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Nesta continuação os diretores resolveram enveredar pelo aspecto psicológico e existencialista mais do que filosófico, mas infelizmente não conseguiram a mesma capacidade de transmitir (com diversão e sabedoria mescladas) a mensagem. As coreografias das lutas deixaram as de Matrix 1 no chinelo (que se tornaram muuuito lentas e enfadonhas em comparação com o 2... quem diria?!). O Neo está lutando com MUITA velocidade e segurança! Vai levar um bom tempo pra superarem em qualidade e beleza as lutas apresentadas aqui, que na minha opinião são as melhores da história do cinema (incluam-se aqui as produções chinesas que passavam na Band antigamente, e o recentíssimo Hero,que foi o trabalho anterior do coreógrafo Yuen Woo Ping, o mesmo dos Matrix).
Claro que eu tenho ressalvas, mas já foram tão comentadas que eu prefiro não ficar batendo na mesma tecla. A cena da rave em Zion ficaria legal se fosse num videoclip da Christina Aguilera, mas não dentro de Matrix. Foi a coisa mais estranha e deslocada de todo o filme. Qual seria a mensagem? Ou teria sido uma imposição dos produtores, que queriam o ingrediente sexo na fórmula (ingrediente este que esteve ausente de todo o primeiro filme, notem!). Mas, mesmo sendo uma imposição, tomou muito tempo, num filme já longo. Então começo a achar que foi coisa dos diretores mesmo. Talvez queiram apresentar Zion como a Kundalini, que fica escondida no subsolo e constitui-se de uma grande força sexual que está prestes a explodir em ira (o que acontecerá no terceiro filme).
Outra cena que comentarei en passant é a reunião dos comandantes das naves, dentro da Matrix. O lugar era escuro, de noite, e a grande maioria tava de óculos escuros. Será que não perceberam o ridículo??? Mais uma vez pus em dúvida a sanidade mental dos irmãos Wachowski e mais uma vez tive de reconhecer que esses caras não são idiotas. Então, por que será que fizeram isso tão de graça, só por ser cool? Daí comecei a analisar o uso dos óculos escuros por parte de todo mundo no filme. Eles são usados tão somente na Matrix. Por que não fora dela? Se eles curtem tanto os óculos, poderiam fazer um facilmente. O trabalho em vidro já era conhecido até mesmo pelos antigos egípcios. Seria moleza pra quem construiu a Nabucodonosssor. Mas não! Os óculos são um símbolo de status. Só os tampas de crush usam (e os agentes se incluem nesse arquétipo). Provavelmente a simbologia quer dizer "estou afastado do colorido da Matrix, dos estímulos sensoriais que me distraiam do meu objetivo. Sei que aquilo não é real. Mas também não estou cego para a Matrix".
Mais um detalhe legal: quando Neo vai visitar Oráculo num bairro chinês, vemos numa mesinha uma foto de Jesus, um Buda e outras coisas religiosas, todas juntas. E todas para vender...
O guarda-costas de Oráculo tem o código diferente dos outros. É brilhante, e seu brilho se irradia pelo corpo todo. Pela sua postura, provavelmente aquele brilho é o seu Chi, e aquele guerreiro seria como o galo de briga da parábola, centrado e impassível. Neo teve de "queimar seu cosmo" pra poder lutar melhor com ele, e só aí revelou que era o predestinado. (leia mais sobre Seraph)
Não, eu não tenho nenhuma explicação filosófica, budista ou intelectual pra frase imbecil de Morpheus: "Algumas coisas nunca mudam. Já outras mudam". Só pode ser filosofia de botequim, mesmo. Até porque, ser formos ver a filosofia Budista, TUDO muda o tempo todo. Tudo é impermanente, por isso não devemos nos apegar a nada. Mas eu encarei isso no filme como uma frase de efeito do tipo "Hasta la vista, baby", então tá bom...
Fui na primeira sessão do dia 23. A nata dos viciados estava lá, e muitos covers de Neo transformaram a sala de cinema no que parecia ser uma reunião de corvos. Apareceu até um Morpheus, com espada na mão, que levou a galera ao delírio. O momento mais perturbador foi quando uma senhora entrou na sala e o pessoal começou a gritar "Oráculo, Oráculo!". Depois acabei achando tudo isso engraçado.
Quando o filme começou seguiu-se pelo menos 1 minuto de aplausos entusiasmados. Aí começaram meus temores: Trinity caindo do prédio num ultra-fake-slow-motion e depois a chegada em Zion, totalmente computadorizada e irreal, ao som de uma música triunfal. Nesse momento pensei "Episódio 1 não! Episódio 1 não!". Meus temores ficaram ainda mais fundamentados quando começaram a falar em Conselheiros. Esperei a qualquer momento ver o Jar Jar Brinks fazendo uma ponta. E depois veio a Rave, já comentada aqui. Mas felizmente o filme entrou nos eixos e virou uma continuação de Matrix, com cenas de ação, quebra de paradigmas (inclusive os paradigmas criados no primeiro) e efeitos especiais que fizeram a platéia urrar (como na cena da explosão do caminhão). Pense numa mentira legal!
Agora, o detalhe preferido por mim no filme: o babão de Neo, em Zion. Ele nada mais é do que o arquétipo do fã doente de Matrix! Sim, aquele que acha que Matrix tem todas as respostas, que quer fundar uma religião com São Neo, São Morpheus e Santa Trinity. Neo passa o tempo todo dando gelo no cara, que tem os olhos e a fala de um viciado, um fanático. Quando o cara diz "você me salvou, Neo" ele olha pra traz e diz "você se salvou!". É excelente pra fixar na mente das pessoas que elas não precisam de ídolos, de salvadores, de estátuas que podem acabar lhe esmagando...
Numa leitura desatenta deste blog, pode até parecer que eu seja mais um fã destes. Ledo engano. Matrix foi o veículo que encontrei para expressar melhor meu ponto de vista do mundo. E ainda assim tenho de me limitar a expressar-me por metáforas que nada mais são do que reflexos grosseiros, sombras de algo ainda mais sutil e intrincado (que me é ainda velado à cognição, mas revelado aos sentimentos, e por vezes chega a ser assustador). Mas tudo bem. Algum tempo atrás sequer poderia estar falando isso aqui sem ser taxado de louco, maconheiro, obsediado ou algo assim. Também não quero falar pra seitas, fraternidades ou pessoas que se considerem melhores que as outras. Afinal, eu não sou sério, nem me considero "elevado", como carne, falo palavrão e estou justamente tentando tirar um pouco os óculos escuros pra ver tudo colorido novamente...
Referência:
Um artigo muito interessante sobre os aspectos espiritualistas de Matrix Reloaded;
A verdade sobre Matrix, um texto que pretendia contar o final do terceiro filme. Pena que não revelou ser verdadeiro, pois o final aqui descrito é muito mais coerente com o estilo do Matrix 1 (mais sombrio) do que acabou sendo de fato
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