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A pintura gigante no forro em talha representa a Batalha dos Guararapes, onde os (então) parasitas de Portugal expulsaram os Holandeses (os únicos que trataram o Brasil com alguma decência) com a ajuda de negros e índios (PQP, que burros! Dá zero pra eles, professor!). Essa "insurreição pernambucana" é também chamada de "Guerra da Luz Divina", e o fato de uma força 50% inferior vencer os holandeses foi considerado um milagre, onde Maria, mãe de Jesus, estava a proteger os militares portugueses. Isso justifica a pintura, colocada na Igreja pelo governador de Pernambuco, em miloitocentosealgumacoisa. A batalha retratada é de um horror que só vi em "O Soldado Ryan". Sério. Sangue e tripas espalhadas pelo chão (que mal se vê, pelo número de corpos amontoados). Uma certa sena me deixou mais perturbado, que foi a de um soldado português com a espada, pronto pra desferir o golpe fatal num outro soldado holandês que estava no chão rendido, entre os cadáveres, com a mão espalmada (em súplica)e boca aberta. Estivesse esse quadro num museu eu não ligaria muito (afinal toda guerra é feia e cruel), mas... na entrada de uma igreja? Ao lado do calvário de Jesus?
Passei boa parte do tempo pensando em como o pároco foi constrangido a botar aquela pintura ali; talvez até tentado com uma boa quantia pra reforma da Igreja... e fiquei matutando no quanto o sagrado está imiscuído (macomunado?) com o profano. Nesse meio tempo as músicas terminaram e o Padre começou uma pequena oração, que dizia algo como "Senhor, nos lembra sempre do quanto somos insignificantes e dependentes de sua misericórdia", o que fez meu sangue ferver, pois um dia antes eu havia escrito aqui nos comentários do blog sobre o uso de Jesus como eterna muleta pra manter o povo servil, e assim preparar terreno pra justificar uma suposta hierarquia espiritual (padre, bispo, papa) que convenientemente emula a hierarquia social (prefeito, governador, presidente)... e logo Jesus, que criticava (veladamente ou não) o uso do sagrado como controle social... que irônico. Ainda bem que ele ressuscitou, ou suas cinzas estariam rolando pelo sepulcro e logo virariam atração turística.

Mas nem tudo é indignação. A bem da verdade até gostei do sermão do padre. Ele começou lendo o trecho da bíblia:
Nunca havia reparado nisso. Afora a mênção aos 12 apóstolos, o evangelista só cita MULHERES acompanhando Jesus. O padre lembrou como elas eram muito discriminadas naquela época, e ainda assim Jesus andava cercado delas, tratando-as como iguais. E foi justificar no Gênesis, onde está escrito:
O padre falou que aquilo era obviamente uma matáfora, uma figura de linguagem (graças a Deus!), que simbolizava que a mulher foi criada de uma parte ao LADO do homem. Nem da cabeça nem dos pés dele, e sim do meio. Falou dos preconceitos que ainda existem contra a mulher, e citou que, em nossa sociedade, a consagração do sucesso de uma mulher na mídia é ela posar nua numa revista; não precisa nem ser bonita: se ela faz sucesso, logo é convidada pra posar como um objeto de desejo (o que minimiza - às vezes apaga - todo o esforço que ela fez como ser humano pra chegar ao reconhecimento nacional). O padre falou ainda que muitas vezes o preconceito é alimentado pelas próprias mulheres, ao criarem seus filhos de maneira machista e perpetuando o preconceito dos avós, ou ao aceitarem passivamente os desmandos do marido.

Achei muito bonito esse sermão, numa Igreja consagrada a Nossa Senhora, e com o padre cercado de mulheres - senhoras, suas assistentes, que estavam inclusive com ele no altar, e a platéia, composta de 90% de mulheres. Enfim, uma Igreja de contrastes, onde o Divino convive com o Vulgar, e onde o padre prega a igualdade feminina dentro de uma doutrina famosa pelo machismo e preconceito histórico para com a mulher. Saí de lá revigorado, sem a fraqueza de outrora. Obrigado, Nossa Senhora (e perdõe a brincadeira acima) :P