Últimos comentários


Segundo o psicanalista Luís Fernando Scozzafave (blog Sinapse Oculta) "A Pulsão sexual não apenas vai ser dirigida para a reprodução e para o ato sexual em si. Há a dinâmica de: 1- Encontrar o 'alvo' , 2- Descarregar a energia (Libido) 3- Repouso". Então essa libido, ora descarregada, ora não, encontra modos de se veicular através de outros meios.
É certo que muitas de nossas ações são investidas de libido, de um certo teor vindo da sexualidade. É tudo de alguma forma erótico, um instinto de Eros. A arte é de alguma forma erótica também.
No tocante à fantasia criadora dita por Jung, quando exprimida através da arte, pode assumir uma variada gama de possibilidades. Aí vem uma pergunta difícil: O que pode ser considerado "Arte"?
O móvel rústico de seu quarto pode ser uma obra de arte. A invenção da roda pode ser arte. Até mesmo o modo que o vendedor de biju no trânsito arranjou para atrair seu cliente pode também pode ser arte. Isso é subjetivo. Bocato, um grande trombonista brasileiro disse uma vez de forma humilde: "Um dia espero estar fazendo arte".
A Arte não se restringe na sua "arte final", no seu "objeto" idealizado final. Vejamos por exemplo um belo edifício moderno projetado por um arquiteto, junto ao seu engenheiro responsável. A capacidade do engenheiro fazer complexos cálculos com parâmetros extremamente racionais pode ser a fundação para uma obra de arte. Energia sublimada pelo arquiteto em sua criação, e o prédio, em seu acabamento, lapidado pela tinta misturada pelo auxiliar de manutenção, é tudo um processo. A arte ou atividade dita "sublimada" é um processo em que toda a civilização e cultura está envolvida. Apesar disso, muito se discute o valor da arte na contemporaneidade. Talvez porque há de se temer seus conteúdos. Dizem que ela, em suas diversas expressões (música, obras, ciência, literatura, pintura, poesia, etc) é supérflua, isto é, que não existe para nossa sobrevivência. É certo que, para sobrevivermos - e bem - talvez precisemos de muito além de pão. Precisamos de pão e circo. Nossos "instintos" nos obrigam... Nós precisamos de sexo, carinho, amizade, sermos reconhecidos entre nossos pares, precisamos de descanso, de deslumbramento, e de surpresa. (Nosso cérebro é comprometido com a possibilidade de existência de surpresas, é inato ao ser humano essa necessidade).
Difunde-se a superfluidade da arte. Mas eu me pergunto se o verdadeiro sentido que podemos dar à vida é o de que somos todos "artistas" de alguma forma.
No nível sutil da vida, o que ocorre quase sempre é uma procura inexpurgável de se encontrar um outro, de se relacionar com o outro. De fazermos da vida um algo compartilhado. O trabalho, como algo aferrado somente à subsistência, vira algo morno com sintomas de podridão. É preciso algo mais. E algo mais movimenta o homem em seus desejos. O vínculo ora desejado, ora rejeitado, tem como padrão a imensa necessidade de estarmos unidos, mesmo quando achamos que estamos sós.
Voltando à sublimação, os prazeres ou capacidades na vida podem ser mais simples do que se imagina. A capacidade de ver, enxergar, ouvir e pensar já pode ser considerada em seu princípio um ato sublimado ou sublimatório.
A energia instintiva para a realização da pulsão sexual é limitada em um determinado período de tempo e espaço; sendo assim, a energia psíquica é direcionada para várias atividades humanas. No fundo, a Arte tem uma conotação sexual. Tem, não porque seja usada como substituto da pulsão sexual... Tem conotação "sexual" porque tem o objetivo de atingir o outro. Faz parte do instinto de Eros, é erótico... Seria um "Nú Artístico"... Desnudar-se para o outro ver. Ou pode até ser auto-erótico, se a arte ficar restrita ao olhar do criador.
Sendo o objetivo deste texto o de apenas refletir sobre o assunto, não convém chegar a conclusões finais, ou saturar os conceitos em construção. Seguindo a pergunta inicial proposta aqui no início desta exposição, acho que todos nós "sublimamos" de alguma forma. Alguns mais, outros menos. Para finalizar, não podemos deixar de citar alguns tremendos "sublimadores": Shakespeare, Beethoven, Paul McCartney, Fernando Pessoa, Buda, Gandhi, Ayrton Senna, Freud, Jung, etc, etc, etc...
Tweet