Saindo da Matrix

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    • O PASTOREIO DO BOI

      Versão pra garotas e EmosVersão pra macho!Layout normal Fonte grande
      dom, 14 de dezembro, 2003

      A fábula do pastoreio do boi é uma sequência de imagens bastante representativa do Zen Budismo na China (Chen). Simboliza a busca e o controle do homem sobre seu ego / duplo / desejos (o boi).

      Na primeira imagem vemos um jovem à procura de capturar um boi selvagem na floresta. Mas o jovem encontra-se perdido, pois ele é um boiadeiro sem boi, ou seja, é alguém que busca algo que não sabe se vai encontrar, ou se estará preparado para a tarefa de pegar o boi. Ele se sente inseguro, vazio, e vaga a esmo pela floresta. Depois de muito andar, ele encontra marcas no chão que indicam o caminho para o boi. O jovem então faz silêncio, aguça os sentidos e se harmoniza com o ambiente, para poder ouvir qualquer ruído que leve ao boi.

      E então ele o vê ao longe, de relance, por entre as árvores. Quando corre até o boi, o perde de vista na densa floresta; Ele continua procurando, o vê novamente muito rapidamente, e o perde quanto mais se embrenha na floresta atrás dele. Até que ele consegue sair da floresta para o campo aberto e vê que o boi não se moveu do lugar onde estava pastando tranquilamente. O jovem é que, na ânsia de pegar o boi, acabou correndo sem rumo pela floresta.

        
      Então ele joga uma corda para amarrar o boi, que obviamente não quer saber de ser preso. O jovem tenta controlá-lo, o boi escapa, ele volta a pegá-lo, e pra isso ele tem de se mostrar cada vez mais duro para com o boi, tendo de usar o chicote.


      Ele consegue domá-lo. Obviamente o boi está aborrecido, ambos estão cansados da luta, e o boi deixa-se guiar pelo nariz, bufando, mas seguindo cada passo do rapaz, que não relaxa a corda nem por um minuto, mesmo estando extremamente cansado.


      Os dias se passam, o boi fica menos arredio, mas o boiadeiro, desconfiado, ainda o mantém amarrado a uma árvore, primeiro com pouco espaço pra se mover, depois com mais corda, e por fim, sem corda alguma.


        
      O boi já está dócil, segue seu dono, que vai à frente despreocupado. O jovem sente uma alegria indescritível. Ele se sente completo: Boiadeiro e boi reunidos. Ele domou o animal, ele venceu! Recuperou o que nunca tinha perdido, que é sua liberdade, e conquistou o que era seu por direito: Sua força, seu boi.


        
      São tempos felizes que se seguem, mas, um belo dia o boiadeiro acorda e seu boi não está mais lá no pasto. Sua paz permanece inalterada, sua felicidade também, e o jovem reconhece que não precisava do boi para permanecer naquele estado. Ele era o que era, com boi ou sem boi. A corda e o chicote estavam jogados há muito num canto da casa. Não havia motivo para segurá-lo, e nem há agora, muito menos, pra recuperá-lo. O jovem vê que, assim como o boi era uma muleta, uma referência, um objetivo, ele mesmo o é.


        
      Nesse ponto, já não há mais boi, boiadeiro, corda ou chicote; a dualidade e as ferramentas evolutivas foram embora; a mente está completamente clara e tudo o que resta é o NADA.
      Mas mesmo o NADA é uma ilusão, e por isso deve cessar. Então, o jovem permanece com a mente inamovível, vendo que as águas são azuis e as montanhas verdes, mas sem se identificar com elas; ("Olha, os riachos correm... pra onde, ninguém sabe. Olha as flores vivamente vermelhas... mas, para quem são elas?").


        
      Na décima e última imagem o jovem regressa ao mercado (ao mundo) com um largo sorriso, livre de tudo, vendo VIDA em tudo (até nas árvores mortas) pondo todo o seu ser em tudo o que faz, porque não pretende com isso obter nenhum benefício.

      _________________


      Não fiquem fascinados pelo final da história. Não dá pra abandonar de vez o homem e o boi enquanto um ainda está montado e dependente do outro. O que quero passar aqui é que VOCÊ NÃO É O BOI. O jovem ficou tão dependente de uma razão para justificar sua existência (boiadeiro) que precisou desesperadamente de um boi, uma força motriz que o impulsionasse, o completasse. Você não é seu corpo, sua personalidade, seus desejos, suas emoções. E ao mesmo tempo É, enquanto você se identificar com o boi, enquanto você PRECISAR dele (e todos nós que estamos aqui ainda precisamos do nosso corpo, de nossos sentidos, motivações e emoções). E, depois de SENTIR que não é o boi, vai ter de aprender a sentir que TAMBÉM não é o boiadeiro. Mas, uma coisa de cada vez.

      Então, vamos seguir os passos da parábola:

      1- Precisamos primeiro trazer o boi de volta para o dono, ou seja, mostrar que você não é guiado por seus desejos, seus sentidos, que pode resistir a um pedaço de pizza ou a um rostinho bonito, se essa NÃO for sua meta. Essa auto-superação foi bastante assimilada pelos orientais, que não deixam o sono, a impaciência, o medo ou mesmo a razão interferirem com suas metas. E por isso (porque não há o impossível pra quem quer) é que o Japão é o que é.
      2- Não é o boi que está perdido, e sim o jovem que SE PERDEU quando foi na floresta buscar um boi que nem sabia que se existia. E, quando o encontrou, se completou (se perdeu pra se achar).
      3- Não vá com muita sede ao pote quando começar a ver o boi, ou vai acabar se perdendo no primeiro caminho que você ver. Medite e concentre-se em primeiro saber ONDE EXATAMENTE o boi está e ache o MELHOR caminho pra você ir até ele.
      4- A luta com o boi é o confronto com sua dualidade. Neo contra Smith. O boi é muito mais forte, mas você tem a corda e o chicote para conseguir seus objetivos, para domar suas inclinações contrárias, através das limitações e da dor.
      5- Uma vez que o boi esteja perfeitamente domado, você não vai precisar se preocupar com ele. Aí então poderá relaxar e esvaziar sua mente, e se preparar para entrar no estágio Búdico, que é a iluminação, a fusão com o seu oposto (LUZ, como na união de Neo e Smith). E, logo após, um retorno ao mundo (Matrix), que já não é o mesmo, embora seja o mesmo, mas desta vez com o boiadeiro (Neo) INTEGRADO a ele.

      Há um ditado que diz que "não se pode botar os carros na frente dos bois". Isso é adaptado do conceito Budista do boi ser rústico, ignorante, mas FORTE, ÚTIL ao trabalho do boiadeiro, uma força motriz, se bem direcionada. É entendendo melhor o símbolo do boi que entendemos AINDA melhor este ensinamento de Buda:

      "Nós somos o que pensamos. Tudo o que somos emerge com os nossos pensamentos. Com os pensamentos fazemos o mundo. Se falares ou agires com um espírito impuro, os problemas seguir-te-ão, como a roda segue o boi que puxa a carroça. Se falares ou agires com um espírito puro, a felicidade seguir-te-á como a tua sombra, constantemente."
      (Buda)

      Referência: A parábola no texto Chinês, do Sec. XII

      Budismo - publicado às 12:00 AM 4 comentários