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A DESCOBERTA DO BUDA
qui, 30 de julho, 2009
 


Por Osho

Gautama, o Buda, é a maior ruptura que a humanidade conheceu até agora. O tempo não deveria ser dividido com o nome de Jesus Cristo; ele deveria ser dividido com o nome de Gautama, o Buda. Deveríamos dividir a história em antes de Buda e depois de Buda, não antes de Cristo e depois de Cristo, porque Cristo não é uma ruptura - é uma continuidade. Ele representa o passado em sua tremenda beleza e grandiosidade. Ele é a própria essência de toda a busca do homem antes dele. Ele é a fragrância de todo o empenho do homem para conhecer Deus, mas ele não é uma ruptura. No verdadeiro sentido da palavra, ele não é um rebelde. Buda é, mas Jesus parece mais rebelde do que Buda pela simples razão de que a rebelião de Jesus é visível e a rebelião de Buda é invisível.

Você precisará de um grande insight para compreender a contribuição de Buda para a consciência humana, para a evolução humana, para o crescimento humano. O homem não seria o mesmo se Buda não tivesse existido. O homem teria sido o mesmo se Cristo não tivesse existido, se Krishna não tivesse existido - não haveria muita diferença. Elimine Buda e algo de tremenda importância fica perdido; mas sua rebelião é muitíssimo invisível, muitíssimo sutil.

Antes de Buda, a busca - a busca religiosa - dizia respeito, basicamente, a Deus: um Deus que estava do lado de fora, um Deus que estava em algum lugar lá em cima, no céu. A busca religiosa também dizia respeito a um objeto de desejo, tanto quanto era a busca mundana. O homem mundano buscava dinheiro, poder, prestígio; e o homem não-mundano buscava Deus, o céu, a eternidade, a verdade. Mas uma coisa havia em comum: ambos estavam olhando para fora de si mesmos, ambos eram extrovertidos. Lembre-se dessa palavra, porque ela vai ser útil para você compreender Buda.

Antes de Buda, a busca religiosa não estava interessada no interior, mas no exterior. Ela era extrovertida e, quando a busca religiosa é extrovertida, ela não é religiosa. A religião começa somente com a introversão, quando você começa a cavar profundamente dentro de si mesmo.

As pessoas procuraram durante séculos por Deus: Quem é o construtor do universo? Quem é o criador do universo? E há muitos que ainda estão vivendo numa era pré-búdica, que ainda estão fazendo essas perguntas, "Quem é o criador do mundo? Quando ele criou o mundo?". Há algumas pessoas estúpidas que até determinaram o dia, a data e o ano em que Deus criou o mundo. Há teólogos cristãos que dizem que exatamente há quatro mil e quatro anos antes de Jesus Cristo - segunda-feira, 1º de janeiro! - Deus criou o mundo ou começou a criar o mundo; e ele terminou o trabalho no sexto dia. Uma só coisa é verdadeira quanto a isso: ele deve ter terminado o trabalho em seis dias, porque você pode ver a confusão em que o mundo está - trata-se de um trabalho de seis dias! E desde então, ninguém mais ouviu falar dele. No sétimo dia, ele descansou e, desde então, tem continuado a descansar...

Talvez Friedrich Nietzsche esteja certo, ele não está descansando - está morto! Ele não tem demonstrado nenhum interesse. Então, o que aconteceu com sua criação? Parece estar completamente esquecida. Mas os cristãos dizem: "Não, ele não se esqueceu. Olhe! Ele enviou Jesus Cristo, seu primogênito, para salvar o mundo. Ele ainda está interessado". Esse foi o único interesse que ele demonstrou, enviando Jesus Cristo... - mas o mundo não está salvo. Se esse era o propósito ao enviar Jesus Cristo ao mundo, então Jesus fracassou e, por tabela, Deus fracassou - o mundo é o mesmo. E que espécie de interesse era esse - seu mensageiro foi crucificado e Deus não conseguiu fazer nada?

Ainda há muitos vivendo nessa visão de mundo pré-búdica.

Buda mudou toda a dimensão religiosa, ele deu a ela uma virada tão linda! - ele fez perguntas verdadeiras. Ele não era metafísico, nunca fez perguntas metafísicas; para ele, a metafísica era pura tolice. Ele foi o primeiro psicólogo que o mundo conheceu, porque baseou sua religião não na filosofia, mas na psicologia. Psicologia, em seu significado original, quer dizer ciência da alma, a ciência do mundo interior.


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Budismo - publicado às 2:23 AM 194 comentários
GIBRAN: A DOR
qui, 23 de julho, 2009
 


    Xangai - Cantiga de Amigo
Por Gibran Khalil Gibran (livro "O profeta")


Uma mulher disse: "Fala-nos da Dor."
E ele respondeu:
"Vossa dor é o quebrar da concha que encerra vossa compreensão.
Como a semente da fruta deve se quebrar para que seu coração apareça ante o sol, assim também deveis conhecer a dor.

Se vossos corações pudessem se manter sempre maravilhados com o milagre diário de vossas vidas, vossa dor não vos pareceria menos maravilhosa que vossa alegria;
E aceitaríeis as estações de vosso coração, como sempre aceitastes as estações que passam sobre vossos campos.
E esperaríeis com serenidade durante os invernos de vossa aflição.

Muitas de vossas dores vós mesmos as escolhestes.
É o remédio mais amargo com o qual vosso médico interior cura o vosso Eu doente.
Portanto, confiai no médico, e bebei seu remédio em silêncio e tranqüilidade:
Porque sua mão, embora pesada e dura, é guiada pela suave mão do Invisível.
E a taça que ele vos dá, embora queime vossos lábios, foi fabricada com o barro que o Oleiro umedeceu com Suas lágrimas sagradas."


 
Holismo, Sufismo - publicado às 1:22 PM 29 comentários
MIRDAD: O HOMEM E OS VÉUS
ter, 21 de julho, 2009
 


Também o Homem é, pois, uma triunidade sagrada: uma consciência, uma palavra e uma compreensão. Também o Homem é um criador, como o seu Deus. O seu eu é a sua criatura. Mas, por que o Homem não é equilibrado como seu Deus?

O Homem é um deus enfaixado. O Tempo é uma faixa. O Espaço é uma faixa. A carne é uma faixa e do mesmo modo são faixas todos os sentidos e as coisas por ele percebidas. A mãe sabe que as faixas não são a criança. A criança, porém, não sabe. O Homem ainda é muito consciente de suas faixas, que mudam de dia para dia e de idade para idade. Em vista dissso, a sua consciência está constantemente fluindo; e a palavra pela qual a consciência se expressa nunca é clara e com significado definido; e sua compreensão é nebulosa; e a sua vida está em desequilíbrio. É a confusão três vezes confusa.

E eis que o Homem brada por socorro. Seus gritos de angústia reverberam pelos séculos. O ar está pejado de seus gemidos. O mar está salgado com suas lágrimas. A terra está sulcada pelas suas sepulturas. Os céus estão ensurdecidos pelas suas preces. E tudo porque ele ainda não sabe o significado de seu EU que é, para ele, a faixa e a criança que nela está enfaixada.

Ao dizer eu, o Homem racha a Palavra em duas partes: suas faixas e a Divina Centelha Imortal. Dividirá o Homem aquilo que é indivisível? Deus o proíbe. Nenhum poder, nem mesmo o de Deus, poderá dividir o indivisível. É a imaturidade do Homem que o faz imaginar a divisão, e assim o Homem se põe em guerra contra o Ser-total, julgando-o inimigo do seu ser. Nessa guerra o Homem rasga suas carnes em tiras e derrama o seu sangue em torrentes, enquanto Deus, o Pai-Mãe, amorosamente observa, pois Ele sabe que o Homem está somente rasgando os seus pesados véus e derramando o amargo fel que o faz cego e não o deixa ver a sua unidade com o Uno.

É esse o destino do Homem - lutar, sangrar, desfalecer e afinal, despertar e estabelecer a divisão no eu, com sua própria carne, selando-a com o seu próprio sangue.

Fostes avisados para serdes prudente no uso do eu, pois enquanto com isso vos referirdes às faixas e não exclusivamente à criança; enquanto for para vós mais peneira do que cadinho, só estareis peneirando a vossa vaidade, para colherdes a Morte com toda a sua ninhada de dores e agonias.


 
Holismo, Sufismo - publicado às 9:00 PM 16 comentários
GIBRAN: DA AMIZADE
seg, 20 de julho, 2009
 


Em homenagem ao 20 de julho, dia do Amigo

Por Gibran Khalil Gibran (livro "O profeta")

Um jovem disse: "Fala-nos da Amizade."
E ele respondeu, dizendo:
"O vosso amigo é a resposta às vossas necessidades.
Ele é vosso campo, que cultivais com amor e colheis com gratidão.
E é o vossa mesa e vossa lareira.
Pois ides até ele com fome e nele procurais a paz.

Quando o vosso amigo expõe sua opinião, não temeis o "não" que está em vossa mente, nem segurais o "sim".
E quando ele está calado o vosso coração não deixa de ouvir o coração dele;
Pois na amizade, todos os pensamentos, todos os desejos, todas as esperanças nascem e são partilhadas sem palavras, em uma alegria não declarada.
Quando vos separais de um amigo não fiqueis aflitos, pois aquilo que mais amais nele ficará mais claro com a sua ausência, tal como a montanha, para quem a escala, é mais nítida vista da planície.
E que não haja outro propósito na amizade que não o aprofundamento do espírito.
Pois o amor que busca outra coisa que não a descoberta de seu próprio mistério não é amor, mas uma rede lançada que só apanha o que não é essencial.

O que há de melhor em vós, que seja para o vosso amigo.
Se ele tem de conhecer a vazante de vossa maré, que conheça também a enchente.
Pois o que seria vosso amigo se apenas o procurásseis para matar o tempo?
Procurai-o sempre com horas para viver.
Pois ele é pra preencher vossa necessidade, não vosso vazio.
E na doçura da amizade que haja o riso, e a partilha de prazeres.
Pois é no orvalho das pequenas coisas que o coração encontra a frescura do seu amanhecer."


 
Holismo, Sufismo - publicado às 7:36 PM 14 comentários
A ARTE DA SUBLIMAÇÃO (parte 2)
sex, 17 de julho, 2009
 


Por Caio Garrido



O ser humano é dotado de uma série de potencialidades que se desdobram da possibilidade e exclusividade única e inequívoca de se obter prazer via sexualidade. É verdade que o conceito de sexualidade para Freud tem uma conotação ampla, e não podemos nos enganar ou fantasiar sobre isso de maneira inapropriada. O próprio ato de comer pode ser considerado algo vinculado à sexualidade. Mas devemos refletir sobre o assunto e nos perguntar se não é algo profundo pensar se somos somente obra de um instinto de vida interessado apenas em nos propagar, nos remetendo sempre à necessidade sexual, como se qualquer outro prazer ou ato fosse apenas uma benesse disponível "substitutiva" para mitigar o instinto e as pulsões sexuais sempre presentes.

Segundo o psicanalista Luís Fernando Scozzafave (blog Sinapse Oculta) "A Pulsão sexual não apenas vai ser dirigida para a reprodução e para o ato sexual em si. Há a dinâmica de: 1- Encontrar o 'alvo' , 2- Descarregar a energia (Libido) 3- Repouso". Então essa libido, ora descarregada, ora não, encontra modos de se veicular através de outros meios.

É certo que muitas de nossas ações são investidas de libido, de um certo teor vindo da sexualidade. É tudo de alguma forma erótico, um instinto de Eros. A arte é de alguma forma erótica também.

No tocante à fantasia criadora dita por Jung, quando exprimida através da arte, pode assumir uma variada gama de possibilidades. Aí vem uma pergunta difícil: O que pode ser considerado "Arte"?

O móvel rústico de seu quarto pode ser uma obra de arte. A invenção da roda pode ser arte. Até mesmo o modo que o vendedor de biju no trânsito arranjou para atrair seu cliente pode também pode ser arte. Isso é subjetivo. Bocato, um grande trombonista brasileiro disse uma vez de forma humilde: "Um dia espero estar fazendo arte".

A Arte não se restringe na sua "arte final", no seu "objeto" idealizado final. Vejamos por exemplo um belo edifício moderno projetado por um arquiteto, junto ao seu engenheiro responsável. A capacidade do engenheiro fazer complexos cálculos com parâmetros extremamente racionais pode ser a fundação para uma obra de arte. Energia sublimada pelo arquiteto em sua criação, e o prédio, em seu acabamento, lapidado pela tinta misturada pelo auxiliar de manutenção, é tudo um processo. A arte ou atividade dita "sublimada" é um processo em que toda a civilização e cultura está envolvida. Apesar disso, muito se discute o valor da arte na contemporaneidade. Talvez porque há de se temer seus conteúdos. Dizem que ela, em suas diversas expressões (música, obras, ciência, literatura, pintura, poesia, etc) é supérflua, isto é, que não existe para nossa sobrevivência. É certo que, para sobrevivermos - e bem - talvez precisemos de muito além de pão. Precisamos de pão e circo. Nossos "instintos" nos obrigam... Nós precisamos de sexo, carinho, amizade, sermos reconhecidos entre nossos pares, precisamos de descanso, de deslumbramento, e de surpresa. (Nosso cérebro é comprometido com a possibilidade de existência de surpresas, é inato ao ser humano essa necessidade).

Difunde-se a superfluidade da arte. Mas eu me pergunto se o verdadeiro sentido que podemos dar à vida é o de que somos todos "artistas" de alguma forma.

No nível sutil da vida, o que ocorre quase sempre é uma procura inexpurgável de se encontrar um outro, de se relacionar com o outro. De fazermos da vida um algo compartilhado. O trabalho, como algo aferrado somente à subsistência, vira algo morno com sintomas de podridão. É preciso algo mais. E algo mais movimenta o homem em seus desejos. O vínculo ora desejado, ora rejeitado, tem como padrão a imensa necessidade de estarmos unidos, mesmo quando achamos que estamos sós.

Voltando à sublimação, os prazeres ou capacidades na vida podem ser mais simples do que se imagina. A capacidade de ver, enxergar, ouvir e pensar já pode ser considerada em seu princípio um ato sublimado ou sublimatório.

A energia instintiva para a realização da pulsão sexual é limitada em um determinado período de tempo e espaço; sendo assim, a energia psíquica é direcionada para várias atividades humanas. No fundo, a Arte tem uma conotação sexual. Tem, não porque seja usada como substituto da pulsão sexual... Tem conotação "sexual" porque tem o objetivo de atingir o outro. Faz parte do instinto de Eros, é erótico... Seria um "Nú Artístico"... Desnudar-se para o outro ver. Ou pode até ser auto-erótico, se a arte ficar restrita ao olhar do criador.

Sendo o objetivo deste texto o de apenas refletir sobre o assunto, não convém chegar a conclusões finais, ou saturar os conceitos em construção. Seguindo a pergunta inicial proposta aqui no início desta exposição, acho que todos nós "sublimamos" de alguma forma. Alguns mais, outros menos. Para finalizar, não podemos deixar de citar alguns tremendos "sublimadores": Shakespeare, Beethoven, Paul McCartney, Fernando Pessoa, Buda, Gandhi, Ayrton Senna, Freud, Jung, etc, etc, etc...


Parte 1


 
Psicologia - publicado às 2:51 PM 17 comentários
A ARTE DA SUBLIMAÇÃO (parte 1)
qui, 16 de julho, 2009
 


Por Caio Garrido

No pequeno recôndito da sala, o maestro delineia e imagina em sua mente e "alma" sua próxima composição. Neste exemplo de fértil criação, o artista compõe com o véu e linguagem extraídas de conhecimentos cognitivos de música, e de sua relação com sua alma e seus sentimentos, o extrato de algo que se transformará em algo "semi-palpável" de rara beleza e abstração, que entrará em contato com outras subjetividades de outras pessoas, liberando emoções, sensações e sentimentos únicos compartilhados.

Sublimar é uma Arte? Ou fazer "Arte" é sublimar?

Primeiro devemos nos perguntar o que vem a ser Sublimação e o que se desenha a partir da palavra "Arte".

Arte (Latim Ars, significando técnica e/ou habilidade) geralmente é entendida como a atividade humana ligada a manifestações de ordem estética, feita por artistas a partir de percepção, emoções e ideias, com o objetivo de estimular essas instâncias de consciência em um ou mais espectadores. A arte está por todos os cantos, pois não se restringe apenas em uma escultura ou pintura, mas também em música, cinema e dança. O ser que faz arte é definido como o artista. O artista faz arte segundo seus sentimentos, suas vontades, seu conhecimento, suas idéias, sua criatividade e sua imaginação, o que deixa claro que cada obra de arte é uma forma de interpretação da vida. (Fonte: Wikipedia)

Com o advento da Psicanálise na cultura, a "Arte" sempre é citada como algo simbólico da Sublimação. Às vezes é até confundida com a própria Sublimação.

Freud criou a noção de Sublimação a partir da indicativa de que para existir a civilização houve a "necessidade" de sublimar os instintos. Segundo Teresa Pinheiro, em seu artigo sobre a "Sublimação e idealização e a pós-modernidade", Birman diz que a sublimação na obra freudiana tem o "estatuto de passagem" funcionando sempre como argumento para demonstração de um outro conceito. Ou seja, Freud jamais construiu uma teoria da sublimação".
Vamos nos ater aqui nesta exposição com ênfase na questão da sublimação da pulsão sexual. A definição de sublimação dada por Freud em 1914 é a seguinte: "A sublimação é um processo que concerne a libido de objeto e consiste no fato de que a pulsão se dirige para um outro objetivo, distante da satisfação sexual; o que é acentuado aqui é o desvio que distancia do sexual".

Freud usa a Sublimação para designar a mudança de um estado psíquico para outro através de uma "transformação" de uma certa pulsão, a pulsão sexual. A sublimação é algo simbólico de "quando se consegue intensificar suficientemente a produção de prazer a partir das fontes do trabalho psíquico e intelectual". Segundo ele, tais satisfações parecem mais refinadas e mais altas. Como diz ele em seu livro "O Mal Estar da Civilização" a intensidade da sublimação "se revela muito tênue quando comparada com a que se origina da satisfação de impulsos instintivos grosseiros e primários; ela não convulsiona o nosso ser físico". Diz ainda: "A sublimação do instinto constitui um aspecto particularmente evidente do desenvolvimento cultural; é ela que torna possível às atividades psíquicas superiores, científicas, artísticas ou ideológicas, o desempenho de um papel tão importante na vida civilizada. Essas pessoas se tornam independentes da aquiescência de seu objeto, desviando-se de seus objetivos sexuais e transformando o instinto num impulso com uma finalidade inibida."

Freud, em seus raros momentos de real dúvida, fala sobre a sublimação e a pulsão sexual: "Às vezes, somos levados a pensar que não se trata apenas da pressão da civilização, mas de algo da natureza da própria função (sexual) que nos nega satisfação completa e nos incita a outros caminhos. Isso pode estar errado; é difícil decidir."

Acredito que a atividade artística é aquela em que há um acesso controlado de conteúdos do próprio inconsciente, inconscientemente, havendo quase que uma passagem sublime de uma instância à outra.

Jung, que foi quase ao mesmo tempo um grande afeto e desafeto de Freud ao longo de sua vida, não se harmoniza com a idéia de Freud de sublimação. No seu livro "A Natureza da Psique" - mais precisamente no capítulo "Psicologia Analítica e Cosmovisão" - Jung fala de sonhos, repressão, arte, e sintomas: "Em si, o sonho é uma função normal que pode ser perturbada por represamentos, como qualquer outra função. A teoria freudiana dos sonhos considera, e até mesmo explica, os sonhos exclusivamente sob este ângulo, como se nada mais fossem do que meros sintomas. Outros campos da atividade do espírito, como sabemos, são tratados da mesma maneira pela psicanálise — por exemplo, as obras-de-arte. Mas é aqui onde penosamente se manifesta a inconsistência desta teoria, pois uma obra-de-arte não é um sintoma, mas uma genuína criação. Uma atividade criativa só pode ser entendida a partir de si mesma. Mas se ela é considerada como um mal-entendido patológico, que é também explicado como uma neurose, a tentativa de explicação em breve assume um aspecto lamentavelmente curioso."

Em relação à beleza abstrata da arte e de outras tantas atividades humanas, Jung remete tudo isso à uma força criadora e propulsionadora existente em todos nós. Diz ele: "Se atribuímos uma poesia de Goethe a seu complexo materno, se procuramos explicar Napoleão como um caso de protesto masculino e um São Francisco de Assis como um caso de repressão sexual, apodera-se de nós um profundo sentimento de insatisfação. Esta explicação é insuficiente, não faz justiça à realidade e ao significado das coisas. O que são, afinal, a beleza, a grandeza e a santidade? São realidades de suma importância vital, sem as quais a existência humana seria tremendamente estúpida. Qual é a resposta correta para o problema de tantos sofrimentos e conflitos inauditos? A verdadeira resposta deveria tocar uma corda que nos lembrasse pelo menos a grandeza do sofrimento." Ainda completa: "Presenciei muitos casos em que fantasias sexuais anormais desapareceram súbita e completamente no momento em que uma idéia nova ou um conteúdo novo se tornaram conscientes, ou em que uma enxaqueca cessou inteiramente de repente, assim que o enfermo se tornou consciente de um poema inconsciente."

Logo depois, ele fala algo que acho de maior importância: "Da mesma forma que a sexualidade pode exprimir-se impropriamente através de fantasias, assim também uma fantasia criadora pode exprimir-se impropriamente através da sexualidade."

Podem ser considerados atos sublimados, além da criação artística propriamente dita, o trabalho e até o lazer, por que não? O prazer obtido no lazer pode ser considerado um prazer substituto a um prazer sexual? Acho que pode ser considerado um prazer de "ordens" ou de qualidades diferentes, assim como é prazeroso e diferente se apreciar um cheiro de um incenso, ou se comer um chocolate ao invés de uma pizza, se ouvir rock ou um bom jazz. Tudo vira uma questão de qualidades de ordens diferentes.


Continua...


 
Psicologia - publicado às 12:28 AM 21 comentários
GIBRAN: A LIBERDADE
seg, 13 de julho, 2009
 


Por Gibran Khalil Gibran (livro "O profeta")

Um tribuno disse: "Fala-nos da Liberdade."

E ele respondeu:
"Tenho-vos visto prostrados junto às portas da cidade e junto de vossas lareiras para adorar vossa própria liberdade, como escravos que se humilham diante de um tirano louvando-o, embora ele os destrua.

Sim, no arvoredo do templo e à sombra da cidadela, tenho visto os mais livres entre vós carregar sua liberdade como um jugo e uma algema. E meu coração sangrou dentro de mim; pois só podereis libertar-vos quando até mesmo o desejo de procurar a liberdade se tornar um jugo para vós, e quando cessardes de falar em liberdade como uma meta e um fim.

Sereis, na verdade, livres, não quando vossos dias estiverem sem preocupação e vossas noites sem necessidades e aflição. Mas, antes, quando essas coisas apertarem vossa vida e, entretanto, conseguirdes elevar-vos acima delas, desnudos e sem amarras.

E como vos elevareis acima de vossos dias e de vossas noites se não quebrardes as cadeias com que, na madrugada de vosso entendimento, prendeste vossa hora meridiana?
Em verdade, aquilo que chamais liberdade é a mais forte destas cadeias, embora seus elos cintilem ao sol e vos deslumbrem.

E do que é que quereis livrar-vos para serdes livres, senão de pedaços de vós mesmos?

Foto: Jamil BittarSe é uma lei injusta que quereis abolir, lembrai-vos de que esta lei foi escrita por vossa própria mão em vossa própria testa. Não podeis apagá-la queimando vossos códigos de Leis, nem lavando as faces de vossos juízes, embora despejeis o mar sobre delas.
E se quiserdes destronar um déspota, cuidai primeiro que seja destruído seu trono erguido dentro de vós.
Pois, como poderia um tirano dominar os livres e altivos, se não pela tirania que está em sua própria liberdade e a vergonha em sua própria altivez?

E se é uma preocupação que quereis vos livrar, essa preocupação foi escolhida por vós mais do que a vós imposta.
E se é um temor que precisais dissipar, o assento desse temor está em vosso coração, e não nas mãos do temido.
Na verdade, todas as coisas movem-se dentro de vós em um constante meio-aperto, as coisas desejadas e as temidas, aquelas que vos repugnam e aquelas que vos atraem, aquelas de que fugis e aquelas que procurais.

Tais coisas movem-se dentro de vós como pares inseparáveis de luzes e sombras. E quando a sombra desvanece e se dissipa, a luz que se demora torna-se uma sombra para outra luz.
E assim vossa liberdade, solta de suas amarras, torna-se uma amarra para a liberdade maior."


 
Holismo, Sufismo - publicado às 11:58 PM 49 comentários
O LIVRO DE MIRDAD
sáb, 11 de julho, 2009
 


Uma das mais antigas e conceituadas empresas editoriais de Londres respondeu ao autor de um manuscrito que lhe foi enviado para análise: ..."este livro representa tal modificação do dogma cristão comum que, poder-se-ia dizer, seria necessário fundar uma nova igreja na comunidade inglesa, para que houvesse a possibilidade de ele ser vendido em quantidade que compensasse sua publicação. Somos-lhe muito gratos por ter-nos dado, em primeiro lugar, a oportunidade de ver um livro tão fora do comum".

Ao que o autor respondeu:
"É absolutamente verdadeiro que o livro se desvia do dogma cristão comum. Desvia-se também de todos os dogmas estabelecidos, sejam eles religiosos, filosóficos, políticos ou de qualquer espécie. E por que há de ser um dogma assim tão sagrado e imutável? Poderá algum dia a verdade ser encerrada em determinadas palavras e em nenhuma outra? É exatamente nisso que está a razão de ser deste livro: revelar novos caminhos para, assim, poder-se aproximar dos eternos problemas da existência. Caso ele não passasse de uma simples variante ou confirmação de uma crença ou de um sistema qualquer de pensamento estabelecido, eu não me teria dado ao trabalho de escrevê-lo. Embora concebido e escrito em inglês, ele não se destina exclusivamente ao público de língua inglesa, nem pretende causar um choque ou alarme aos fiéis de qualquer crença, mas sacudir a humanidade que se acha entregue à letargia dogmática, prenhe de ódio, luta e caos".

Assim é O livro de Mirdad, do libanês Mikhaïl Naimy. Posso dizer que esse livro se tornou um marco na minha vida. Uma quebra de paradigmas que continuou fazendo efeito por muitos e muitos anos, até hoje. Foi como ter subido numa montanha bem alta e visto as coisas de cima, sem deter-se nos detalhes que nos distraem e impedem a contemplação do Todo. Tenho pra mim que a filosofia e religião é como a escola e colegial, sendo que "O livro de Mirdad" é a faculdade e o "Caibalion" a pós-graduação.

O livro foi publicado em 1948, e faz parte da biblioteca do Lectorium Rosicrucianum (Rosacruz Áurea), e mostra com rara beleza e poesia o caminho para a ascensão do Homem à Deus (porque ele é Deus e não o sabe). Por muitas vezes pensei durante a leitura: "Se alguém me dissesse que era uma revelação Divina, como os livros sagrados, eu não duvidaria". E o próprio Naimy confessava, quando pessoas lhe pediam para que escrevesse mais um livro tão bonito: "Eu bem que gostaria que Deus me deixasse escrever outro livro como esse".


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Holismo, Internacional - publicado às 12:34 AM 32 comentários
GUERREIROS DO ARCO-ÍRIS
seg, 6 de julho, 2009
 


Por Gustavo Gallo Bolzani

    Israel Kamakawiwo'ole - Somewhere Over The Rainbow
Segundo Carl Gustav Jung, os mitos são manifestações dos arquétipos, eles são expressões do inconsciente coletivo e podem revelar dramas internos e inconscientes da natureza da psique. Além de expressar simbolicamente dramas coletivos vividos pela humanidade, um mito pode ter caráter profético. Ao longo da história humana as profecias serviram de grande impulsor e inspirador para reformas no espírito humano e nas ordens sociais vigentes.

Há um mito indígena da tribo dos Cree que retrata bem a realidade atual, e parece estar se cumprindo.


    Vai, Planeta!! (danada!)
Havia uma velhinha, chamada "Olhos de Fogo", que profetizou que um dia, por causa da ambição dos homens brancos (ou Yo-ne-gis), chegaria uma época em que os peixes morreriam nos regatos, os pássaros cairiam do ar, as águas estariam escurecidas e as árvores não mais existiriam. A humanidade, como a conhecemos, teria cessado de existir.

Teria chegado a época em que os guardiões das lendas, estórias, rituais das culturas e mitos, e todos os costumes dos povos tribais ancestrais seriam necessários para nos restaurar a saúde. Eles seriam a chave para a sobrevivência da humanidade. Eles seriam os "Guerreiros do Arco-Íris". Haveria chegado um tempo de despertar quando todos os povos de todas as tribos iriam formar um novo mundo de Justiça, Paz, Liberdade e reconhecimento do Grande Espírito.

Os "Guerreiros do Arco-Íris iriam espalhar estas mensagens e ensinar a todos os povos da Terra (Elohi)". Eles iriam ensinar ao mundo como viver o "Caminho do Grande Espírito". Eles iriam dizer como o mundo de hoje se voltou para longe do "Grande Espírito" e que teria sido por isso que a Terra estava doente.

É chegado o tempo, irmãos e irmãs. Não é tempo de ficarmos sentados em poltronas em frente à TVs enchendo a boca de comida ou ainda em bares tomando uma cerveja e teorizando a respeito de 2012 ou os Maia. É tempo de ação, o novo mundo profético que nos aguarda, a salvação da humanidade está em nossas mãos, em nossas ações. Agora é o tempo, agora é o único tempo. O futuro depende do que é feito agora, neste minuto, enquanto lemos este texto.

Saiam de suas casas, levem a mensagem aos nossos irmãos, digam não aos valores instituídos, vamos mudar nossos hábitos, nossos valores, nossas metas. O mundo não suporta mais a humanidade tal como está. O homem age como um câncer sobre a Terra, se reproduzindo e consumindo tudo o que encontra pela frente, e na tentativa desesperada de se perpetuar não percebe que está acabando com as condições para a sua própria vida.

Não espere que o cinturão de fótons bata em sua cabeça e mude tudo do dia para a noite, a revolução é interna, é primeiramente pessoal, para atingir o coletivo. O momento é agora! Sejamos os Guerreiros do Arco-Íris.

Seja a mudança que deseja ver no mundo
(Mahatma Gandhi)

 
Geral - publicado às 8:10 PM 173 comentários
MINHA CAAAASA....
sex, 3 de julho, 2009
 


Na TV vemos a propaganda da Vale do Rio Doce, "homenageando" os Pereiras, Oliveiras e Bolseiros, se vangloriando de ter zerado seu footprint. Vemos o presidente da república legalizando e afagando os grandes desmatadores da amazônia (pra instalar monoculturas adequadas ao biocombustível), e se vangloriando da descoberta do caríssimo petróleo do pré-Sal, enquanto a energia solar e eólica, abundantes em nosso país, são ignoradas.

Enquanto isso, qualquer bem de consumo agora quer ser "verde", porque é chique e tá na moda. Celular, roupas e até mesmo um veículo Utilitário (SUV) "ecológico" (?!!), com um motor 3.0!!

Será que temos ALGUMA educação pra entender o que estamos fazendo (nesse momento) conosco e com nosso planeta? Somos bombardeados com o hype ecológico, mas não somos EDUCADOS a adequar nossa mentalidade para um novo tempo. Somos orientados a não gastar água ou a mijar enquanto toma banho, mas não há uma cultura que nos faça reverenciar a água doce pela preciosidade que ela É. Não há uma gratidão pela oportunidade de tomar uma boa ducha (algo que a maioria da população não dispõe) e nem há uma preocupação pelo destino dessa água, o que pode ocasionar que o tal banho de ducha venha a ser um privilégio do qual não desfrutarão nossos netos, num futuro não muito distante.

Ecologia é uma forma de religiosidade. Não a adoração ritualística, mas a religião no sentido literal de religação com o Divino, representado no seu meio-ambiente. É ter a consciência de que nosso destino enquanto ser humano está intimamente ligado à forma como administramos os recursos do planeta, o que inclui animais e mesmo a convivência com outros seres humanos. Uma filosofia que nos aproxima dos "supersticiosos" e "selvagens" índios que outrora povoaram nosso continente.

É para ajudar a criar uma VERDADEIRA consciência ecológica que o documentário Home: O Mundo é a nossa casa foi produzido. Com a ajuda de belas imagens e a narração de Glenn Close, o diretor Yann Arthus-Bertrand passa a mensagem de que, se queremos sobreviver, precisaremos repensar não só o nosso papel no mundo, como também reformar toda a estrutura de nossa sociedade.

Abaixo alguns textos do filme, para reflexão:

Em menos de 40 anos, a maior floresta tropical do mundo, a Amazônia, foi reduzida em 20%. A floresta dá lugar a ranchos de gado ou ao cultivo de soja. 95% dessa soja é usada para alimentar o gado e aves domésticas da Europa e Ásia. E, desta forma, uma floresta é transformada em carne.

A monocultura de árvores está ganhando terreno em todo o mundo. Mas uma monocultura não é uma floresta. Por definição, existe muito pouca diversidade. Uma floresta não substitui outra floresta.

Na base dos eucaliptos não cresce nada, porque as suas folhas formam uma camada que é tóxica para a maioria das outras plantas. Crescem rapidamente, mas esgotam as reservas de água. Soja, óleo de palma, eucaliptos... O desmatamento destrói o essencial para dar lugar ao supérfluo.

Os pântanos representam 6% da superfície do planeta. Por baixo das águas tranquilas reside uma autêntica fábrica, onde plantas e microrganismos filtram pacientemente a água e digerem toda a poluição. Os charcos são ambientes indispensáveis para a regeneração e purificação da água. Os charcos são também esponjas que regulam o fluxo da água. Absorvem-na na estação das chuvas e liberam-na na estação seca. Na nossa corrida para conquistar mais terra, usamos o charco como pasto para o nosso gado, ou como terra para agricultura ou construção. No último século, metade dos pântanos existentes no mundo foram drenados. Não conhecemos nem a sua riqueza, nem o seu papel.

O motor da vida é o sistema de ligação. Tudo está ligado. Nada é auto-suficiente. Água e ar são inseparáveis, unidos na vida e para a nossa vida na Terra. Partilhar é tudo.

É preciso cem litros de água para produzir um quilo de batatas, quatro mil para cultivar um quilo de arroz, e treze mil para criar um quilo de carne.

A Nigéria é o maior exportador de petróleo de África. Contudo, 70% da sua população vive abaixo do nível da pobreza. A riqueza está lá, mas os habitantes do país não têm acesso a ela. O mesmo acontece no resto do planeta. Metade da população pobre do mundo vive em países ricos em recursos. Só que metade da riqueza mundial está nas mãos dos 2% mais ricos da população.

Dubai tem poucos recursos naturais, mas, com o dinheiro proveniente do petróleo, pode importar milhões de toneladas de material e trabalhadores de todo o mundo.
Dubai não tem terra arável, mas pode importar comida.
Dubai não tem água, mas pode desperdiçar uma quantidade imensa de energia para dessalinizar a água salgada e construir os maiores arranha-céus do mundo.
Dubai tem quantidades intermináveis de luz solar, mas não tem painéis solares.
É a cidade dos excessos, que não pára de impressionar o mundo.
Nada parece mais distante da natureza do que Dubai, apesar de nada depender mais da natureza do que Dubai.
Dubai é a culminância do modelo ocidental.


O filme foi feito com um monte de patrocínio, com o intuito de ser exibido gratuitamente.


É baseado nesta visão de um novo homem, integrado à natureza e aos outros, que Marcel Cervantes lançou o livro Poemas Místico-Filosóficos, que traz uma visão mística do mundo e da realidade, cobrindo a viagem do indivíduo abatido e solitário, desconectado de si e do mundo, até o seu vôo final, digno e altaneiro, repleto de vida, poesia, amor e devoção. Para a divulgação foram feitos vídeos com textos e música, e quero trazer alguns deles, que se encaixam na proposta do post:




 
Geral - publicado às 9:21 PM 163 comentários
GIBRAN: DO AMOR E DO MATRIMÔNIO
qui, 2 de julho, 2009
 


    Buddy Holly - Dearest
Por Gibran Khalil Gibran (livro "O profeta")


Profeta de Deus em procura do infinito, quantas vezes sondaste as distâncias à espera de teu navio.
E agora teu navio chegou, e tu deves partir.

Profunda é tua nostalgia pela pátria de tuas recordações e a morada de teus maiores desejos; e nosso amor não te quererá prender, nem nossas necessidades te reterão. Uma coisa, porém, pedimos-te: antes de no a deixares, fala-nos e dá-nos algo de tua verdade. E nós a transmitiremos a nossos filhos, e eles a transmitirão aos seus filhos, e ela não perecerá.

Na tua soledade, vigiaste por nossos dias e, na tua vigília, escutaste os gemidos e os risos de nosso sono. Agora revela-nos a nós próprios, e conta-nos o que te foi revelado, do que existe entre o nascimento e a morte."

E ele respondeu:

"Povo de Orphalese, de que poderia falar-vos senão do que está agora se movendo dentro de vossas almas?"

Então Almitra disse: "Fala-nos do Amor."

E ele ergueu a fronte e olhou para a multidão; e um silêncio caiu sobre eles, e com uma voz forte, dirigiu-se a eles, dizendo:

"Quando o amor vos chamar, segui-o.

Embora seus caminhos sejam agrestes e escarpados; E quando ele vos envolver com suas asas, cedei-lhe, Embora a espada oculta na sua plumagem possa ferir-vos; E quando ele vos falar, acreditai nele, embora sua voz possa despedaçar vossos sonhos como o vento devasta o jardim.

Pois, da mesma forma por que o amor vos coroa, assim ele vos crucifica.
E, da mesma forma por que ele contribui para vosso crescimento, ele trabalha para vossa poda.
E, da mesma forma por que ele sobe à vossa altura e acaricia vossos ramos mais tenros que se embalam ao sol, assim também ele desce até vossas raízes e as sacode no seu apego à terra.

Como feixes de trigo, ele vos aperta junto ao seu coração.
Ele vos debulha para expor a vossa nudez.
Ele vos peneira para libertar-vos das palhas. Ele vos mói até a extrema brancura.
Ele vos amassa até que vos torneis maleáveis.
Então, ele vos leva ao fogo sagrado e vos transforma no pão místico do banquete divino.

Todas essas coisas o amor operará em vós, para que conheçais os segredos de vossos corações e, com esse conhecimento, vos convertais no pão místico do banquete divino.

Todavia, se no vosso temor procurardes somente a paz e o gozo do amor, então seria melhor para vós que cobrísseis vossa nudez e abandonásseis a eira do amor, para entrar no mundo sem estações, onde rireis, mas não todos os vossos risos, e chorareis, mas não todas as vossas lágrimas.

O amor nada dá senão de si próprio e nada recebe senão de si próprio.
O amor não possui e não se deixa possuir.
Pois ele basta-se a si mesmo.

Quando um de vós ama, que não diga: "Deus está no meu coração", mas que diga antes: "Eu estou no coração de Deus".

E não imagineis que possais dirigir o curso do amor, pois o amor, se vos achar dignos, determinará ele próprio o vosso curso.

O amor não tem outro desejo, senão o de atingir sua plenitude.
Se, contudo, amardes e precisardes ter desejos, sejam estes vossos desejos:
De vos diluirdes no amor e serdes como um riacho que canta sua melodia para a noite;
De conhecerdes a dor de sentir a ternura demasiada;
De ficardes feridos por vossa própria compreensão do amor;
E de sangrardes de boa vontade e com alegria;
De acordardes na aurora com o coração alado e agradecerdes por um novo dia de amor;
De descansardes ao meio-dia, e meditardes sobre o êxtase do amor;
De voltardes para casa à noite com gratidão;
E de adormecerdes com uma prece no coração para o bem-amado, e nos lábios uma canção de bem-aventurança."


Então, Almitra falou novamente e disse: "E que nos dizes do Matrimônio, mestre?"

E ele respondeu, dizendo:

"Vós nascestes juntos, e juntos permanecereis para todo o sempre.
Juntos estareis quando as brancas asas da morte dissiparem vossos dias.
Sim, juntos estareis até na memória silenciosa de Deus.

Mas que haja espaços na vossa junção.
E que as asas do céu dancem entre vós.

Amai-vos um ao outro, mas não façais do amor um grilhão:
Que haja, antes, um mar ondulante entre as praias de vossas almas.

Enchei a taça um do outro, mas não bebais na mesma taça.
Dai do vosso pão um ao outro, mas não comais do mesmo pedaço.
Cantai e dançai juntos, e sede alegres; mas deixai cada um de vós estar sozinho.
Assim como as cordas da lira são isoladas e, no entanto, vibram na mesma harmonia.

Dai vossos corações, mas não os confieis à guarda um do outro. Pois somente a mão da Vida pode conter vossos corações.
E vivei juntos, mas não vos aconchegueis demasiadamente;
Pois as colunas do templo erguem-se separadamente;
E o carvalho e o cipreste não crescem à sombra um do outro."


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Holismo, Sufismo - publicado às 3:53 PM 24 comentários