos psicóticos e borderlines que, claro, se sentem mais à vontade em um ambiente de fantasias e "mirações" - muitos suspendem medicamentos "trocando-os" pela "cura" do daime. Reparem o vocabulário dos tipos que frequentam algumas casas: no meio de gente inocente e com boa intenção, essa turma barra-pesada e/ou psicodélica provavelmente também estará lá, trocando seu alucinógeno por outro mais barato, legal, potente e pretensamente espiritual. Qual o "doidão" que nunca experimentou Daime nem ao menos uma vez? Tem certeza de que conhece o passado, histórico policial, psiquiátrico e de drogas de todos da roda em que você foi passar 8 horas alucinado e indefeso?

E o meu recado aos daimistas é: se preservem enquanto religião. Valorizem a doutrina, a transformação interna. Deixem o chá para pessoas um nível mais avançado de entendimento e COMPROMETIMENTO. A ICAR não dá seu néctar espiritual de mão beijada pra qualquer visitante de missa. O judaísmo também não. O islamismo, menos ainda. Me parece uma fórmula testada e aprovada ao longo de milênios, pra evitar a deturpação e banalização, e filtrar melhor seus integrantes. Fica a dicA.


Referência:
Post sobre o Santo Daime (Ayahuasca);
Ayahuasca: o "contexto xamânico";
MTV Debate sobre Ayahuasca


 
5 estrelas, Geral - publicado às 1:11 PM 228 comentários
EU SOU SHE-BEAR!
qui, 11 de março, 2010
 


A Bíblia é cheia de belas histórias. Algumas delas são encenadas anualmente, como a Paixão de Cristo, em Pernambuco. Vários filmes bíblicos já foram feitos, como "Os 10 mandamentos" e "Paulo de Tarso". Mas ainda há muito a se contar, especialmente no Velho Testamento. Uma passagem em especial cativou a imaginação dos produtores do Black20 Studios, que fizeram uma belíssima encenação desta história de fé e má sorte.

Conta a Bíblia (II Reis 2:23-24) que Eliseu subiu a Betel; e, pelo caminho uns meninos zombaram dele, chamando-o de "calvo". Eliseu, virando-se ele para trás, os viu, e os amaldiçoou em nome do Senhor. Então duas URSAS saíram do bosque, e despedaçaram 42 daqueles meninos.

Aleluia!

Vejamos agora o vídeo com a reconstituição histórica desta peleja travada:

Melhor que a Paixão de Cristo, não é? Eu achei.

Moral da história:
Nunca, NUNCA mesmo, chame um judeu (ou cristão, já que eles têm o mesmo Deus) de careca. Você não sabe a relação de intimidade dele com o Senhor, e pode sofrer uma morte horrenda.


 
Geral - publicado às 9:55 PM 60 comentários
QUEM VAI, QUEM VEM
qua, 10 de março, 2010
 


    Maria Rita - Encontros e Despedidas

Geralmente não fico muito feliz quando um bebê nasce, nem muito triste quando alguém querido se vai. Fico pensativo, introvertido, pensando na continuidade e efemeridade das coisas. "Coisas" que incluem nós mesmos. Quando olho uma criança, dificilmente vejo uma criança, e sim um adulto enclausurado, lutando contra suas limitações (sinapses cerebrais não-formadas, dificuldades motoras e decorrentes do próprio "equipamento" em miniatura). Da mesma forma quando olho um idoso, com todos os problemas advindos de sua condição. E, no final, eles se parecem. E um volta pra onde o outro veio.

Pra onde é esse lugar? Será que tem de ser um "lugar"? Seria então pro nada?

Mas, o que seria o "nada"? O próprio ato de chamar de "nada" essa condição já cria algo: o nada. Nem sabemos se o nada existe como imaginamos, ou seja, a ausência de tudo, o vazio, a dissolução. Queremos saber mais sobre o "nada", dar um sentido a nossas existências, e então surgem as explicações das religiões. Até o budismo e o islamismo, que em essência não se preocupam (ou não dão valor) com isso, têm a sua. Mas quem garante que uma delas esteja certa? Quem garante que não estejam? Por isso me espanto com o ceticismo "agressive" (também conhecido como ateísmo forte), que basicamente acredita que nós, como o universo, nascemos do nada e vamos pra lugar nenhum. Isso pra mim é acreditar em algo fortemente. Os torna "crentes" em um tipo de ilusão que não é diferente das elaboradas criações das religiões das quais eles riem. Isso é ignorar os meandros e construções da mente humana, que em praticamente todas as civilizações desenvolveu conceitos abstratos para responder a esses enigmas, e muitos deles se parecem em essência (os arquétipos). É ignorar a intuição, a beleza da conexão não-local entre seres vivos, que ocorre com milhares de pessoas e animais, sem que precisemos pra isso ter uma explicação científica (acontece até com fótons!).

É essa conexão não-local que nos permite estar sempre em um tipo de "contato" com aqueles que se foram. Não é um contato físico, nem algo que possa ser mensurável, sentido ou descrito. No filme "Avatar" os seres do planeta Pandora se conectam por meio de "antenas", como um cabo USB. E a sucessão de conexões vai formando uma malha neuronal, uma "internet biológica" que permite a comunicação a nível de pensamentos, sentimentos, mesmo entre homens e animais. Nós não temos antenas físicas, mas podemos ter um Wi-Fi bem capenga. As capacidades de nosso cérebro ainda nos são um mistério. Quando ligamos pra alguém que não vemos há muito tempo sentimos um elo, uma intimidade, auxiliado pelos estímulos físicos (som) e pelas lembranças, pela saudade. Ativamos as áreas da memória relacionadas àquela pessoa, enfim, estamos trabalhando dentro de um terreno "real" (som), e ao mesmo tempo virtual (mente). Ao desligar ainda sentimos um bem-estar que se perpetua, a consciência de que aquela pessoa existe e está em um lugar específico, vive sua vida, você vive a sua, e a Vida segue. Pode acontecer pequenas sincronicidades, como você falar de uma pessoa e ela lhe ligar no mesmo dia, ou compartilharem sentimentos na mesma hora, em locais diferentes (só sabendo depois). Mas, quando a possibilidade de contato se rompe definitivamente (seja pela morte, ou outras circunstâncias) tendemos a bloquear, pela "lógica", as áreas da mente que poderiam sustentar essa comunicação. Não estou falando de mediunidade ostensiva, nem de experiências "do além", mas uma coisa mais sutil, que pode acontecer independente das religiões. É uma sensação de que você SABE que aquela pessoa está apenas longe, mas EXISTE em algum lugar, e está bem. Algumas vezes isso acontece com parentes de quem já partiu, mas não imediatamente. A pessoa acorda um dia com essa sensação de que acabou de "ligar" pra outra. O espiritismo explica que você visitou ou foi visitado pelo parente durante o sono, via "desdobramento" (projeção astral). É algo que tem entre os povos indígenas e até no Islamismo. Segundo o Islã, as formas de comunicação com os planos superiores se dá através de inspiração, dos sonhos e por meio de visões.

Quem vai, quem vem, quem fica, são todos facetas de nós mesmos, neste grande e complexo organismo que é a Vida.

Mais importante do que se comunicar, em algum nível, com os que se foram, é manter os canais de comunicação "Wi-Fi" abertos com quem ainda está aqui. Lembrando que não me refiro a comunicação social, vernacular, mas os sentimentos mais íntimos que emanamos para o outro. Como anda esta comunicação? Aberta e tranquila? Sem ruídos? Confusa? Truncada? Bloqueada? Pra estabelecer uma comunicação perfeita com os seres é preciso desenvolver um nível em que você está em paz com você mesmo, com os outros e com o mundo. É esse o aspecto mais valorizado no Zen Budismo, e o mais esquecido no cristianismo (não por falta de avisos de Jesus). Não é uma paz movida a Lexotan, nem um verniz de tranquilidade, mas um sentimento genuíno que brota espontaneamente, e quando você a tiver saberá, em cada célula do seu corpo.

Claro que, se tem uma coisa que arrasa com a conexão, é a culpa. Culpa de não ter vivido o melhor possível ao lado de outra pessoa, culpa por coisas ditas ou não ditas. Isso gera um mal-estar que, em grande escala, acaba por provocar um rompimento na comunicação com nossas próprias células, e daí surgem as doenças, como o câncer. Por isso é preciso viver como se este fosse nosso último dia, ou o último dia da pessoa com quem nos relacionamos. É estar Zen, ou seja: Presente, alerta, e em paz, para quando o "Grande Organismo" solicitar aquela pequena célula em outra parte, noutra função, você estar em paz consigo mesmo e com o outro, sem pendências. É por isso que Jesus nos ensina, com uma sabedoria que sobrevive aos tempos:

Portanto, se estiveres apresentando a tua oferta no altar, e aí te lembrares de que teu irmão tem alguma coisa contra ti, deixa ali diante do altar a tua oferta, e vai conciliar-te primeiro com teu irmão, e depois vem apresentar a tua oferta
(Mat 5:23-24)

Olhando o contexto da época, Jesus dá mais uma estocada no cinismo dos religiosos que só são religiosos na FORMA. Jesus reforça o aspecto interno como a coisa principal no cristianismo. Se for analisar a frase direitinho, ele deixa "Deus" (em seu aspecto externo, de adoração a alguma entidade) em segundo plano, e coloca o aspecto "Deus em nós" como a coisa mais importante de sua doutrina.


Ler em espanhol (por Teresa)


 
Budismo, Cristianismo, Espiritismo, Holismo, Internacional, Pensamentos - publicado às 3:33 AM 59 comentários
FELIZ DIA DAS MULHERES
seg, 8 de março, 2010
 



Sintam-se representadas aqui por Kathryn Bigelow, que deixou de ser conhecida como "ex-mulher de Cameron", pra ser a primeira mulher vencedora do Oscar de melhor filme e (pasmem!) direção, com "Guerra ao Terror" (The Hurt Locker).


Muito embora ache que não foi merecido, mas isso é outra história...


 
Cinema - publicado às 2:32 AM 62 comentários
REENCARNAÇÃO PARA OS GREGOS (ORFISMO)
qui, 4 de março, 2010
 


    Seiji Yokoyama - Saint Seya's harps

Adaptado do artigo de William Almeida de Carvalho


O orfismo é um movimento religioso complexo onde se detectam influências dionisíacas, pitagóricas, egípcias, apolíneas e, obviamente, orientais. Teria sido fundado por Orfeu, um herói lendário da grécia e patrono da música.

Há dúvidas se Orfeu teria sido um personagem histórico. Reza a lenda que ele teria nascido na Trácia e era filho de uma Musa (provavelmente Calíope, patrona da poesia épica e a mais importante das musas) e Eagros, rei da Trácia. Outra versão apresenta-o como filho do próprio Apolo. Orfeu é considerado como o maior músico da antigüidade, não só pela música, como pelo canto. Todos os poetas antigos celebraram sua lira e sua cítara, que teria sido inventada ou aperfeiçoada por ele. Seus acordes eram tão melodiosos que os homens e os animais quedavam paralisados para o escutar. Os animais ferozes deitavam-se a seus pés como cordeiros; as árvores vergavam para melhor escutá-lo; os homens mais coléricos sentiam-se penetrados de ternura e bondade. Educador da humanidade, conduziu os Trácios da selvageria para a civilização. Iniciado nos "mistérios", completou sua formação religiosa e filosófica viajando pelo mundo. Ao retornar do Egito, divulgou na Grécia a idéia da "expiação das faltas e dos crimes", bem como os cultos de Dioniso e os mistérios órficos, prometendo, desde logo, a imortalidade a quem neles se iniciasse.

Possui-se hoje uma visão razoável do orfismo através dos diversos escritos, principalmente os textos de Platão e Virgílio, que o integraram no seio de suas obras. O orfismo oscila entre o culto a Dioniso (ou Dionísio), que sempre desejou romper a camisa-de-força da religião tradicional da pólis grega, e Apolo, cuja seriedade corrigia os excessos e os desvairios dionisíacos. Esta aproximação que Orfeu faz dos dois deuses antagônicos tem um certo sentido: segundo Eliade, o espírito grego exprime por ela sua esperança de encontrar uma solução às crises desencadeadas pela ruína dos valores das religiões homéricas.


Mitologia


    Ovo cósmico
Orfeu é essencialmente um reformador. O orfismo quebra com a religião homérica, principalmente no tocante à sua teogonia. Salienta-se que a teogonia de Homero foi transmitida pelos rapsodos gregos. Sumariamente, a teogonia órfica afirma o seguinte: na origem estava Cronos (o Tempo) e dele saíram o Éter e o Caos, que geraram o Ovo Cósmico, um ovo de prata imenso (daí a proibição de se comerem ovos). Desse Ovo surgiu o deus andrógino Fanes, mais tarde chamado de Eros. Após seu nascimento, a parte superior do ovo tornou-se o céu e a parte inferior, a terra. Fanes criou a Lua e o Sol, os outros deuses e o mundo. Zeus, contudo, engole Fanes e toda a criação. Houve a produção de um mundo novo, tornando-se, a partir daí, o criador único. Um papiro, descoberto em 1962, revela uma teogonia ainda mais radical: um verso, atribuído a Orfeu, proclama que "Zeus é o começo, o meio e o fim de todas as coisas". A seguir, Zeus criou um numeroso panteão no qual é preciso salientar Dioniso-Zagreu, que terá papel fundamental no culto do orfismo.

A mitologia conta que Zagreu, o primeiro Dioniso, era filho de Zeus com Sêmele. Os Titãs, a mando de Hera, raptaram Zagreu, mataram-no e cozinharam-no num caldeirão. Em seguida, o devoraram-no. Zeus, possesso, fulminou os Titãs, transformando-os em cinzas. Dessas cinzas nasceram os homens, com sua dupla natureza: o mal advindo de sua natureza titânica, e o bem, representado pelo menino Dioniso-Zagreu, que os Titãs tinham devorado. A chispa do divino, que o homem carrega dentro de si, advém pois de Dioniso, deus da fertilidade e também da morte. Na religião dionisíaca inexiste, contudo, esperança escatológica, enquanto o orfismo é essencialmente soteriológico (prega a salvação humana).


Características

O orfismo rejeitava os ritos antigos, nos quais os iniciados despedaçavam animais ainda vivos, para consumo do sangue e da carne, pois os orfistas eram radicalmente vegetarianos.

De Apolo, herdou uma componente da catarsis (purificação, ou purgação), tão praticada no oráculo apolíneo de Delfos, mas era radicalmente contra a idéia de Apolo de que esta visava prioritariamente a purificar o homicídio. Os órficos eram ascéticos, que purificavam-se nesta e na outra vida, visando libertar-se do ciclo das existências. A religião apolínea era o bem viver; a órfica, o bem morrer.

Os órficos substituíram a "folia" dionisíaca pela catarsis apolínea. Através da prece e da oferenda, a purificação é um dos ritos principais das religiões antigas. Tudo que é impuro provoca a repulsão dos deuses e, por impuro, entende-se tanto a alma quanto o corpo. Convém notar que, por purificação, entende-se tanto a individual como a coletiva. Na antigüidade grega, quando se cometia um crime, o castigo recaía não só sobre o criminoso como sobre todo o seu clã. Assim, uma pretensa purificação de um crime tinha que ser não só individual como coletiva. Os cultos dionisíacos eram secretos e envoltos em mistério (ao contrário dos cultos apolíneos, que eram públicos). Por sinal, conhece-se muito pouco destes ritos secretos e destas iniciações órficas. Os órficos resolveram o problema da culpa de forma original na cultura grega: a culpa é sempre de responsabilidade individual e por ela se paga aqui; quem não conseguiu purgar-se nesta vida, pagará por suas faltas no além e nas outras reencarnações até a catarsis final.

A semelhança entre o orfismo e o pitagorismo, nos aspectos religiosos, é por demais sintomática: o dualismo corpo-alma, a crença na imortalidade da alma, a metempsicose, a punição no Hades (inferno), a glorificação final da psiqué nos Campos Elíseos, o vegetarianismo, o ascetismo e a importância das purificações. Por outro lado, o orfismo era menos elitista do que o pitagorismo, menos esotérico e não se imiscuia em política.


Reencarnação

É importante aqui salientar o caráter monoteísta do orfismo, que representa uma ruptura importante com os mitos olímpicos advindos dos rapsodos homéricos. O orfismo propugna por uma noção de um deus criador, soberano, simbolizando a vida universal. Contudo, o rompimento mais radical com o mito homérico é na parte escatológica, ou seja, na ciência dos fins últimos do homem, naquilo que deverá seguir à vida terrestre. A descida ao Hades simboliza a vida após a morte. A concepção órfica da imortalidade advém de um crime primordial: a alma está enterrada no corpo como se fosse um túmulo (soma-sema, que significa corpo-túmulo). Como conseqüência, a existência encarnada se assemelha mais a uma morte, e o falecimento constitui o começo da verdadeira vida. Esta verdadeira "vida" não é obtida automaticamente; a alma será julgada segundo as suas faltas e os seus méritos. Após um certo período, ela reencarna. A influência egípcia – julgamento de Osíris e reencarnação – é insofismável no orfismo. Nessa via crucis, de reencarnação em reencarnação, até mesmo em corpo de animais (metempisocose), a alma vai se purificando. Nesses intervalos reincarnacionistas a alma chega a demorar uns 1000 anos no castigo do inferno, onde sofre um ciclo de pesadas penas. Quando completamente purificada, sai desse ciclo de gerações para reinar entre os heróis. O destino, obviamente, não será o mesmo para os iniciados órficos e os profanos. O mortal comum profano deverá percorrer dez vezes o ciclo antes de escapar.


    Inscrições órficas numa fina lâmina de ouro
Um artefato importantíssimo no orfismo são as "lamelas órficas". São pequenas lâminas ou placas de ouro, descobertas na Itália meridional e na Ilha de Creta, e em túmulos órficos. São todas marcadas com o sinal secreto Y, até hoje um mistério. Delgadas e elegantes, enroladas sobre si mesmas, eram depositadas em pequenas placas hexagonais. Estas, presas a correntes de ouro, eram colocadas no pescoço dos iniciados, como talismãs, à maneira de passaporte para a eternidade.

Numa das lamelas encontradas, estão incrustados versos de aconselhamento à alma do morto para sua viagem em direção ao Hades. Em lá chegando, deve escolher entre um caminho da direita e um da esquerda. "À esquerda da morada do Hades, tu encontrarás o Lago da Memória (Lethes), e os guardiões estarão lá. Diga-lhes... eu sou o menino da Terra e do Céu estrelado, mas estou morrendo de sede. Dá-me rapidamente a água fresca que flue do Lago da Memória". Para a alma que deve retornar a terra para reencarnar-se, essa água do Lethes tem por função não esquecer sua existência terrestre, mas eclipsar a recordação do mundo pós-morte. O orfismo assim reverte a função da água do Esquecimento pela nova doutrina da transmigração. O esquecimento não simboliza mais a morte, mas o retorno à vida. A alma que teve a imprudência de beber na fonte do Lethes reencarna e será novamente projetada no ciclo do devir.

Para aquelas almas que não precisam mais se reencarnar, é aconselhado evitar a água do Lago da Memória e passar ao caminho da direita. E está escrito numa das lamelas: "Venho de uma comunidade de puros, ó puro soberano dos Infernos". Ao que Persófone replica: "Saúdo-te, toma o caminho da direita em direção aos prados sagrados e aos bosques de Perséfone".

A sede da alma, comum a tantas culturas, configura não apenas o refrigério, pelo longo caminhar da mesma em direção a outra vida, mas sobretudo, simboliza a ressurreição, no sentido da passagem definitiva para um mundo melhor. Se, para os gregos "os mortos são aqueles que perderam a memória", o esquecimento para os órficos não mais configura a morte, mas o retorno à vida.


Conclusão


    Mosaico de Orfeu, encontrado numa vila romana
Orfeu não morreu com a Grécia antiga. A sua figura continuou a ser reinterpretada pelos teólogos, tanto judeus quanto cristãos. Especialmente cristãos, se considerarmos que o cristianismo como o conhecemos floresceu na Grécia e em Roma. Nos afrescos das catacumbas romanas encontram-se imagens de Orfeu, tangendo sua lira no meio de animais simbolicamente cristãos: carneiros, ovelhas, cachorros e pombas. Noutros, encontram-se duas ovelhas: uma simbolizando Orfeu e outra, o Cristo. Nos mosaicos do mausoléu de Gala Placídia, em Ravena, é representado como Bom-Pastor. Uma antiga cena de crucificação chega mesmo a chamar Cristo de "Orfeu báquico". A semelhança dos simbolismos são flagrantes: o crime primordial dos Titãs e o pecado original de Adão e Eva; a consumação do corpo do deus cristão e do deus grego; Cristo como filho de Deus assim como Orfeu era filho de Apolo, são pontos comuns entre as duas doutrinas religiosas, numa visão simplista. Se pouco restou dos mistérios órficos, a figura de Orfeu tem cadeira cativa no inconsciente coletivo de nosso mundo.


Leia também:
Post sobre reencarnação nas diversas culturas;
Reencarnação no hinduísmo;
Reencarnação no cristianismo;
Reencarnação no judaísmo


 
Filosofia, Holismo - publicado às 8:59 PM 62 comentários