sáb, 20 de janeiro, 2007
Estudando o livro do pensador e filófoso francês Michel Foucault, apropriadamente intitulado "Em defesa da Sociedade", me deparei com um trecho que pode muito bem representar o dilema esoterismo x ciência, onde o primeiro, ao mesmo tempo que esnoba o segundo (quando em discordância), procura (sempre que pode) um argumento científico para dar respaldo aos seus preceitos:
Desde mais de um século, vocês sabem quão numerosos têm sido os que se perguntaram se o Marxismo era ou não uma ciência. A essa pergunta, os genealogistas responderiam: 'Pois, bem, precisamente, o que criticamos em vocês é fazer do marxismo, ou da psicanálise, ou desta ou daquela coisa, uma ciência. E, se temos uma objeção ao marxismo, é que ele poderia efetivamente ser uma ciência'. (...) Não é necessário se interrogar sobre a ambição de poder que a pretensão de ser uma ciência traz consigo? As questões que é preciso formular serão estas:
- Quais tipos de saber vocês querem desqualificar no momento em que vocês dizem ser esse saber uma ciência?
- Qual sujeito falante, qual sujeito discorrente, qual sujeito de experiência e de saber vocês querem minimizar quando dizem: eu, que faço esse discurso, faço um discurso científico e sou cientista?
- Qual vanguarda teórico-política vocês querem entronizar, para destacá-la de todas as formas maciças, circulantes e descontínuas de saber?
E eu diria: Quando vejo vocês se esforçarem pra estabelecer que o marxismo é uma ciência, não os vejo, pra dizer a verdade, demonstrando de uma vez por todas que o marxismo tem uma estrutura racional e que suas proposições dependem, por conseguinte, de procedimentos de verificação. Eu os vejo, sobretudo e acima de tudo, fazendo outra coisa. Eu os vejo atribuindo aos que fazem esse discurso efeitos do poder que o Ocidente, desde a idade Média, atribuiu à ciência e reservou aos que fazem um discurso científico.