Últimos comentários

Última parte da série com trechos do Evangelho Apócrifo de Tomé, comentados pelo educador e filósofo Huberto Rohden em seu livro O quinto Evangelho:
7 - Bendito o leão comido pelo homem, porque o leão se torna homem! Maldito o homem comido pelo leão, porque esse homem se torna leão!
Huberto Rohden: O leão simboliza o ego humano, que o apóstolo Pedro, na sua primeira epístola, identifica com o diabo. Segundo as palavras de Jesus, satanás ou diabo é o ego mental do homem, quando se opõe ao Eu espiritual.
28 - Jesus disse: Eu estava no meio do mundo e me revelei a ele corporalmente. Encontrei todos ébrios, e não encontrei nenhum deles sedento. E minha alma sofria dores pelos filhos dos homens, porque eles são cegos no seu coração e nada enxergam. Assim como entraram no mundo vazios, querem sair do mundo vazios. Agora estão bêbados, e só se converterão se abandonarem o seu vinho.
Rohden: O homem profano vive numa permanente embriaguez das coisas do ego material-mental-emocional. E por isto não tem sede das coisas espirituais do Eu. São cegos para a Verdade, porque só enxergam as ilusões.
Todo o homem entra neste mundo sem nada, mas não deve sair do mundo sem nada. A razão-de-ser da nossa encarnação terrestre é adquirirmos algo que não nos foi dado, crearmo-nos mais do que Deus nos creou. De Deus recebemos a nossa alma como carta branca; mas não lhe podemos devolver como carta branca. Se devolvermos a Deus o que de Deus recebemos, seremos iguais àquele "servo mau e preguiçoso" da parábola dos talentos, que devolveu o mesmo talento que recebera.
A nossa missão terrestre é realizarmos pelo poder creativo do livre arbítrio valores que Deus não nos deu, mas para cuja creação nos deu potencialidade creativa. O homem deve atualizar as suas potencialidades creadoras; isto é ser "servo bom e fiel e entrar no gozo do seu Senhor". Quanto ao corpo, sim, sairemos do mundo assim como no mundo entramos, sem nada. O corpo nos foi emprestado como embalagem pêlos nossos pais e pela natureza. Devolveremos à natureza o que da natureza recebemos. Mas temos de restituir a Deus o que de Deus recebemos mais aquilo que creamos com o nosso livre arbítrio, porque o homem não é apenas uma creatura creada, como os animais, mas uma creatura creadora. Quem pode, deve; e quem pode e deve e não faz, crea débito - e todo débito gera sofrimento. O homem é uma creatura potencialmente creadora, e seu dever é fazer-se uma creatura atualmente creadora. É esta a grande Verdade insinuada pelas palavras de Jesus acima citadas.
74 - Disse ele: Senhor, muitos rodeiam a fonte, mas ninguém entra na fonte.
Rohden: Já no início da Era Cristã, lamentava o grande Orígenes, de Alexandria, que muitos falassem do Cristo e poucos se cristificam. Muitos sabem que existe uma fonte de águas vivas, poucos bebem dessa água. Este mesmo fenômeno, aliás, se repete no mundo inteiro: quase toda a Ásia conhece a sabedoria de Buda, de Krishna, de Lao-Tse: muitos admiram as "quatro verdades nobres", a Bhagavad Gita, o Tao Te King - e poucos descem à profundeza dessas fontes de sabedoria vivenciando-a. Quase todo o ocidente, europeu e americano, se diz cristão: muitos lêem os Evangelhos, fazem sermões, conferências e escrevem poesias sobre os ensinamentos de Jesus - mas quantos orientam a sua vida pelas grandes verdades do Cristo?
É fácil andar ao redor da fonte, espelhar-se em suas águas; contemplar a sua limpidez - sem beber uma gotinha das suas águas vivas. Difícil é descer às profundezas da fonte, beber da sua vida e vitalizar com ela todos os setores da vida. No colóquio com a samaritana, disse Jesus: "Se tu conhecesses o dom de Deus e aquele que te fala, tu lhe pedirias, e ele te daria água viva, e essa água se tornaria em ti uma fonte de águas vivas, jorrando para a vida eterna".
No princípio, as águas parecem fluir de fora para dentro de nós; no fim, porém, verificamos que se formou dentro de nós mesmos uma fonte de águas vivas, que nós mesmos somos uma nascente - e então essas águas jorram de dentro para fora, beneficiando também os outros. Ninguém pode ser beneficente antes de ser benevolente. Ninguém pode fazer bem aos outros se não for bom em si mesmo. Ninguém pode fazer transbordar as suas águas, se não tiver plenitude delas. Somente a plenitude interna é que pode transbordar externamente. Somente a consciência mística pode transbordar em vivência ética.
Quem não descer à profundeza da fonte, perde o seu tempo em rodear a fonte.
67 - Disse Jesus: Quem conhece o universo, mas não se possui a si mesmo, esse não possui nada.
Rohden: O Evangelho, como se vê, é puro auto-conhecimento, que culmina em auto-realização. Todos os grandes Mestres da humanidade, do Oriente e do Ocidente, são unânimes em pôr o auto-conhecimento acima de qualquer alo-conhecimento.
As teologias antigas giram em torno do conceito "salvação". O conceito salvação sugere uma conotação de escapismo futurista, póstumo, ao passo que o conceito auto-realização é decididamente presentista, compreendendo a vida total do homem, terrestre e celeste; o homem deve iniciar a sua verdadeira realização, o Reino de Deus. interno e externo, aqui e agora, harmonizando a sua consciência mística e sua vivência ética com a Divindade. Quem só conhece o Universo, mas ignora a si mesmo, conhece muitos nadas: mas quem se conhece a si mesmo, conhece sua alma, que é também a alma do Universo. O homem e o cosmos são concêntricos - o centro de ambos é Deus. Realizar-se é conscientizar Deus em si mesmo e conscientizar Deus no Universo. Realizar-se é Universificar-se.
O homem intelectual - escreve Einstein - descobre aquilo que é (das was ist), mas o homem espiritual realiza em si aquilo que deve ser (das was sein soll)', aquele é um descobridor de fatos, este é um creador de valores. Valor é Realidade eterna, fatos são reflexos passageiros. Do substantivo latino factum veio o adjetivo facticium, que mais tarde deu ficticium; quer dizer que os fatos são fictícios e não reais.
Quem conhece o Universo todo conhece mil coisas fictícias, como quem se apoderou de um grande número de zeros: 000000. Mas se conhece a si mesmo possui um valor real, como o "1". Nenhum zero se pode auto-valorizar, porque representa uma nulidade, uma vacuidade, uma ficção; mas, quando a nulidade do zero se coloca ao lado direito da Realidade "1", deixa de ser nulidade e adquire quantidade: 1000000. Todos os zeros foram valorizados pelo valor "1"; todas essas nulidades foram desnulificadas e quantificadas pela qualidade.
O homem que crea valores metafísicos em si mesmo pelo auto-conhecimento pode desnulificar as nulidades físicas e valorizá-las.
O homem profano joga só com zeros, é milionário de zeros: 00000000.
O místico isolacionista descobriu o valor "1" e rejeitou os zeros.
O homem-cósmico depois de abandonar os zeros para realizar o "1" e depois revogou do exílio os zeros, construiu a grande síntese: 1000000.
Nesse sentido escreveu Albert Schweitzer: "O cristianismo é uma afirmação do mundo que passou pela negação do mundo".