Saindo da Matrix

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    • SHIVA (शिव)

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      dom, 26 de janeiro, 2003

      Antes de começar a falar deste deus, é preciso saber que os hindus são, em essência, monoteístas. Acreditam em um Deus indefinível e infinito, a quem chamam de Brahman. É equivalente ao Tao chinês. Brahman se manifesta através de seus três aspectos, conhecidos por Trimurti: Brahma (O criador) Vishnu (o mantenedor) e Shiva (que é o destruidor /transformador).


      Shiva, Parvati e Ganesha. O menino não é uma gracinha? É a cara do pai!
      Então, como podem três deuses ser UM Deus? Vamos usar o filme "The Matrix" como uma comparação grosseira: Brahman seria o Deus eterno, imutável, infinito e impessoal que está fora da Matrix (assim como o software das máquinas, que não possuem uma representação física). O universo que conhecemos (Matrix e tudo o que encontrarmos para além da Matrix, como Zion) é manifestacão dele. Em Maya (Matrix) Brahman se manifesta diretamente como Ishvara, que é o Deus personalizado (equivalente a representação do "Arquiteto"). Ishvara e Brahman são a mesma "pessoa", sendo que um está fora e o outro dentro de matrix. Ishvara é aquele que domina o universo, ele é a alma do universo, e possui três formas (Trimurti), a saber: Brahma, Vishnu e Shiva. Eles não são seres distintos entre si (assim como as réplicas do "Agente Smith"). São como o vapor, a água e o gelo, a mesma coisa em estados diferentes. Quando está criando, Deus é Brahma, quando está mantendo a criação ele é Vishnu, e destruindo ele é Shiva.

      É por uma questão de respeito que os Hindus cultuam tantos deuses que são intermediários entre o Divino (Brahman) e os homens, pois sabem que o Divino não toma partido nas decisões humanas. O Trimurti é mais respeitado por ser a criação mais próxima do Divino, daí que são cultuados com reserva e o respeito de quem se dirige a uma "autoridade". Então o povo hindu prefere se dirigir a outros deuses de "escalões mais próximos" aos homens, como Ganesha (filho de Shiva) e outros, para pedir coisas mais mundanas.

      O nome original de Shiva nos Vedas é Rudra "o Deus terrível", sendo depois lhe dado o eufemístico nome de Shiva, "o auspicioso" (assim como fizeram com as Fúrias gregas, apelidadas de "as graciosas") Shiva significa Aquele em que tudo repousa, possuindo também o sentido de benigno, gracioso, amigo, felicidade e variantes. Um nome tão bonito pra um deus tão terrível? Mas, se você conhecê-lo, verá que ele não é tão mau assim. Um dos seus nomes é Neelkantha (que significa o de garganta azul). Sabem por que? Porque tomou um veneno que para salvar a humanidade, e então sua esposa Parvati apertou a garganta dele com força para que o veneno ficasse concentrado ali. Sua pele é representada na cor azul, como a de Krishna, pois significa iluminação ou santidade.


      Ardha-nari
      Muitos confundem Shiva com mulher, mas o nome é masculino (termina em A, enquanto o das mulheres terminam em I, na Índia) e ele, na verdade, também é ela. A representação Ardha-nari - que significa meio mulher - é uma das mais conhecidas. A outra metade é homem, para simbolizar a unidade do princípio gerador. Ardha tem três olhos, sendo um no centro da testa. A criação desse olho se deveu a uma brincadeira da sua esposa Parvati, que fechou os olhos de Ardha com as mãos, envolvendo assim o universo na escuridão e no caos. Para restaurar a ordem, Ardha imediatamente fez um terceiro olho. Representa suas três visões de tempo: passado, presente e futuro. Uma lua crescente, acima do 3º olho, marca a passagem do tempo em meses, enquanto uma serpente, enrolada no pescoço, marca a medida em anos (também representa o controle sobre os poderes da natureza, do ego, e da vida e morte) e vários colares de crânios espalhados pelo corpo representam a eterna passagem das eras, e a sucessiva extinção e geração de raças da humanidade.

      Ele segura um tri-sula (tridente) numa mão e um tambor (em formato de relógio de areia) chamado Damaru. Do alto da sua cabeça sai o Rio Ganges. Seus olhos ficam semi-abertos (ou um aberto e o outro fechado), sendo isto chamado de Samabhavee mudrá. Significa que sua mente está absorta no seu eu interior, enquanto o corpo está envolvido no mundo exterior.

      Foi designado a ele o papel de transformador, seja através da reprodução ou da destruição/dissolução. No papel de destruidor ele é chamado de Kala (Preto) e é identificado com o Tempo. Mas, na maioria das vezes, a função de destruição é realizada por sua esposa, Kali (aquela cheia de braços, que fica com a língua pra fora).


      Shiva em sua versão feminina (e linda!) no game Final Fantasy X
      Kali (que na representação Ardha-Nari de Shiva é conhecida como Durga ou Parvati) é na verdade a contraparte feminina de Shiva. Certa vez o Deva do amor (Kama Deva) tentou inflamar Ardha-nari com paixão por Durga, e então ele, com um simples olhar do 3º olho, reduziu Kama Deva à cinzas. Com esse mesmo olhar, ele cumpre a tarefa de destruidor universal. Reza a lenda que ele queimou todo o universo, inclusive Brahma e Vishnu, e passou as cinzas pelo corpo. Daí que os yogues seguidores de Shiva também costumam espalhar cinzas pelo corpo para meditar.

      No sentido de reprodução, vemos o símbolo de Shiva cultuado pelos hindus como o Shiva Lingam (falo), esculpido em madeira ou pedra. Shiva também é considerado o criador do ascetismo e do yoga, além de ser o deus da dança. O Mahasivaratri é um festival realizado em honra a ele. Diz-se que nesse dia Shiva fez a Tandava (dança primordial da criação, preservação e destruição).

      O Tandava é repleto de significados herméticos, a saber:


      A dança de Tandava. Note os muitos braços, assim como Kali
      A dança representa o movimento do universo. O primeiro braço, com a palma à frente, é um mudrá que quer dizer: "Não vos atemorizeis com a mensagem terrível que vos trago", e logo abaixo o outro braço traz a mensagem: "Sempre há uma saída". Ao apontar para o pé levantado, quer dizer: "O homem não deve atender às solicitações das suas más inclinações, de suas más paixões, dos instintos bestiais, oriundos da sua natureza animal, inferior, e sim seguir sua natureza superior, espiritual: deve abster-se do ódio, dos vícios, dos excessos, obter o autocontrole." Esta é a saída. O braço esquerdo segura um pequeno tambor que marca o ritmo da dança, e que significa: "Tudo no universo segue um ritmo, e está sujeito a uma ordem temporal".

      Com o outro braço, o que segura as línguas de fogo, Shiva diz: "Aproxima-se o tempo de destruir o que se construiu, para se completar o ciclo da criação. Assim como no passado o mundo antigo acabou-se pelas águas de um dilúvio, agora ele será destruído pelo fogo".

      O círculo de fogo por trás da figura indica o Samsara (o ciclo de reencarnações). A vida surge do calor da paixão, e termina com o fogo da destruição. Um pé está esmagando uma figura animalesca, que representa a natureza inferior e animal do homem (ignorância). Seu pé esquerdo erguido mostra-nos que podemos elevar-nos e atingir salvação.

      Segundo a contagem de tempo Hindu, nós estamos vivendo na Kali Yuga (a Era Negra, ou "das Trevas"). Como ela é a faceta destruidora de Shiva, vivemos então uma era marcada por destruições, sofrimentos e transformações. A duração dessas eras (Yugas) se estende por milhares de anos.

      Algumas fontes (através de canalizações) atribuem a Shiva (numa encarnação como mulher) o ensinamento do Reiki para a humanidade, em tempos imemoriais.

      Referências: WILLIAMS Monier Dicionário de Sânscrito-Inglês. Oxford Univ. Press, London 1951;
      MindAtlas;
      Conexão com Final Fantasy X;
      Muito obrigado a Line-chan, José Roldão e a Roberto pela colaboração.

      Hinduísmo - publicado às 1:00 AM 10 comentários