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O "EU", POR ALAN MOORE
sáb, 28 de março, 2009
 


O único lugar em que os deuses e demônios existem indiscutivelmente é na mente humana, onde são reais em toda a sua grandiosidade e monstruosidade
(Alan Moore)



    I'm turned on. Wanna play?
Se no budismo não existe um "Eu", ainda assim é importante desenvolver sua pessoa (seu aglomerado que se identifica com um "Eu") para transcender os limites impostos pela ilusão. No ocidente, onde acreditamos numa alma imortal, enfrentamos um desafio semelhante; No caso, o corpo e as formas materiais nos embotam a consciência (bloqueando as "portas da percepção") e nos "afastam" do contato com nosso verdadeiro "Eu", a alma. Mas engana-se se pensam que a alma é sempre um gasparzinho com sua imagem e semelhança, dentro de seu corpo de carne. Por isso vamos dar a palavra ao Mago Merl..., digo, Alan Moore, no documentário The Mindscape of Alan Moore:


Quando cumprimos a vontade de nosso verdadeiro Eu, nós estamos inevitavelmente cumprindo com a vontade do universo. Na magia ambas as coisas são indistinguíveis. Cada alma humana não é, de fato, UMA alma humana: é a alma do universo inteiro. E, enquanto você cumprir a vontade do universo, é impossível fazer qualquer coisa errada.

Muitos dos magos como eu entendem que a tradição mágica ocidental é uma busca do Eu com "E" maiúsculo. Esse conhecimento vem da Grande Obra, do ouro que os alquimistas buscavam, a busca da Vontade, da Alma, a coisa que temos dentro que está por trás do intelecto, do corpo e dos sonhos. Nosso dínamo interior, se preferir assim. Agora, esta é particularmente a coisa mais importante que podemos obter: o conhecimento do verdadeiro Eu.

Assim, parece haver uma quantidade assustadora de pessoas que não apenas têm urgência por ignorar seu Eu, mas que também parecem ter a urgência por obliterarem-se a si próprias. Isto é horrível, mas ao menos vocês podem entender o desejo de simplesmente desaparecer, com essa consciência, porque é muita responsabilidade realmente possuir tal coisa como uma alma, algo tão precioso. O que acontece se a quebra? O que acontece se a perde? Não seria melhor anestesiá-la, acalmá-la, destruí-la, para não viver com a dor de lutar por ela e tentar mantê-la pura. Creio que é por isso que as pessoas mergulham no álcool, nas drogas, na televisão, em qualquer dos vícios que a cultura nos faz engolir, e pode ser vista como uma tentativa deliberada de destruir qualquer conexão entre nós e a responsabilidade de aceitar e possuir um Eu superior, e então ter que mantê-lo.

Tenho estudado a escola da história do pensamento mágico e o ponto em que começou a dar errado. No meu entender, o ponto em que começa a dar errado é com o monoteísmo. Quero dizer, se olhar a história da magia, verá suas origens nas cavernas, verá suas origens no xamanismo, no animismo, na crença de que tudo o que te rodeia, cada árvore, cada rocha, cada animal foi habitado por algum tipo de essência, um tipo de espírito com o qual talvez possamos nos comunicar. E ao centro você tinha um xamã, um visionário, que seria o responsável por canalizar as idéias úteis para a sobrevivência. No momento em que você chega às civilizações clássicas, verá que tudo isto foi formalizado até certo grau. O xamã atuava puramente como um intermediário entre os espíritos e as pessoas. Sua posição na aldeia ou comunidade, imagino, era a de um "encanador espiritual". Cada pessoa no grupo devia ter seu papel: A melhor pessoa durante uma caçada tornava-se o caçador, a pessoa que era melhor pra falar com os espíritos, talvez porque ele ou ela estivesse um pouco louco, um pouco separado do nosso mundo material normal, eles tornavam-se os xamãs. Eles não seriam mestres de uma arte secreta, mas sim os que simplesmente espalhariam sua informação pela comunidade, porque se acreditava que isto era últil para todo o grupo. Quando vemos o surgimento das culturas clássicas, tudo isso se formalizou para que houvesse panteões de deuses, e cada um destes deuses tinha uma casta de sacerdotes, que até certo ponto atuariam como intermediários, que te instruiriam na adoração a estes deuses. Então, a relação entre os homens e seus deuses, que pode ser vista como a relação entre os humanos e seus "Eus" superiores, não era todavia de um modo direto.

Quando chega o cristianismo, quando chega o monoteísmo, de repente tem uma casta sacerdotal movendo-se entre o adorador e o objeto de adoração. Tem uma casta sacerdotal convertendo-se em uma espécie de gerência intermediária entre a humanidade e a divindade que está se buscando. Já não se tem mais uma relação direta com os deuses. Os sacerdotes não têm necessariamente uma relação com Deus. Eles só têm um livro que fala sobre gente que viveu há muito tempo atrás que teve relação direta com a divindade. E assim está bom: Não é preciso ter visões milagrosas, não é preciso ter deuses falando contigo. Na verdade, se você tem algo disto, provavelmente está louco. No mundo moderno, essas coisas não acontecem; as únicas pessoas as quais se permite falar com os deuses, e de um modo unilateral, são os sacerdotes. E o monoteísmo é, pra mim, uma grande simplificação. Eu quero dizer, a Cabala tem uma grande variedade de deuses, mas acima da escala, da Árvore da Vida, há uma esfera que é o Deus Absoluto, a Mônada. Algo que é indivisível, você sabe. E todos os outros deuses, e, de fato, tudo mais no universo é um tipo de emanação daquele Deus. E isto está bem. Mas, quando você sugere que lá está somente esse único Deus, a uma altura inalcançável acima da humanidade, e que não há nada no meio, você está limitando e simplificando o assunto.

Eu tendo a pensar o paganismo como um tipo de alfabeto, de linguagem. É como se todos os deuses fossem letras dessa linguagem. Elas expressam nuances, sombras de uma espécie de significado ou certa sutileza de idéias, enquanto o monoteísmo é só uma vogal, onde tudo está reduzido a uma simples nota, que quem a emite nem sequer a entende.




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Ler em espanhol (por Teresa)


 
Holismo, Internacional, Metafísica - publicado às 4:44 PM 39 comentários
O "EU" NO BUDISMO E O LIVRO DOS MORTOS
qua, 25 de março, 2009
 


O Dalai Lama nos fala, numa extensa e detalhada introdução ao livro Tibetano dos Mortos (em inglês, The Tibetan Book of the Dead: First Complete Translation (Penguin Classics)), sobre o "eu" e a reencarnação. Ele começa esclarecendo um ponto muito importante e pouco divulgado do budismo: no ocidente têm-se a crença de uma alma indivisível, pura, separada da mente (que chamamos de "eu" ou "ego", enquanto a alma é referida como "Eu"). No budismo não há uma coisa assim, pois o que nós chamamos de "eu" é um agregado de valores, todos interrelacionados e em constante mudança, o que inclui especialmente os "5 agregados do apego":

O corpo (Rupa);
Os sentimentos (Vedana);
As percepções (Samjña);
Construções mentais; (Samskara);
A consciência (Vijñana).

Estes cinco agregados não são um "eu"; a crença em um eu (Satkayadrsti) emerge desses cinco agregados, que causam o apego e a crença de que estas partes são um "eu". A coisa é mais complexa, e o ciclo que envolve o apego e a crença num "eu" é demonstrado em 12 passos, que são os doze elos da originação interdependente. Tudo isso está agindo por meio da causa e efeito, numa cadeia complexa que poderia ser comparada a um relógio suíço.

Esse conceito, que os budistas chamam de Anatta (do sânscrito anâtman, ou não-alma) pode ser sintetizado na frase "não há coisa alguma com um eu". Está de acordo com a doutrina do desapego, levada ao extremo de desapegar daquilo que compõe um "eu" e nos mantém aprisionados na Matrix. Então a dúvida que surge na mente ocidental, acostumada a uma "alma", é "e como surgiu a PRIMEIRA idéia de alma que nós temos, e que nos levou a consciência, que deu origem às construções mentais, que deu origem à matéria, que deu origem às percepções e aos sentimentos?". Dalai Lama nos fala que se originou de um pequeno despertar de consciência, que está ligado a outro despertar de consciência, e outro, e outro, num continuum parecido com o dilema que os cientistas enfrentam com o Big Bang (o que veio antes do Big Bang? E antes? E antes?).

Jogue o jogo da "Existência" até o fim... do começo...
(John Lennon; Tomorrow Never Knows)


Você pergunta "Então, se não existe alma, como pode haver reencarnação?" Não há problema algum, se você prestou atenção ao segundo parágrafo. Nós acreditamos tanto ser um "eu" que mantemos nossos elementos agregados mesmo depois da morte. Mas não exatamente todos, como Dalai Lama frisa no livro. Como há elementos dependentes do seu veículo físico (corpo), como a percepção, os condicionamentos e preconceitos derivados do seu meio, os sentimentos que podem ser resultados de sua criação nessa vida, esses podem se perder ao abandonarmos o corpo (e cessar o estímulo, como um músculo que atrofia por falta de uso). Acredita-se que, se você morrer velho e esclerosado, pode perder sua memória em vida e não a recuperar na morte (ao contrário do que acreditamos no espiritismo, por exemplo), não porque a memória "morra" com o cérebro, mas por falta de condicionamento do agregado de recordar ainda em vida (e um distanciamento corpo x mente). Se alguém morre jovem, com total energia corpo x mente, pode reencarnar mantendo todo o seu "falso eu". Mas o que o Dalai Lama fala é que essas memórias podem durar no máximo alguns anos, porque há causas e efeitos que acabam por sobrepujar a relação corpo x mente anterior. Poderíamos comparar a idéia de "eu" com a idéia de karma e causa-efeito usando como exemplo o céu: Se hoje está chovendo, é por conta de elementos que se combinaram ontem ou horas antes para causar aquele efeito, mas, sem que percebamos, outros elementos podem estar se combinando neste momento para, no outro dia, fazer um belo dia ensolarado, e ainda assim chamamos o "palco" de céu. Da mesma forma nós mudamos continuamente (com a combinação de elementos perceptíveis e imperceptíveis, numa relação de causa e efeito) em vida e, mesmo sabendo que não somos mais os mesmos de 20 ou 30 anos atrás (mentalmente e inclusive fisicamente, pois quase todas as células do nosso corpo já morreram e renasceram), ainda nos consideramos "nós mesmos", numa linha temporal. Em nenhum momento no budismo se considera que o que está se reencarnando é outra pessoa, e sim aquele "agregado de consciência" que pode estar totalmente transformado ou não, a depender muito de inúmeras variantes que fazem essa engrenagem cósmica funcionar.

Este pensamento não é só uma teoria que está empoeirada num livro e trazida somente como curiosidade, pois é o cerne do budismo: a impermanência de tudo (inclusive o "eu"), a não identificação com nada (inclusive o "eu") e, consequentemente, o fato de que não se deve rotular alguém como algo, porque para o budismo não existe um assassino, mas uma consciência imersa na ignorância e que cometeu erros, mas que pode sair da ignorância, até porque toda a nossa experiência neste plano de existência é um grande convite para a mudança, mesmo que não nos apercebamos (leiam ou releiam a parábola Angulimala Sutta de Buda e vocês a entenderão com novos olhos). Há aí um forte componente psico-social no budismo, pois pra essa doutrina não existe nada quebrado que não possa ser consertado, pois ambos são condicionamentos baseados na causa e efeito. Como disse o proprio Buda no momento da iluminação: Essencialmente todos os seres vivos são Budas, dotados de sabedoria e virtude, mas como a mente humana se inverteu através do pensamento ilusório, não o conseguem perceber. Isto é aplicado na prática em Pernambuco, pelo NEIMFA, na promoção da resiliência em adolescentes que vivem em situação de risco dentro da cidade/favela do Coque.

Mais ainda: dentro dos conceitos da doutrina, os budistas são ensinados a não alimentar ilusões sequer de iluminação (a "meta" do budismo!), como podemos ver no ensinamento do patriarca chinês Lin-chi, no séc. IX:

Seguidores do caminho, se você desejar ver o Dharma claramente, não se deixem ser iludidos. Se você se voltar para o exterior ou para o seu interior, o que quer que você encontre, mate-o. Se você se encontrar com o Buda, mate o Buda; se você se encontrar com os patriarcas, mate os patriarcas; se você se encontrar com Arhats, mate os Arhats; se você se encontrar com seus pais, mate o seu pais; se você se encontrar com seus parentes, mate seus parentes; então, pela primeira vez, você verá claramente. E se você não depender das coisas, haverá emancipação, haverá liberdade.

A finalidade deste ensinamento não era, obviamente incentivar o homicídio (um dos preceitos budistas é não matar), mas sim o desapego, não só das coisas físicas como das tradições, das cerimônias, da expectativa de uma iluminação por conta de certas práticas. Esse é o ensinamento budista mais valioso, exposto da forma mais radical e efetiva (não tomada literalmente, claro).


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5 estrelas, Budismo, Internacional - publicado às 1:38 AM 86 comentários
ODE AO GATO
seg, 23 de março, 2009
 


Por Artur da Távola


Bichos polêmicos sem o querer, porque sábios, mas inquietantes, talvez por isso.

Nada é mais incômodo que o silencioso bastar-se dos gatos. O só pedir a quem amam. O só amar a quem os merece.

O homem quer o bicho espojado, submisso, cheio de súplica, temor, reverência, obediência. O gato não satisfaz as necessidades doentias do amor. Só as saudáveis.

Lembrei, então, de dizer, dos gatos, o que a observação de alguns anos me deu. Quem sabe, talvez, ocorra o milagre de iluminar um coração a eles fechado? Quem sabe, entendendo-os melhor, estabelece-se um grau de compreensão, uma possibilidade de luz e vida onde há ódio e temor? Quem sabe São Francisco de Assis não está por trás do Mago Merlin, soprando-me o artigo?

Já viu gato amestrado, de chapeuzinho ridículo, obedecendo às ordens de um pilantra que vive às custas dele? Não! Até o bondoso elefante veste saiote e dança a valsa no circo. O leal cachorro no fundo compreende as agruras do dono e faz a gentileza de ganhar a vida por ele. O leão e o tigre se amesquinham na jaula. Gato não. Ele só aceita uma relação de independência e afeto. E como não cede ao homem, mesmo quando dele dependente, é chamado de arrogante, egoísta, safado, espertalhão ou falso.


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Pensamentos - publicado às 2:09 PM 77 comentários
PENSAMENTO DO DIA 20/03/09
sex, 20 de março, 2009
 


Os fundadores do que hoje chamamos de religiões cristã e budista não nos propuseram instituições hierarquizadas baseadas em dogmas, medo e proibições. Eles nos deram um exemplo de um MODO DE VIVER A VIDA na sua melhor forma, baseado no bom-senso e na velha máxima "não faça aos outros aquilo que não gostaria que fosse feito a você".


 
Pensamentos - publicado às 12:09 PM 157 comentários
HUMANO x DIVINO
ter, 17 de março, 2009
 


Nas últimas semanas o caso da menina estuprada - cujos médicos fizeram um aborto, dentro da lei - ganhou as manchetes, por conta da excomunhão sensacionalista feita pelo bispo de Recife e Olinda (que não era nenhum Dom Hélder). Mais do que o aspecto laico do país x religiosidade da maioria católica, o que se tem discutido (e escandalizado as pessoas) é a falta de noção na aplicação das leis canônicas, a distância cada vez maior da Igreja para com a sociedade. Não que ela precise acompanhar modismos (como fazer shows e ter representantes "entrosados"), mas também não precisa estar distante da sensibilidade humana (com a idéia de "maiores são os designios de Deus" como se fosse um machado caindo sobre o pescoço).

Por isso, em vez de descascar a Igreja Católica (como está fazendo a imprensa) resolvi abordar a questão de forma um pouco mais distanciada, tratando de RELIGIÕES como um todo. Todas as religiões são, de certa forma, reveladas por um ser superior, ou pelo próprio Deus "em pessoa". Assim, a tradição fica sendo Divina, intocável. Apenas uma casta (a casta sacerdotal) pode se arvorar o direito de interpretá-las, em caso de dúvida ou de lacunas. São os "procuradores" de Deus, os advogados. Eles absolvem, eles condenam.

Abaixo temos um trecho do livro "Três portais para a meditação", onde o autor David A. Cooper recebe a notícia da morte de sua mãe:

Logo após receber a má notícia de meu irmão, liguei para um rabino a fim de perguntar sobre as leis e os procedimentos no que diz respeito à morte dos pais. Cometi o erro de dizer a ele que minha mãe pediu pra ser cremada, apesar de eu saber que isso era inaceitável para o judaísmo. Após alguns momentos de um embaraçoso silêncio do outro lado da linha telefônica, o rabino me disse: "Você não tem permissão para tomar parte nesse funeral".

Fiquei estarrecido. A questão para mim não era que minha mãe tivesse confrontado a lei judaica - eu teria preferido que ela não tivesse decidido pela cremação -, mas era a decisão dela e não deveria afetar de maneira alguma minha capacidade de honrar sua memória e prestar-lhe uma homenagem. Nem por um momento sequer considerei a possibilidade de deixar de ir ao funeral, mas, por curiosidade, liguei para outro rabino para uma segunda opinião. Ele ligou para alguns outros rabinos e, por muitas horas, a questão foi apaixonadamente debatida pela hierarquia religiosa de Jerusalém. Finalmente, um alto rabino deu sua permissão, tomando por base que minha mãe não tinha conhecimento das conseqüências de seu pedido e, neste caso, a ignorância mitigava a lei religiosa. Apesar de tudo, eu deveria observar nos dias seguintes algumas restrições sugeridas quanto ao ritual.

Se eu não estivesse triste e traumatizado pelas notícias que havia acabado de receber sobre minha mãe, provavelmente teria achado graça desses debates talmúdicos. Mas não havia graça alguma nisso; na verdade, eu estava arrasado e consternado pela limitações auto-impostas de interpretações puramente legalistas. Isto era sintomático de boa parte da razão pela qual eu tinha problemas com o mundo ortodoxo.

O distanciamento do sentimento humano para com o rigor da "Lei Divina" não é privilégio do Catolicismo, Judaísmo ou Islamismo. Na verdade, nem é privilégio das religiões. É sim um conflito que pode ser visto na filosofia, pois é algo da alma humana, essa disparidade entre seu lado divino e seu lado humano (mundano). Todos nós carregamos esse conflito, que se manifesta de muitas formas. Quando projetamos nosso lado divino num papel que alguém escreveu há milhares de anos atrás, quando há uma reciprocidade de idéias, tendemos a nos focar somente no exterior, ou seja, passar a procuração do seu lado divino (interno) pra algo externo que, de alguma forma, "mexeu" com você. Mas, quem garante que o externo "mexeu" exatamente com o seu divino, já que não somos totalmente divinos nem totalmente humanos? A luz mais clara cega, entao é preciso um pouco de trevas para dar o contraste que nos permite reconhecer os contornos... e os contornos são uma ilusão... uma idéia captada e expressa por uma mente humana.

Aí que reside o perigo das religiões, que tentam nos incutir culpa e submissão, para que nós apaguemos de nossa existência a relação com nosso próprio lado Divino e nos submetamos sem questionar ao "lado divino dos outros", afinal somos uns meros pecadores, uns vermes, um nada ante a imensidão do ensinamento que tenho pra você... ipsis literis.

Há uma história sobre Buda, onde uma manhã um homem perguntou a ele: "Existe um Deus?"

Buda olhou para o homem, olhou dentro e seus olhos e disse:
"Sim, existe um Deus."

Neste mesmo dia, à tarde, outro homem perguntou: "O que você acha de Deus? Existe um Deus?"

Novamente ele olhou para o homem e para dentro de seus olhos disse: "Não, não existe nenhum Deus."

Ananda, que estava com ele nas duas ocasiões, ficou muito confuso, mas ele sempre era muito cuidadoso para não interferir em nada. Ele tinha o seu tempo quando todo mundo partia à noite e Buda estava indo dormir; se ele tinha que perguntar alguma coisa, ele poderia perguntar neste momento. Mas, à noite, enquanto o sol estava se pondo, um terceiro homem veio com quase a mesma questão, formulada diferentemente. Ele disse: "Você pode dizer algo sobre Deus?"

Ananda estava agora escutando muito concentradamente o que Buda diria. Ele deu duas respostas absolutamente contraditórias no mesmo dia e agora uma terceira oportunidade surgiu - e não existe uma terceira resposta. Mas Buda deu uma terceira resposta. Ele não falou, ele fechou os seus olhos. Era uma linda noite. Os pássaros tinham se acomodado em suas árvores - Buda estava em baixo de uma mangueira - o sol se pôs, uma brisa fresca estava começando a soprar. O homem, vendo Buda sentando com os olhos fechados, pensou que talvez esta é a resposta, assim ele também se sentou com os olhos fechados.

Uma hora se passou, o homem abriu os olhos, tocou os pés de Buda e disse: "Obrigado pela resposta." E foi embora.

Ananda não podia acreditar, porque Buda não falou uma simples palavra. E quando o homem foi embora, perfeitamente satisfeito e contente, Ananda perguntou a Buda: "Isto é demais! Você poderia pensar em mim - você me deixa louco. Eu estou à beira de um colapso nervoso. Para um homem você diz que existe Deus, para outro homem você diz que não existe Deus e para um terceiro você não responde. E este estranho seguidor diz que ele recebeu a resposta e, grato, ainda toca os seus pés! O que está acontecendo?"

Buda disse: "Ananda, a primeira coisa que você tem que se lembrar é que estas perguntas não eram as suas, e aquelas respostas não foram dadas para você. Por que você deveria se preocupar com elas? Elas não são da sua conta, mas algo entre mim e aquelas três pessoas".

Ananda disse: "Isto é verdade, estas não eram minhas perguntas e as respostas não foram dadas para mim. Mas o que eu posso fazer? Eu tenho ouvidos e escuto e eu escutei e vi e agora todo o meu ser está confuso - o que é certo?"

Buda disse: "Você pensa na vida em termos absolutos, é esse o seu problema. A vida é relativa. Para o primeiro homem a resposta foi sim e era relativa a ele, estava relacionada com as implicações de sua questão, de seu ser, de sua vida. O homem a quem eu disse sim era um ateu; ele não acredita em Deus e não quero dar suporte a seu ateísmo estúpido; ele fica a proclamar que Deus não existe. Mesmo se um pequeno espaço for deixado inexplorado... talvez Deus exista naquele espaço. Só quando você investigou toda a existência pode dizer com absoluta certeza que Deus não existe. Isso é possível somente no final, e aquele homem estava simplesmente acreditando que Deus não existe, mas não tinha experiência existencial de que Deus não existe. Precisei estilhaçá-lo, precisei trazê-lo de volta à terra, precisei bater duro em sua cabeça. Meu sim foi relativo àquela pessoa, a toda a sua personalidade. Sua pergunta não era apenas palavras. A mesma palavra vinda de outra pessoa poderia ter recebido uma outra resposta.

E foi isso que aconteceu quando respondi "não" ao outro homem. Ele era um idiota tal qual o primeiro, mas no pólo oposto. Ele queria o meu apoio - ele já acreditava em Deus. Ele veio com a resposta pronta, apenas para solicitar o meu apoio de modo que ele pudesse ir e dizer: ‘Eu estou certo, o próprio Buda pensa assim’. Eu tinha que dizer não para ele, apenas para perturbar a sua crença, porque crença não é sabedoria.

E o terceiro homem veio sem crenças. Ele não me perguntou se Deus existe. Não, ele veio com o coração aberto, sem a mente, sem crenças, sem ideologias. Ele era realmente uma pessoa sã e inteligente. Ele me pediu: 'Você pode dizer algo sobre Deus?'

Pude perceber que aquele homem não tinha crença dessa ou daquela natureza; ele é inocente. Com uma pessoa tão inocente, a linguagem não tem sentido. Não posso dizer sim nem não; apenas o silêncio é a resposta. Então fechei os olhos e permaneci em silêncio.

E minha impressão sobre o homem provou ser correta. Ele fechou os olhos também. Ele entendeu minha resposta: fique em silêncio, vá para dentro. Ele então recebeu a resposta de que Deus não é uma teoria, uma crença que você deve estar contra ou a favor. Foi por isso que ele agradeceu pela resposta.

Deus não é uma coisa muito distante de você; ou você é uma mente ou você é um deus. Em silêncio e consciência a mente desaparece e revela a sua divindade para você. Apesar de eu não ter falado nada para ele, ele recebeu a resposta e recebeu-a da maneira correta."


Ler em espanhol (por Teresa)


Referência: "Conhece a ti mesmo"; a essência dos grandes ensinamentos


 
Budismo, Cristianismo, Holismo, Internacional, Judaísmo - publicado às 3:02 AM 138 comentários
ALAN MOORE: ARTE
sáb, 14 de março, 2009
 


The Mindscape of Alan Moore é um documentário focado exclusivamente nos pensamentos de Alan Moore, um premiado escritor de histórias em quadrinhos com temáticas adultas, como Watchmen, Constantine, V de Vingança e Piada Mortal. Auto-declarado Mago, suas idéias vão muito além do que costumamos pensar de quadrinhos e magia. Aos poucos vou colocando em posts os trechos mais interessantes do documentário, como este:

Existe alguma confusão a respeito do que a magia é realmente. Penso que isso possa ser elucidado se você apenas olhar as mais velhas descrições de magia. Magia na sua forma mais antiga é referida como "A arte". Creio que isto seja completamente literal. Creio que a magia é arte, e que essa arte, seja a escrita, a música, a escultura ou qualquer outra forma é literalmente magia. A arte é, como a magia, a ciência de manipular símbolos (palavras ou imagens), para operar mudanças de consciência. A verdadeira linguagem da magia trata tanto da escrita como de arte e também sobre feitos sobrenaturais. Um grimório, por exemplo, um livro de feitiços, é simplesmente um modo extravagante de falar de gramática. De conjurar um encantamento. É somente encantar, manipular palavras pra mudar a consciência das pessoas. Eu acredito que um artista ou escritor são o mais perto do que você poderia chamar de um xamã do mundo contemporâneo.

Creio que toda cultura deve ter surgido de um culto. Originalmente, todas as facetas de nossa cultura, sejam as ciências ou as artes, eram territórios dos xamãs. O fato é que, nos dias atuais, este poder mágico se degenerou ao nível de entretenimento barato e manipulação. Atualmente, quem usa o xamanismo e a magia para dar forma a nossa cultura são os publicitários. Em lugar de despertar as pessoas, o xamanismo é usado como um opiáceo, para tranquilizar as pessoas, para fazê-las mais manipuláveis. A sua caixa mágica, a televisão, com suas palavras mágicas, seus slogans, pode fazer com que todos no país pensem nas mesmas palavras e tenham os mesmos pensamentos banais exatamente no mesmo momento.

Em toda a magia há um componente linguístico incrivelmente grande. A tradição mágica dos bardos os colocava num patamar muito mais elevado que os magos. Enquanto os magos poderiam fazer sua mão se mover de forma engraçada, ou fazer você ter um filho com um pé de pau, um bardo não te amaldiçoaria. Ele faria uma sátira, coisa que poderia te destruir. E se fosse uma sátira inteligente, não te destruiria somente aos olhos de teus colaboradores. Te destruiria aos olhos de tua própria família, e aos teus próprios olhos. E, se fosse uma sátira finamente elaborada e muito astuta, o bastante para sobreviver e ser recordada durante décadas ou mesmo séculos, então anos depois de tua morte as pessoas ainda leriam e ririam de tua ruína e do teu absurdo.

Os escritores e as pessoas que podiam comandar as palavras eram respeitados e temidos como gente que manipulava a magia. Nos últimos tempos, creio que os artistas e escritores têm permitido serem vendidos, sendo levados pela maré. Aceitaram a crença predominante de que a arte e a escrita são simplesmente formas de entretenimento. Não são vistas como forças transformadoras que podem mudar um ser humano, que podem mudar uma sociedade. São vistas simplesmente como entretenimento, coisas com as quais podemos ocupar 20 minutos ou meia hora, enquanto esperamos morrer.

Não é o trabalho de um artista dar ao público aquilo que o público quer. Se o público soubesse o que quer, eles não seriam o público, e sim o artista. É o trabalho de um artista dar ao público o que ele necessita.


 
Filosofia, Holismo, Pensamentos - publicado às 6:01 PM 21 comentários
QUEM VIGIA OS VIGILANTES?
qua, 11 de março, 2009
 


Quis Custodiet ipsos custodes?

Essa frase latina é originária do livro Sátiras, de Juvenal, que por sua vez tomou a frase de Platão, no livro A República. Em sua sociedade ideal, Sócrates propunha que a classe dos guardiões fosse responsável pela vigilância das cidades e da sociedade. Ao que é indagado: "E quem vigia os vigilantes?", ou "Quem irá nos proteger dos protetores?". A resposta de Platão é que os guardiões irão se proteger deles mesmos.

Nós devemos contar a eles uma "mentira carinhosa". A mentira carinhosa lhes dirá que eles são melhores do que os que eles servem e é então, responsabilidades deles guardar e proteger aqueles que são menos do que eles mesmos. Nós instigaremos neles um desgosto por poder ou privilégio; eles irão mandar por que eles acham ser correto, não por que eles desejam.

Pobre Sócrates... nesse particular desconhecia a alma humana, que é sedenta por poder E privilégio. O modo como as democracias modernas tentam resolver este dilema é nunca dar poder absoluto para nenhum grupo, mas sim deixar os interesses de cada um (como executivo, legislativo, ou judiciário) competir e conflitar com o outro. Cada grupo irá então procurar devido a seus interesses, impedir o funcionamento do resto e isto irá manter o poder absoluto em uma luta constante, logo, longe das mãos de qualquer grupo.

Essa é a idéia, mas na prática, especialmente no Brasil, o poder executivo usa da sua posição privilegiada pra infiltrar-se no judiciário (como é o caso do atual Ministro-Presidente do STF, Gilmar Mendes, que foi indicado por FHC) e no legislativo (usando a máquina pública pra promover os partidos, e assim conseguir uma base aliada, isso quando não distribui ministérios pra o partido dominante do Senado e Congresso, em troca de "favores").

Isto sempre ficou evidente em nosso país, mas chegou às raias do absurdo agora, com o TCU, órgão que devia gerir o controle de gastos no Estado, fazendo vista grossa pra desrespeito com dinheiro público dentro da própria casa:

Dois ministros do Tribunal de Contas da União (TCU) recusaram a relatoria do processo que julgará se o Tribunal de Contas do Distrito Federal (TCDF) tem extrapolado o teto salarial imposto pela Constituição Federal. O procurador Marinus Marsico, do Ministério Público, suspeita que remunerações na instituição cheguem a R$ 64 mil, quando o limite do funcionalismo federal é de R$ 24,5 mil. Os alvos da apuração são os contracheques de um conselheiro, Jorge Caetano, e do auditor José Roberto de Paiva Martins, que também atua no TCDF. Ambos recebem aposentadoria da União e a acumulam com os vencimentos pagos pelo Tesouro do Distrito Federal. Só na Corte local, eles têm salários de R$ 22,1 mil. Caetano é aposentado pelo Ministério da Fazenda, e Paiva Martins, pelo próprio TCU.

O processo começou a tramitar no TCU em dezembro do ano passado. De início, foi distribuído ao ministro Guilherme Palmeira, que se considerou impedido de apreciar a matéria por questão de foro íntimo. Palmeira não apresentou justificativa formal. Mas há um motivo plausível: ele mesmo foi alvo de uma investigação interna relacionada com uma possível extrapolação do teto salarial. Palmeira mantinha o subsídio de ministro do TCU enquanto recebia salário como ex-servidor do Senado. O processo, então, foi encaminhado em junho ao ministro Marcos Vilaça, que pouco menos de um mês depois também preferiu mandar os autos para redistribuição. Na semana passada, chegou às mãos do ministro Augusto Nardes. Não há data para julgamento da matéria, e os ministros que preferiram se abster poderão ser substituídos por auditores durante a sessão.

O presidente do TCDF, Paulo César Ávila, alega que não há ilegalidade nos salários da Corte local. Diz que ninguém recebe vencimentos de até R$ 64 mil, como suspeita Marsico, mas confirma que há casos de acumulação de aposentadorias e salários que ultrapassam o limite de R$ 24,5 mil. Essas situações, no entanto, são consideradas por ele amparadas por lei. Ávila afirma que só promoverá cortes em caso de decisões judiciais definitivas. "Não posso fazer cortes sem que a Justiça me obrigue".

Bonito, não? O presidente do TCDF faz vista grossa, os relatores dão uma desculpa qualquer pra passar a bomba adiante, enquanto o Senado paga hora extra pra 3.883 funcionários não trabalharem, durante o recesso. E o que vai acontece? "Droga, acho que fomos muito gananciosos dessa vez. Vamos devolver o dinheiro e não se fala mais nisso". Ninguém é responsabilizado, não há nenhuma lição de moral, e a mensagem que passa pro cidadão é "Enriqueça ilicitamente com o dinheiro público. Se for pego, negue. Se tiverem provas, procrastine. Se a coisa ficar feia, devolva. No final das contas, você já ganhou por tudo o que roubou e não foi descoberto".


 
Política - publicado às 3:40 PM 23 comentários
WATCHMEN
ter, 10 de março, 2009
 



O cinema de heróis enfim amadureceu, acompanhando a revolução dos quadrinhos com 24 anos de atraso. O final dos anos 80 foi a era de ouro dos quadrinhos, com obras adultas e inteligentes, que eram chamadas de Graphic Novels (pra diferenciar dos quadrinhos pra crianças). Nesta época vimos coisas como "Batman: o cavaleiro das Trevas", "Batman: A piada mortal", "Demolidor: Amor e ódio" e "X-Men: O conflito de uma raça", também tivemos nos gibis a história recontada de Superman (por John Byrne), de Batman e do Demolidor (ambas por Frank Miller), e aquela que é considerada por muitos a obra-prima dos quadrinhos: Watchmen.

Vocês me viram falar do filme Batman: Dark Knight, e do quanto ele NÃO é pra crianças, mas pensei que esse estilo hardcore (que surpreendeu a todos e deu muito dinheiro) só apareceria novamente nos filmes de heróis em 2010. Felizmente enganei-me. E a prova disso é que acaba de chegar aos cinemas uma história diferente de tudo o que você já viu em termos de heróis mascarados, e que é o equivalente quadrinístico de Moby Dick para a literatura e Bob Dylan para a música. A obra que revolucionou seu meio, destruindo de vez a aura mitológica dos super-heróis e mostrando suas verdadeiras faces por detrás das máscaras.


OS QUADRINHOS

Watchmen é uma mini-série em quadrinhos escrita por Alan Moore e ilustrada por Dave Gibbons, publicada originalmente em doze edições mensais pela DC Comics entre 1986 e 1987. Ganhou vários prêmios, como uma honraria especial (e inédita até hoje para quadrinhos) no tradicional Prêmio Hugo (voltado à literatura), além de ser a única história em quadrinhos presente na lista dos 100 melhores romances, eleitos pela revista Time.

Alan Moore foi genial ao ser o primeiro a escrever que, se heróis existisssem de verdade, o mundo e suas relações sociais não seriam mais as mesmas. E nos mostra nessa Graphic Novel todas as consequências nefastas da presença de vigilantes (watchmen) em nossas vidas. Moore imaginou como seria ter um Super-Homem de verdade do lado dos EUA, como agiria um Capitão América (um agente militar pau-mandado, em prol dos "interesses" da nação) e como se comportaria alguém com um passado tão traumatizante como o do Batman, caçando bandidos nas ruas e seguindo suas próprias regras. Posso adiantar que não é bonito, nem heróico. Reside aí a beleza e a genialidade de Watchmen.

Não satisfeito em contar sua história a partir de sua época (1985), Moore detalhou tudo o que aconteceu nas décadas anteriores, sob influência dos heróis. Começa em 1938, quando justiceiros mascarados, todos sem superpoderes, começam a aparecer pra fazer justiça com as próprias mãos - um deles influenciado pelas histórias em quadrinhos do Super-Homem - até formar um grupo de pessoas (os Minutemen), que saem por aí batendo em bandidos. Até que, nos anos 60, um acidente de laboratório transforma um físico nuclear num ser azul capaz de controlar totalmente a matéria. Nasce então o primeiro e único SUPER-herói da história. Logo o governo o usa para intimidar a União Soviética, e fazer a balança da guerra fria pender totalmente para o seu lado. Ele ganha o nome de "Dr. Manhattan" (escolhido para evocar o terror da bomba nuclear) e Nixon o convoca pra acabar com a guerra do Vietnã, o que é feito rapidamente. Como consequência, não há Watergate e Nixon se reelege indefinidamente. E Dr. Manhattan é alçado ao nível de Deus, papel que assume progressivamente durante a história.

Com as tensões sociais e a escalada da violência, a sociedade começa a questionar a liberdade dos vigilantes, que agiam acima da lei, e como forma de protesto a polícia cruza os braços ("os heróis que resolvam", dizem eles). Em resposta, Nixon promulga em 1977 a "Lei Keene", que exije que todos os "aventureiros fantasiados" se registrem no governo. Suplantados pelo Dr. Manhattan, a maioria dos vigilantes decide se aposentar, alguns revelando suas identidades secretas para faturar com a atenção da mídia (caso de Adrian Veidt, o Ozymandias). Outros, como o Comediante e o Dr. Manhattan, continuam a trabalhar sob a supervisão e o controle do governo. O vigilante conhecido como Rorschach, entretanto, passa a operar como um herói renegado e fora-da-lei, sendo freqüentemente perseguido pela polícia.

É aí que começa a história dos quadrinhos e do filme, em 1985, onde a tensão da guerra fria com a URSS beira o absurdo (assim como na vida real, na época) e o Dr. Manhattan é a única coisa impedindo a URSS de começar um ataque ao Afeganistão e iniciar algo que pode dar início a uma guerra nuclear. Cientistas vão à TV anunciar que o relógio que simboliza o fim do mundo (que existe de verdade) está a poucos minutos da meia-noite (onde meia-noite representa a destruição por uma guerra nuclear) e Ozymandias busca ganhar mais dinheiro com uma linha de perfumes intitulada Nostalgia (remetendo a uma época menos complicada).


O FILME

Além da abertura, que sintetiza todo o background da HQ em alguns minutos, o filme surpreende com um final diferente dos quadrinhos, mas perfeitamente integrado ao espírito da história. Pra ser bem sincero, acho esse final bem mais plausível do que uma lula interdimensional, e para os puristas adianto que este talvez seja o filme mais fiel ao espírito de uma graphic novel, depois de Sin City. Muitos diálogos estão lá, palavra por palavra, muitas cenas são encenadas emulando as mesmas poses dos quadrinhos, até mesmo no esquema de cores (de quando em quando aparece um elemento púrpura, predominante na HQ). Há um respeito quase exagerado ao roteiro, o que deixa o filme um pouco lento às vezes, na tentativa de colocar todos os detalhes desse rico universo criado por Alan Moore na tela. O cinema tem seu próprio ritmo e linguagem, e EXIGE uma adaptação, mas nesse caso a adaptação foi mínima (pra sorte dos fãs), o que reflete no ritmo. Mas, no geral, o filme é muito bom. As cenas do presídio, com Roscharch, são fantásticas. É dele as melhores frases do filme/HQ. Quando ele pronuncia a célebre frase no presídio (não vou estragar pra quem não viu) quase que me levanto pra aplaudir! Obviamente, pra um filme caro como esse, o diretor Zack Snyder (o mesmo do filme "300") teve de fazer concessões, e vê-se isso no enlongamento das cenas de porrada (a la Matrix), no fato de que alguns personagens serem resistentes como os Cavaleiros do Zodíaco (quebram o cenário todo com o corpo, depois levantam pra apanhar mais), mas felizmente Snyder não estragou tudo usando sloooowww mooootionn o tempo todo. Aguardo ansiosamente pela versão do diretor em Blu-ray, ainda mais fiel, com 3 horas e 10 minutos.


O CINEMA

O cinema em que vi, o Box, que é um dos "melhores" do Recife, me decepcionou novamente. Primeiro a direção do cinema resolve que o filme "O menino da porteira" (Brokeback Mountain brasileiro, estrelado pelo cantor Daniel) deve ocupar a sala THX, a mais tecnológica do multiplex. Depois, a sala onde vi estava com o projetor descalibrado, com as cores lavadas e escuras (e eu sabia disso por causa do trailer, que visto no youtube era melhor do que aquilo!!!). Depois reclamam que as pessoas cada vez mais preferem baixar os filmes!! Pelo visto só verei o filme como ele foi REALMENTE filmado quando eu baixar a versão em alta definição pra ver na minha TV, que infelizmente é muitíssimo mais precisa na iluminação e cores do que o melhor cinema daqui!!! Pelo menos o som estava excelente.


TRILHA SONORA

Por falar em som, a trilha sonora do filme é um show à parte. Músicas dos anos 50, 60, 70, muito bem escolhidas e que dizem alguma coisa relativa ao que está sendo mostrado na tela. Não por acaso, Bob Dylan abre e fecha o filme.


OS TEMPOS MUDARAM...

Talvez o telespectador médio saia - quem sabe, até no meio do filme - com a impressão de ter visto um filme muito pretensioso, praticamente um filme de super-heróis existencialista francês. Mas a idéia é exatamente essa, e se você ficou desolado e desconcertado com o final, parabéns, você teve um vislumbre de como ficou quem leu esta Graphic Novel nos anos 80, quando virou a última página.

O crítico Anthony Lane, do jornal New Yorker, disparou sobre o filme: "Incoerente, presunçoso, e cheio de aversão a mulheres, Watchmen marca o final da demolição das tiras de quadrinhos, e deixa você pensando: onde foi parar a comédia?". A resposta está nas próprias páginas da Graphic Novel: "Bem, o que você esperava? O comediante morreu".



Referência: Resenha sobre os quadrinhos no Jovem Nerd;
Podcast (áudio) com excelentes comentários sobre os quadrinhos e bastidores do filme;
Especial do Zine Acesso;
Referências ocultistas em Watchmen (Sedentário e Hiperativo)


 
Cinema - publicado às 2:30 AM 44 comentários
MUNDO CÃO
seg, 9 de março, 2009
 


O mundo está cada vez mais cão. Antigamente bom-senso não era um artigo raro, qualquer pessoa tinha e certas regras nunca eram quebradas, mesmo por foras-da-lei. Ainda hoje, nos presídios, é morte na certa "mexer" com a mãe dos outros. E, no Rio Grande do Sul, um assaltante de carro ligou indignado pra polícia ao descobrir que, no carro em que ele roubou, estava uma criança de 5 anos dormindo, deixada lá pelos pais enquanto bebiam no bar. Só que nós, como sociedade, estamos ficando cada vez mais endurecidos (o que reflete tanto nas famílias, como a dos pais que deixaram o filho pra ir beber, como na estupidez dos bandidos). O mais recente golpe à nossa sensibilidade (e nossa noção instintiva de certo e errado) foi o caso de Paula Oliveira, brasileira que mora na Suíça e apareceu toda cortada, alegando que tinha sido atacada por neonazistas e por conta disso perdido o filho que carregava no ventre. Depois descobriu-se que ela mesma fez os cortes e mentiu sobre a gravidez, pra poder ganhar indenização do governo suíço. Sobre isso fala o psicólogo Jorge Forbes, no O Estado de S.Paulo:


SOBRE A ÉTICA DA RESPONSABILIDADE

Lula reagiu de pronto diante das escoriações de Paula Oliveira. Deveria ele ter pedido comprovação bioquímica?

Por Jorge Forbes

- O presidente e o chanceler foram feitos de bobos. Lula e Celso Amorim "entraram" na história de Paula Oliveira - dizem os críticos sagazes, indignados com o fato de ambos terem dado crédito àquela moça que apareceu recentemente em todos os jornais com escoriações pelo corpo, afirmando ter sido agredida por manifestantes de um grupo neonazista, na Suíça, país onde mora. Teriam "entrado" também na versão de que, em decorrência do choque, Paula abortara os gêmeos que esperava. Como os nobres dignitários não tomaram maior cuidado antes de pedir explicações ao governo suíço? Como?

Os espertos devem pensar que, ao vermos alguém sangrando, antes de qualquer coisa devemos pedir comprovações bioquímicas, pois, no final das contas, em vez de sangue, pode sempre se tratar de ketchup. É o que se aprende quando, sofrendo, alguém bate à porta de um pronto-socorro dos chamados hospitais de excelência. O primeiro pedido é a famosa carteirinha do convênio - sem ela, nada feito. E tem mais, mesmo que a dor seja lancinante - aparente, como quando se tem uma fratura, ou não -, há que se esperar a consulta telefônica ao plano, para saber se os exames porventura necessários serão cobertos. Inútil lembrar que o sistema está sempre fora do ar, e o paciente, por conseguinte, fora do lugar.

O erro de Lula e de Amorim foi induzido ao menos por dois fatores: o primeiro, o contexto. Vamos convir que não soa muito estranho, para ninguém, ataques racistas lá por aquelas bandas, mesmo que fique chato a conduta do presidente indiretamente revelar esse segredo de polichinelo: dizer que foi atacado por neonazistas na Suíça é plausível. O segundo, que é o mais fundamental, é que Paula Oliveira supostamente mentiu sobre o que não se pode mentir, uma vez que se trata de um dos poucos pontos remanescentes do cimento do laço social humano, já tão abalado: o ataque a uma mulher, e grávida, e por racismo. Não há sociedade possível sem alguns pontos intocáveis fundamentais. Citemos mais alguns exemplos: não se rouba igreja. Não se roubava, sabemos. As pessoas de mais de 40 anos ainda podem se lembrar de que as riquíssimas igrejas mineiras ficavam de porta aberta, sem temer por seus tesouros. Não se atacam frágeis pessoas idosas e nem indefesas crianças. Filhos não agridem pai e mãe. E por aí vai, ou melhor, ia. É fácil constatar quão pouco sobrou no mundo de hoje dessas obviedades do sentimento humano. Paula colaborou para que desconfiássemos ainda mais de nós mesmos, foi um desserviço.

Será que a resposta a esse estado de coisas é ficarmos todos desconfiados, bem espertos, e só agirmos frente a evidências cientificamente comprovadas, para não passarmos por tolos, imprudentes, ou emotivos? Existem muitos que assim pensam, que preconizam uma sociedade da disciplina e do controle, como cura do desbussolamento destes tempos pós-modernos, rompedores dos padrões verticais do comportamento que estabeleciam maneiras padronizadas de se portar.

Mas, assim não pensa o filósofo alemão Hans Jonas (1903-1993), nem o psicanalista francês Jacques Lacan (1901-1981).

Para Jonas, após a euforia da esperança da técnica que nos rendeu uma utopia de bem-estar irresponsável, porquanto apagava a subjetividade, devemos nos preparar para o Princípio Responsabilidade, nome de seu livro do qual extraio alguns trechos. "A responsabilidade é o cuidado reconhecido como obrigação em relação a um outro ser, que se torna 'preocupação' quando há uma ameaça à sua vulnerabilidade." E também: "O fenômeno do sentimento torna o coração receptível ao dever, não lhe questionando a razão e animando a responsabilidade assumida com o seu élan. É difícil, senão impossível, assumir a responsabilidade por algo que não se ame, de modo que é mais fácil engendrar o amor para tal do que cumprir o seu dever 'livre de toda inclinação'. É natural que a parcialidade do amor possa, e provavelmente deva, cometer injustiças em relação ao extenso âmbito das responsabilidades humanas, que se encontram além dele próprio. Mas assumir a responsabilidade é sempre um ato seletivo, e a escolha daquilo que nos é mais próximo corresponde à finitude da natureza humana".

Nesse sentido, o presidente e o chanceler foram responsáveis, pois ser responsável não exclui uma injustiça, nem quer dizer estar livre de toda inclinação, como se a pura objetividade fosse possível ou almejável. E eles também foram bobos, sim, o que não é de todo mau, de acordo ao pensamento de Jacques Lacan. Ele defende a idéia de que "os não tolos erram" - erram, no sentido de se perder -, ao contrário do que diria o senso comum. A tolice aqui deve ser entendida como o produto natural de nossa incapacidade estrutural humana de tudo saber. Somos forjados no mal-entendido que não se explica, no máximo, se administra. Falta e faltará sempre ao homem a última palavra necessária à certeza que tanto busca. Não há outra saída para ele que o Princípio Responsabilidade, pois "de nossa condição subjetiva somos sempre responsáveis", afirmava o psicanalista. Entre a tolice possível e a certeza do esperto, necessariamente enganadora, Bravo! à tolice possível. Melhor mil vezes nos enganarmos ao socorrer uma mulher machucada e aos prantos, que vestirmos a mortalha dos espertos. Pois se o pior não aconteceu - diríamos com Jonas -, ter se enganado deveria ser considerado um mérito.


Jorge Forbes é psicanalista e psiquiatra. Preside o Instituto da Psicanálise Lacaniana e dirige a Clínica de Psicanálise do Centro do Genoma Humano - USP


 
Filosofia - publicado às 3:06 PM 18 comentários
A VIDA É DUKKHA!
qua, 4 de março, 2009
 


Por Rodney Downey (Budismo Zen coreano)

Gostaria de começar falando sobre alguns enganos que temos a respeito do Dharma do Buda, os quais são muito comuns em todo o mundo ocidental, e mesmo no Oriente. A causa desses enganos tem a ver com palavras e com aquilo que elas significam.

Hoje, no café da manhã, eu comi bolo. E ontem eu aprendi que existe uma expressão em português: Quando você vai se encontrar com uma pessoa e ela não comparece, diz-se que você "ganhou um bolo". Imaginem que daqui a 500 anos, um arqueólogo encontre um diário de anotações de um brasileiro. Lá é dito: "Eu fui encontrar com Paulo e ganhei um bolo". O tradutor diria que eles comeram um bolo juntos! Esta é a armadilha das palavras, as quais têm um significado para uma época e cultura em particular. O mesmo se dá com alguns dos ensinamentos do Buda.

Consideremos as Quatro Nobres Verdades, as quais estão no centro do ensinamento do Buda. A tradução usual das Quatro Nobres Verdades é: "A vida é sofrimento; a causa do sofrimento é o desejo; a cessação do sofrimento é se ver livre do desejo; o modo de fazê-lo é o Caminho Óctuplo".

Isto está correto? De modo algum! Isto não é o que o Buda falou. Este é o problema! Vamos começar com a Primeira Nobre Verdade, que é sempre traduzida como "A vida é sofrimento". Mas que coisa horrível! Veja a vida! É uma força excitante e de grande diversidade, de inacreditável deleite. Por que, então, é traduzido como a vida é sofrimento?


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Budismo - publicado às 1:17 PM 248 comentários
A ÉTICA PROFISSIONAL COMO TRADUÇÃO DO AMOR
ter, 3 de março, 2009
 


Por Emerson Barros de Aguiar

Alguém pode não saber ler ou nunca ter ouvido falar de ética, mas só será feliz se for ético. Ética não é uma condição que a gente tem de atender para agradar a empresa ou ao chefe; não é recitar códigos ou doutrinas.

Ética é o que fica da vida que levamos, das coisas que fazemos todo dia, agora; é o saldo que resta em nosso coração das ações que praticamos. Não se pode aprender ética apenas em livros ou em aulas e, menos ainda, em palestras. Ela está lá no Evangelho de Jesus: no Sermão da Montanha e em muitas outras passagens. Mas não é difícil encontrar a ética dentro de nós, saber o melhor caminho a seguir.

A felicidade de comercial não é sustentável. A satisfação dos cartões de crédito, do consumo, dos vícios ou da corrupção. A felicidade que tira dos outros, diminui muito mais de nós mesmos. Isto não é moralismo, não é pieguice, é realidade! "Ignorante" é o nome dado por Sócrates a quem ainda não sabe disso. Todo mundo vai descobrir que o mal não vale a pena, que o egoísmo não constrói nada, só estraga, destrói. De uma maneira ou de outra vai descobrir disso. A boa vontade será a melhor maneira e a decepção, a pior. . .

Não precisamos sofrer tanto para aprender que a vida é muito mais ajudar e compartilhar do que competir, ferir e derrotar. Quem tem o coração cheio de amor, tem ética, naturalmente. Ética é não estar preocupado com a reputação, mas com o caráter. O comportamento espontâneo, generoso e fraterno, é ética.

Quando a ética não é uma escolha, mas um dever imposto pela consciência, isto é ética. Quando estamos empenhados em dar o melhor de nós e não em sermos os primeiros, isto é ética.

Quando nos esforçamos para ter bondade e não para aparentar bondade, isto é ética. Quando o cuidado com os sentimentos dos outros lapida a dureza das palavras, isto é ética.

Quando olhamos para os outros e nos colocamos no lugar deles, quando vemos Deus nos outros, isto é ética. Quando perdoamos, deixando espaço livre na nossa memória para paisagens de ternura e humanidade, isto é ética.

Quando descobrimos uma qualidade nova em alguém que não gostamos, isto é ética. Quando identificamos em nós algum defeito e enxergamos como a vida é maravilhosa, isto também é ética.

Quando não nos vingamos de quem nos prejudicou, mesmo tento a oportunidade ideal, isto é ética. Quando olhamos os filhos dos outros como nossos próprios filhos e os empregos dos outros como o nosso "ganha pão", isto é ética. Quando sabemos que o dinheiro, o conforto, a posição ou o status de que desfrutamos são apenas privilégios e não direitos, pois podem nos ser tirados a qualquer momento pelo infortúnio, pelo imponderável ou pela morte: isto é ética!

Quando aquilo em que acreditamos não é expresso como uma declaração de princípios, mas sai da nossa boca como poesia, isto é ética! Quando somente conseguimos conspirar pela felicidade dos outros, isto é ética.

Quando sabemos que o amor pela pedra, pelo inseto, pela planta, pela brisa e por todas as coisas, que a ação em benefício de alguém que nem conhecemos e que a gratidão pela vida são tesouros permanentes, isto é ética. Quando sentimos que o amor invadiu cada sílaba que pronunciamos, cada lembrança, cada gesto, olhar e tarefa, enfeitando o templo do coração com as flores do bem, isto é felicidade...


O prof. Emerson Barros de Aguiar é Doutor em Filosofia pela Universidad de Zaragoza (Espanha), Escritor e Professor Universitário em João Pessoa (PB)


 
Filosofia - publicado às 2:22 PM 21 comentários