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ABERTURA DE ARQUIVOS SOBRE OVNIS NO BRASIL
qui, 29 de outubro, 2009
 


    Contatos Imediatos Reunion tracks


Graças aos esforços da Comissão Brasileira de Ufólogos (CBU), mais documentos outrora secretos foram liberados pela Aeronáutica. Eles são um apanhado de relatos coletados pelos militares, e trazem informações detalhadas de um dos casos mais importantes em termos de divulgação ufológica para o Brasil (e diria até DO MUNDO!): A Noite Oficial dos OVNIS (se não conhece, é bom ler primeiro no link e depois continuar aqui). Este foi um caso emblemáticos em que um governo corajosamente confirma os relatos de pilotos e testemunhas, em um evento tão fascinante e de grande porte que fica até difícil de acreditar. Mas aí está a pá de cal em cima das dúvidas se fenômeno OVNI é ou não "real". Os documentos trazem luz ao caso, com transcrições dos pilotos, plots de radar, informações sobre a posição das estrelas neste dia, e uma novidade: vários outros casos aconteceram ANTES dessa noite especial, em Anápolis - GO (palco de uma das ocorrências na "noite oficial").

Um dos documentos (liberado em PDF pela Revista UFO, entre outros) contém vários casos, e um em particular chama a atenção por ter ocorrido sobre a base aérea de Anápolis, quase dois meses antes do evento acima:

Página 36:
" O presente relatório foi elaborado por determinação do Sr. Comandante da Base Aérea de Anápolis, Cel Av José Elislande Baio de Barros.
Assunto:
OVNI (objeto voador não identificado) sobre o aeródromo militar de Anápolis.
(...)
Observação Inicial: O objeto foi visto no dia 23 Mar 82, aproximadamente às 11:00 horas P, no momento em que uma aeronave F-103 executava "loops" sobre o aeródromo (...) A acrobacia da aeronave chamava a atenção de todos para cima.
Descrição do Objeto: A olho nu (era possível vê-lo dessa maneira), o objeto tinha uma forma circular (aparentemente esférica), de cor branca tendendo para prata.
Visto com binóculo, a forma era a mesma, porém mais brilhante, por vezes se apresentando avermelhado, com tendência para dourado.
Posição geográfica: Foi visto inicialmente quase sobre o aeródromo (rumo 300º 10 milhas, aproximadamente). Deslocou-se sutilmente, tendo sido percebido até no rumo 270º. Bastante alto, não foi possível estimar a altura.
Observadores: A curiosidade de um e de outro fez com que a maioria das pessoas na Base Aérea de Anápolis vissem o objeto, inclusive o autor deste documento.
Providências tomadas:
a) Pesquisas com o SRPV-5 pra saber da existência ou não e balões, sondas, satélites artificiais, etc.
b) Contato telefônico com o COPM pra saber da existência de contato radar.
Ambas as medidas não trouxeram resultado concreto.
(obs: assinado pelo chefe do centro de operações aéreas)


O documento também traz a transcrição da conversa dos pilotos de avião comercial que avistaram estranhas luzes, no episódio que ficou conhecido como o Vôo 169 da Vasp. Novamente o documento traz novas informações, porque passamos a saber que outros dois aviões TAMBÉM viram luzes estranhas, nos dois dias seguintes a esse ocorrido!


Na página 38, vemos um "briefing" assinado pelo Ministro da Aeronáutica Joelmir Campos de Araripe Macedo, em abril de 1978, informado ao Chefe do Estado-Maior da Aeronáutica:

I - As ocorrências vindas a público sobre o aparecimento de "objetos voadores não identificados" - OVNI - no espaço aéreo brasileiro tem, ultimamente, aumentado de frequência e parecem lastreados por testemunhos de relativa insuspeição. A fase do temor ao ridículo que, até recentemente, fazia calar as testemunhas de maior responsabilidade da elite técnica e científica do país, vai gradativamente cedendo lugar a um tratamento mais responsável pelo misterioso problema, já que a evidência de certos fenômenos inexplicáveis não mais permite ignorá-los.

II - Embora as especulações sobre os OVNI venham se estendendo a épocas tão remotas quanto a própria existência da humanidade, assumindo aspectos de pura fantasia, a verdade é que já nos últimos anos da II Guerra Mundial, em 1944, o Estado-Maior Superior da Luftwaffe foi induzido a criar um controle específico para elucidar inúmeros relatórios feitos por pilotos de guerra sobre a aparição de OVNI; o referido controle recebeu a denominação de "Sonder Buro nº 13" e o nome de código de "Operação Uranus".

III - A USAF, como é do nosso conhecimento, assumiu igualmente o controle dos UFO ("Unidentified Flying Objects"), reunindo muitos milhares de observações e farta documentação fotográfica; recentemente, encerrou tais estudos por ter chegado à conclusão de que os UFO não constituíam ameaça aparente à Segurança Nacional, e, portanto, escapavam a sua responsabilidade; seriam, talvez, mais da responsabilidade da NASA o da FAA. Na realidade, orientada politicamente para negar perante a opinião pública fenômenos que já se tornavam mais que evidentes, embora inexplicáveis, a USAF vinha se expondo a um desgaste acima do intolerável.

IV - Forçoso é reconhecer que algo de estranho vem preocupando as atenções do grande público, das autoridades e do mundo científico, face às frequentes incursões de OVNIs na atmosfera terrestre. Em que pesem os argumentos de que tais fenômenos - da forma pela qual são descritos - aberram das leis físicas e dos conhecimentos científicos do Mundo atual, impõe-se-nos o dever de registrá-los, documentá-los e analisá-los sistematicamente. Por várias razões, a Aeronáutica não deve se alhear do problema, embora evitando explicá-lo sem base científica ou expor-se ao ridículo, desnecessariamente.

V - Em face do exposto, recomento a esse Estado-Maior organizar um "Registro sobre OVNI", de natureza sigilosa, no qual sejam arquivados cronologicamente os fenômenos eventualmente observados no espaço aéreo brasileiro(...)


Em outro trecho, o Comandante interino do COMDA avisa sobre os procedimentos que estão sendo tomados pela aeronáutica, e alerta para que seja mantido sigilo, por medo do ridículo:

I - O Exmo Sr Ministro da Aeronáutica pela nota (...), determinou que fossem adotadas medidas no sentido de coletar e catalogar ocorrências de "objetos voadores não identificados (OVNI). No passado, as notícias sobre o assunto veiculadas pela imprensa eram registradas e analisadas pelo Estado-Maior da Aeronáutica.
(...)
III - Visando resguardar a posição do Ministério da Aeronáutica no tocante ao assunto, altamente polêmico, a coleta e a remessa de dados exige muita discrição, não devendo ser feitos comentários que possibilitem exploração por parte da imprensa em geral, fato que até poderia levar ao ridículo a nossa corporação.


Em outro documento confidencial oficial assinado pelo Brig. do Ar, José Pessoa Cavalcanti de Albuquerque (Comandante interino do COMDA/NuCOMDABRA em 02/06/1986), e dirigido ao Ministério da Aeronáutica, vemos a seguinte conclusão:

CONSIDERAÇÕES FINAIS DO CASO "NOITE OFICIAL DOS OVNIS"

1- Da análise dos acontecimentos, este Comando é de parecer, de acordo com as informações dos controladores, pilotos e relatórios anteriormente elaborados pelo I Cindacta, que alguns pontos são coincidentes no que tange ao eco radar, aceleração, iluminação, velocidades e comportamento, tanto pelas detecções técnicas como visualização efetuadas.

2- Alguns que podemos citar são os fenômenos que apresentam certas características constantes a saber:
a- produzem ecos radar não só do Sistema de Defesa Aérea, como também das aeronaves interceptadores simultaneamente, com comparação visual pelos pilotos.
b- Variam suas velocidades da gama subsônica até supersônica, bem como mantêm-se em vôo pairado.
c- Variam suas altitudes abaixo do FL-050 até altitudes superiores FL-400.
d- Às vezes são visualizados devido à luzes de cores brancas, verdes, vermelho, outras vezes não se tem indicação luminosa.
e- Têm capacidade de acelerar e desacelerar de modo brusco.
f- Capacidade de efetuar curvas com raios constantes e outras vezes com raios indefinidos.

3- Como conclusão dos fatos constantes observados, em quase todas as apresentações, este Comando é de parecer, que os fenômenos são sólidos e refletem de certa forma inteligência, pela capacidade de acompanhar e manter distância dos observadores como também voar em formação, não forçosamente tripulados.

4- Por oportuno, cabe ressaltar a eficiência das Unidades Aéreas engajadas na operação, pois de acordo com o previsto cada uma dessas unidades mantém uma aeronave de alerta à 45 minutos e com menos de 30 minutos após o acionamento, 7 (sete) vetores armados estavam disponíveis para emprego.


Não precisa nem comentários, né?

É quase um sonho realizado para os ufólogos, que ainda aguardam a liberação dos documentos relativos à Operação Prato (a cereja do bolo). Mas esta semana logo trouxe outras surpresas, com a entrevista do ex-ministro da Aeronáutica, Sócrates Monteiro, à Revista UFO. Abaixo, alguns trechos:

O militar foi comandante do I Centro Integrado de Defesa Aérea e Controle de Tráfego Aéreo (Cindacta), em Brasília. Ele revelou que as observações de objetos voadores não identificados eram constantes nas telas de radar do órgão, bem antes dele assumir seu comando, e que todos os casos eram meticulosamente anotados, sendo que alguns eram investigados pela Força Aérea Brasileira (FAB).

Monteiro descreveu uma situação em que a estação de radar do Cindacta no Gama (DF) foi sobrevoada a baixa altitude por um objeto discóide de grandes proporções, e que seus homens, sem saber o que fazer, abriram fogo contra no intruso. Ao saber disso, Monteiro deu-lhes ordens expressas para interromperem o tiroteio imediatamente. "Eles têm uma tecnologia muito mais avançada do que a nossa e não sabemos com o reagiriam à nossa ação", disse referindo-se aos tripulantes do veículo, informando ainda que esta era a doutrina adotava na época, ou seja, não agredir para não sofrer as conseqüências.

Sobre a Noite Oficial dos UFOS, Monteiro admitiu que que os objetos "passaram de 250 para 1.500 km/h em frações de segundo". Referindo-se sempre ao termo anomalias eletrônicas, "na falta de uma explicação melhor para o que eram aqueles objetos", segundo Monteiro, o entrevistado disse que a velocidade dos UFOs era realmente estarrecedora e que os caças conseguiam se aproximar deles apenas por alguns instantes, porque em seguida os artefatos disparavam a altíssima velocidade. "Não havia como nos aproximarmos deles e então acabamos abandonando as buscas. Que duraram muitas horas naquela madrugada". Há referência de que os UFOs chegaram a atingir a velocidade de Mach 15, ou seja, 15 vezes a velocidade som, o que Monteiro disse ser possível, embora os instrumentos tivessem chegado a medir apenas perto de 3.500 km/h, "pois depois disso podem ter sofrido distorções naturais de leitura". Quanto à Força Aérea Brasileira (FAB) ter gravado os fatos em videotapes, disse que, na verdade, o órgão - em especial o Cindacta - sempre anotava o que ocorria nas telas de radar, e que tudo aquilo foi registrado em gravações apropriadas feitas a partir daqueles instrumentos. Mas disse que a cada 30 dias as fitas são apagadas e reutilizadas.

Mesmo que no início tenha se referido aos UFOs como anomalias eletrônicas, aos poucos foi falando em "eles", para designar seus tripulantes, e "naves" para efetivamente descrever o que eram seus veículos, mencionando também sua "tecnologia". Também se referiu abertamente às inteligências por trás do fenômeno, dando a clara noção de que estamos diante de civilizações superiores.

Esta foi uma afirmação mais contundente, que ele deu ao final da entrevista, quando voltou a se referir ao caso em que seus homens atiravam num disco voador no Gama, e que ele teve que intervir imediatamente pois "a reação deles poderia ser trágica para nós". Para tanto, usou como analogia o Caso Mantell, ocorrido nos Estados Unidos em 1948, em que um piloto encontrou a morte e seu avião foi destroçado após uma perseguição a um UFO. "Por isso, os caças, quando perseguiam tais 'anomalias eletrônicas', o faziam com cautela". Já ao fim da conversa, quando estava mais à vontade com os entrevistadores, se referia às tais anomalias quase praticamente rindo de sua própria interpretação do fenômeno e admitindo que apenas usava a expressão "por não ter um UFO nas mãos pra poder dizer exatamente o que são".


Depois disso tudo, só fica a pergunta: o que é que falta pra reconhecermos o fenômeno UFO de forma inequívoca, global e irrestrita, sem as costumeiras ironias, piadinhas e risinhos?

Fica aqui o agradecimento à Revista UFO por liberar essas informações de forma tão transparente, e a CBU por ir atrás dos documentos! Valeu! Foi como ganhar um presente de Natal antes do tempo!


 
Ufologia - publicado às 3:21 AM 129 comentários
DISTRITO 9
qui, 22 de outubro, 2009
 


Ontem vi o que é - e provavelmente continuará sendo - o filme do ano: Distrito 9. Dirigido pelo estreante sul-africano Neill Blomkamp, é uma aula de ficção científica como há muito não se via no cinema.

Longe de ser um caça-niquel com personagens rasos e simpáticos (como Transformers ou mesmo o novo Star Trek) Distrito 9 resgata do limbo a dignidade do gênero. O filme (assim como Alien ou Exterminador do futuro) nos transporta para uma realidade crível, mesmo sendo ela fantástica. O estilo documental, com câmera na mão, aqui encontra o seu lugar de direito, com efeitos visuais fantásticos, no sentido de inserir uma gigantesca nave-mãe sobre os céus de Johannesburgo e ainda assim parecer "natural". Sem falar nos melhores (em termos técnicos) personagens criados em computação gráfica que já vi, em um fantástico trabalho de iluminação e animação, feito não pela oscarizada empresa Weta (de Senhor dos Anéis), mas sim pela (até então desconhecida) empresa de Johannesburgo chamada Image Engine Design. Mas nada disso salvaria o filme de ser mais um Transformers da vida se não fosse pelo roteiro adulto e realista (co-escrito pelo diretor Neill Blomkamp). Uma história onde não há heróis e vilões (pelo menos não no sentido tradicional). É justamente aí que reside o grande trunfo do filme: seu impacto emocional. Saí da sessão com a triste impressão de ter visto um documentário vindo do futuro, ou um Tropa de Elite com Aliens, porque dá pra reconhecer a natureza e as motivações humanas (nossas motivações) em cada ato dos personagens. É por isso que reitero: não há vilões neste filme, apenas humanos vivendo suas vidas e cumprindo seus papéis... demasiadamente humanos.

Semana passada estava falando com minha psicóloga sobre como minha única esperança para a humanidade seria a aparição oficial de uma raça alienigena. Isso porque a diferença iria nos unir. Passaríamos a ser "nós" e "eles", humanos e aliens, e não mais o amontoado de nomes com os quais adoramos nos classificar. Vemos isso claramente nos jogos de futebol: enquanto estamos limitados por regiões geográficas (e imaginárias) do Brasil, nosso vizinho ou colega de trabalho é nosso adversário, e trocamos provocações com deliciosa malícia, sem querer realmente mal, mas apenas porque faz parte da natureza humana sentir prazer com pequenas crueldades (observem as crianças brincando, ou perguntem a um fã de Tarantino). Mas estes mesmos adversários abandonam suas diferenças e se juntam para torcer, beber e confraternizar juntos pela seleção brasileira, especialmente se for contra um rival histórico, como a Argentina. Aí o sadismo entra novamente em cena, pois não basta ganhar: é preciso golear e humilhar, e o adversário é o "outro". É um pensamento meio cruel com os possíveis visitantes espaciais, mas é fundamentado na nossa (triste) realidade. E talvez "eles" já saibam disso, e aguardem uma maior maturidade de nossa parte.

Mas, voltando ao filme, após vê-lo minhas esperanças para a humanidade meio que se confirmaram e meio que se desvaneceram. Explico: a nave-mãe vai parar em cima da cidade de Johannesburgo, na África do Sul, por conta de algum problema (doença?) que deixou a tripulação fragilizada e sem comando. E a premissa do filme é: como seriam tratados os aliens se os humanos tivessem ALGUMA vantagem sobre eles? O que acontece é que os humanos estabelecem um campo de refugiados logo abaixo da nave, para abrigar os aliens, e aquilo rapidamente se converte numa favela. 20 anos se passam, e a humanidade já os vê como um estorvo. O resto vocês podem imaginar.

O mais triste de tudo é perceber que os humanos fazem o mesmo, só que com outros seres humanos. O filme foi rodado entre os barracos de Soweto, palco de uma resistência contra a política oficial de discriminação racial (o Apartheid), que resultou num horrendo massacre. Ainda na África do Sul, na mesma época, os negros foram forçosamente "relocados" para um tal de Distrito 6 (que inspirou o nome do filme), na cidade de Cape Town. Mas nem só os negros sofreram do problema da discriminação e foram tratatos como sub-humanos durante a história. Quem pode esquecer do êxodo de judeus da Espanha e Portugal, fugindo para não morrer ou serem convertidos à força ao catolicismo? Séculos depois, teriam de fugir novamente, para não morrer nos guetos e campos de concentração da 2ª guerra. E nossos índios, retirados da floresta para viver como brancos em aldeamentos jesuítas, sujeito às doenças dos brancos, que dizimaram 70% dos silvícolas?

Mas nao precisamos nem conhecer de História para vermos que a sociedade "naturalmente" marginaliza (ou seja, pôe à margem) os indesejáveis ou aqueles que não pertencem a uma certa "casta" (como a casta do empregado público, ou a casta dos comerciantes, a dos advogados, etc). E lá vão eles para os distri... digo, as favelas... É irônico ver no filme os "depoimentos" dos negros sul-africanos, reclamando da presença desses indesejáveis visitantes sem modos e violentos. Isso meio que confirma minha teoria, mas, ao mesmo tempo, percebi que não, a natureza humana não vai mudar (nem sequer amadurecer), mesmo diante de um fato desta natureza. Não haverá uma mudança de paradigma, apenas acrescentaríamos um elo a mais na nossa cadeia de preconceitos.

Distrito 9 tem um final melancólico e poético, com uma imagem final que ficou perdurando na minha mente até agora.


 
Cinema, Ufologia - publicado às 8:08 PM 59 comentários
CONTEMPLAR O SOL
qua, 21 de outubro, 2009
 


    Renaissance - Bound for infinity


O Sol e a Lua iluminam os nossos corpos; também Cristo e a Igreja iluminam os nossos espíritos. Isto é, iluminam-nos se nós não formos cegos espirituais. Porque, do mesmo modo que o Sol e a Lua não deixam de derramar a sua claridade sobre os cegos que, contudo, não podem acolher a luz, também Cristo envia a sua luz aos nossos espíritos. Mas esta iluminação só tem lugar se a nossa cegueira não lhe puser obstáculos. Por isso, que os cegos comecem por seguir a Cristo gritando: "Tem piedade de nós, Filho de David!" (Mt 9,27) e, quando tiverem recuperado a vista graças a Ele, poderão ser irradiados pelo esplendor da luz. Mas nem todos os que vêem são iluminados de igual forma por Cristo; cada um é-o na medida em que pode receber a luz (cf Lc 23,8 s) Não é da mesma maneira que todos vamos a Ele, mas "cada um irá segundo as suas próprias possibilidades" (Mt 25,15).
(Orígenes, presbítero e teólogo)


Não te prendas às suspeitas nem às pessoas que te levam a escandalizares-te com certas coisas. Porque aqueles que, de uma forma ou de outra, se escandalizam com as coisas que lhes acontecem, quer as tenham querido quer não, ignoram o caminho da paz que, pelo amor, leva ao conhecimento de Deus os que dela se enamoram.
Não tem ainda o perfeito amor aquele que é ainda afectado pelo temperamento dos outros, que, por exemplo, ama uns e detesta outros ou que umas vezes ama e outras detesta a mesma pessoa pelas mesmas razões. O perfeito amor não despedaça a única e mesma natureza dos homens só porque eles têm temperamentos diferentes mas, tendo em consideração essa natureza, ama de igual forma todos os homens. Ama os virtuosos como amigos e os maus, embora sejam inimigos, fazendo-lhes bem, suportando-os comn paciência, aceitando o que vem deles, não tomando em consideração a malícia, chegando mesmo a sofrer por eles se se oferecer uma ocasião. Assim, fará deles amigos, se tal for possível. Pelo menos, será fiel a si mesmo; mostra sempre os seus frutos a todos os homens, de igual modo. O Nosso Deus e Senhor Jesus Cristo, mostrando o amor que tem por nós, sofreu pela humanidade inteira e deu a esperança da ressurreição a todos de igual forma, embora cada um, com as suas obras, atraia sobre si a glória ou o castigo.
(São Máximo, o Confessor - monge e teólogo; Centúria 1 sobre o amor, na Filocalia)


Com a prática dos mandamentos a mente despoja-se das paixões; com a contemplação espiritual das coisas visíveis desprende-se das idéias passionais das coisas; com o conhecimento das coisas invisíveis despoja-se da contemplação das coisas visíveis; e, por fim, com a contemplação da Santíssima Trindade desprende-se das coisas invisíveis. Assim como o Sol, ao surgir e iluminar o mundo, se mostra a si mesmo e mostra as coisas iluminadas por ele, assim o Sol de justiça, ao surgir na mente pura, se mostra a Si mesmo e mostra os princípios de todas as coisas que foram e serão feitas por Ele.
(São Máximo, o Confessor)


Há um filme (ou documentário?) cujo nome não lembro, em que uma mulher apaixonada pela Lua diz que só se casa com seu pretendente se ele a fizesse pisar na Lua. Ele consegue, através de um espelho d'água, fazendo ela pisar no reflexo da Lua. Achei essa criatividade e mudança de paradigma o máximo, e me lembrei disso quando li o texto acima (enviado e comentado por Solius). Acredito que este é o papel da Religião: nos fazer VER, progressivamente, até que possamos contemplar o "Sol" em toda a sua glória.


 
Cristianismo - publicado às 3:30 PM 12 comentários
A GNOSE DE JUNG
ter, 13 de outubro, 2009
 


    Sisters of Mercy - Corrosion


Transcrito (e levemente editado) do livro de Stephan Hoeller
Contribuição de Coringa


Desde o princípio de sua carreira psicanalítica até a morte, Jung manteve um vivo interesse e uma profunda simpatia pelos gnósticos. Já em 12 de agosto de 1912, Jung escreveu uma carta a Freud a respeito dos gnósticos, na qual qualificou a concepção gnóstica de "Sofia" de reaproveitamento de uma antiga sabedoria, que poderia aparecer uma vez mais na moderna psicanálise. Não lhe faltava literatura capaz de estimular seu interesse pelos gnósticos, porque os eruditos do século XIX na Alemanha (embora quase que em nenhum outro país) devotavam-se diligentemente aos estudos gnósticos. Todos os biógrafos de Jung mencionaram seu profundo interesse por tais assuntos. Uma das declarações mais reveladoras a esse respeito é citada por uma de suas ex-colaboradoras, Bárbara Hannah, que lhe reproduz as palavras sobre os gnósticos: "Senti como se finalmente tivesse um círculo de amigos que me entendessem". A mesma biógrafa também ressalta que Jung desenvolveu um interesse por Schopenhauer, justamente porque o grande filósofo alemão lembrava-lhe os gnósticos e a ênfase que colocavam no aspecto do sofrimento do mundo; além disso, ele aprovava de todo o coração o fato de Schopenhauer "não falar nem da providência onisciente e todo-misericordiosa de um Criador, nem da harmonia do cosmo", mas ter afirmado abertamente "...que uma falha fundamental subjazia ao triste curso da história humana e à crueldade da natureza: a cegueira da Vontade criadora do mundo..."

Que essas são afirmações completamente gnósticas não é preciso dizer. Como seu interesse por Schopenhauer remonta à infância, podemos considerar Jung, sob muitos aspectos, como um gnóstico "natural", possuidor de uma postura gnóstica mesmo antes de familiarizar-se com alguns dos ensinamentos do gnosticismo. Apesar de Jung ter tido acesso a certo volume de literatura poética e erudita bem cedo na vida, ele não contou com quase nenhum material de natureza gnóstica procedente de fontes originais à sua disposição. Como muitos outros, para informar-se sobre os gnósticos, Jung teve de se basear nos relatos fragmentados e, sobretudo, deslealmente distorcidos dos padres da igreja anti-gnóstica, em particular Irineu e Hipólito. As pesadas engrenagens da erudição acadêmica apenas começavam, com extrema lentidão, e mesmo relutância, a dedicar-se aos três códices coptas Codex Agnew, Codex Bruce e Codex Askew, que na época mofavam em vários museus, esperando para serem traduzidos e publicados. Pode-se considerar algo miraculoso que Jung tenha sido capaz de obter tanta compreensão e extrair tanta informação valiosa, favorável ao gnosticismo, das polêmicas dos padres caçadores de hereges da Igreja. A contribuição de Jung aos estudos gnósticos em geral e a uma esclarecida interpretação contemporânea do gnosticismo em particular é pouco menos que notável em alcance e importância. É lamentável que essa contribuição não seja ainda apreciada por um número crescente de especialistas em gnosticismo, dentro do campo de estudos bíblicos, embora isso não seja particularmente surpreendente, em vista do fato de que a maioria desses eruditos provém de escolas de teologia e de religião com tendências ortodoxas. Além disso, muitos deles carecem por completo de qualquer apreciação séria da psicologia, especialmente do tipo de psicologia que Jung proclamou. A falta de atenção e respeito é ainda mais inacreditável, considerando-se que a influência de Jung consiste praticamente na única responsável pelo projeto vital de publicação do maior acervo de escritos gnósticos originais descobertos na história: a Biblioteca de Nag Hammadi.

Os gnósticos foram prolíficos escritores da tradição sacra. Seus inimigos observaram com desaprovação que os seguidores do instrutor gnóstico, Valentino, costumavam escrever um novo evangelho a cada dia, e que nenhum deles era muito estimado, a menos que desse uma nova contribuição à sua literatura. Entretanto, de toda essa profusão de textos, muito pouco sobreviveu, devido à incansável supressão e destruição da literatura gnóstica a que se dedicaram os queimadores de livros e caçadores de hereges da Igreja que, com o apoio do poder constituído, obtiveram predominância sobre os seus rivais. Durante muitos séculos não se soube da existência de nenhuma literatura gnóstica original. Foi somente nos séculos XVIII e XIX que viajantes, como o destemido e romântico escocês James Bruce, começaram a trazer para a Europa, do Egito e localidades vizinhas, fragmentos de papiros antigos contendo textos. Embora talvez escritos originariamente em grego, esses haviam sido traduzidos pelos escribas gnósticos para o copta, a língua popular do Egito helênico. Sendo realmente raros os eruditos coptas e demais pessoas interessadas em gnosticismo, a tradução desses textos procedeu-se muito lentamente. Então, um quase milagre aconteceu. Em dezembro de 1945, pouco após o término da II Guerra Mundial, um camponês egípcio encontrou uma coleção inteira de manuscritos gnósticos enquanto cavava para extrair fertilizantes na vizinhança de algumas cavernas, na caldeia montanhosa de Jabal al-Terif, próximo ao Nilo, no Alto Egito. Aparentemente, esses tesouros fizeram parte, em certa época, da biblioteca do vasto complexo fundado na região pelo pai do monasticismo cristão, o monge copta São Pacômio.

Como seus predecessores, a descoberta de Nag Hammadi custou muito a se concretizar. Os métodos lentos dos acadêmicos foram, entretanto, bastante acelerados pela influência de um homem que não era nem erudito copta nem especialista bíblico, mas simplesmente um arqueólogo da alma humana. Esse homem era, é claro, Carl Jung. Ele se interessou pela descoberta de Nag Hammadi desde o princípio; foi um antigo amigo e colaborador de Jung, o professor Gilles Quispel, que tomou a iniciativa de traduzir e publicar os livros de Hag Hammadi. Em 10 de maio de 1952, embora a crise política e a dissensão acadêmica paralisassem todos os trabalhos relativos aos manuscritos, Quispel adquiriu um dos códices em Bruxelas, e desta porção da grande biblioteca realizou-se a maior parte das primeiras traduções, envergonhando assim a comunidade erudita, que se viu na contingência de apressar o trabalho longamente adiado. Esse documento - intitulado Jung Codex - foi apresentado ao Instituto Jung de Zurique por ocasião do octogésimo aniversário do Dr. Jung, tornando-se o primeiro item da descoberta de Nag Hammadi a ser abertamente examinado por eruditos e leigos fora do turbulento ambiente não-cooperativo do Egito dos anos 50. O próprio professor Quispel declarou ter sido Jung uma peça-chave no despertar da atenção sobre os manuscritos e na publicação da valiosa coleção de Nag Hammadi.


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Cristianismo, Psicologia - publicado às 7:55 PM 46 comentários
EDUCAÇÃO E BUDISMO
sex, 9 de outubro, 2009
 


Ou "A Espiritualidade Budista e a Sombra Psicológica e suas Relações com a Educação e Formação Humana parte 1"

    Monks from Liverpool - All you need is love
Por Paula Roberta


Irei propor a todos nós uma reflexão e associação entre Budismo, Psicologia e Educação. De início, são áreas da vida que me interesso por terem contribuições para a formação humanamente humana.

Mas por que Budismo e não outra filosofia oriental, ou mesmo ocidental?

Na Psicologia Clínica existem abordagens de conhecimento que podem e devem ser utilizadas para melhor compreensão do ser humano. Muitos Psicólogos Clínicos, originalmente treinados nas abordagens ocidentais de psicoterapia, têm sido atraídos pelo caráter introspectivo da "psicologia budista", que é vista como um suporte capaz de auxiliar o homem em sua busca do significado da vida e, na tentativa de compreensão de si mesmo, da mente e da natureza da experiência.

A Psicoterapia Transpessoal é uma delas, e decorre de uma expansão ou ampliação do campo da pesquisa psicológica. Tem sido profundamente influenciada pelo Budismo, um dos mais antigos sistemas médico-filosóficos conhecidos, cujo conteúdo ético, religioso e espiritual é de grande profundidade. Porém, inicialmente irei expor as interlocuções entre Budismo e Educação, posteriormente incluindo como a Psicologia foi se apropriando de novos olhares para integrar o ser humano.

Para uma compreensão adequada das possíveis contribuições do budismo à educação é necessário que noções centrais de ambos os campos sejam desenvolvidas. Não se pode pensar na educação, quer do ponto de vista teórico, quer do prático, sem pressupor que a mesma está fundada na admissão de que o ser humano deve atingir uma determinada condição que ainda não se encontra desenvolvida, atualizada ou presente. Segundo o Prof. Dr. Policarpo Junior, o significado de "Educação", em sua forma profunda e ampla, é trazer de dentro para fora, é saber conviver consigo mesmo e com os outros, tendo aí uma contribuição grega, no qual crescer significa crescer juntos, com todos, com a própria polis.

A ciência sofreu, ao longo dos séculos, uma conversão progressiva ao estudo daquilo que é, ou seja, do que existe independentemente do sujeito, e que está despido de toda consideração quanto ao que deve ser. Assim, para fazer referência apenas às últimas décadas, algumas das finalidades educativas apregoadas com muita influência no Brasil foram: a produção de capital humano, a revolução ou transformação social, a formação para a democracia, a cidadania, as competências e a formação do sujeito aprendente (este último principalmente e quase unicamente, e olhem que nem estou me referindo às escolas públicas). Não se deve negar a pertinência de nenhum desses objetivos, nem mesmo sua relação determinada com a tarefa educativa. No entanto, é importante reconhecer que todas essas finalidades se originam de preocupações exteriores à educação, ou de outros campos de saber - como a economia, sociologia, ciência política, psicologia - que não a própria educação. A teorização sobre o educar muitas vezes termina por consagrar a subordinação da educação aos ditames sociais e culturais, legitimando assim a falsificação do conceito e da prática educacionais.

Porém, a dimensão do conhecimento e seu princípio orientador é a busca da verdade (ou deveria ser). Tal princípio está também relacionado à condição da vida humana. Educar para o Amor seria, então, o maior desafio a se conseguir na Educação; e, caso se consiga isto, o objetivo da educação como "Conviver consigo mesmo e com os outros" terá sido alcançado.

Mas, como os homens em meio ao mundo encontram-se ainda na imperfeição - e em um estado que por si só justifica a existência da educação - esta própria finalidade existente acima não pode, portanto, constituir-se em representante final e exclusiva do critério da utilidade, porque aquilo que se configura útil no estado atual não necessariamente reveste-se do sentido daquela utilidade aliada à busca da verdade. Então a dimensão a ser ressaltada na educação, como teoria e prática formativas da humanidade no homem, deve ser o exercício da introspecção.

Quando a vida pessoal é vivida com sabedoria, a tendência é perceber que, de fato, não há separação entre introspecção e ação no mundo. Por meio da auto-reflexão, isto é, os hábitos mentais e comportamentais, os sentimentos e emoções podem se tornar progressivamente mais conhecidos, e com isso é possível que o indivíduo transforme seus limites, fraquezas, medos, potencialidades e virtudes em algo familiar, refletindo sobre eles e passando de fato a conhecê-los (e não apenas vivendo como seu refém). Em outras palavras, em Psicologia Transpessoal, isso significa integrar a sua sombra. Por intermédio desse exame interno minucioso e freqüente, torna-se possível à pessoa contemplar com serenidade suas atitudes e hábitos mentais, e gradualmente agir de acordo com os princípios da própria auto-reflexão e contemplação; e, embora a coerência não seja atingida imediatamente, surgirá aos poucos a percepção clara dos aspectos pessoais que resistem a se integrar, a fim de que a pessoa possa vir a aceitar-se como é, e assumir de fato a direção de si com plena lucidez, compreensão e coerência. A partir dessa integridade surge a idéia de uma unificação progressiva consigo mesmo (individuação), compreendida como o processo de superação contínua das diversas cisões interiores, o que permite que se dissipem muitas das oposições antes consideradas como conflito, como observou Carl Jung em seus estudos.


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Budismo, Filosofia, Internacional, Psicologia - publicado às 2:22 AM 21 comentários
UM PÁLIDO PONTO AZUL
seg, 5 de outubro, 2009
 


Contribuição de José Mariano


 
Ciência - publicado às 1:44 AM 250 comentários
MINHA NOSSA SENHORA!
sáb, 3 de outubro, 2009
 


    Diablo Swing Orchestra - D'angelo & Velvet Embracer
Recentemente estava andando pelo centro do Recife (mais especificamente Rua da Concórdia) quando fui acometido de uma fraqueza que, de primeiro, associei à fome (mesmo tenho comido há menos de 2 horas). Comi um cachorro quente e continue minha caminhada, já saindo dali. 10 minutos depois a mesma tontura e fraqueza, como se eu não tivesse comido nada. "Eita lugar pesadinho", pensei. Apressei o passo pra sair dali, e fui andando pela Rua Nova, sem melhorar. Aí passei defronte a Igreja de Nossa Senhora da Conceição dos Militares (construída em 1723), onde estava sendo celebrada uma missa. Geralmente eu gosto de olhar igrejas vazias pra apreciar sua decoração, mas a música tipo Marcelo Rossi (altíssima) me espantou. Fiquei parado no meio da rua, encantado com o altar, mas sem coragem de entrar. Mas aí pensei: "caramba, estou aqui passando mal, talvez nem consiga sair do bairro sem ter que parar em algum lugar, e aqui não há nenhum outro lugar melhor do que esse pra se limpar de encosto".


    Nossa Senhora da Conceição após a Batalha dos Guararapes: "O que eu fiz?"
Então entrei. E não me arrependi. O altar é um dos mais lindos que já vi (incluindo aí o altar da Igreja de São Bento), pois, além de ser concebido no estilo rococó, ele usa um efeito de profundidade - tipo o primeiro estágio de Sonic 1 - com várias camadas uma atrás da outra que dão um efeito 3D lindo de se ver em movimento. Quem gosta de rococó extreme vai amar o telhado, que eu particularmente achei muito "over" (pra mim a virtude está no equilíbrio). Mas o que me chocou foi ver a pintura de teto logo na entrada, que de bíblica só tem o tema: matança com suposta proteção divina.

A pintura gigante no forro em talha representa a Batalha dos Guararapes, onde os (então) parasitas de Portugal expulsaram os Holandeses (os únicos que trataram o Brasil com alguma decência) com a ajuda de negros e índios (PQP, que burros! Dá zero pra eles, professor!). Essa "insurreição pernambucana" é também chamada de "Guerra da Luz Divina", e o fato de uma força 50% inferior vencer os holandeses foi considerado um milagre, onde Maria, mãe de Jesus, estava a proteger os militares portugueses. Isso justifica a pintura, colocada na Igreja pelo governador de Pernambuco, em miloitocentosealgumacoisa. A batalha retratada é de um horror que só vi em "O Soldado Ryan". Sério. Sangue e tripas espalhadas pelo chão (que mal se vê, pelo número de corpos amontoados). Uma certa sena me deixou mais perturbado, que foi a de um soldado português com a espada, pronto pra desferir o golpe fatal num outro soldado holandês que estava no chão rendido, entre os cadáveres, com a mão espalmada (em súplica)e boca aberta. Estivesse esse quadro num museu eu não ligaria muito (afinal toda guerra é feia e cruel), mas... na entrada de uma igreja? Ao lado do calvário de Jesus?

Passei boa parte do tempo pensando em como o pároco foi constrangido a botar aquela pintura ali; talvez até tentado com uma boa quantia pra reforma da Igreja... e fiquei matutando no quanto o sagrado está imiscuído (macomunado?) com o profano. Nesse meio tempo as músicas terminaram e o Padre começou uma pequena oração, que dizia algo como "Senhor, nos lembra sempre do quanto somos insignificantes e dependentes de sua misericórdia", o que fez meu sangue ferver, pois um dia antes eu havia escrito aqui nos comentários do blog sobre o uso de Jesus como eterna muleta pra manter o povo servil, e assim preparar terreno pra justificar uma suposta hierarquia espiritual (padre, bispo, papa) que convenientemente emula a hierarquia social (prefeito, governador, presidente)... e logo Jesus, que criticava (veladamente ou não) o uso do sagrado como controle social... que irônico. Ainda bem que ele ressuscitou, ou suas cinzas estariam rolando pelo sepulcro e logo virariam atração turística.

Mas nem tudo é indignação. A bem da verdade até gostei do sermão do padre. Ele começou lendo o trecho da bíblia:

Logo depois disso, andava Jesus de cidade em cidade, e de aldeia em aldeia, pregando e anunciando o evangelho do reino de Deus; e iam com ele os doze, bem como algumas mulheres que haviam sido curadas de espíritos malignos e de enfermidades: Maria, chamada Madalena, da qual tinham saído sete demônios. Joana, mulher de Cuza, procurador de Herodes, Susana, e muitas outras que os serviam com os seus bens.
(Lucas 8:1-3)

Nunca havia reparado nisso. Afora a mênção aos 12 apóstolos, o evangelista só cita MULHERES acompanhando Jesus. O padre lembrou como elas eram muito discriminadas naquela época, e ainda assim Jesus andava cercado delas, tratando-as como iguais. E foi justificar no Gênesis, onde está escrito:

Então o Senhor Deus fez cair um sono pesado sobre o homem, e este adormeceu; tomou-lhe, então, uma das costelas, e fechou a carne em seu lugar; e da costela que o senhor Deus lhe tomara, formou a mulher e a trouxe ao homem.
(Gen 2:21-22)

O padre falou que aquilo era obviamente uma matáfora, uma figura de linguagem (graças a Deus!), que simbolizava que a mulher foi criada de uma parte ao LADO do homem. Nem da cabeça nem dos pés dele, e sim do meio. Falou dos preconceitos que ainda existem contra a mulher, e citou que, em nossa sociedade, a consagração do sucesso de uma mulher na mídia é ela posar nua numa revista; não precisa nem ser bonita: se ela faz sucesso, logo é convidada pra posar como um objeto de desejo (o que minimiza - às vezes apaga - todo o esforço que ela fez como ser humano pra chegar ao reconhecimento nacional). O padre falou ainda que muitas vezes o preconceito é alimentado pelas próprias mulheres, ao criarem seus filhos de maneira machista e perpetuando o preconceito dos avós, ou ao aceitarem passivamente os desmandos do marido.

Achei muito bonito esse sermão, numa Igreja consagrada a Nossa Senhora, e com o padre cercado de mulheres - senhoras, suas assistentes, que estavam inclusive com ele no altar, e a platéia, composta de 90% de mulheres. Enfim, uma Igreja de contrastes, onde o Divino convive com o Vulgar, e onde o padre prega a igualdade feminina dentro de uma doutrina famosa pelo machismo e preconceito histórico para com a mulher. Saí de lá revigorado, sem a fraqueza de outrora. Obrigado, Nossa Senhora (e perdõe a brincadeira acima) :P


 
Cristianismo - publicado às 12:03 AM 61 comentários
OS GNÓSTICOS
qui, 1 de outubro, 2009
 


A gnose das correntes esotéricas possui dois traços bem característicos. Por um lado, abole a distinção entre fé e conhecimento (a fé não é mais necessária, a partir do momento em que se sabe); por outro, supostamente possui uma função soteriológica, isto é, contribui para a evolução individual daquele que a pratica. O termo gnose serve para designar tanto essa própria atitude espiritual e intelectual quanto os corpus de referência que a ilustram.
(Antoine Faivre)


    Hans Zimmer - Chevaliers De Sangreal

Por Stephan A. Hoeller (contribuição do Coringa)

As palavras gnóstico e gnosticismo não são exatamente comuns no vocabulário dos nossos contemporâneos. De fato, há mais pessoas familiarizadas com o antônimo de gnóstico, isto é, "agnóstico"; literalmente, esse termo significa um desconhecedor ou ignorante, mas em sentido figurativo descreve uma pessoa sem fé religiosa, que não se ressente de ser chamada de ateísta. No entanto os gnósticos já existiam muito antes dos agnósticos, e, na maioria, parecem ter representado uma classe muito mais interessante que o último grupo. Em oposição aos não-conhecedores, eles se consideravam conhecedores - gnostikoi, em grego - denotando aqueles que possuem a gnose ou o conhecimento. Os gnósticos viveram, na maior parte, durante os três ou quatro primeiros séculos da Era Cristã. Em geral, provavelmente eles não teriam se autodenominado "gnósticos"; teriam se considerado cristãos, ou mais raramente judeus, ou ainda seguidores das tradições dos antigos cultos do Egito, da Babilônia, da Grécia e de Roma. Não eram sectários nem membros de uma nova religião específica, como queriam seus detratores, mas pessoas que compartilhavam entre si certa atitude perante a vida. Pode-se dizer que essa atitude consistia na convicção de que o conhecimento direto, pessoal e absoluto das verdades autênticas da existência é acessível aos seres humanos, e, mais ainda, que a obtenção de tal conhecimento deve sempre constituir a suprema realização da vida humana.

Esse conhecimento ou Gnose não era concebido como um saber racional de natureza científica, ou mesmo um saber filosófico da verdade, mas um conhecimento que brota no coração de forma misteriosa e intuitiva, sendo, portanto, chamado em pelo menos uma obra gnóstica (o Evangelho da Verdade) de Gnosis Kardias (o conhecimento do coração). Trata-se, é claro, de um conceito que é ao mesmo tempo religioso e altamente psicológico, pois o significado, o propósito da vida não aparece então nem como a fé - com sua ênfase na crença cega, e na também cega repressão - nem como as ações, com sua extrovertida orientação para as boas ações, mas sim como uma transformação e uma visão interior; em suma, um processo ligado à psicologia profunda.

Se passarmos a considerar os gnósticos como os primeiros profissionais da psicologia profunda, torna-se imediatamente aparente a razão pela qual a prática e o ensinamento gnóstico, de forma radical, diferia da prática e do ensinamento da ortodoxia cristã e judaica. O conhecimento do coração, em favor do qual os gnósticos se empenhavam não podia ser adquirido por meio de uma barganha com Jeová, ou através de um tratado ou aliança que garantisse bem-estar espiritual e físico ao homem, em troca do cumprimento servil de um conjunto de regras. Da mesma forma, não se poderia obter a Gnose pela mera crença fervorosa de que a atitude de sacrifício de um homem divino na história pudesse aliviar a carga de culpa e frustração de nossos ombros e assegurar bem-aventurança perpétua, além dos limites da existência mortal. Os gnósticos não negaram o benefício do Torá nem a magnificência da figura de Cristo, o ungido do Deus supremo. Eles consideravam a Lei necessária a um certo tipo de personalidade, que precisa de regras para o que atualmente poderíamos chamar de "a formação e o fortalecimento do ego psicológico". Também não negaram a importância da missão do personagem misterioso que, em seu disfarce, era conhecido pelos homens como o rabino Joshua de Nazaré. A Lei e o Salvador, os dois mais reverenciados conceitos de judeus e cristãos tornam-se, para os gnósticos, apenas meios para um fim maior que esses mesmos conceitos. Eles configuravam incentivos e artifícios, de alguma forma capazes de conduzir ao conhecimento pessoal que, uma vez obtido, prescinde tanto da lei como da fé. Para eles, como para Carl Jung muitos séculos depois, a teologia e a ética constituíam apenas pontos de partida no caminho do autoconhecimento.


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Filosofia, Holismo, Psicologia - publicado às 2:17 AM 39 comentários